A Reacionária

6 A CINÉTICA DOS CORPOS ERRANTES



Mansão da Família Weber, arredores de Viena — Noite

Lena Goldstein permanecia paralisada diante da imponência maciça de Andreas Weber. No interior do escritório particular, o calor da lareira parecia incapaz de aquecer o ar, que se tornara rarefeito. Seus olhos azuis, arregalados pelo pânico, fixavam-se na figura do fazendeiro, evidenciando a distância abissal de poder que os separava. Andreas não precisava gritar; a calmaria absoluta que emanava de suas feições predatórias era o que fazia Lena perder completamente a cor do rosto.

Com uma precisão profissional e cirúrgica, ele enfiou a mão na gaveta de jacarandá da escrivaninha e puxou uma pistola Walther brilhante. Depositou o metal frio sobre o tampo de madeira com um estalo seco e sutil. Em seguida, um sorriso raso moldou seus lábios.

— Senhor Weber, por favor... Eu não fiz aquilo. Eu juro pela minha vida... — Lena tentou argumentar, a voz falhando, sufocada pelo terror iminente.

— Sente-se — ele ordenou, apontando com um aceno de cabeça para a poltrona de couro à sua frente. O tom era assustadoramente macio, fazendo a respiração de Lena perder a cadência.

Ela hesitou por alguns segundos. Seus olhos alternavam entre o semblante impassível do homem e o cano da Walther na mesa, apontado diretamente para a sua direção.

— Eu mandei sentar-se! — Andreas repetiu. A voz não subiu de tom, mas a frieza cortante que carregou foi o suficiente para quebrar qualquer resistência.

Lena obedeceu imediatamente, afundando no couro da poltrona sem desviar os olhos da arma. O fazendeiro sorriu novamente, recostando-se na cadeira com a satisfação de quem domina completamente o tabuleiro.

— Então, como pretendia fugir? — Ele a indagou.

— Eu... eu não... — Lena tentou argumentar, mas foi interrompida por Andreas.

— Estou desperdiçando nosso tempo. Senhorita Goldstein... Eu sei que aquelas ferramentas e aquele mapa não foram roubados por você — Andreas começou, a voz calma, quase professoral. — Sei que nunca houve um plano real de fuga.

Lena ficou estática. A revelação atingiu seu peito como um golpe físico, fazendo suas mãos calejadas voltarem a tremer sobre o colo. Se ele sabia da farsa, a encenação no alojamento ganhava contornos ainda mais sinistros.

— Mas... o senhor matou um homem... — ela gaguejou, as palavras escapando no automático por entre os lábios trêmulos. — O senhor executou o Klaus...

— Ah, aquilo? — Weber deu de ombros, descartando o assunto com a mesma indiferença de quem relata o descarte de uma rês doente. — Foi apenas um memorando prático para que o restante do galpão entendesse que não há saída. Vocês não têm absolutamente nada lá fora que justifique o risco de uma fuga. Nem mesmo essa suposta resistência no Leste que a Gestapo já não tenha desmantelado há anos. Quanto àquele rapaz... ele já havia se tornado perfeitamente dispensável para a minha contabilidade de produção.

Lena congelou diante da brutalidade daquela lógica. O estômago revirou em nós, mas o desespero fez brotar um último resquício de coragem para questionar:

— Dispensável?

— Você já poderia estar morta, Goldstein. Sob as leis do Reich, eu estaria no meu direito legal — Andreas inclinou-se para a frente, apoiando os antebraços na mesa, diminuindo a distância. — Mas eu precisava entender a mecânica da situação. Precisava descobrir por que o inspetor Müller cruzou o meu perímetro apenas para entregar uma carta para uma indigente na lavoura. Graças a você, a rotina desta província ficou muito mais interessante. Pense bem: a sua mera existência está movimentando o Ministério em Berlim. O próprio Ministro Günther veio até a minha mansão por sua causa. E saiba, garota... isso não tem a ver com você. Tem a ver com a herança sanguínea que você carrega.

