A Reacionária
7 FRESTA
Mansão da Família Weber, arredores de Viena — Algumas horas após o encontro.
O silêncio que recepcionou Heinrike Weber ao cruzar o hall de entrada tinha a densidade de um túmulo. Suas mãos, ainda frias pelo vento de Viena, apertavam as alças de duas sacolas de grifes caras que ela comprara às pressas para servir de álibi. Seu coração martelava contra as costelas. A quietude da mansão era absoluta; nem mesmo o som dos passos discretos de Ginevra ou o ruído da cozinha indicavam sinal de vida. A casa parecia prender a respiração.
Heinrike caminhou lentamente até a sala de estar, tentando manter o salto firme contra o piso de madeira. Foi ali que encontrou Andreas.
Para aquela hora da tarde, o estado do marido era alarmante. Ele estava sentado na poltrona de couro, ainda vestindo o smoking da noite anterior, agora amassado e com a gravata borboleta desfeita, pendendo como uma corda no colarinho aberto. Uma garrafa de conhaque quase vazia repousava na mesa de apoio. Andreas não piscava; seus olhos injetados de sangue fixaram-se na esposa com uma lucidez alcoólica e perigosa.
— Onde esteve? — a voz dele saiu arrastada, mas desprovida de qualquer pressa. Era o tom de um inquisidor.
Heinrike estancou no tapete persa, sustentando o olhar dele por uma fração de segundo antes de forçar uma máscara de futilidade burguesa.
— Fui dar uma volta, Andreas. Eu me recuso a passar mais um dia trancada nesta casa ouvindo o vento bater nas janelas.
— Uma volta? — Ele inclinou-se ligeiramente para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Aonde, exatamente?
— Fui ao centro de Viena. Encontrei algumas conhecidas na Ringstraße, passei em algumas alfaiatarias... Fiz compras, como você pode ver.
— Você sabe perfeitamente que não deve colocar os pés fora deste perímetro sem a minha autorização expressa, Heinrike. Especialmente agora.
Heinrike soltou um suspiro ruidoso, deixando as sacolas de papel caírem sem cuidado sobre o chão. Ela deu dois passos na direção dele, a audácia da informação que Thomas lhe dera na cafeteria ainda latejando em sua mente.
— Me desculpe se feri seu protocolo de controle, Andreas. Mas eu precisava de ar.
Antes que ela pudesse recuar, Andreas ergueu-se da poltrona com uma rapidez violenta, incompatível com o teor de álcool no sangue. Ele cravou os dedos grossos no braço de Heinrike, apertando o osso através do tecido fino de seu casaco até fazê-la prender o fôlego.
— Eu não vou repetir, Heinrike — ele sibilou, o hálito quente de conhaque e tabaco batendo contra o rosto dela. — Eu não tolero que você saia por aqueles portões sem que eu saiba onde e com quem está metida. Sob o meu teto, as regras são minhas. Não vou tolerar indisciplina da minha esposa.
— Andreas, por favor... você está me machucando. Foi apenas um passeio no centro.
— Eu quero ouvir você dizer que entendeu — ele exigiu, apertando ainda mais o braço dela.
Heinrike sentiu a humilhação queimar em sua garganta, mas o vislumbre de poder que acumulara ao descobrir as fraudes do marido falou mais alto. Ela ergueu ligeiramente o queixo e, sustentando as pupilas dilatadas do marido, permitiu que um sorriso sutil e carregado de um cinismo amargo moldasse seus lábios.
— Sim, meu amor — ela ironizou, a voz carregada de deboche. — Eu entendi perfeitamente. Não vai acontecer de novo.
A provocação foi o estopim para a paranoia de Andreas. Sem proferir palavra, ele soltou o braço dela apenas para desferir um tapa violento com as costas da mão esquerda diretamente contra o rosto de Heinrike. O impacto foi seco e brutal, arremessando-a contra o chão da sala. As sacolas de compras foram esmagadas sob o peso de seu corpo.
