Notas iniciais
Olá! Eu tive inspiração para essa história após ter dado uma volta no Pinterest, e espero que gostem tanto quanto eu tenha ao escrever isso!!
No final eu falo mais bjs

Para Eloisa,
Obrigado por sempre me ajudar.

Na sacada de seu novo quarto, Anfitrite se focava na cachoeira que caía e seguia em um rio. Não era tão bonito quanto as praias da capital, mas ela conseguiria ficar ali por alguns dias antes de voltar para sua cidade de origem, mas para isso o plano tinha de dar certo.

Fazia pouco menos de uma semana desde que a antiga Princesa havia se casado com Salazar Kane, Lorde da Cidade de Kane, um dos vários lugares controlados pelos Lorak, a realeza de Laguna. Era sem dúvidas injusto pensar que a grande joia do Reino havia sido usada como moeda de troca para assegurar uma mina de prata qualquer, mas ela não permitiria que isso terminasse daquela forma.

— Precisamos voltar. — A porta do quarto rangeu e a moça virou para trás, apenas para ver seu marido se aproximar. Ele ergueu sua mão e entregou uma carta com o símbolo de uma sereia selando o papel.

“É com muito pesar que venho por meio desta carta anunciar a morte do Rei Phillius Lorak.

Convocamos todos da Corte para a leitura do último desejo. ”

Deu certo.

A Princesa conseguia se ver diante de seu pai na véspera de seu casamento com o Lorde de Kane. O homem estava sentado em sua cadeira na sala do conselho, que estava vazia, e enquanto todos preparavam o casamento ela dizia com bravura.

— Eu mereço ser a Rainha! Muito mais que meu irmão! E você sabe!

— Eu não vou repetir, Anfitrite, você irá se casar com Salazar! E esta união nos trará a segurança de que a Cidade não se juntará ao Reino Rom! E isto é uma honra para sua vida! — O velho se levantou, ficando ao mesmo nível que sua filha.

— Não precisamos de um casamento para assegurar nosso poder, temos espadas e lanças! — A garota continuou com seu argumento. Seus olhos azuis estavam enfurecidos e seu coração palpitava como nunca.

— E os Tass tem dragões.

Ela permaneceu ali, encarando o próprio pai, se arrependendo do que teria que fazer dali pra frente.

— Está me fazendo perder a pré-comemoração — Após suas últimas palavras se levantou e saiu do local, deixando Anfitrite sozinha com seus pensamentos, mas não por muito tempo.

A cama de Hokward nunca havia estado tão quente. A princesa de Laguna sabia como agradar um homem, e naquele momento precisava disso mais do que nunca. Sob o corpo de seu amante, ela deixou que seus cabelos pretos caíssem sobre os ombros, tocando no peito do homem.

— Quando você for embora sentirei sua falta – Os olhos verdes de Hokward se encontraram com a imensidão azul que eram os de Anfitrite.

Os quadris da Princesa se movimentavam de forma bem lenta, e a boca quente da jovem começou a tocar o pescoço do homem, subindo até o ouvido, dizendo quase em um sussurro:

— Talvez eu não precise ir.

Em um ápice de velocidade, ele virou o corpo da moça, a deixando abaixo.

— Eu faria qualquer coisa para te ter ao meu lado para sempre, minha Princesa... Sou o Conselheiro de seu pai, a única pessoa que ele ouve.

Anfitrite deu um sorriso e desfilou os dedos dele até seu pescoço, aonde seu colar repousava, e em seu centro uma pedra de cor preta. Ela viu o temor nos olhos do Conselheiro, mas não se importava, havia cultivado aquele amor por muito tempo, e chegava a hora de colher a recompensa.

— Eu te amo – Ela pronunciou lhe entregando um forte beijo.

Agora que estava com o resultado de seu plano em mãos, aquelas lembranças eram revividas sem parar em sua cabeça. Respirou fundo e observou o bosque se movimentar a medida em que a carruagem andava.

— Eu sinto muito — A mão do marido tocou sua perna. Ela deu um sorriso e dobrou a carta novamente.

— Sinto muito atrapalhar nosso casamento com isso – Colocou sua mão sob a dele.