Lena abaixou a cabeça, e as lágrimas de humilhação e pavor finalmente começaram a escorrer livremente por seu rosto sujo de terra. Ela soltou um choro sufocado, ruidoso, tentando conter os soluços para que o som não enfurecesse o carrasco.

— Não precisava... não precisava ter matado ele... — resmungou baixinho, a voz trêmula implorando por uma lógica humana que não existia ali.

— Mas funcionou, não funcionou? — Andreas rebateu, a voz perversamente mansa. — Você não tentou dar um único passo em direção à cerca. O medo te manteve viva.

Lena arregalou os olhos azuis através da névoa das lágrimas. O sadismo daquele controle psicológico a esmagava de dentro para fora. Andreas continuou, estendendo a mão, recolhendo a Walther da escrivaninha com um movimento lento e guardando-a no coldre de couro sob o paletó.

— Você não vai morrer hoje, senhorita Goldstein. Eu ainda preciso da sua integridade física para barganhar com Berlim. Mas eu não posso prometer a mesma clemência para as pessoas que armaram esse teatro no seu beliche — ele fixou os olhos nos dela, o sorriso gélido retornando. — Fale. Exatamente. Quem foi que plantou o alicate e o mapa debaixo da sua cama? Quem tentou te culpar?

O silêncio desabou sobre o escritório mais uma vez. Lena permaneceu encolhida na cadeira, o coração martelando contra as costelas de forma violenta. Ela temeu pronunciar os nomes. Sabia que se revelasse a traição de Ilsa, Andreas usaria aquela informação não para fazer justiça, mas para desencadear um expurgo sangrento no galpão, transformando os prisioneiros em pedaços de um jogo ainda mais destrutivo. Os jogos psicológicos de Weber faziam cada fibra de seu corpo doer, e ela estava no limite da resistência.

Fazenda das Indústrias Weber, arredores de Viena — Naquela mesma noite.

No topo da guarita elevada, o ar parecia congelar os pulmões de Erich Schulz. Ele apertava a coronha da carabina com tanta força que os nós de seus dedos empalideceram, uma reação que não passou despercebida por Meyer.

— O que houve, Schulz? — Meyer indagou, semicerrando os olhos enquanto tragava o charuto barato. — Não me diga que você está preocupado com a loirinha?

— Do que você está falando? — Erich rebateu imediatamente, controlando o tom de voz para manter a máscara militar. — Só achei estranho ver a Goldstein ser arrastada pela escolta interna a esta hora da madrugada. O que será que aconteceu lá embaixo?

— Aquela garota tem atraído problemas demais para a contabilidade do senhor Weber ultimamente. Eu já imaginava que o teto ia desabar para o lado dela. A pergunta nunca foi por quê, Schulz... mas quando.

Erich não respondeu. Através da fresta de observação, ele viu o soldado da guarda interna que havia liderado a captura de Lena cruzar o pátio de cascalho, retornando sozinho da mansão. O homem caminhava com uma postura relaxada, exibindo o sorriso cínico de quem cumprira o dever protocolar. Sem dar explicações a Meyer, Erich girou nos calcanhares e começou a descer a escadaria de madeira da guarita a passos largos.

— Ei! Aonde você vai? — Meyer gritou do topo, o tom misturando irritação e surpresa. — O plantão não terminou, Schulz! Volte para o posto!

Ignorando os protestos do companheiro, Erich interceptou o soldado no centro do pátio iluminado pelos refletores. Ele parou a um passo do homem, sustentando uma rigidez que quase beirava a insubordinação.

— O que houve lá dentro? — Erich questionou, direto ao ponto.

O soldado estancou o passo, franzindo o cenho ao avaliar a respiração contida e a urgência nos olhos de Erich.

— O que houve com o quê, Schulz? — o homem desdenhou, ajeitando o coldre.

— Por que você arrastou a Goldstein para a mansão?

O guarda soltou uma risada curta. — Encontramos um kit completo de sabotagem debaixo do colchão de palha dela. Alicate industrial, arame e um mapa do perímetro. E nós conhecemos perfeitamente o regulamento para conspiradores, não conhecemos?