Andreas deu um passo à frente, pairando sobre ela como uma sombra imensa, com o peito arfando e os punhos cerrados.
— Se você voltar a me olhar com esse deboche de cortesã... eu juro que mato você nesta sala — ele sentenciou, a voz caindo para um sussurro terrivelmente calmo e definitivo.
Ele ajeitou as mangas do smoking amassado, virou as costas e caminhou em direção à escadaria principal, sem olhar para trás.
— Vou dormir — Andreas anunciou antes de subir os degraus. — Garanta que ninguém suba para me incomodar.
A porta dos aposentos superiores bateu, e o silêncio fúnebre retornou ao salão. No chão, Heinrike permaneceu deitada de lado, com os dedos trêmulos tocando a bochecha que começava a inchar e a pulsar de dor. Suas lágrimas de humilhação escorreram silenciosas pela madeira polida do piso. Mas, no fundo de seus olhos castanhos, a dor deu lugar a uma resolução fria. A hesitação que sentira diante de Thomas Müller no Kranzler havia desaparecido.
Célula da Orchestra — Naquele mesmo instante.
O ar no subsolo de tijolos expostos cheirava a umidade, papel velho e cera de vela. Sentado à ponta de uma longa mesa de carvalho desgastada, Franz Krüger tamborilava os dedos sobre a madeira, encarando as cinco pessoas que compunham a cúpula daquela célula regional. Eram homens e mulheres de cabelos cinzentos, cujas feições cansadas e ombros caídos transmitiam tudo, menos o vigor de revolucionários. Pareciam burocratas de um departamento público falido, e não os líderes da lendária rede de espionagem anti-nazista.
— Novamente, eu me sinto na obrigação de questionar a real motivação dos senhores — Franz quebrou o silêncio, a voz cortante e destituída da reverência protocolar que costumava usar.
No centro da mesa, uma mulher de meia-idade, vestindo um casaco de lã surrado e com óculos de leitura pendendo no peito, ergueu os olhos frios na direção do jovem.
— A nossa motivação final continua sendo a desestabilização do regime, senhor Krüger — ela respondeu, o tom de voz plano, arrastado pela exaustão de quem já vira companheiros demais irem para a guilhotina. — Mas, no presente momento, o caso das Indústrias Weber não é a nossa prioridade estratégica.
— Vocês me usaram para ir até o apartamento de Thomas Müller — Franz inclinou-se para a frente, apoiando os punhos fechados na mesa. — Me fizeram olhar nos olhos do meu mentor e arrancar o arquivo dele sob o pretexto de que o comando exigia prudência. Eu quero saber: o senhor Von Weizsäcker assinou essa ordem pessoalmente? Ele sabe que vocês estão engavetando as provas que Thomas quase morreu para conseguir?
Um homem idoso, posicionado à direita da mesa, soltou um suspiro condescendente e ajeitou os papéis diante de si.
— A diretriz de que as nossas investigações econômicas sirvam apenas como arquivos de contenção e chantagem preventiva partiu do próprio senhor Von Weizsäcker, senhor Krüger. O dossiê Weber continuará sendo alimentado burocraticamente por você, mas não haverá efeito prático imediato. Não faremos denúncias públicas e não acionaremos a promotoria.
Franz levantou-se da cadeira em um solavanco, os olhos faiscando de indignação.
— Os senhores só podem estar de brincadeira comigo — Franz soltou uma risada amarga, que ecoou pelas abóbadas de pedra do porão. — Como podem se reunir sob esta bandeira e ainda se autodenominarem a "resistência"? O plano de vocês é este? Vão passar o resto de suas vidas escondidos em buracos como ratos, apenas sobrevivendo ao inverno do Reich? Nós não vamos reagir? Nunca?