— Não é sua culpa – Ele sorriu com os lábios e voltou o olhar para a vista.

Revirou os olhos assim que pode, Salazar era uma pessoa nojenta, mas ela sabia que em algum momento iria precisar dele. Então era necessário manter uma ótima relação com os Kane.

Enquanto fitava a estrada, ela ficava cada vez mais ansiosa para rever sua gente. Desde pequena, ela se interessou muito mais pelas políticas do Reino do que por músicas ou bordar, e por mais que muitos nobres de reinos vizinhos achassem estranho a forma como uma mulher estava tão imersa no Reino, Anfitrite não ligava nem um pouco. Ela amava seu povo, e só queria o bem dele, e o passado não deixava ninguém esquecer disto.

— Obrigada, Vossa Majestade – A voz fraca da idosa tão suja quanto um cachorro soou. Ela agarrou o pedaço de pão com tanta força que a princesa imaginou que ela não se alimentava há dias.

Ela deu um sorriso e continuou a andar. Era incrível como as partes mais baixas da capital não tinham praticamente nenhum recurso, isso era uma coisa que iria mudar no futuro. Atrás de si duas de suas melhores amigas ajudavam os demais que passavam despercebidos pelos olhos da Rainha, e em volta delas vários guardas que se certificavam que nada desse errado na visita diária da Princesa de Laguna aos pobres.

— É uma pena que nem todos tenham a mesma oportunidade que nós — A jovem de cabelos castanhos ondulados dizia olhando ao redor, cada parte parecia pior do que a anterior, e isso era péssimo. — Como os reis passados permitiram isso acontecer?

— Eram todos homens – A de cabelos loiros riu. — Mas isso vai mudar quando Anfitrite se tornar Rainha de Laguna.

Ao que parecia, ela havia falado alto o suficiente para que um dos camponeses ouvisse.

— Seria uma honra tê-la como Rainha.

Anfitrite virou-se para trás e agradeceu com uma reverência, mas antes que se colocasse de pé ouviu outra voz, também camponesa.

— O Príncipe Rictor nunca nos ajudou...

E outra.

— A Princesa Anfitrite faz mais por nós do que o Rei fez em toda sua vida.

Aquilo tudo era música para os ouvidos da jovem, e ela precisava alimentar aquela esperança cada vez mais.

— Basta! — Um dos guardas ergueu a espada. — Nenhum camponês pode falar do Rei de Laguna.

— E nenhum guarda pode machucar o meu povo – A Princesa entrou na frente do homem que era bem maior do que ela.

Um silêncio permaneceu no corredor da sujeira. Logo foi quebrado com um grito ao longe:

— Que a Princesa seja louvada!

E outro mais perto.

— Que a Princesa seja louvada!

Então uma voz mais infantil gritou com punhos ao alto.

— Que a Rainha seja louvada!

E por fim, todos no corredor, inclusive suas amigas gritavam:

— Que a Rainha seja louvada!

A memória do Cântico dos pobres soava sem parar na mente de Anfitrite, aquilo parecia ter acontecido há tanto tempo que mais parecia um sonho.

Os cabelos longos de Salazar se moveram bruscamente quando a Carruagem parou. A moça deu um sorriso quando seus olhos se encontraram.

— Chegamos?

— Ao que tudo indica – Respondeu a seu marido.

As ruas de mármore branco estavam repletas de pessoas, todas elas aguardando a volta de Anfitrite. Um dos guardas abriu a porta da carruagem e Salazar Kane saiu primeiro, em seguida ela saiu.

“Sentimos sua falta”, “Que a Rainha seja louvada!”, “Volte para a capital!” Ouvia enquanto andava ao lado de seu marido. Respondia com sorrisos e acenos. Alguns dias longe do seu lar haviam sido o suficiente para que tudo começasse a se desenrolar.

As portas da Sala do Conselho se abriram e todos fitaram Anfitrite.

— Desculpem pela demora, a viagem demorou mais tempo do que o esperado. — O Lorde de Kane falou pela sua esposa.