Antes que Erich pudesse replicar, o som de botas pesadas anunciou a aproximação de Meyer, que terminara de descer da guarita e assistira ao confronto. Ele parou ao lado do outro soldado, cruzando os braços e encarando Erich com um escrutínio perigoso.

— Que espetáculo é esse, Schulz? — Meyer indagou, a voz mansa e carregada de malícia. — Não me diga que você está apaixonado pela escrava do patrão?

A pergunta caiu como chumbo no pátio. O soldado da interna fixou os olhos em Erich, aguardando a reação. Erich sentiu o sangue ferver, mas forçou uma risada áspera, tentando desarmar a armadilha psicológica.

— Apaixonado? Não seja ridículo, Meyer. Só estou garantindo que a segurança do perímetro não tenha sido violada por uma rede maior. É o meu trabalho.

— Sei... — Meyer deu um passo à frente, estreitando os olhos. — Há semanas venho notando que você sempre dá um jeito de ser escalado para a vigília do quadrante dela.

— E quem pode culpá-lo? — o outro soldado interveio, soltando um riso de canto. — A Goldstein é um espetáculo de mulher. Uma pena que a contagem regressiva dela termine antes do amanhecer.

Erich bufou forte, despertando a curiosidade do companheiro.

— Está com ciúmes, soldado? — Meyer provocou, rindo abertamente da rigidez de Erich. — Não se preocupe. Se ela sobreviver ao escritório do velho Weber, o que eu acho estatisticamente impossível, podemos dar um jeito de arrastá-la para o nosso alojamento de guarda esta noite e dividi-la. O que acha?

O ódio obliterou qualquer prudência na mente de Erich. Movido por um instinto visceral, ele encurtou a distância milimétrica até colar o peito no uniforme de Meyer, encarando-o de cima com os olhos injetados de fúria. Erich era visivelmente mais robusto e alto; a fisicalidade imponente e a promessa de violência real paralisaram o riso de Meyer, que recuou um passo de forma instintiva, empalidecendo.

— Ei... calma, Schulz — Meyer gaguejou, erguendo as mãos em um recuo defensivo. — Por que você está se importando tanto com essa subalterna? Esses lixos do galpão não são nem gente. Não vale a pena perder a cabeça por isso.

O silêncio fúnebre que se seguiu foi interrompido pelo ranger pesado das portas da mansão.

Lena cruzou o limiar, escoltada por dois guardas da linha de frente, com os braços presos às costas. Logo atrás, a silhueta massiva de Andreas Weber marchava com o casaco de lã aberto, os olhos fixos na direção dos alojamentos. Erich, Meyer e o guarda da interna perfilaram-se imediatamente, acompanhando com um escrutínio tenso o cortejo que cruzava o pátio sob a geada da madrugada. Sem proferir palavra, os três soldados uniram-se à marcha, movidos pela necessidade de testemunhar o desfecho daquela crise.

Quando os guardas da vanguarda alcançaram a entrada de madeira do alojamento comunitário, a folha de carvalho foi arrombada com um chute. Um dos soldados empurrou Lena para a frente, fazendo-a desabar de joelhos contra o chão de terra batida do galpão.

— Acendam as luzes! Agora! — Andreas ordenou, sua voz trovejando contra as paredes de tábuas frouxas.

Os refletores internos piscaram, inundando o ambiente abafado com uma claridade amarelada e violenta. Os prisioneiros acordaram no susto, erguendo-se nos beliches com o pavor estampado nos rostos subnutridos. Na penumbra dos beliches do fundo, Ilsa assistia à cena com os dentes cravados no lábio, mantendo o sorriso de satisfação oculto pelas sombras. Ela sentia o gosto da vitória; acreditava piamente que Lena seria executada ali, diante de todos, e que o sangue de Klaus seria finalmente vingado pela justiça do próprio Reich.

