A Rapariga dos Headphones Brancos
4 A Memória que Nunca Existiu
A chuva caía com violência através da montra destruída, entrando pela abertura como se o próprio céu tivesse perdido qualquer intenção de contenção. O vento invadia a livraria de forma caótica, espalhando papéis pelo chão encharcado e fazendo oscilar as lâmpadas do tecto num movimento irregular, quase doentio, que lançava sombras instáveis sobre as paredes. O som do vidro estilhaçado misturava-se com o bater constante da chuva, criando uma atmosfera pesada, sufocante, que parecia afastar qualquer noção de segurança ou normalidade.
Mas Haruto mal reparava nisso.
Estava completamente imóvel, de pé no meio do caos, a olhar fixamente para as palavras escritas no vidro partido como se fossem a única coisa que ainda fazia sentido naquele momento.
“Ele começou a lembrar-se.”
Atrás dele, Sakura permanecia em silêncio. Não era um silêncio normal, nem confortável, nem neutro. Era um silêncio carregado de tensão, medo e uma espécie de reconhecimento que não queria ser dito em voz alta. Um silêncio que não pertencia apenas ao momento, mas a algo muito mais antigo.
Haruto virou-se lentamente.
— Porque estás a olhar para mim assim?
Sakura não respondeu de imediato. Os olhos dela estavam fixos nele de uma forma estranha, não como alguém que olha para outra pessoa pela primeira vez, mas como alguém que tenta confirmar uma suspeita que já vinha a crescer há muito tempo. Havia ali algo desconfortável, quase clínico, como se estivesse a observar um erro no mundo que ainda não tinha decidido se era real ou impossível.
— Sakura…
Ela respirou fundo, como se estivesse a preparar-se para dizer algo que preferia não ter de dizer.
— Porque eu sei quem tu és.
Haruto soltou uma gargalhada nervosa, curta e forçada, mais reflexo de defesa do que de humor.
— Isso é impossível.
— Não.
— Acabámos de nos conhecer.
— Não foi hoje que te vi pela primeira vez.
O coração de Haruto falhou uma batida. Não de forma metafórica, mas como uma sensação física, um vazio súbito seguido de um impacto interno que o fez sentir-se desorientado por um instante. Uma corrente estranha atravessou-lhe o corpo, leve mas intensa, como se algo tivesse sido ligado dentro dele sem autorização.
— O que queres dizer?
Sakura afastou-se ligeiramente e dirigiu-se a uma das mesas no centro da sala. Abriu uma pasta antiga com movimentos lentos e deliberados, como se cada gesto fosse pesado. Retirou de dentro uma fotografia envelhecida e colocou-a diante dele sem dizer mais nada.
Haruto olhou.
A imagem mostrava um grupo de alunos numa excursão escolar. Uniformes antigos, poses descontraídas, sorrisos típicos de fotografias de grupo que ninguém leva demasiado a sério. À primeira vista não havia nada de especial. Mas, ao fundo da imagem, parcialmente desfocado, estava uma figura que lhe fez o sangue gelar.
Um rapaz. Pequeno. Talvez com dez anos. Cabelo escuro. Olhos castanhos. Um rosto que, apesar da idade, lhe parecia familiar de uma forma perturbadora.
Haruto ficou sem ar. Era ele. Ou algo que parecia ser ele.
— Isto não é possível…
— A fotografia foi tirada há vinte anos — respondeu Sakura calmamente.
— Eu não tinha sequer nascido…
A frase morreu-lhe na garganta.
Porque nesse exacto momento, uma dor violenta explodiu-lhe na cabeça, como se algo tivesse sido aberto à força dentro da sua mente. As pernas cederam ligeiramente e a visão ficou desfocada, fragmentada, como um ecrã a falhar. O mundo à sua volta pareceu distorcer-se, afastar-se, perder consistência.
E então veio a primeira imagem.
Uma escola. Corredores antigos. Paredes gastas pelo tempo. O som distante de crianças a rir.
Depois, uma rapariga. Sozinha. Sentada junto a uma janela. Headphones brancos sobre os ouvidos.
Haruto levou as mãos à cabeça instintivamente, como se pudesse impedir aquilo de entrar.
— O que está a acontecer?
A dor intensificou-se. Mais uma imagem surgiu. Mais nítida. Mais real. A mesma rapariga. Sayuri. Viva.
Não como um espírito. Não como uma entidade. Mas como uma estudante comum, presente, concreta, vulnerável. A cabeça baixa enquanto um grupo de alunos a observava e ria dela. O som das risadas parecia ecoar dentro da própria mente de Haruto, distorcido, cruel, repetitivo.
E então ouviu uma voz.
Uma voz infantil. Mas familiar. Demasiado familiar. A sua própria voz.
— Olhem para ela.
A imagem desapareceu de imediato.
Haruto caiu de joelhos no chão, ofegante, como se tivesse sido devolvido violentamente ao presente. O coração batia descontroladamente, descompassado, quase doloroso.
— Não…
Sakura fechou os olhos lentamente.
— Agora percebes porque tenho medo.
— Isso não aconteceu.
— Aconteceu, sim
— Não!
— Aconteceu.
O silêncio entre os dois foi pesado, quase insuportável. Haruto levantou-se bruscamente, com o corpo ainda instável.
— Eu nunca estive naquela escola!
Sakura olhou para ele durante alguns segundos.
— Tens a certeza?
A pergunta atingiu-o como um golpe direto, não pela agressividade, mas pela simplicidade. Pela forma como abria uma porta que ele não queria abrir. Pela forma como deixava de ser uma acusação e se tornava uma dúvida.
