A Rebelião
4 Nas sombras da prisão
23:00 horas, 2 de fevereiro, lado de fora da Nova Prisão da Ilha.
A noite parecia saber dos eventos que ocorriam na cidade. Mesmo não havendo uma única nuvem no céu, somente a lua brilhava. Nesta noite, o tom do seu brilho era diferente, parecia um brilho visto em filmes de terror, em algum lugar da cidade alguém está pensando que esta seria uma noite perfeita para um vampiro ir caçar. Mas, pelo menos por algumas horas, a noite não pertencia aos vampiros.
Uma grande sombra escondia um jovem ao lado da parede do presidio, ele parecia relutar em fazer o que iria começar. Mas alguma coisa o obrigava a estar ali. O vento passou a assoviar na ilha.
— Eu... Eu não quero fazer isso! Jamais concordei com massacres!
O adolescente conversava sozinho e ninguém poderia estar vendo o mesmo escondido dentro da imensa sombra na parede, mas a cena parecia uma acalorada discussão. O vento soprou mais uma vez.
— Eu só fiz pra me proteger! – O rosto do jovem contorcia-se, parecendo completamente contrariado com o rumo que a conversa estava tomando.
Mais uma vez o vento soprou, dessa vez mais rápido, mais violentamente.
O jovem parecia alguém que acabou de perder uma discussão. Após alguns segundos, ele abriu seus braços, mantendo ambos na altura dos ombros, com as mãos esticadas na vertical. As sombras que o cercavam começaram a mover-se, no começo de forma lenta e controlada, mas rapidamente tornou-se um movimento rápido e incontrolável. Estes movimentos faziam com a barra do sobretudo usado pelo adolescente também realizasse os mais diversos movimentos. Se alguém fosse capaz de ver isso, pensaria que estava presenciando um ritual mágico.
Logo que as sombras acalmaram-se, estas começaram a juntar-se a parede em frente, formando uma espécie de portal na parede a prisão. O jovem hesitou por um instante em atravessar para o outro lado, mas uma nova corrente de ar percorreu o seu corpo e ele atravessou em um único pulo.
Ao entrar no presidio, presenciou uma cena de campo de batalha. Dezenas de corpos estava espalhados pelo pátio. Embora houvessem muitos guardas mortos, também haviam corpos de detentos por lá. As dúvidas começaram a criar teorias na cabeça do jovem.
Outra rajada de vento o atingiu.
— Os corpos dos guardas têm maracas de tiro, mas os presos não. Parecem ter sido mortos por armas brancas. Isso não faz sentido, os guardas não reagiram? Isso foi um massacre.
O ventou correu pelo pátio da prisão mais uma vez, como se realmente conversasse com o jovem. Antes de mover os lábios, o garoto virou o rosto para cima e olhou atentamente para a lua que parecia o iluminar.
— Eu não trabalho para você! E com toda a certeza, você não é algum tipo de herói. – O vento rugiu pelo pátio da prisão, aqueles que ouviram essa rajada poderiam jurar ter ouvido uma risada tomar conta do lugar por um segundo.
23:10 horas, 2 de fevereiro.
Um criminoso entrou correndo pela porta da torre de segurança, ele foi até lá imediatamente após ver o Açougueiro entrar no prédio principal.
O homem contou com detalhes o que havia visto momentos antes, enquanto recuperava o folego. Com a exceção do Garoto Pólvora, os criminosos presentes na torre não pareciam surpresos com este acontecimento. Com um movimento de olhos, um dos homens dispensou o criminoso, que voltou caminhando lentamente para o prédio principal. O Garoto Pólvora olhou para o outro homem, que estava armado e deixou explicita a preocupação com os últimos acontecimentos da rebelião.
— Vocês planejaram isso? O Açougueiro é loucura demais, esse cara é uma máquina de matar! Munição, você acha mesmo que conseguiria matar um cara desses com as armas que tem aqui?
O homem armado, que foi chamado de Munição pelo garoto, examinou as armas que tinha consigo por um momento e respondeu com convicção.
— Não. Mas também não planejo lutar nessas condições.
— As coisas vão exatamente como eu planejei, parem de se preocupar com Açougueiro, ele é parte fundamental em tudo isso. – O outro homem fez esta afirmação enquanto olhava fixamente para o prédio principal. O tom da sua voz era sério, mas, ao mesmo tempo, tranquilo o suficiente para que o Garoto Pólvora pudesse deixar a preocupação de lado por alguns minutos.
23:25 horas, 2 de fevereiro, refeitório da Nova Prisão da Ilha.