No entanto, Andreas Weber deu dois passos à frente, parando ao lado do corpo caído de Lena, e correu os olhos frios pela massa de trabalhadores trêmulos. Quando ele voltou a falar, o tom altivo e pausado congelou o galpão:

— Eu sei perfeitamente que armaram esta farsa contra a senhorita Goldstein. Sei que as ferramentas e o mapa foram plantados sob o colchão dela. Mas ela se recusa terminantemente a me entregar os nomes dos verdadeiros culpados. Foi uma escolha nobre da parte dela. No entanto, saibam de uma coisa: eu vou descobrir os autores dessa sabotagem interna. Eu não tolero esse tipo de insubordinação nas minhas terras, e quando eu arrancar a verdade... não haverá clemência para nenhum dos envolvidos. Ficamos bem entendidos?

O sorriso de Ilsa ruiu instantaneamente. O choque atingiu suas feições como um bloco de gelo, e sua respiração vacilou no escuro do beliche. A armadilha havia se voltado contra ela.

Lena levantou-se lentamente, apoiando as palmas das mãos na terra, sentindo o peso esmagador da humilhação, mas mantendo os olhos fixos no chão para ocultar o vislumbre de sobrevivência.

Andreas Weber ajeitou os punhos da farda, virando-se em direção à saída com uma frieza corporativa implacável.

— E não vai haver mais descanso para ninguém esta noite. Todos de pé. Ao trabalho, agora!

Os guardas assumiram as posições nas portarias e nos corredores, empunhando os cassetetes e ordenando a marcha imediata. O dia e a colheita do algodão iam começar muito mais cedo sob o chicote das Indústrias Weber.

Centro de Viena — Naquele mesmo instante.

Thomas Müller arrastou os pés até o limiar do quarto de casal, estancando diante de uma cena que o desarmou por completo. Jennifer estava de pé ao lado da cama, de costas para ele, empilhando peças de roupa dentro de uma mala de couro gasta com movimentos frenéticos. O som de seu choro sufocado e ruidoso preenchia o ambiente.

— Jennifer... o que você está fazendo? — Thomas perguntou, a voz saindo baixa, áspera pela fadiga, mantendo uma distância defensiva.

— Eu vou embora, Thomas — ela respondeu sem se virar, a voz embargada enquanto jogava um casaco de lã para dentro da mala. — Vá em frente, seja o herói do país se essa é a sua obsessão. Mas eu não vou ficar sentada nesta sala esperando pelo seu funeral. Se sobreviver e se nós ainda estivermos vivas... você sabe onde nos procurar.

Thomas não respondeu de imediato. Ignorando o protesto violento de suas costelas fraturadas, ele encurtou a distância, envolveu os ombros da esposa com o braço direito saudável e a puxou contra o peito em um abraço tenso, desesperado para conter a rachadura do próprio lar.

— Pare. Por favor, Jenny... pare — ele sussurrou contra o cabelo dela.

— Não! — Com um tranco ríspido, ela se desvencilhou do abraço, virando-se de frente para ele, com o rosto corado e as lágrimas borrando seus olhos. — O Franz tem toda razão, Thomas! Você perdeu a cabeça, está emocionalmente envolvido nesse caso do Weber. Você ficou cego para a realidade e não consegue enxergar as consequências. Olhe para o seu rosto! Olhe para o que a SS fez com o seu corpo! Você quer mesmo que a próxima surra aconteça comigo ou com a Birgit para você entender que o sistema é maior que você?

Thomas engoliu em seco, sustentando o escrutínio dela. O isolamento de sua destituição e o pavor de ver sua família ser destruída finalmente dobraram seus joelhos metafóricos. Ele baixou os ombros, vencido.

— Jennifer, escute... acabou — ele disse, as palavras saindo pesadas, como se cada uma delas custasse um pedaço de seu orgulho. — Eu não vou mais me envolver no caso das fábricas Weber. Você está certa. Franz assumiu o arquivo, a Orchestra mudou a frequência e eu estou fora. Não é mais da minha conta. Eu prometo.

Jennifer abaixou a cabeça, o peito arfando enquanto processava aquela capitulação. Ela estava dividida. Como esposa, aquela era a única resposta que queria ouvir; mas, conhecendo o caráter obstinado de Thomas, ela sabia que aquela rendição forçada abriria uma ferida psicológica tão profunda nele que talvez ele nunca se recuperasse.