Os cinco membros do conselho permaneceram estáticos, encarando o jovem com uma frieza anestesiada. Não havia fúria nos rostos deles, apenas uma profunda e dolorosa apatia. O silêncio deles era a resposta mais devastadora; Franz percebeu que estava gritando sozinho em um cemitério de idealistas.
— Nós sentimos muito, senhor Krüger — a mulher do casaco surrado declarou, a voz baixa, quase fúnebre. — Mas o nosso objetivo primário neste estágio da história não é derrubar o Reich em uma guerra aberta que não podemos vencer. É garantir que os membros que ainda restam da Orchestra continuem respirando amanhã. Sobreviver é a nossa única vitória possível.
Franz engoliu em seco, as palavras morrendo em sua garganta diante daquela confissão de derrota disfarçada de prudência. A revelação o esvaziou por dentro. O conselho que ele julgava ser a vanguarda da libertação era apenas um comitê de preservação de cinzas.
Sem dizer mais nada, ele deu as costas. Afastou a cadeira de madeira com um empurrão violento que a fez ranger contra o chão de concreto e marchou em direção às escadas, batendo a porta de ferro ao sair.
Fazenda das Indústrias Weber — Entardecer.
O crepúsculo desceu sobre as terras dos Weber com a cor de ferro enferrujado. Não houve calmaria para os soldados que patrulhavam as bordas da plantação; o cansaço acumulado da jornada antecipada deixara a todos com os nervos à flor da pele. Sob o estalo ríspido das ordens e o cano das carabinas, os trabalhadores eram empurrados de volta para os alojamentos.
Lena marchava com dificuldade extrema, sendo amparada por Martha. A jovem, tendo acabado de recobrar os sentidos após o desmaio na lavoura, mal conseguia firmar as botas no chão congelado; sua cabeça girava e o corpo trêmulo ameaçava ceder a cada passo. Ao longo da fila, o isolamento de Lena permanecia intacto: alguns camponeses desviavam o rosto com uma indiferença fria, enquanto outros a observavam com uma curiosidade mórbida, esperando para ver até onde o corpo dela aguentaria antes de quebrar.
Afastada do grupo, Ilsa mantinha os olhos fixos na poeira do caminho, recusando-se terminantemente a encarar a Goldstein. Queria que seu rosto desaparecesse na massa cinzenta dos cativos. Contudo, ao desviar o olhar sutilmente para o lado, sentiu um calafrio: o prisioneiro que a ajudara a plantar as ferramentas sob o beliche a observava fixamente entre as fileiras, com uma promessa silenciosa de traição brilhando nas pupilas.
— Movimentem-se, seus vermes! Mais rápido! — um dos guardas gritou na retaguarda, desferindo um empurrão ríspido contra as costas de um garoto no final da fila.
Erich Schulz acompanhava a marcha a cerca de dez metros de distância, mantendo o passo compassado e o fuzil atravessado no peito. Seus olhos castanhos vigiavam cada passo trôpego de Lena, registrando a fragilidade dela sob o amparo de Martha, mas ele forçava-se a olhar para as torres de vigia a cada dois passos. Sabia que qualquer desvio de conduta ou proximidade excessiva selaria o destino de ambos antes que a Orchestra pudesse agir.
Alojamento dos Guardas — Horas depois.
O salão de convivência do destacamento militar cheirava a suor, couro molhado e tabaco barato. Era ali que os soldados se reuniam ao fim do expediente para limpar o armamento, beber aguardente e jogar cartas sob a luz amarelada dos geradores.
Erich ocupava um canto mais escuro, encostado perto da janela fustigada pelo vento gélido, tragando lentamente o resto de seu cigarro. Ele tentava dissipar a imagem de Lena caindo no campo. Suas reflexões, no entanto, foram interrompidas quando a silhueta de Meyer surgiu na penumbra, ladeada por outros dois soldados de infantaria, cujos sorrisos cínicos denunciavam que o tédio da caserna havia encontrado um alvo.