Um pequeno grupo de presidiários vasculhavam as caixas de alimentos do refeitório atrás de alguma coisa que pudessem utilizar como arma. Algum dos presos havia espalhado um boato de que guardas tinham escondido armas por lá, antes da rebelião começar.
Um dos integrantes do grupo vigiava a porta do prédio do refeitório e, embora acreditasse que os demais estivessem planejando abandoná-lo após conseguir as armas, procurava cumprir a missão, afinal, se algum dos peixes grandes dessa rebelião não tivessem planos para eles, não conseguiriam sair de lá sem lutar.
Logo este prisioneiro avistou um jovem andando no pátio, indo em direção ao refeitório. Ironicamente, o que mais lhe chamou a atenção no jovem foi a maquiagem que ele usava, e não o fato de que ele não deveria estar lá.
— Pessoal! Pessoal, tem um cara estranho vindo e ele tá usando uma maquiagem esquisita pra caramba.
O grupo logo deixou a busca para depois e correu para a porta. Um dos integrantes deste grupo empurrou os demais e, buscando mostrar dominância entre os outros, começou a gritar para o estranho.
— Ei! Estranho! Tá fazendo o que aqui? Nunca vi ninguém maquiado assim por aqui, eu tenho uma coisinha perfeita pro teu tipinho... – Ao terminar de falar, o homem começou a fazer gestos como se estivesse abrindo o zíper da calça que vestia.
O jovem continuou caminhando em direção ao refeitório, sem responder a provocação feita, somente dando uma breve olhada nos olhos dos homens que estavam na porta do prédio.
— Mas que ...? Quem esse esquisito pensa que é pra me ignorar? Alguém pega a vassoura! Ainda vai dar pra usar ela pra brincar com esse cara, depois que a gente der uma surra nele. – Os criminosos olharam para dentro do refeitório, procurando por uma vassoura e, quando encontraram, um deles afastou-se do grupo, indo pegar o objeto em um salto e retornando em uma breve corrida.
Quando o grupo tornou a olhar para o pátio, não havia mais ninguém por lá. Um dos homens foi correndo até onde o jovem deveria estar, enquanto os demais continuam perplexos com o que havia acontecido. Eles perguntavam a si mesmos se haviam visto alguém lá, ou se era um fantasma.
— Não deviam provocar alguém mais perigoso do que vocês. – Ao ouvirem alguém falar atrás de si, os integrantes do grupo rapidamente viraram para olhar para o lado de dentro do refeitório encontrando o jovem de antes dentro da sala, de costas para eles, observando a cena com o canto do olho.
Um calafrio passou pela coluno do homem que tentava liderar o grupo de prisioneiros, mas ele ignorou esse aviso e tentou usar a vassoura que estava ao na mão do criminoso ao seu lado como arma. Planejou utilizar o cabo da vassoura para empalar e começar uma sessão de tortura no jovem. Contudo, sentiu alguma coisa agarrar os seus pés antes que fosse capaz de atingir o alvo, após isto, somente sentiu seus pés saírem do chão e ouviu o som de sua cabeça batendo no teto. Os outros homens também não entenderam o que aconteceu, mas ficaram prontos para lutar contra a pessoa que estava em sua frente.
O jovem havia feito um simples movimento com sua mão esquerda, e isso foi o bastante para que uma as sombras presentes do refeitório formassem uma mão e arremessassem pelos ares o homem que o enfrentava. Ele nem ao menos pensou no que queria, tudo apenas aconteceu. As sombras obedeciam seus comandos, mas, neste momento, ele já começava a realizar novas proezas, não sendo capaz de saber como essa noite acabaria.
Os homens que estavam na porta começaram a investir contra o jovem, contudo, eram incapazes de realizar a aproximação. Conforme o adolescente fechava ou abria uma das suas mãos, um punho formava-se nas sombras e atingia um criminoso, deixando-o inconsciente. Este confronto durou poucos segundos, logo os criminosos não estavam mais em condições de lutar. Com exceção do seu líder, que recuperou os sentidos e queria uma explicação.
— Quem é você?! Como um cosplay de Marilyn Manson pode dar uma surra assim na gente?! Eu era o dono do tráfico de drogas nessa cidade, eu exijo respeito! – Estas palavras afetaram o jovem de alguma forma, fazendo que o seu olhar transbordasse de raiva. Quando este cerrou seus punhos, uma grande mão surgiu das sombras, atravessando o peito do homem. Logo esta mão desapareceu e o corpo caiu no chão, já sem vida.
Do pátio, o último criminoso em pé olhava para esta cena com pavor indescritível.
O adolescente confirmou que os outros ainda estavam desacordados e continuou o seu caminho até a porta do outro lado do refeitório. Seguindo por este caminho, o jovem esperava chegar até o prédio principal do presidio.
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