Ela ergueu os olhos, buscando qualquer rastro de mentira nas feições desfiguradas do investigador.

— Você jura, Thomas? — ela indagou, a voz falhando em uma súplica. — Jura que vai deixar isso para trás?

Thomas abriu a boca para sustentar a farsa, mas quando fitou as pupilas trêmulas da esposa, o nó na garganta o impediu de mentir. O silêncio que se seguiu foi a pior das respostas. Jennifer soltou um suspiro carregado de desilusão e voltou a recolher os vestidos sobre a cama.

Antes que ela pudesse dobrar a próxima peça, Thomas segurou seu braço esquerdo com firmeza, travando seus movimentos.

— Chega, Jennifer. Por favor, olhe para mim — ele pediu, a voz agora carregada de uma solenidade absoluta, os dedos entrelaçando-se aos dela para forçá-la a largar o tecido. — Eu prometo que vou manter vocês duas seguras. Essa é a minha única promessa real. Eu vou proteger você e a Birgit, custe o que custar. Mas não me peça para fingir que sou um homem covarde.

Jennifer sentiu as defesas desmoronarem. Vencida pelo cansaço e pela impossibilidade de mudar a natureza do marido, ela parou de lutar. Usou a mão livre para limpar o rastro das lágrimas nas bochechas e olhou para o teto, exaurida.

— Thomas... eu não sei... não sei mais o que fazer — ela confessou, a voz quebrando enquanto derramava-se em um choro desarmado. — Estou com tanto medo.

Thomas a puxou de volta para o peito, desta vez sem resistência, abafando o pranto dela contra o próprio ombro.

— Eu sei, meu amor. Eu sei... Mas eu estou aqui. Eu sempre estarei aqui.

Centro de Viena — Manhã seguinte.

O dia seguinte amanheceu com a luz pálida do sol de inverno invadindo as frestas da janela do quarto. Thomas e Jennifer haviam dormido juntos, unidos pelo pacto de silêncio que selara a madrugada. O transe da calmaria, contudo, foi brutalmente assassinado pelo toque estridente e insistente do telefone de parede na cozinha.

Thomas despertou sobressaltado, soltando um gemido ríspido quando os músculos do abdômen se contraíram contra o gesso de suas costelas.

— Quem poderia ser a esta hora? — Jennifer resmungou ao seu lado, cobrindo o rosto com o lençol, recusando-se a abrir os olhos.

— Eu atendo — Thomas murmurou, forçando o corpo para fora da cama com dificuldade. Ele tateou a escuridão do closet, vestiu uma camisa de linho limpa por cima das bandagens e caminhou descalço até a sala de estar, sentindo o frio do taco de madeira sob os pés.

Ele puxou o gancho de baquelite preta do aparelho e o colou ao ouvido.

— Alô? — Thomas atendeu, a voz rouca pelo sono.

— Falo com o investigador Thomas Müller? — a voz do outro lado da linha era feminina, proferida em um tom apressado, refinado e abafado, como se ela estivesse escondida para falar.

— Com quem estou falando? — Thomas indagou, não respondendo de imediato, o instinto de detetive despertando instantaneamente.

— Eu não posso falar muito agora, o tempo é curto — a mulher respondeu através do chiado da linha telefônica. — Preciso que me encontre hoje, exatamente ao meio-dia, na cafeteria Kranzler. Eu tenho informações confidenciais sobre Berlim e a fazenda que são do seu estrito interesse. Não falte.

O clique seco da linha caindo encerrou a chamada. Thomas permaneceu estático com o fone na mão, ouvindo o tom de ocupado.

Ao girar o corpo de lado, percebeu que Jennifer estava de pé no batente da porta do corredor, com os braços cruzados sobre o pijama, observando-o com um escrutínio silencioso e paranoico. A trégua da madrugada já havia evaporado.

— Quem era, Thomas? — ela perguntou, os olhos estreitados.

