A Rapariga dos Headphones Brancos
2 Os Mortos Não Mentem
Haruto caiu da cadeira com violência, o impacto contra o chão ecoando pelo pequeno apartamento como um disparo seco que pareceu rasgar o silêncio da noite. Durante um instante, tudo ficou suspenso, a respiração, o pensamento, até o próprio tempo parecia ter parado e depois veio o vazio absoluto, como se qualquer presença que estivesse ali tivesse sido sugada de repente para fora do quarto. O sussurro que antes lhe roçara o ouvido desapareceu por completo, deixando apenas um silêncio tão pesado que parecia quase físico.
Ficou imóvel no chão durante alguns segundos, incapaz de se levantar, com o coração a bater de forma descontrolada, tão rápida e intensa que lhe doía no peito.
O corpo tremia-lhe de forma involuntária, como se ainda estivesse a reagir a algo que já não estava presente, e os olhos percorriam o quarto em busca de qualquer sinal, qualquer detalhe que confirmasse que não tinha imaginado tudo. Mas não havia nada. Apenas o mesmo espaço de sempre: a secretária desorganizada, o monitor negro o silencioso, os livros espalhados, a chuva constante lá fora a bater contra o vidro.
No entanto, Haruto sabia. Não era dúvida. Era certeza. Aquela presença tinha estado ali. Não era uma sombra mal interpretada nem um truque da mente exausta, nem o tipo de ilusão que se dissipa com racionalidade. A voz tinha falado junto ao seu ouvido com uma proximidade impossível de ignorar, tão real que ainda sentia o vestígio do frio que acompanhara aquelas palavras, como se o próprio ar tivesse sido contaminado por algo que não pertencia àquele mundo.
Levantou-se lentamente, sentindo as pernas instáveis, como se cada movimento exigisse um esforço maior do que o habitual. Lá fora, a chuva intensificara-se, batendo com mais força contra o vidro, e por momentos pareceu-lhe que não era apenas água era algo mais agressivo, quase deliberado, como se o mundo exterior estivesse a tentar forçar a entrada no interior do apartamento.
Passou a mão pelo rosto, tentando organizar pensamentos que se dispersavam como fumo. Precisava de lógica. Precisava de uma explicação. Era assim que sempre funcionara. Era assim que sempre tinha conseguido manter o controlo.
Sentou-se novamente diante do computador e abriu o navegador com movimentos quase automáticos, procurando agarrar-se a qualquer coisa que o afastasse daquela sensação crescente de irrealidade.
Pesquisou tudo o que encontrou relacionado com a “Faixa Amaldiçoada”, desta vez evitando fóruns e relatos anónimos, focando-se apenas em fontes mais concretas: notícias, registos oficiais, relatórios médicos, qualquer vestígio que pudesse transformar aquilo numa sequência compreensível de eventos. Durante quase duas horas mergulhou nessa investigação, e quanto mais lia, mais difícil se tornava manter a ideia de que tudo aquilo não passava de coincidência.
Os dados eram perturbadores. Mortes estranhas estavam registadas em várias cidades do Japão, sem qualquer ligação aparente entre si: Tóquio, Osaka, Quioto, Nagoya. Vítimas sem sinais de violência, sem doenças conhecidas, sem causas claras. Mas havia um padrão que se repetia de forma inquietante em todas as ocorrências, headphones brancos. Sempre presentes. Sempre colocados nos ouvidos das vítimas, como se alguém os tivesse colocado cuidadosamente depois da morte, num gesto quase ritualista, frio e metódico.
Haruto abriu uma notícia de quatro anos antes. Uma estudante universitária tinha sido encontrada morta no seu dormitório. Sem ferimentos, sem explicações médicas, sem qualquer pista que pudesse justificar o fim súbito da sua vida. A fotografia do local era simples, quase banal, mostrando apenas a porta entreaberta do quarto. Mas havia algo na imagem que o fez parar imediatamente: na parede junto ao espelho, uma frase estava escrita. A polícia tinha tentado ocultá-la, mas ainda era parcialmente visível.
“Ela sorriu.”
Haruto sentiu um arrepio imediato, profundo, que não conseguiu ignorar. Fechou a notícia quase instintivamente e abriu outra, depois outra, depois outra.
O padrão repetia-se com uma consistência perturbadora. Em alguns casos, a frase aparecia escrita num caderno aberto deixado na cena. Noutras, surgia na parede, como se tivesse sido gravada à pressa. Numa ocorrência particularmente inquietante, tinha sido encontrada escrita no ecrã de um telemóvel, com uma substância escura que nunca foi oficialmente identificada. Sempre a mesma frase. Sempre a mesma mensagem.
“Ela sorriu.”
Quando já se preparava para desistir daquela pesquisa, encontrou algo diferente. Uma referência rara, quase esquecida: uma sobrevivente. Pela primeira vez, havia registo de alguém que tinha ouvido a faixa e não tinha morrido.
O nome era Sakura Takahashi. O artigo era antigo, com quase uma década, e indicava uma localização aproximada numa pequena cidade costeira na província de Chiba. Haruto leu e releu a informação várias vezes, como se tivesse medo de a perder ou de estar a interpretar mal o que via.
A decisão foi imediata, quase instintiva. Precisava de falar com ela. Precisava de compreender o que realmente estava a acontecer, porque se aquilo fosse, de facto, o início de algo que outras pessoas tinham descrito como uma maldição, então ele já estava demasiado envolvido para recuar.
