A melodia continuava a ecoar pelo interior da livraria como uma presença invisível que não precisava de corpo para ocupar espaço. Era lenta, suave, quase bonita, e era precisamente essa beleza impossível que a tornava tão perturbadora, como se algo profundamente errado tivesse aprendido a imitar a serenidade humana sem nunca a ter compreendido verdadeiramente. Haruto sentia cada nota atravessar o ar como uma agulha fria, penetrando o silêncio espesso do edifício e instalando-se na sua mente de forma insistente, quase íntima, como se a música já fizesse parte dele antes mesmo de a ter ouvido pela primeira vez.

Os degraus da escada continuavam a ranger, um a um, num ritmo deliberadamente lento, sem pressa, sem hesitação, como se quem descia não tivesse qualquer urgência em chegar ao destino, ou como se soubesse que o simples ato de se aproximar já era suficiente para provocar medo.

Sakura permanecia imóvel ao lado dele, o corpo rígido, o rosto completamente desprovido de cor, com os olhos fixos na escuridão do piso superior como se estivesse a olhar diretamente para algo que não pertencia ao mundo dos vivos.

— Sakura… — sussurrou Haruto, num tom quase involuntário, mais reflexo do que intenção.

Ela não respondeu. Nem um gesto. Nem um piscar de olhos. Apenas o som da madeira a ceder sob passos invisíveis, cada vez mais próximos, acompanhado pela melodia que agora preenchia tudo, impossível de ignorar, impossível de confundir com qualquer outra coisa. Era a mesma faixa. A mesma sequência perfeita e melancólica que ele ouvira no ficheiro. Não havia variações, não havia distorções, não havia falhas. Era como se a gravação estivesse a ser reproduzida diretamente a partir da realidade, sem qualquer mediação.

Subitamente, Sakura agarrou-o pelo braço com uma força inesperada, tão intensa que Haruto sentiu as unhas dela cravarem-lhe a pele através da roupa. O gesto foi quase desesperado, como se fosse a única coisa que a impedia de desmoronar.

— Não olhes.

— O quê?

— Seja o que for que apareça… não olhes para os olhos dela.

Haruto sentiu um aperto no estômago, uma reação instintiva que não conseguia racionalizar, como se aquelas palavras tivessem ativado algo primitivo dentro dele, algo que reconhecia perigo antes mesmo de o compreender.

— Sakura…

— Promete.

Hesitou apenas um segundo, mas esse segundo pareceu demasiado longo, demasiado carregado de significado que ainda não conseguia decifrar. Depois, assentiu lentamente.

— Prometo.

No instante seguinte, o último degrau rangeu.

Silêncio. A música parou.

Não de forma gradual, não como uma transição natural, mas de forma abrupta, como se alguém tivesse cortado o próprio som da realidade. Durante alguns segundos não aconteceu absolutamente nada. Nenhum movimento. Nenhum som. Nenhuma presença. Apenas o vazio absoluto, pesado, quase opressivo, como se o mundo estivesse à espera de algo que ainda não tinha decidido revelar.

E então o sino da porta da entrada tocou.

Ambos reagiram de imediato, virando-se com violência. Haruto sentiu o corpo inteiro enrijecer ao olhar para a entrada da livraria, porque a porta estava fechada. Não havia ninguém do lado de fora. Não havia movimento na rua. Ainda assim, o sino continuava a oscilar lentamente, como se tivesse sido tocado por uma mão invisível, repetindo o gesto de uma presença que não pertencia ao mundo físico.

Sakura fechou os olhos por um momento, como se já conhecesse o resultado inevitável.

— Ela está aqui.

Haruto sentiu um arrepio subir-lhe pela coluna vertebral, frio e profundo, como se algo tivesse passado por dentro dele em vez de apenas por cima da pele. Olhou em volta, percorrendo cada canto da livraria: as prateleiras carregadas de livros antigos, os corredores estreitos entre móveis, as sombras densas acumuladas nos cantos mais afastados. Mas não havia ninguém. Ainda assim, o ambiente tinha mudado. O ar parecia mais pesado, mais denso, como se o próprio espaço tivesse sido preenchido por algo que não devia existir ali.

Foi então que ouviu uma risada.

Baixa. Infantil. Distante o suficiente para ser incerta, mas próxima o suficiente para não poder ser ignorada. Haruto virou-se de imediato, procurando a origem do som, mas não encontrou nada. No entanto, num movimento súbito e violento, uma fila inteira de livros caiu de uma das estantes, espalhando-se pelo chão com um estrondo seco que ecoou pelo espaço fechado.

Sakura não se mexeu. Não reagiu. Apenas observava, com uma expressão que misturava resignação e exaustão, como alguém que já tinha perdido há muito a capacidade de se surpreender com o que estava a acontecer.

— Há quanto tempo acontece isto? — perguntou Haruto, ainda a tentar processar o que via.

— Dez anos.

A resposta saiu calma demais, vazia demais, como se o tempo tivesse perdido qualquer significado para ela.

— Dez anos?!

— Desde que ouvi a gravação.

O silêncio que se seguiu foi pesado, quase sufocante.

— E nunca desapareceu?

Sakura abanou lentamente a cabeça.

— Há dias em que não a vejo. Há semanas em que penso que finalmente acabou. Mas depois volta a acontecer. Volto a ouvi-la. Volto a vê-la. E lembro-me de que ela ainda está aqui.

