A Rebelião
3 O açougueiro
22:10 horas, 2 de fevereiro, porta da área de solitárias da Nova Prisão da Ilha.
Dois homens esperavam a poeira da explosão abaixar. Ambos estavam escondidos atrás de pedaços do fora uma parede antes da rebelião. Cada um destes homens carregava uma faca para proteção.
Quando já era possível visualizar o que estava do outro lado da porta, os dois correram para entrar no prédio e seguiram pelo corredor esquerdo quando o caminho acabou em uma bifurcação. Este corredor seguia repleto de portas de metal, não lembrando as celas do restante do presidio, que consistiam em simples grades. Chegando ao final do corredor, um dos detentos pegou um pequeno dispositivo que estava dentro de suas roupas.
Este dispositivo parecia uma bomba, mas com um tamanho muito menor do que o anterior. Uma das peças da parte traseira aparentava servir para prender a bomba usando pressão, permitindo que ela grudasse na porta que os homens encaravam.
Nenhum dos dois acreditava que a bomba teria poder o suficiente para derrubar a parede, então apenas deram alguns passos para trás quando terminaram de afixar o dispositivo ao lado da maçaneta da porta e iniciaram o sistema de contagem regressiva. Precisaram esperar por somente uns poucos segundos para que o mecanismo funcionasse e a explosão danificasse a porta.
Este mecanismo realmente não era muito poderoso, mas teve poder o bastante para danificar a tranca da porta e fazer com que a mesma lentamente abrisse, arranhando o chão e produzindo um sinistro som de ferro. Todos que estavam dentro daquelas salas ouviram este barulho, os dois homens sentiam a movimentação nas outras salas e sabiam que aqueles eram homens perigosos demais até mesmo para o convívio com o restante dos presos. Contudo, ganharam haviam concordado em cumprir uma missão em troca da liberdade, o prisioneiro daquela sala deveria ser morto durante a rebelião.
Conforme os segundos iam passando após a abertura da porta, os homens tentavam enxergar o seu interior, mas o ambiente estava tão escuro quer essa tarefa era impossível. O menor dos dois buscou algumas pedras no chão e tentou atirá-las na sala, buscando ouvir no que elas bateriam e identificar o que estava lá dentro. Ele atirou as três primeiras e estranhou que elas pareciam bater em algum material que amortecia a batida. O nervosismo que essa situação causava no outro homem o fez cometer o primeiro erro da operação.
O homem pegou a faca que carregava na cintura, que mais parecia um grande cutelo, com o cabo metálico em um estranho tom vermelho, e a limpou nos restou do uniforme que usava. Aproximando-se da porta, deu um salto para abri-la totalmente. O fato de um gigante estar lá dentro o pegou de surpresa.
O homem dentro da sala passava facilmente dos dois metros e meio de altura. Estava vestindo uma camisa de força, mas ela estava rasgada de forma que um dos seus braços estava totalmente livre. Foi muito fácil para ele agarrar o braço do invasor. A força deste homem era algo completamente fora do normal, com este movimento ele segurou o braço do seu agressor de forma que ele ficou impossibilitado de atacar e deixou a faca cair no chão. Alguns segundos após isto, ouviu-se um estralo no braço do invasor. O braço havia quebrado.
O gigante soltou o homem e foi atrás do cutelo que estava no chão, permitindo que os dois invasores reagrupassem ao lado da porta que haviam aberto. Ambos estavam em choque, um com o braço quebrado, com uma fratura externa, e o outro sem acreditar no tamanho do homem que tinha concordado em matar.
O antigo prisioneiro da sala pegou o cutelo com a mão livre a abriu um grande sorriso, bizarro, mas de uma felicidade sincera. Ele usou esta arma para cortar as fibras que ainda prendiam o seu outro braço dentro da camisa de força. Estando completamente livre, ele parecia ainda maior e mais poderoso do que antes.
O invasor que não estava ferido puxou a sua faca e preparou-se para lutar, quando percebeu os detalhes da sua arma. Ela lembrava uma peixeira, com um comprimento exagerado, sendo feita de uma única peça e apresentando certos detalhes no cabo, que lembravam diversas caveiras rindo.
— Mas que... enganaram a gente! Essas facas, eu lembro delas, eu sei quem era o dono delas... o Açougueiro!