Thomas sustentou o olhar da esposa por dois segundos, processando o mistério daquela voz que parecia vir do topo da mansão dos Weber. Ele recolocou o fone no gancho com uma lentidão calculada e forçou um semblante de indiferença.

— Não sei... Um engano, talvez. Um trote — ele mentiu, caminhando de volta na direção dela e pousando a mão em seu ombro. — Esqueça isso. Vamos voltar para a cama.

Jennifer semicerrou os olhos, mas não prolongou o confronto. Ela virou as costas e caminhou de volta para o quarto, deitando-se de costas para a porta. Thomas permaneceu parado no corredor escuro, com a mente trabalhando a mil por hora, sabendo perfeitamente que o relógio para o meio-dia na cafeteria Kranzler já havia começado a correr.

Fazenda das Indústrias Weber, arredores de Viena — Naquele mesmo instante.

O cansaço era uma âncora de chumbo amarrada ao corpo de cada trabalhador naquele campo. Sem uma única hora de sono após a invasão da madrugada, a colheita forçada sob as luzes dos refletores havia se estendido direto para a rotina do dia. Lena mantinha-se propositalmente afastada das outras fileiras, tentando erguer uma parede de isolamento contra as canecas e as ferramentas que se moviam ao seu redor; os sussurros e os olhares injetados de rancor continuavam a apontá-la como uma traidora.

De seu posto, Martha não desviava os olhos da amiga. Lena operava no automático, os ombros magros curvados sobre o algodão, sem esboçar qualquer reação física além das lágrimas silenciosas que corriam livremente por suas bochechas sujas de fuligem. Martha apertou o cabo da enxada, sentindo a própria impotência rasgar o peito; queria ter forças para ajudá-la ou pronunciar uma única palavra que aliviasse o peso daquele dia, mas a realidade da fazenda havia esgotado todo o estoque de consolo. O cerco estava se fechando rápido demais.

— Lena... — Martha aproximou-se em um passo arrastado, a voz quebrando. — Por favor, fale comigo. Só um pouco.

Lena permaneceu em um silêncio sepulcral. Mas quando fechou as pálpebras, o acúmulo de pânico, a humilhação do alojamento e a ameaça de Weber transbordaram de uma vez. O desespero cobrou a conta física: suas pernas cederam sob o peso do corpo e ela desabou de joelhos na terra arada. Vendo a queda, alguns camponeses mais próximos estancaram o trabalho e deram passos curtos na direção delas, tentando ler o que o colapso significava, enquanto Martha jogava-se no chão para amparar a cabeça de Lena.

Estático perto da cerca oeste, Erich Schulz assistia a tudo sem poder mover um único músculo para intervir. Sob a aba do quepe, seus olhos fixavam-se na silhueta caída de Lena com uma compaixão crua e perigosa que ultrapassava o protocolo da farda. À sua esquerda, não muito distante, Meyer observava a rigidez do companheiro com um sorriso sutil, de canto, que passava longe de expressar simpatia. Meyer sustentou o escrutínio sobre Erich por longos segundos antes de fazer um aceno de cabeça desdenhoso e voltar a encarar o restante da lavoura. O rastro de suspeita estava plantado.

A neve fina começou a cair, salpicando o cinza do campo com pontos brancos. Mais atrás, Ilsa fingia focar na colheita para evitar olhar na direção do tumulto. Aproveitando o instante em que o guarda do quadrante desviava a atenção para acudir o desmaio de Lena, o prisioneiro que a acompanhara na denúncia da madrugada encurtou a distância de forma sorrateira.

Com um movimento brusco, ele soltou a enxada pesada diretamente aos pés de Ilsa, fazendo o cascalho saltar.

— Você nos meteu nessa cova, Ilsa, então trate de arrancar a nossa cabeça de lá — o homem sibilou por entre os dentes, os olhos injetados de pavor. — Se o velho Weber descobrir quem plantou aquele mapa, eu mesmo garanto que você vá para a vala antes de nós. Você ouviu?

Ilsa engoliu o próprio pânico. Estava impotente diante da realidade que ela mesmo plantou.

Centro de Viena — Meio-dia.

