A Rapariga dos Headphones Brancos

1 A Faixa que Não Devia Existir


A chuva caía sem qualquer sinal de abrandar sobre Tóquio, como se a cidade estivesse presa num ciclo interminável de água e luz artificial. As gotas deslizavam lentamente pelo vidro do pequeno apartamento de Haruto Nakamura, distorcendo os néones da metrópole numa massa difusa de cores vibrantes que pareciam flutuar na escuridão, quase como se fossem entidades vivas a observar o interior do quarto.

Eram duas e quarenta e três da manhã, mas a cidade recusava-se a dormir apenas ali, naquele espaço fechado e isolado, parecia existir uma bolha de silêncio onde o tempo se tornava mais pesado e o ar mais denso.

Haruto estava sentado à secretária, iluminado apenas pelo brilho frio do monitor do computador. À sua volta, o quarto era um caos organizado de investigação obsessiva: pilhas de livros sobre folclore japonês empilhavam-se de forma instável, recortes de jornais antigos estavam espalhados por entre folhas rabiscadas com notas apressadas, e dezenas de separadores abertos no navegador exibiam fóruns esquecidos, artigos académicos e páginas de teor duvidoso.

Ele esfregou os olhos com cansaço, sentindo a ardência típica de quem já perdeu a noção de quantas horas passou em frente ao ecrã, mas ainda assim continuou. A sua vida recente tinha-se resumido a aquilo uma busca quase compulsiva por histórias, lendas e padrões que a maioria das pessoas descartava como meras invenções.

O seu blogue sobre lendas urbanas modernas não era profissional, mas tinha ganho uma comunidade fiel de leitores que partilhavam o mesmo fascínio pelo estranho. A maior parte das histórias que investigava acabava por se desfazer facilmente: vídeos manipulados, rumores amplificados por fóruns anónimos ou simples exageros repetidos até parecerem reais. No entanto, havia sempre exceções. E uma delas persistia com uma teimosia inquietante, atravessando plataformas, anos e até gerações de utilizadores como uma sombra digital impossível de apagar.

Chamavam-lhe “A Faixa Amaldiçoada”.

Haruto clicou num tópico particularmente antigo, alojado num fórum que parecia abandonado pelo tempo. Criado em 2009, o último comentário tinha sido publicado há três anos, como se a discussão tivesse morrido subitamente sem explicação. A página demorou a carregar, pixel a pixel, até finalmente revelar o conteúdo.

Foi nesse momento que Haruto sentiu um ligeiro desconforto, uma espécie de antecipação irracional que não conseguia justificar. O utilizador original assinava-se como KuroiMimi — “Ouvidos Negros” — e a publicação era estranhamente simples: uma única frase que parecia mais um aviso do que uma história.

“Se encontrarem um ficheiro chamado WhiteSmile.mp3, não o oiçam.”

Haruto soltou uma pequena gargalhada, quase automática, reconhecendo de imediato o padrão típico das creepypastas da internet. Avisos enigmáticos, ficheiros misteriosos, nomes inquietantes era tudo demasiado familiar.

Ainda assim, continuou a ler, mais por hábito do que por curiosidade genuína. Os comentários que se seguiram eram cada vez mais estranhos: alguns utilizadores afirmavam ter ouvido o ficheiro, outros descreviam sons distorcidos, ruídos impossíveis ou melodias que pareciam não pertencer a nenhum instrumento conhecido. Mas o que mais se repetia era sempre o mesmo detalhe perturbador, uma rapariga, uns headphones e um sorriso.

Foi então que encontrou algo que o fez parar por completo: um link ainda ativo. A maioria destes arquivos desaparecia em pouco tempo, apagados ou corrompidos pelo esquecimento digital, mas aquele permanecia intacto, como se estivesse à espera de ser clicado. Haruto hesitou apenas por um segundo antes de sorrir, afastando qualquer desconforto residual.

— Vamos lá ver que brincadeira é esta. — murmurou, clicando no link.

O ficheiro descarregou quase instantaneamente. WhiteSmile.mp3. Dezassete megabytes de algo sem capa, sem autor, sem qualquer informação adicional. Apenas um nome e um silêncio digital estranho, quase pesado.

Ele colocou os headphones lentamente, sentindo por um breve momento uma hesitação irracional, como se o próprio corpo tentasse avisá-lo de algo que a mente ainda não compreendia. Ignorou essa sensação e carregou em reproduzir.