E pela primeira vez desde que tudo começara… Haruto não tinha resposta.
Nessa noite regressaram ao arquivo da livraria. A chuva não tinha abrandado, continuava a cair de forma constante, como se o mundo exterior tivesse entrado num estado de colapso silencioso. O céu era uma massa negra suspensa sobre a cidade costeira, sem estrelas, sem profundidade, sem qualquer promessa de luz.
Dentro da pequena sala dos fundos, Haruto procurava respostas de forma quase desesperada. Abriu caixas, pastas, dossiers antigos, folheando documentos sem critério, apenas guiado pela necessidade de encontrar algo que contradissesse aquilo que tinha visto.
E então encontrou.
Uma caixa pequena, escondida numa prateleira inferior, quase esquecida. Dentro dela havia um álbum fotográfico antigo, com capa gasta e páginas amareladas pelo tempo. Haruto abriu-o lentamente.
Fotografias de famílias. Eventos escolares. Professores. Alunos. Até que parou.
O ar pareceu desaparecer-lhe dos pulmões.
Sayuri estava lá. No centro de uma fotografia. Jovem. Viva. Real. E ao lado dela… Um rapaz. Sorridente. Com a mão pousada no ombro dela. Haruto.
Ou alguém com o seu rosto. O álbum caiu-lhe das mãos.
— Não…
O mundo começou a rodar. Outra memória surgiu. Mais intensa. Mais violenta. Uma sala de aula.
Risadas. Um professor a ignorar o que acontecia. E ele. Ele próprio. Mais novo. A apontar para Sayuri. A incentivar os outros.
A rir. A participar. A memória desapareceu. Mas outra surgiu imediatamente.
Sayuri a correr pelos corredores. A chorar.
Passos atrás dela. Muitos. E entre eles… Haruto. Ou algo que era ele. A persegui-la.
A memória terminou de forma abrupta, deixando apenas vazio e náusea. Haruto sentiu o corpo rejeitar tudo aquilo.
— Não…
Sakura observava-o em silêncio.
Não com surpresa. Não com compaixão. Mas com reconhecimento.
— Eu conheço essa expressão.
— O quê?
— É a mesma que vi nos outros.
— Outros?
— Os sobreviventes.
Haruto levantou os olhos, com dificuldade.
— Havia mais?
— Sim. Poucos. Mas existiram.
Sakura fez uma pausa.
— Todos descobriram a mesma coisa. Todos tinham alguma ligação a Sayuri. Directa ou indirecta. Todos fizeram parte do que aconteceu naquela escola.
O silêncio tornou-se absoluto.
— Estás a dizer que eu…
— Talvez.
— Não.
— Talvez.
— Eu nunca a conheci.
Sakura inclinou ligeiramente a cabeça.
— Então porque é que ela te está a mostrar memórias?
A pergunta ficou suspensa no ar, sem resposta possível. Porque Haruto não tinha nenhuma.
Já passava da meia-noite quando aconteceu. As luzes apagaram-se. Todas ao mesmo tempo. Sem aviso. Sem falha técnica. Sem explicação.
A livraria mergulhou numa escuridão total, profunda, quase artificial. O som da chuva desapareceu por completo, como se alguém tivesse cortado a ligação do mundo exterior. O silêncio tornou-se absoluto.
Haruto ficou imóvel. Conseguia ouvir apenas a própria respiração. E a de Sakura.
Nada mais. Depois surgiu um terceiro som. Uma respiração diferente. Mais lenta. Mais profunda. Mesmo atrás deles.
Haruto sentiu o sangue gelar. Não precisava de olhar. Sabia. Ela estava ali.
A temperatura caiu de forma abrupta, como se o ar tivesse sido drenado do espaço. Respirar tornou-se difícil, quase doloroso. E então a melodia começou.
Muito perto. Demasiado perto. Como se alguém estivesse a cantarolar junto ao seu ouvido.
Haruto fechou os olhos. Lembrando-se da promessa. Não olhar. Não olhar para os olhos dela.
Mas desta vez era diferente. A presença não parecia agressiva. Parecia… triste. Profundamente triste.
— Porque te esqueceste de mim?
Haruto congelou. A voz era dela. Sayuri.
— Eu não…
— Porque me deixaste sozinha?
A escuridão à volta parecia mover-se, como se tivesse vida própria. Não era apenas ausência de luz. Era algo ativo, consciente, observador.
— Eu não me lembro…
Um soluço ecoou no espaço. Baixo. Partido. Cheio de dor.
— Foi isso que todos disseram.
Haruto sentiu lágrimas a formar-se sem perceber porquê. Não de medo, mas de algo mais difícil de definir. Algo próximo de culpa sem origem clara.
E então compreendeu, de forma fragmentada, incompleta, mas inevitável. Talvez Sayuri não estivesse apenas a matar. Talvez estivesse a procurar. Alguém que a recordas se. Alguém que reconhecesse o que lhe fizeram. Alguém que não a esquecesse.
E então, como se o mundo tivesse decidido reiniciar-se, a escuridão desapareceu. As luzes voltaram. A chuva regressou. O som do mundo restaurou-se.
Mas na mesa, algo novo estava agora presente. Uma cassete. Velha. Gasta. Com uma etiqueta escrita à mão.
Haruto aproximou-se lentamente. Leu. E sentiu o coração parar.
“Última Gravação de Sayuri Fujimura — Não reproduzir.”
E por baixo, numa caligrafia diferente, mais recente, alguém tinha acrescentado:
“A verdade começa aos 17 minutos.”
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