A Rapariga dos Headphones Brancos
5 A Rapariga com Headphones Brancos
Durante vários segundos, ninguém se mexeu, como se o próprio tempo tivesse decidido suspender-se dentro da pequena sala dos fundos da livraria. A cassete permanecia sobre a mesa, imóvel, silenciosa, mas a sua simples existência parecia alterar a densidade do ar, como se cada centímetro daquele espaço tivesse sido contaminado por algo antigo, enterrado e agora inevitavelmente exposto à superfície.
Haruto observava a cassete fixamente, com a sensação clara de que não estava perante um objeto comum, mas sim perante algo que tinha sido colocado ali com um propósito específico, como uma peça final num mecanismo que ele ainda não conseguia compreender por completo.
Ao longo dos últimos dias, tudo aquilo em que acreditava ter controlo tinha começado a desfazer-se de forma lenta e irreversível. As mortes, a maldição, Sayuri, as memórias fragmentadas, a sensação constante de que o passado estava a invadir o presente como uma maré impossível de travar nada disso fazia sentido de forma isolada, mas tudo parecia convergir inevitavelmente para aquele objeto. Para a cassete. Para o último registo de uma rapariga desaparecida há muito tempo, como se ali estivesse escondida a última peça de uma verdade que tinha sido deliberadamente enterrada.
Sakura foi a primeira a quebrar o silêncio, sem desviar o olhar da cassete.
— Não és obrigado a ver e ouvir.
Haruto soltou uma pequena gargalhada seca, sem humor, sem leveza, apenas um reflexo de exaustão acumulada.
— Acho que já ultrapassei a fase em que tenho escolha.
A resposta não trouxe surpresa a Sakura, apenas confirmação. Ambos sabiam que aquilo não era uma decisão. Era uma inevitabilidade. A cassete não tinha sido encontrada por acaso, tal como a gravação anterior, tal como as mensagens, tal como as visões. Nada disso funcionava como coincidência. Era mais parecido com um chamamento, uma convocatória silenciosa que puxava quem estivesse ligado àquela história para um ponto inevitável.
Haruto pegou na cassete com mãos instáveis. O plástico frio parecia mais pesado do que deveria ser, como se transportasse algo para além do próprio objeto. No fundo da sala existia um velho leitor analógico, esquecido pelo tempo mas ainda funcional. Sakura ligou-o, e o aparelho respondeu com um zumbido fraco, quase agonizante, antes de aceitar a cassete. Haruto introduziu-a com cuidado, sentindo uma tensão crescente no ar, como se o próprio ambiente estivesse a prender a respiração.
Durante alguns segundos não aconteceu nada. Depois, um clique seco. E a gravação começou.
Primeiro surgiu apenas ruído. Estático. Irregular. Como uma tentativa falhada de comunicação entre dois mundos diferentes. Depois, lentamente, emergiu uma voz. Suave. Jovem. Frágil. Uma voz que não parecia pertencer a um registo antigo, mas sim a alguém que ainda estava demasiado perto da dor para conseguir escondê-la.
— Se alguém estiver a ouvir isto…
Uma pausa.
— Então provavelmente já aconteceu.
Haruto sentiu um arrepio profundo, não pelo conteúdo em si, mas pela forma como a voz soava. Havia nela uma exaustão que não pertencia apenas ao momento da gravação, mas a algo prolongado, contínuo, como alguém que tinha passado demasiado tempo a tentar sobreviver ao próprio mundo.
— Não sei quanto tempo me resta. Hoje ouvi-os novamente. Estão lá fora. À espera.
A fita oscilou, com pequenas distorções, como se estivesse a lutar contra o próprio tempo.
— Durante anos tentei fingir que não me importava. Mas dói. Dói todos os dias.
As palavras não soavam como uma história. Soavam como uma confissão. E, pela primeira vez desde que tudo começara, Haruto não ouviu uma entidade, nem uma lenda urbana, nem um fenómeno inexplicável. Ouviu uma pessoa. Uma rapariga real, presa dentro de algo que não compreendia.
A voz continuou.
— Talvez eu seja fraca. Talvez seja culpa minha. Talvez eles tenham razão. Mas estou cansada. Muito cansada.
Haruto sentiu um aperto no peito, enquanto fragmentos de memória começavam a emergir sem controlo. Corredores escolares. Risos distantes. Olhares. Comentários cruéis ditos como brincadeira. E ele. Sempre ele. Presente de alguma forma, mesmo quando não participava diretamente. Mesmo quando apenas observava. Mesmo quando escolhia não intervir.
A gravação avançou até ao minuto dezassete.
O ar na sala pareceu mudar. A voz de Sayuri alterou-se de imediato, deixando de ser apenas cansada para se tornar visivelmente assustada, quase quebrada.
— Eles encontraram-me.
Haruto levantou ligeiramente a cabeça, como se aquela frase tivesse mudado a gravidade do mundo.
— Se alguém ouvir isto… não acreditem no que vão dizer. Não desapareci. Não fugi. Não me suicidei.
A voz começou a tremer.
— Eles empurraram-me.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Haruto sentiu o sangue desaparecer-lhe do rosto.
A fita continuou.
— A velha estação de tratamento de água… foi lá. Foi lá que aconteceu.
Sons distantes irromperam na gravação. Passos. Gritos. Algo a cair. E depois, de forma abrupta, o registo terminou.
O leitor parou. Silêncio total.