— Schulz... — Meyer começou, parando a dois passos dele e cruzando as mãos sobre o cinto militar. — Desembucha de uma vez. O pátio inteiro está comentando. Você está mesmo de olho na loirinha de Wittenberg?
Erich não moveu uma única linha do rosto. Ele continuou encostado na parede, expelindo a fumaça cinza do cigarro com uma lentidão calculada. Sabia que Meyer era um covarde que dependia da plateia para inflar a própria autoridade.
— O que foi? O gato comeu a sua língua, soldado? — Meyer provocou, dando um passo à frente enquanto os outros dois guardas soltavam risadas baixas.
Erich jogou a bituca do cigarro no chão de cimento e a esmagou com a sola da bota de cano alto. Ele se desencostou da parede com uma calma glacial, batendo levemente as palmas das mãos nas coxas para tirar a poeira do uniforme de campanha.
— O que você quer, Meyer? — Erich perguntou, o tom de voz perfeitamente plano, quase tediado. — Eu achei que a nossa conversa no pátio da guarita já tinha deixado as minhas intenções bastante claras.
— Cara, se você estiver interessado na loirinha, ninguém aqui vai te julgar — Meyer abriu os braços, mantendo o sorriso sarcástico que não alcançava os olhos frios. — Você é homem, ela é uma mulher. Qual é o problema? O sangue dela é estragado, mas o corpo serve para distrair o frio.
— Onde você quer chegar com isso? — Erich inquiriu, os nós dos dedos começando a empalidecer sob o tecido das luvas de couro.
— O ponto é muito simples, Schulz — Meyer inclinou-se de leve, a voz caindo para um sussurro conspiratório que fez os outros dois soldados darem um passo à frente. — Hoje à noite nós vamos buscá-la no galpão. Viemos saber se você vem junto... ou se continua bancando o protetor da escrava. E aí? Qual é a sua resposta?
Erich soltou uma risada ríspida, sem nenhum vestígio de humor. Ele sentiu o sangue latejar nas têmporas, e sua mão direita começou a tremer de um ódio cego que obliterou qualquer resquício de treinamento ou prudência operacional.
No milissegundo seguinte, o impulso falou mais alto. Erich projetou o corpo para a frente e desferiu um soco direto e brutal contra o maxilar de Meyer. O impacto do punho foi seco e pesado, fazendo o guarda cambalear para trás, colidir contra uma mesa de madeira e derrubar as garrafas de vidro que nela estavam.
— Seu desgraçado! — um dos guardas gritou.
Antes que Meyer pudesse se levantar do chão, os outros dois soldados avançaram contra Erich com fúria. O primeiro desferiu um soco que atingiu a têmpora de Erich, fazendo seu quepe voar, enquanto o segundo o agarrou pelo colarinho do uniforme, desferindo uma joelhada violenta contra suas costelas. Erich tentou se defender, devolvendo um golpe ríspido que quebrou os dentes de um deles, mas a desvantagem numérica era esmagadora. Ele foi arremessado contra o chão de concreto, recebendo chutes no abdômen e socos no rosto que abriram um supercílio e o fizeram cuspir sangue.
O barulho de mesas sendo arrastadas e os gritos de incentivo dos outros guardas que se aglomeravam para assistir ao espetáculo ecoaram pelo salão.
— Chega! Parem agora, seus cães! — uma voz autoritária e estridente trovejou da entrada do salão, cortando a confusão de uma vez.
Os soldados recuaram imediatamente, batendo os calcanhares e assumindo a postura de sentido. O sargento de dia adentrou o recinto a passos largos, com o chicote de couro batendo contra a perna da farda impecável e os olhos injetados de fúria.
— O que significa essa insubordinação de porco no meu turno? — o sargento esbravejou, correndo os olhos pelos quatro homens desfigurados. Ele apontou o dedo trêmulo na direção do corredor administrativo. — Os quatro para a sala do tenente. Agora!