Thomas Müller ocupava a mesa de canto mais próxima à porta de entrada da cafeteria Kranzler. Ele mantinha os dedos da mão direita firmes em torno da xícara de café, usando o vapor quente para aquecer o rosto enquanto examinava o fluxo constante de clientes que cruzavam o umbral.

A garçonete aproximou-se, ajeitando o avental limpo.

— O senhor deseja o cardápio de almoço ou vai preferir o aperitivo de sempre, Herr Müller? — indagou com uma cortesia profissional.

— O de sempre está ótimo, obrigado — Thomas forçou um sorriso diplomático, mantendo a voz plana.

— Com licença. Não vai demorar — ela anotou no bloco e retirou-se em direção ao balcão.

Ele ergueu o pulso sadio para checar o relógio. 12h01. Sua paciência, espremida pelas costelas fraturadas e pela paranoia do vazamento da rádio, operava no limite. 12h10. A garçonete retornou, depositando o prato com o lanche na mesa.

— Obrigado — Thomas agradeceu. Ele pegou o alimento e o consumiu com rapidez, sem saborear, impulsionado pelo relógio biológico da urgência.

Às 12h15, ele começou a apoiar a mão na mesa para se levantar, convencido de que o telefonema fora um alarme falso. Foi quando o sino de latão acima da porta de entrada badalou.

Uma mulher de postura aristocrática cruzou o umbral. Seu semblante trazia uma urgência indisfreável, e seus dedos enluvados apertavam um envelope pardo de tamanho médio contra o peito. O vestido de alta-costura fina e o chapéu de abas largas com detalhes em renda destoavam brutalmente da sobriedade do Kranzler; não era, nem de longe, o tipo de estabelecimento que as damas da alta sociedade vienense costumavam frequentar. Thomas estancou o movimento de subida e voltou a apoiar as costas no banco. Sabia exatamente quem ela era.

Heinrike Weber caminhou entre as mesas com passos rápidos, os olhos castanhos vasculhando o salão até que Thomas quebrou o silêncio com um sussurro firme:

— Senhora Weber.

Ela virou o rosto na direção da voz. Embora nunca tivesse visto o investigador pessoalmente, a autoridade e os hematomas no rosto do homem entregaram sua identidade. Heinrike aproximou-se e acomodou-se na poltrona estofada à sua frente, ajeitando as saias de seda verde com movimentos tensos enquanto o avaliava de cima a baixo com um escrutínio cirúrgico.

— Imagino que o senhor seja Thomas Müller — ela declarou, a voz baixa, o tom perfeitamente polido.

— Como a senhora conseguiu o número direto do meu apartamento pessoal? — Thomas foi direto à pergunta que vinha martelando sua mente desde o amanhecer.

Heinrike soltou um suspiro raso, mantendo a postura erguida.

— Acredite em mim, senhor Müller... um homem com o seu histórico na promotoria e com os inimigos que acumulou não é difícil de rastrear quando se tem os contatos certos — ela retrucou, os olhos fixando-se no braço esquerdo dele, rigidamente imobilizado pela tipóia. — O que houve com o senhor?

— Digamos que sofri um pequeno acidente de percurso no meu horário de trabalho — Thomas respondeu com uma ironia rascante.

Heinrike assimilou a resposta com um aceno sutil. A peça do quebra-cabeça se encaixara.

— Então... o aviso persuasivo que o Ministro Günther mencionou no escritório de Andreas na outra noite era esse.

Thomas inclinou-se para a frente, diminuindo a distância entre os dois sobre a mesa de madeira. Seus olhos estreitaram-se.

— O que a senhora veio fazer aqui, de verdade? — ele inquiriu, a voz caindo para um tom cortante. — Por que arriscar a vida para peitar o seu marido? A senhora desfruta de uma posição extremamente confortável e intocável dentro da estrutura do Reich.

— Confortável? — Heinrike repetiu a palavra, e pela primeira vez um vislumbre de amargura genuína rompeu sua máscara aristocrática. Ela olhou nos olhos dele. — Eu tenho os meus próprios motivos para querer ver o império de Andreas em cinzas, senhor Müller. Motivos antigos.