Sakura estava branca, imóvel, como se a última frase tivesse retirado qualquer vestígio de cor ou energia do seu corpo. Haruto não se mexia. Não respirava de forma consciente. Porque naquele instante, uma verdade simples e devastadora tinha-se imposto sobre tudo o resto.
Nunca tinham encontrado o corpo de Sayuri. Porque nunca tinham procurado no lugar certo. Duas horas depois estavam a conduzir.
A chuva tinha finalmente parado, mas o céu permanecia carregado, pesado, como se a tempestade tivesse apenas mudado de forma e não de existência. A estrada serpenteava por uma zona montanhosa abandonada, onde a vegetação parecia ter engolido lentamente qualquer vestígio de presença humana. Casas antigas surgiam ocasionalmente, metade escondidas pelo crescimento selvagem da natureza, como se o mundo tivesse decidido recuperar aquilo que lhe pertencia.
A antiga estação de tratamento de água apareceu pouco antes do amanhecer. Era uma ruína esquecida. Cercas destruídas. Betão rachado. Estruturas corroídas pelo tempo.
Um lugar onde o silêncio parecia permanente. Um lugar perfeito para esconder algo que nunca devia ser encontrado.
Haruto entrou primeiro.
A lanterna cortava a escuridão em feixes instáveis, revelando corredores cobertos de ferrugem, tubagens partidas e poças de água estagnada que refletiam a luz de forma distorcida. O cheiro era pesado, antigo, como se o próprio espaço estivesse a apodrecer lentamente por dentro. O silêncio era absoluto, demasiado perfeito, demasiado artificial.
Até que ouviram. A melodia. Novamente. Muito distante. Mas inconfundível.
Haruto seguiu o som sem hesitar, descendo corredores, atravessando escadas, avançando por passagens cada vez mais profundas, até que chegaram a uma enorme cisterna subterrânea. O espaço era vasto, vazio, e o eco da lanterna parecia desaparecer antes de encontrar qualquer superfície.
No fundo, havia algo. Uma pequena figura. Sentada. Imóvel.
Haruto desceu lentamente, o coração a bater com violência crescente, cada passo mais pesado do que o anterior. Quando a luz finalmente a alcançou, o mundo pareceu parar.
Era ela. Sayuri. Ou aquilo que restava dela.
Sentada no fundo da cisterna, com o uniforme escolar ainda visível apesar do tempo, os headphones brancos colocados com uma estranha delicadeza sobre os ouvidos, o rosto parcialmente escondido pelos cabelos negros, como se estivesse simplesmente à espera de alguém que nunca chegava.
— Sayuri…
A figura não respondeu. Mas a melodia parou. O silêncio tornou-se absoluto.
Ela levantou a cabeça lentamente, com uma calma quase impossível, como se cada movimento exigisse atravessar algo pesado e invisível. Quando os cabelos se afastaram, Haruto viu os olhos.
Não havia ódio. Não havia raiva. Apenas tristeza.
Uma tristeza tão profunda que parecia não pertencer a um ser humano, mas a algo que tinha sido esquecido durante demasiado tempo.
— Lembraste-te de mim?
A voz não veio da boca dela. Veio diretamente para a mente dele. Haruto sentiu as lágrimas surgir sem compreender porquê.
— Sim.
A figura permaneceu imóvel durante vários segundos.
— Então porque demoraste tanto?
A pergunta não era acusação. Era cansaço. Era dor acumulada. Era o peso de anos sem resposta.
Haruto não tinha nada para oferecer. Nenhuma explicação. Nenhuma defesa. Nenhuma justificação suficiente.
Porque algumas verdades não podem ser corrigidas. Sayuri observou-o em silêncio.
E depois sorriu. Mas não era o sorriso monstruoso das histórias. Não era algo distorcido ou impossível. Era apenas um sorriso triste.
O tipo de sorriso de alguém que queria ter sido visto antes. Que queria ter sido lembrado. Que queria ter existido para alguém.
E então desapareceu. Sem som. Sem luz. Sem violência. Apenas deixou de estar ali. Como nevoeiro que se dissolve ao amanhecer.
Meses depois, a investigação foi oficialmente reaberta. Restos humanos foram encontrados na cisterna.
A história começou a vir ao de cima, fragmentada, incompleta, dolorosa. Nomes surgiram. Registos antigos foram revisitados. Verdades esquecidas começaram a ser reconhecidas. Mas muitas perguntas permaneceram sem resposta, enterradas no mesmo lugar onde tudo começara.
Haruto regressou a Tóquio. Tentou reconstruir a vida. Tentou seguir em frente. Tentou acreditar que tudo tinha terminado.
Mas nunca conseguiu. Porque algumas coisas não desaparecem. Apenas esperam.
Numa noite de Inverno, quase um ano depois, estava novamente sozinho no apartamento, diante do computador, a escrever.
Tal como na primeira noite.
O artigo no ecrã tinha um título simples. “A Rapariga com Headphones Brancos.” Faltava apenas uma frase para terminar.
Haruto pousou os dedos no teclado. Mas antes de escrever… Ouviu uma respiração. Atrás dele. Gelada. Próxima. Familiar. Muito familiar.
O coração parou. Lentamente. Demasiado lentamente. Olhou para o reflexo do monitor.
E viu uma figura. Parada atrás da sua cadeira. Cabelos negros. Pele pálida. Um sorriso impossível.
Mas desta vez… Os headphones já não eram brancos. Eram pretos.
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