Os dois soldados que haviam espancado Erich se entreolharam, empalidecendo sob a farda, enquanto Meyer se levantava devagar, limpando com as costas da mão o fluxo de sangue que escorria de sua boca. Erich, com o rosto cortado e o uniforme manchado de terra e sangue fresco, ergueu-se com dificuldade. Ele recuperou seu quepe no chão, ajeitou a gola da túnica e, sem olhar para os agressores, marchou em direção ao escritório da punição. Seus nós dos dedos latejavam, mas a mente trabalhava com uma lucidez aterradora: ele acabara de cruzar o ponto de não-retorno dentro daquela fazenda.
Alojamento dos Subalternos — Naquele mesmo instante.
Lena não dormia. Ela estava sentada no chão de tábuas frouxas, com os joelhos encolhidos contra o peito e os braços envolvendo as pernas, observando o luar pálido que cortava a escuridão. A luz fria entrava por uma pequena fresta na madeira do galpão, desenhando uma linha prateada na poeira suspensa no ar. Ao seu redor, os dezenas de prisioneiros dormiam em um silêncio pesado, quase anestesiado, exaustos pelo trabalho ininterrupto que lhes roubara o descanso da noite anterior.
O ranger suave da palha anunciou a aproximação de Martha. A mulher mais velha sentou-se ao lado de Lena, acomodando o corpo dolorido com um suspiro baixo. Ela examinou o rosto de Lena, iluminado apenas pela réstia de lua, e viu que a jovem parecia consumida por dentro.
— Como você está se sentindo? — Martha perguntou, a voz caindo para um sussurro quase inaudível, temendo acordar os outros.
— A Ilsa armou cada detalhe daquela armadilha para mim, Martha — Lena respondeu, a voz desprovida de fúria, restando apenas uma melancolia seca e trêmula. — Ela queria que eu tivesse sido arrastada para o pátio e fuzilada. Na cabeça dela, e de metade deste galpão, eu sou a única culpada pela morte do Klaus. E quer saber a verdade? Se você parar para analisar friamente... a lógica dela não está errada. Se eu não tivesse recebido aquela maldita carta do meu irmão, eu não seria o centro das atenções aqui dentro. Ninguém teria morrido por minha causa.
— Lena... não diga isso — Martha tentou interromper, tocando de leve o braço dela. — Você não tem culpa da crueldade deles.
— Quando a Gestapo invadiu nossa casa em Wittenberg, quando eles mataram meus pais e arrastaram o Stefan, eu era um estorvo de seis anos — Lena continuou, as lágrimas acumulando-se nos olhos azuis enquanto ela encarava a fresta na parede. — Minha mãe me enfiou em um compartimento sob o assoalho pouco antes de a porta da frente ser abaixo. Eu sobrevivi ali dentro, no escuro, ouvindo os tiros e os gritos, até que o silêncio ficasse grande demais. Mas não durou muito tempo. Quando a fome me forçou a sair para a rua, a patrulha da SS me pegou. Eu ia ser enviada para um campo de eliminação direta, mas Andreas Weber me viu no comboio e me comprou porque precisava de mãos jovens para o algodão.
Lena engoliu em seco, encostando a testa nos joelhos.
— Eu passei a minha vida inteira dentro deste quadrado de arame farpado, Martha. Eu não tenho mais objetivos. Eu sequer lembro como é o cheiro do mundo lá fora, se é que existe um mundo que não pertença a eles...
Martha manteve os olhos fixos na fresta da parede, uma sombra de saudade antiga suavizando suas feições calejadas.
— Eu entendo perfeitamente, minha pequena — Martha sussurrou, a voz carregada de um saudosismo doloroso. — Eu tive a chance de nascer antes de esse regime cobrir o céu com essa névoa cinzenta. Eu tive momentos maravilhosos com os meus pais na infância. Lembro que minha mãe sempre penteava meus cabelos e dizia que, quando eu completasse dezoito anos, ela me levaria para assistir a uma ópera no teatro de Viena. Era o meu maior sonho... Hoje, eu já nem sei se esses lugares ainda existem para pessoas como nós, ou se algum dia voltarei a ver uma cortina de veludo se abrir.