A moça se sentou em uma cadeira vazia longe o suficiente de seu irmão. Não gostaria de ficar ao seu lado, não conseguiria manter a boa aparência diante do homem que iria destruir o seu Reino. Ela rodou os olhos pela mesa apenas para ver Hokward, o Conselheiro do Rei, e, principalmente, seu amante. Eles trocaram um olhar discreto o suficiente para que ninguém notasse.

— Sem mais delongas, vamos ao último desejo do Rei de Laguna, Phillius Lorak.

Aquele momento poderia definir todo o seu futuro, e ela não gostaria de admitir para ninguém, mas estava temerosa.

— O Trono deve permanecer com meu filho, Rictor Lorak, até a sua morte. – Debaixo da mesa, ela forçou o punho, e dava o seu máximo para prosseguir com seu rosto calmo. Enquanto Hokward lia a carta deixada por seu pai, era como se ela conseguisse ouvir a voz do próprio a assombrando. — Caso ele não tenha herdeiros, o trono deve passar para a minha última herdeira, Anfitrite Lorak.

Um pequeno sorriso surgiu no canto direito do rosto da moça, e ela fitou seu irmão, que parecia aliviado. Ele se levantou e disse com um sorriso:

— Parece ser um ótimo momento para anunciar a gravidez de minha esposa!

Todos na sala do conselho aplaudiram, inclusive o marido idiota de Anfitrite, Lorde Salazar. Forçando a alegria, ela sorriu e disse:

— Meus parabéns, irmãozinho! Não imagino o quanto você esteja feliz! — “Mas não por muito tempo” Pensou. A única coisa que estava entre ela e o trono era seu irmão e seu herdeiro, e para quem teve a coragem de mandar matar o próprio pai, qualquer coisa parecia ser mais fácil.

A Sala do Trono estava cheia, ao que aparentava todos os nobres de Laguna estavam ali. Ela conhecia todos, e sabia das preferências deles em relação ao trono. O apoio deles era ótimo para seu futuro, mas não para o presente. Os passos lentos de Rictor até o trono eram torturantes para o psicológico de Anfitrite.

— Ele morreu em vão — O conselheiro se aproximou de sua amante, fitando o olhar no futuro Rei.

— Tenha calma – Ela encaminhou seu olhar pelo salão na direção da mulher que começava a acompanha-lo. Seu rosto estava sorridente como nunca, e quem não estaria ao se tornar Rainha? — Falta pouco para as peças se juntarem.

Ao notar para onde Anfitrite olhava, o homem engoliu seco e, ainda olhando para o Trono, disse:

— O que eu não faço por amor.

A recém Lady de Kane deu um sorriso e viu seu marido se aproximar. O Conselheiro fez uma reverência ao Lorde e saiu. Após alguns segundos ele perguntou:

— O que o Conselheiro queria com minha esposa?

— Dizer que sente muito pelo meu pai – Olhou em seus olhos verdes e deu um sorriso fraco.

Nunca tinha notado o quanto se sentia sozinha naquele lugar sem suas amigas. Elas se casaram pouco antes que sua princesa, e estavam separadas em algum lugar do Reino. Talvez quando se tornasse rainha, Anfitrite as trouxesse de volta.

— Vida longa aos Reis! — Ouviu a voz do Patriarca após coroar Rictor e sua esposa.

— Vida longa aos Reis! — O coro dos demais no Salão respondeu.

— Vida longa aos Reis... — Ela soou de forma áspera para si mesma.

Do seu antigo quarto, seus olhos azuis enxergavam a imensidão do mar iluminado pela lua e as estrelas. Era possível ouvir o banquete que estava sendo realizado em comemoração a coroação que havia acontecido mais cedo.

— Não vai se juntar a todos? — A voz de Hokward fez com que a moça virasse para trás.

— Rictor nunca amou meu pai de verdade, ou teria esperado seu corpo repousar antes de fazer essa comemoração estúpida.

Sentiu seus braços segurarem sua cintura.

— Deixe ele comemorar, em breve todos estarão em outro enterro.

A princesa deu um sorriso e virou-se para trás, fitando seu amante.

— Está tudo pronto?

— Apenas esperando o seu sinal.