A voz dela tremia ligeiramente, mas não era apenas medo. Era desgaste. Um cansaço profundo, acumulado ao longo de anos que não tinham oferecido qualquer pausa, qualquer descanso, qualquer esperança de fim.

Haruto sentiu algo estranho crescer dentro de si. Não era apenas medo. Era necessidade. A necessidade de compreender.

— Quem era ela?

Sakura olhou para ele durante alguns segundos, como se estivesse a decidir se devia ou não continuar. Depois virou-se e dirigiu-se a uma porta nos fundos da livraria.

— Segue-me.

O espaço atrás da loja era pequeno, fechado, quase claustrofóbico. Parecia um arquivo improvisado, organizado com uma obsessão meticulosa: caixas alinhadas, pastas etiquetadas, fotografias cuidadosamente guardadas, recortes de jornais preservados com um cuidado quase ritual. Haruto percebeu imediatamente que aquilo não era apenas investigação. Era obsessão. Anos de vida dedicados a algo que não tinha resposta.

Sakura abriu uma gaveta metálica e retirou uma pasta grossa, colocando-a sobre a mesa com um peso simbólico que parecia maior do que o próprio objeto.

— Foi aqui que tudo começou.

Haruto abriu a pasta.

A primeira fotografia mostrava uma escola antiga, isolada, construída durante os anos oitenta numa zona rural da província de Yamanashi. A imagem seguinte mostrava uma rapariga. Devia ter cerca de catorze ou quinze anos. Cabelos negros, pele pálida, olhos grandes e headphones brancos. E, apesar da simplicidade da fotografia, havia algo naquele rosto que fez Haruto sentir um aperto imediato no peito.

Ele conhecia-a.

Mesmo antes de a nomearem.

— O nome dela era Sayuri Fujimura.

— Ela existiu?

— Sim.

Haruto continuou a folhear. Documentos escolares. Registos antigos. Fotografias de turma. Relatórios fragmentados. E, finalmente, uma notícia datada de vinte anos antes. O título era direto, seco, quase burocrático: “Estudante desaparece após alegado incidente de bullying.”

Haruto levantou o olhar.

— Bullying?

Sakura assentiu.

— Durante anos. Ninguém fez nada. Nem os professores. Nem os pais. Nem os colegas. Sayuri tornou-se um alvo constante. Era diferente, silenciosa, isolada. Passava horas a ouvir música. Quase não falava. Isso foi suficiente para a tornarem num alvo.

Haruto sentiu desconforto crescente.

— E depois?

Sakura respirou fundo.

— Um dia desapareceu.

Silêncio.

— Nunca encontraram o corpo. Nunca encontraram provas. Nada.

O vazio daquela afirmação foi mais pesado do que qualquer explicação.

— Dois anos depois começaram as mortes. — acrescentou Sakura.

Haruto sentiu o coração acelerar.

— As vítimas…

— Eram todos antigos colegas dela.

A confirmação caiu sobre ele como um impacto físico.

— Todos?

— Um por um. Sem exceção.

Os mesmos padrões. As mesmas mortes inexplicáveis. Os mesmos headphones brancos. A mesma frase repetida em locais diferentes, como uma assinatura inevitável.

“Ela sorriu.”

Haruto sentiu o suor frio a escorrer-lhe pelas costas. A história deixava de ser apenas estranha. Começava a tornar-se lógica de uma forma terrível.

Porque havia uma origem. Uma identidade. Um motivo. E isso tornava tudo mais perigoso.

— Porque é que a gravação existe?

Sakura abriu outra pasta e retirou uma cassete antiga, desgastada pelo tempo, com o plástico amarelado e marcas de uso.

— Porque alguém gravou a voz dela.

Haruto ficou imóvel.

— O quê?

— Foi encontrada meses depois do desaparecimento. Pertencia ao clube de música da escola. Contém a última gravação feita por Sayuri.

Haruto olhou para o objeto com uma estranha sensação de atração, como se a cassete não fosse apenas um objeto, mas algo que o chamava.

— A faixa foi criada a partir disto?

— Sim.

— Quem a colocou na internet?

Sakura hesitou.

— Não sei. Ninguém sabe. Apareceu há cerca de quinze anos. E desde então continua a espalhar-se. Mesmo quando é apagada. Mesmo quando servidores desaparecem. Mesmo quando tudo é destruído. — Fez uma pausa. — Ela volta sempre.

Um estrondo violento ecoou da livraria. Ambos congelaram. Outro impacto. Mais forte. Seguido de vidro a partir-se.

Haruto correu para a porta. Quando chegou à loja, ficou sem respiração. A montra estava destruída.

Fragmentos de vidro cobriam o chão como gelo estilhaçado. A chuva entrava livremente, molhando tudo. Mas não foi isso que o fez parar.

Na superfície quebrada do vidro, havia uma frase escrita do lado de dentro, como se tivesse sido desenhada por um dedo invisível.

“Ele começou a lembrar-se.”

Haruto ficou imóvel.

— Lembrar-me de quê? — murmurou.

Atrás dele, Sakura empalideceu de forma imediata, mais do que alguma vez tinha acontecido antes.

Porque naquele momento percebeu algo. Algo que Haruto ainda não sabia. Algo que a rapariga dos headphones queria que ele recordasse.

E, pela primeira vez, Sakura não parecia temer a entidade. Parecia temer Haruto.