Lena ergueu a cabeça lentamente. Ela olhou para o perfil envelhecido de Martha, para as marcas que o tempo e o trabalho escravo haviam deixado em sua pele, e sentiu uma força inesperada e teimosa despertar em seu peito. Um senso de dever que ela julgava morto.
Ela estendeu a mão trêmula e segurou os dedos frios de Martha.
— Nós vamos fugir daqui, Martha — Lena declarou, a voz firme, destituída de qualquer hesitação. — Nós duas. Juntas. E eu estou te prometendo agora: nós vamos entrar em um teatro em Viena. Você vai assistir à ópera.
Martha olhou para a jovem e esboçou um sorriso triste, mas acolhedor.
— Fico feliz que você ainda consiga encontrar espaço para a esperança nesse peito, Lena... — murmurou a mulher mais velha, tentando não desencorajá-la.
— Não é apenas um delírio, Martha. Nós temos uma chance real agora — Lena a interrompeu, inclinando-se mais para perto e baixando o tom de voz até quase sumir. — O soldado Erich me confessou que a Orchestra... que esse grupo de resistência está operando nas sombras para derrubar a estrutura do senhor Weber por dentro. Eu não compreendo a mecânica dos planos deles, mas... é a primeira vez em dezoito anos que eu sinto que os portões de ferro podem realmente se abrir.
Martha avaliou a seriedade e o brilho nos olhos azuis de Lena. Ela soltou um riso baixo, soprado pelo nariz, e puxou a jovem para um abraço apertado, envolvendo-a com o calor de seu próprio corpo e depositando um beijo carinhoso em sua têmpora.
— Sim, minha pequena... — Martha murmurou contra o cabelo dela, permitindo-se, por aquele breve segundo, acreditar na fantasia. — Vamos ter fé.
Lena fechou os olhos no abraço de Martha. E ali, no escuro asfixiante daquele alojamento, enquanto a neve fina fustigava a madeira do lado de fora, ela se permitiu esboçar um sorriso sincero pela primeira vez em muitos dias. Eles não haviam quebrado seu espírito por completo.
Centro de Viena — Naquela mesma noite.
A cafeteria Kranzler operava em uma penumbra fúnebre sob o gélido inverno vienense. Restavam poucas mesas ocupadas, e o eco abafado das conversas distantes apenas acentuava o isolamento de Heinrike Weber. Ela permanecia imóvel em uma mesa de canto, com os dedos enluvados apertando a alça de sua bolsa com tanta força que as costelas de couro pareciam prestes a romper. Sob a aba larga do chapéu, a lateral de seu rosto latejava; o hematoma do tapa de Andreas começara a escurecer, uma marca violenta que ela tentara, em vão, esconder sob o xale de lã.
O rangido suave de uma cadeira de madeira arrancou-a de seu transe.
Thomas Müller acomodou-se na poltrona à sua frente com movimentos calculados para poupar suas próprias costelas quebradas. Seus olhos, ainda marcados pelo cerco da Gestapo, fixaram-se diretamente no rosto de Heinrike. Ele registrou o inchaço na bochecha e o corte sutil no lábio dela, mas manteve a disciplina profissional de um investigador de elite do Reich: não fez perguntas, não ofereceu condolências e não hesitou. Em vez disso, inclinou-se ligeiramente sobre a mesa.
— Senhora Weber... — a voz de Thomas saiu baixa, cortante. — Presumo que tenha refletido sobre a nossa conversa de mais cedo.
Heinrike ergueu o queixo. A dor física e a humilhação que sofrera no chão da sala de estar haviam purgado qualquer vestígio de dúvida de seu espírito. Seus olhos castanhos, outrora opacos pela submissão, agora brilhavam com uma resolução fria e desesperada, uma súplica silenciosa por justiça que ela depositava inteiramente sobre o homem à sua frente.