Durante os primeiros segundos, não houve nada. Apenas silêncio absoluto, um vazio sonoro que parecia prolongar-se para além do próprio ficheiro. Depois surgiu uma melodia distante, suave e triste, semelhante a uma caixa de música antiga esquecida num quarto fechado há décadas. Não havia sustos, nem distorções, nem qualquer elemento que justificasse o nome estranho do ficheiro.

Haruto começou a relaxar, sentindo-se até ligeiramente ridículo por estar a reagir daquela forma. Estava prestes a fechar o ficheiro quando algo mudou.

Uma voz surgiu no meio da melodia. Muito baixa. Quase impercetível. Falava japonês, mas as palavras vinham quebradas, como se fossem sussurradas de muito longe ou filtradas através de água. Haruto aumentou o volume, franzindo o sobrolho. A voz tornou-se mais clara, e foi então que percebeu o que dizia.

— Encontraste-me…

O seu corpo ficou imóvel. A gravação continuou, agora mais próxima, mais presente.

— Finalmente encontraste-me…

Um som atravessou os auscultadores, semelhante a uma respiração lenta, pesada, demasiado próxima para ser confortável. Haruto sentiu um arrepio subir-lhe pela coluna, um reflexo involuntário que o fez apertar os braços da cadeira. A voz regressou, agora mais nítida do que antes.

— Agora olha para mim.

E então o ficheiro terminou. Silêncio.

Haruto retirou os headphones devagar, tentando racionalizar o que tinha acabado de ouvir.

— Isto foi… um pouco estranho. — disse para si próprio, como se a palavra fosse suficiente para enquadrar a experiência.

Não estava assustado, pelo menos não da forma que esperaria. Era mais uma sensação desconfortável, como se algo tivesse ficado fora do lugar. Levantou-se para ir buscar água, tentando afastar a mente daquilo, mas no momento em que se afastou da secretária, sentiu imediatamente uma mudança no ambiente.

O quarto estava mais frio. Não ligeiramente mas de forma evidente, quase agressiva. Olhou para a janela, fechada. A porta, também fechada. Não havia qualquer explicação lógica para a descida brusca de temperatura. Ainda assim, o ar parecia diferente, mais denso, como se algo tivesse ocupado o espaço vazio que antes existia ali.

Quando regressou à secretária, sentou-se novamente e abriu um novo documento para registar as suas observações, tentando recuperar o controlo racional da situação. Foi então que ouviu um som atrás de si. Muito leve. Como tecido a arrastar-se lentamente pelo chão.

Virou-se de imediato. Nada. O quarto estava vazio, silencioso como antes.

— Estás a impressionar-te sozinho. — murmurou, voltando ao computador, embora a frase não tivesse qualquer efeito real sobre a sensação que crescia dentro dele.

Algo estava errado, mesmo que não conseguisse explicar o quê. Era uma sensação antiga, primitiva, quase infantil, a mesma que sentia quando acordava a meio da noite convencido de que havia alguém a observá-lo da escuridão do quarto.

Continuou a escrever durante vários minutos, tentando focar-se, mas o tempo parecia distorcido. Até que, no reflexo do monitor, viu algo que o fez congelar por completo.

Uma sombra. Atrás dele. Imóvel. Perfeitamente parada. O coração disparou-lhe de imediato, o corpo recusando-se a reagir durante vários segundos que pareceram eternos. Lentamente, virou a cabeça.

Não havia nada.

A cadeira atrás dele estava vazia. O quarto continuava silencioso, intacto, normal. Mas o seu coração batia agora de forma descontrolada, como se o corpo tivesse reagido a algo que a realidade se recusava a confirmar. Levantou-se e verificou cada canto do apartamento, debaixo da cama, a casa de banho, a cozinha, mas não encontrou nada. Nenhuma presença, nenhum sinal de intrusão, nenhuma explicação.

Quando voltou ao quarto, parou à entrada. O monitor estava desligado. Ele tinha a certeza absoluta de que o deixara ligado. Aproximou-se devagar, sentindo um peso crescente no peito, e olhou para o ecrã negro. No reflexo apagado via-se a secretária, a parede atrás dele… e algo mais.

Uma rapariga.

Desta vez, não havia dúvida. Cabelos negros, pele pálida quase irreais, um sorriso largo demais para ser humano. Headphones brancos sobre as orelhas. Haruto sentiu o corpo inteiro congelar. Virou-se de imediato.

O quarto estava vazio.

Mas nesse instante sentiu algo junto ao ombro direito. Uma respiração gelada, demasiado próxima para ser imaginação. E uma voz sussurrou-lhe ao ouvido, suave e impossível:

— Finalmente olhaste para mim.