Esse nome trouxe um peso para o ar. O homem ferido tentou correr pelo corredor em que os dois chegaram. O outro não teve muito tempo para entender o que aconteceu, somente sentiu uma corrente de ar passar ao seu lado. O gigante havia arremessado o cutelo em direção ao homem correndo e o atingira pelas costas.
O corpo ainda foi arremessado alguns metros com a força do impacto. Quando caiu no chão, a lâmina da arma estava completamente cravada dentro das costas do homem, tornando a falta de movimentos e a quantidade de sangue escorrendo pelo chão um indicativo de que aquele homem estava morto. Por sorte, morrera no momento que foi atingido pela arma, sem ter sentido a dor de ser cortado ou da batida no chão.
O último invasor vivo estava em estado de choque, quando esta missão começou, imaginava que tinha que somente matar um homem e teria a liberdade em suas mãos. Agora os planos que fez para a liberdade pareciam tão distantes, pareciam completamente inalcançáveis.
O Açougueiro, percebendo a inércia do homem a sua frente, correu em direção ao mesmo com passos largos e rápidos. Cada passo que o gigante dava, fazia com o que o corpo do outro homem tremesse, tanto por medo, quanto pelo peso de seus pés no piso do corredor. Ao alcançar o homem, o Açougueiro agarrou-lhe pela cabeça e continuou sua corrida até a parede do outro lado do corredor.
O desespero tomou conta do pequeno homem, que tentava soltar-se usando a faca que estava em sua posse. As suas esperanças acabaram quando os dois colidiram contra a parede e a sua única arma acabou caindo de suas mãos.
Os segundos que seguiram foram um massacre. O gigante desferiu uma sequência inacreditável de socos contra o rosto do seu adversário. Quando cada soco atingia o alvo, sentia os ossos do rosto quebrando e o sangue do outro homem sujando a sua mão. Fazia muito tempo que ele não sentia essa emoção.
O Açougueiro pegou a peixeira que esta em seus pés e, após confirmar que o homem que caíra sentado não estava mais vivo, foi até sua outra faca e a colocou dentro dos trapos que vestia.
Quando dirigia-se até o buraco feito na porta do prédio, ouviu um barulho vindo de uma das salas trancadas.
22:50 horas, 2 de fevereiro, lado de fora da Nova Prisão da Ilha.
Joshua procurava por qualquer ponto em que fosse capaz de entrar na prisão. Como todo o estrago que foi feito dentro do presidio, haveria pelo menos algum dano causado nas paredes externas.
O jovem que flutuava atrás dele já havia decidido algum tempo atrás que o outro não aparentava ser uma ameaça, primeiro pelas roupas que estava usando, depois por não ferir repórteres ou guardas quando passavam por perto da posição que estavam. Assim, só poderiam estar ali por um mesmo objetivo.
— ... Ôh da roupa de ginástica...
Ouvir uma voz logo acima da altura da cabeça, fez com que Joshua desse um salto para trás, caindo sentado no chão logo em seguida. O susto quase o fez soltar um grito, mas fazer isto iria estragar todo o trabalho que teve para chegar até ali sem ser visto.
— Mas que droga é essa?! Você está voando...
— É o jeito mais fácil de chegar aqui. Não vai me dizer que aquele barquinho lá na praia é seu?
— Não, quem viria para uma ilha cheia de criminosos perigosos só com um barquinho?
Joshua analisava o estranho flutuando alguns centímetros acima de sua cabeça. As roupas que ele usava pareciam saídas de um livro que teve que ler para as aulas de história, lembravam os uniformes que os aviadores usavam durante a primeira guerra mundial. O cachecol e os óculos de aviador que o jovem usava impediam que seu rosto fosse visto, mas algo nele parecia muito familiar.
Os próximos minutos passaram com a dupla conversando sobre os motivos que levaram estes adolescentes irem até a ilha, e acreditarem que poderiam fazer uma diferença na proteção da sua cidade nesta noite.
22:55 horas, 2 de fevereiro, porta da área de solitárias da Nova Prisão da Ilha.
O Açougueiro saia de uma das solitárias da prisão carregando por uma das pernas o cadáver de um dos prisioneiros desta sala. Ele soltou o corpo ao chegar perto do criminoso que foi morto pelo cutelo.
O gigante olhou para o corpo do outro criminoso e sorriu ao notar que havia alguma coisa dentro das suas roupas. Ele colocou as mãos dentro do uniforme que o homem vestia. Havia uma máscara escondida entre os pertences daquele homem.
O assassino vestia a máscara enquanto caminhava para o prédio principal do presidio.
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