— Eu vou fazer o que for necessário, senhor Müller — ela declarou, a voz perfeitamente firme, embora sussurrada. — Eu vou entrar naquele escritório e vou extrair cada recibo, cada registro e cada livro de contabilidade que Andreas esconde. Não medirei esforços até ver aquele monstro apodrecendo atrás das grades de uma cela de segurança máxima.
Thomas sustentou o olhar dela por longos segundos. Ele soltou uma lufada de ar quente, ríspida, misturando indignação pelo estado físico da mulher e uma fria satisfação operacional. O jogo agora era de vida ou morte.
Aproveitando o instante em que a garçonete se afastava em direção ao balcão interno, Thomas deslizou a mão direita para o interior do sobretudo e puxou um objeto metálico pesado e discreto: um canivete tático de fabricação militar, com cabo de aço escurecido. Ele o depositou sobre a mesa com um clique quase imperceptível, empurrando-o na direção dela.
Heinrike recuou o corpo contra o estofado, os olhos arregalados ao focar no metal.
— O que significa isso? — ela indagou, a voz falhando enquanto mantinha as mãos longe do objeto. — O senhor espera que eu execute o meu marido no meio da noite?
— Eu espero, do fundo da minha alma, que a senhora nunca precise desdobrar essa lâmina, senhora Weber — Thomas respondeu, o tom de voz plano e terrivelmente realista. — Mas nas circunstâncias atuais do Reich, quando você decide cruzar o umbral do escritório daquele homem para roubar as provas que Berlim quer esconder... não existe mais caminho de volta. A sua segurança é de sua inteira responsabilidade agora. Pegue.
Heinrike encarou o canivete sobre a madeira polida. O objeto parecia pulsar diante de si, um testemunho físico de que ela acabara de abdicar de sua vida aristocrática para se tornar uma conspiradora. Lentamente, ela estendeu os dedos trêmulos, envolveu o cabo de metal frio e o deslizou para o fundo de sua bolsa de veludo.
Thomas ajeitou a lapela do paletó e começou a se levantar, mantendo o semblante impassível de quem apenas fechava um acordo burocrático.
— Esteja preparada para lidar com a gravidade das consequências, senhora Weber — ele alertou, olhando-a de cima. — Nós nos encontraremos novamente em breve. Não me procure no meu distrito e não ligue para o meu telefone sob circunstância alguma. A partir de agora, eu irei até você.
Sem esperar uma resposta, o investigador girou nos calcanhares e sumiu através da porta de vidro, misturando-se à névoa escura que engolia as calçadas de Viena.
Heinrike permaneceu estática por mais um minuto. Em seguida, levantou-se lentamente, ajustou o xale sobre a bochecha ferida e abandonou a cafeteria Kranzler sem fazer nenhum pedido. Ela caminhou em direção à noite gélida, sentindo o peso do canivete contra a lateral de seu corpo. A engrenagem havia começado a girar, e ambos sabiam que não haveria retorno.
Viena — Dia seguinte.
No saguão cinzento do edifício residencial, o porteiro idoso ajeitou o casaco e ligou seu rádio portátil sobre o balcão de madeira. Com o olhar atento vigiando o movimento da calçada e os poucos moradores que transitavam pelo hall, ele girou o botão de baquelite com extrema cautela, procurando a frequência exata daquele horário. Olhou duas vezes para os lados, garantindo que nenhum jipe da patrulha estivesse estacionado perto da entrada, e colou o aparelho de metal ao ouvido para abafar o som.
A estática violenta foi subitamente cortada pela voz grave, firme e reverberante do radialista clandestino:
“...Saudações, cidadãos da Viena ocupada. Hoje temos mais um dia para lembrar que, apesar de tudo, ainda estamos vivos diante do caos. Lembrem-se de que mesmo as pequenas vitórias, aquelas que parecem invisíveis aos olhos do opressor, são o prenúncio de algo muito maior...”