— E a senhora espera que eu simplesmente confie na sua palavra? — Thomas rebateu, mantendo a guarda alta. — Como posso saber que isso não é uma armadilha armada por Weber e pela Gestapo para recolher o que sobrou da minha cabeça?

Heinrike permaneceu imóvel por alguns instantes, sustentando a desconfiança dele. Sem proferir resposta verbal, ela estendeu o braço enluvado e deslizou o envelope pardo sobre a mesa, parando-o diante da mão direita de Thomas.

— Qual é o conteúdo exato deste envelope, senhora Weber? — Thomas perguntou, mantendo os dedos afastados do papel.

— São alguns registros de transferência civil e ordens de alojamento interno aos quais tenho acesso na administração privada da fazenda — Heinrike explicou, a voz perfeitamente controlada.

— E o que mais?

— O senhor não vai sequer abrir para conferir? — ela desafiou, arqueando a sobrancelha.

— Senhora Weber, o que o sistema de Berlim exige é materialidade criminal — Thomas explicou com uma frieza técnica. — Possuir cópias de registros de identidade de subalternos não prova que aquelas pessoas foram compradas ilegalmente de um campo estatal. Qualquer auditor de esquina consegue uma segunda via de certidão civil na prefeitura de Viena. Isso não derruba o monopólio dele.

Heinrike recolheu as mãos, as feições endurecendo.

— Então vir até essa espelunca foi uma perda de tempo? — ela declarou, começando a mover o corpo para se levantar da cadeira.

Thomas soltou um suspiro pesado, o cérebro calculando o valor daquela aliada dentro da mansão.

— Espere — ele pediu, a voz firme.

Heinrike estancou o movimento, mantendo-se semi-erguida.

— O que foi?

— Talvez a senhora possa me ajudar de verdade — Thomas admitiu, olhando ao redor para garantir a discrição do ambiente. — Eu preciso de algo definitivo. Notas fiscais com carimbos rasurados, recibos bancários das contas secretas na Suíça que ele divide com Berlim, o inventário de desvios de mercadoria. A senhora teria como extrair esses livros contábeis do cofre do escritório dele?

Um vislumbre de puro pavor cruzou as pupilas de Heinrike. Ela recuou o corpo contra o estofado, a respiração vacilando.

— O senhor está enlouquecendo, Müller... Espera que eu me transforme em uma espiã de campo contra o meu próprio marido dentro da minha própria casa? — ela sussurrou, horrorizada. — Isso é uma sentença de execução sumária se eu for apanhada.

— Eu compreendo perfeitamente o risco, senhora Weber — Thomas sustentou o olhar, a voz carregada de uma determinação inflexível. — Mas a minha proposta de parceria está de pé. Eu não sei qual é a natureza da dor que a trouxe até esta mesa, mas saiba de uma coisa: se o seu objetivo real é implodir o império de Andreas Weber, eu sou a única engrenagem em Viena capaz de fazer isso funcionar. Pense a respeito.

Heinrike encarou o investigador por mais três segundos. Soltando um bufar forte e nervoso, ela ajustou o xale sobre os ombros, virou as costas de uma vez e retirou-se a passos rápidos da cafeteria, deixando o eco do sino da entrada flutuando no ar.

Thomas permaneceu sozinho. Ele estendeu a mão direita, puxou o envelope pardo e rompeu o lacre de cera. Ao despejar o conteúdo na mesa, deparou-se com uma série de fichas cadastrais com fotografias em preto e branco de dezenas de prisioneiros das fazendas. Ele correu os dedos pelas imagens de rostos subnutridos e assustados, até que uma ficha específica fez seus olhos travarem.

Era a foto de Lena Goldstein.

Thomas segurou o papel entre os dedos por longos segundos, examinando os olhos azuis estáticos na imagem industrial. Soltando uma respiração profunda e ríspida, ele recolheu as fotos, guardou-as de volta no envelope e levantou-se da mesa, deixando algumas moedas sobre o balcão antes de sumir na névoa de Viena.