Na manhã seguinte, o céu permanecia pesado e cinzento, como se a luz tivesse sido permanentemente filtrada por uma camada espessa de nuvens que não deixavam espaço para qualquer esperança de claridade. Haruto quase não tinha dormido. Sempre que fechava os olhos, via-a. A rapariga. O sorriso demasiado largo. Os olhos vazios. A expressão que não parecia humana, mas sim uma tentativa de imitar algo que nunca tinha compreendido verdadeiramente.
Entrou no comboio pouco depois das oito da manhã. O vagão estava cheio de pessoas comuns, absorvidas nas suas rotinas: homens de negócios a olhar para telemóveis, estudantes com auscultadores, turistas a observar mapas. A normalidade daquele cenário trouxe-lhe um breve momento de conforto irracional, como se o simples facto de o mundo continuar a funcionar fosse prova de que tudo aquilo não passava de stress acumulado e imaginação cansada.
Mas essa sensação durou pouco.
Do outro lado do vagão, entre os passageiros, Haruto viu uma rapariga a observá-lo. Cabelos negros, longos, cabeça ligeiramente inclinada. O olhar fixo, demasiado direto, demasiado consciente. O sangue gelou-lhe no corpo. Piscou os olhos uma vez, involuntariamente, e no instante seguinte ela já não estava lá. O lugar encontrava-se vazio, como se nunca tivesse sido ocupado.
O nó no estômago apertou-se com força. Não havia espaço para dúvidas. Aquilo não estava a terminar. Estava apenas a começar.
Chegou a Chiba perto do meio-dia. A cidade tinha uma atmosfera estranha, quase esquecida pelo tempo, com ruas estreitas e edifícios antigos que pareciam resistir mais por hábito do que por manutenção. Pequenos estabelecimentos familiares alinhavam-se ao longo das vias, e ao longe o mar surgia como uma massa cinzenta e inquieta, fundindo-se com o céu num horizonte indistinto e opressivo.
A morada levou-o até uma livraria pequena, desgastada pelo tempo, com tinta a descascar nas paredes exteriores e um letreiro antigo que se balançava ligeiramente com o vento. Haruto hesitou apenas um instante antes de entrar. O sino da porta anunciou a sua presença com um som metálico e suave, e uma mulher levantou os olhos por trás do balcão.
Devia ter pouco mais de trinta anos, mas havia algo no seu olhar que a fazia parecer mais velha, como se tivesse acumulado um tipo de cansaço que não era físico, mas emocional. Um desgaste profundo, permanente. E foi isso que mais chamou a atenção de Haruto, os olhos dela. Olhos de alguém que já tinha deixado de acreditar em descanso.
— Sakura Takahashi? — perguntou ele.
A mulher congelou. Não foi uma reação subtil, foi imediata, quase violenta, como se aquele nome tivesse ativado algo que preferia manter enterrado. Depois de alguns segundos de silêncio, respondeu com cautela.
— Quem pergunta?
— O meu nome é Haruto Nakamura.
A expressão dela mudou de imediato. O rosto perdeu cor, os olhos abriram-se ligeiramente, e uma tensão evidente instalou-se no seu corpo. Não era apenas medo. Era reconhecimento.
— Ouviste a faixa? — perguntou ela.
Haruto sentiu um arrepio atravessar-lhe o corpo.
— Sim.
Sakura fechou os olhos por um momento, como se já soubesse exatamente o que isso significava. Quando os voltou a abrir, havia neles uma mistura de resignação e terror.
— Há quanto tempo?
— Menos de vinte e quatro horas.
A mulher levantou-se de imediato, caminhando até à porta para virar a placa para “Fechado” e puxar as cortinas das janelas. O ambiente na livraria mudou instantaneamente, ficando mais pesado, mais fechado, como se o espaço tivesse perdido qualquer ligação com o exterior. Quando regressou ao balcão, estava visivelmente mais tensa.
— Então ela já te encontrou.
— Quem?
Sakura olhou diretamente para ele.
— A rapariga.
Haruto engoliu em seco.
— Eu vi-a ontem à noite.
O silêncio que se seguiu foi profundo. Sakura não respondeu de imediato. Quando falou, a voz dela era quase um sussurro.
— Eu também a vi.
— O que é ela?
— Não sei.
— Um espírito?
— Talvez.
— Uma maldição?
— Talvez.
— Então como é que sobreviveste?
Foi nesse momento que Sakura pareceu perder qualquer resquício de controlo. Os olhos encheram-se de lágrimas, as mãos começaram a tremer, e a voz falhou-lhe antes de conseguir responder.
— Eu não sobrevivi.
O silêncio que caiu entre ambos foi absoluto.
— O quê?! Como assim?
Sakura olhou para o chão, como se não conseguisse suportar o peso das próprias palavras.
— Há dez anos ela matou-me.
Haruto sentiu o frio atravessar-lhe a espinha.
— Mas estás aqui.
— Eu sei.
— E viva.
A mulher abanou lentamente a cabeça.
— Não. Eu apenas continuo aqui.
Antes que Haruto pudesse responder, um som ecoou vindo do andar superior. Um passo. Lento. Pesado. A madeira rangeu com um estalido antigo. Depois outro passo. E outro. Alguém estava a descer as escadas.
Sakura ficou completamente branca, como se toda a cor tivesse sido retirada do seu rosto num único instante. Os olhos fixaram-se no topo das escadas com terror absoluto.
— Ela encontrou-te mais depressa do que encontrou os outros. — sussurrou.
Outro passo ecoou. Mais próximo. Mais pesado.
E então surgiu a melodia. Suave. Distante. Inconfundível. A mesma faixa.
Haruto reconheceu-a imediatamente. Porque a música vinha do andar de cima.
E alguém estava a descer as escadas. Degrau por degrau. Na direção deles.
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