No quinto andar do edifício, Thomas Müller estava sentado à mesa da cozinha. Ele segurava a xícara de café com a mão direita sadia, o olhar perdido na fumaça que subia do líquido. Jennifer movia-se silenciosamente ao fundo, lavando a louça na pia. O rádio valvulado da prateleira, sintonizado na mesma baixa frequência, preenchia o espaço com a mesma transmissão metálica:
“...Às vezes, somos forçados a fazer as escolhas mais difíceis e dolorosas de nossas vidas para proteger o que nos resta...”
A quilômetros dali, na opulência fria da mansão, Heinrike Weber estava sentada na beirada da cama de casal. O som pesado dos roncos de Andreas ecoava no quarto escuro. Com as mãos trêmulas, ela abriu a bolsa de veludo sobre o colo e fixou os olhos no cabo de aço escurecido do canivete militar que Thomas lhe entregara. Heinrike olhou de relance para o corpo do marido adormecido, sentindo a bochecha ferida pulsar sob a gaze. Ela soltou uma lufada de ar quente, ríspida, fechou o fecho da bolsa com um clique seco e guardou a lâmina. O pacto estava selado.
“...Mas decidir lutar, erguer-se contra a correnteza, sempre cobra o seu preço...”
No subsolo do alojamento de guarda da fazenda, Erich Schulz estava trancado na cela de isolamento. Ele estava sentado no banco de concreto, com os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça baixa. O sangue seco de seu supercílio cortado manchava a gola da túnica militar desabotoada. Ele encarava o chão úmido, processando o peso da punição e sabendo que sua cobertura dentro daquele perímetro agora estava por um fio.
“...Mas ainda assim, contra toda a lógica da submissão... nós precisamos reagir...”
Na lavoura das Indústrias Weber, o dia de trabalho forçado avançava sob o chicote dos capatazes. Lena Goldstein deu uma breve pausa no movimento mecânico da colheita. Ela ergueu o rosto pálido e, pela primeira vez em dezoito anos de cativeiro, admirou a claridade do céu azul de inverno que rasgava as nuvens. Lembrou-se da promessa que fizera a Martha sob o luar do alojamento, e um leve, quase imperceptível sorriso desenhou-se em seus lábios rachados pelo frio.
“...Saibam que nós iremos vencer. Mesmo que o medo paralise os que estão ao seu lado, mesmo que as pessoas ao seu redor desistam da caminhada... segurem firme. Nós estamos quase lá...”
No saguão do prédio, o estalo de botas de couro no cascalho da entrada fez o porteiro sobressaltar-se. Com um movimento rápido e paranoico, ele girou o seletor, cortando a transmissão de uma vez e enfiando o aparelho portátil na gaveta sob o balcão, voltando a adotar sua postura de indiferença servil.
A transmissão havia terminado para a cidade.
Mas em uma sala escura, cercada por paredes acústicas improvisadas com caixas de ovos e equipamentos de rádio de baixa frequência que piscavam na penumbra, a silhueta misteriosa aproximou-se do microfone.
A pessoa inclinou-se ligeiramente sobre o transmissor e sussurrou as palavras finais com uma solenidade gélida:
— Aqui falou... o Der Reak.
Com um estalo seco, o radialista estendeu a mão enluvada, desligou a mesa de frequência e retirou os fones de ouvido, deixando-os sobre a bancada. Soltou um suspiro longo, cansado, que evaporou no ar frio da sala. Em seguida, estendeu o braço para apagar a única lâmpada vermelha que iluminava os aparelhos, mergulhando o ambiente na escuridão completa.
A silhueta moveu-se em silêncio até a saída, abriu a porta de ferro, cruzou o limiar e fechou a madeira atrás de si, trancando o segredo no escuro.
Fale com o autor