O Baile estava lotado com os demais nobres. Quando entrou pelos portões, a jovem recebeu todos os olhares e agradeceu com um sorriso sincero. Ela se encaminhou em meio a todos aqueles homens e mulheres até chegar em seu marido.

— Minha esposa é a mulher mais linda de todo o continente! — Lorde Salazar disse com uma taça de vinho.

— Ficaria ainda mais com uma coroa em sua cabeça — Maria, a esposa do Lorde Vrunir disse.

Antes que ela pudesse agradecer as portas do Salão se abriram novamente e uma alta voz soou:

— Rainha de Rom, Hebe Tass, Príncipe Afeu Tass e a Princesa Astreia Tass.

A Família Tass era a maior e mais poderosa família Real de Lamoras, e ter eles em uma comemoração como aquela era sem dúvidas uma honra. Rictor logo começou a conversar com eles, e enquanto puxava assunto com os irmãos casados Afeu e Astreia, a irmã mais velha Hebe se encaminhou até Anfitrite, que andava também em sua direção.

— Anfitrite! Você está linda! — Ela sorriu lhe entregando um abraço.

— Você também! Argos é um homem de sorte! — Para ser sincera, qualquer um que se casasse com um Tass era uma pessoa de sorte, além de serem membros da dinastia mais poderosa também tinham a sorte de ter a beleza deles ao seu lado. — É uma pena que não pôde vir.

— Argos precisou lidar com alguns problemas familiares – Riu. — Então nós viemos.

Normalmente todos os Tass possuem a mesma característica, olhos escuros, cabelos cacheados e crespos e pele negra. Mas esses três Tass, em especial, eram diferentes, eles eram o fruto da união entre Ajax Tass I e Lis Tass Lorak, tia de Anfitrite. Logo as características de seus filhos eram diferentes, continuavam negros e de cabelos cacheados, mas seus olhos eram um profundo azul esverdeado, a marca dos Lorak.

— Vim entregar meus pêsames em nome dos Tass... Mas ao que parece chegamos tarde.

— Meu irmão tem problemas... Ao que parece a alegria da sua coroação conseguiu apagar a memória da morte de nosso pai – Anfitrite fitou o homem que bebia alegremente com seus amigos, e próximo a ele viu seu conselheiro, Hokward. Aquele era o momento perfeito, então ela fez um sinal com a cabeça e ele entendeu.

— Então você tem sorte em não ser uma Tass, provavelmente vocês acabariam casados, assim como eu e Argos ou Afeu e Astreia – Hebe deu uma risada e repousou sua mão no ombro de sua prima.

— Um brinde! — O Rei de Laguna gritou. — Um brinde ao meu reinado ao lado de minha Rainha! Que ela me dê muitos herdeiros!

Todos levantaram suas taças, e beberam tal como seu líder. Então a música parou, e o som da taça dourada caindo fez com que todos parassem para olhar a Rainha de Laguna despencar no chão como se fosse um pedaço oco de madeira.

A partir dali tudo começou a acontecer rápido demais. As vozes desesperadas dizendo “Salvem a Rainha!”, “Chamem os curandeiros!”, ”Não bebam mais nada!”. Então Salazar Kane tomou sua esposa pelo braço e disse:

— Precisamos te tirar daqui!

— O que? — Anfitrite franziu as sobrancelhas.

— Temos que... que... — Ela sentiu a mão do homem se enfraquecer cada vez mais, tal como os olhos que reviraram dando espaço a parte do olho que era toda branca. Ele caiu no chão, assim como a Rainha. Anfitrite não entendeu o que estava acontecendo, apenas se abaixou e começou a balançar o corpo que começava a esfriar.

— Salazar! Acorde! Acorde!

Quando olhou em volta e viu todos dividindo sua atenção entre os irmãos viúvos, naquele momento notou que precisava usar aquilo para seu bem. As falsas lágrimas começaram a cair, e por um lado não eram tão falsas assim. Salazar não podia morrer, não agora.

Notas finais
Obrigado por terem lido até aqui!! O que estão achando? To bem ansioso para saber suas opiniões então não sejam tímido!! Beijos e até o próximo ♥