Os passos apressados dele nunca foram tão precisos, pensava nela, em seu sorriso novamente, em seu belo rosto, as curvas de seu corpo, nunca um pensamento fora tão detalhado. E lembrava-se de tudo, não sabia quanto tempo havia passado, sabia somente que fazia muito tempo desde que a vira pela última vez. Ele girou a maçaneta com toda a esperança que alguém poderia ter e dentro do quarto a encontrou de pé, usando o vestido branco com pequenas flores adornando-o, e nunca ficara tão linda e tão serena. Seus cabelos vermelhos estavam compridos e não mais curtos como eram antes, ela tinha na face a marca do ano passado, que parecia perdido a muito tempo e um novo sorriso, haviam muitas coisas novas nela, como o apreço pela vida. Em seus braços, ela tinha um dos bebês, enquanto o outro descansava em seu pequeno berço, tão branco quanto o vestido da garota ou as paredes e haviam pequenas estrelas azuis claro sobre o berço, que girando, tocavam uma música sutil e tranquila.
A garota desviou o olhar à porta a observá-lo e abriu um pequeno sorriso tímido nos lábios, abaixando-se a deixar sua filha no berço, acomodada abaixo do cobertor, e algo tinha de errado, não somente com as crianças, mas com a mãe também.
– Angelique?
– Olá.
– Quanto tempo não nos vemos. – Ele falou a afrouxar o modo como firmava a maçaneta em meio a seus dedos.
– É, faz muito tempo mesmo.
– Está mais bonita do que nunca.
– Não diga isso. — Ela sorriu.
– Fico feliz que as crianças tenham nascido bem. Eu tentei vir te ver antes, mas... Não permitiram.
– Eu sei... Mesmo fora da prisão ainda estou sentenciada.
– Não, eles não queriam interferir no seu tratamento, mas vejo que está radiante. O Coringa foi um idiota em perder você.
Ela abaixou a cabeça, algo naquele assunto ainda a incomodava, mas nada disse, apenas manteve o sorriso na face.
– Me permite?
– É claro, pode entrar.
Ele adentrou o local com passos calmos e observou-a de perto, assim como as crianças. Ele segurou uma de suas mãos e a beijou, podendo notar o sutil aroma de rosas, que ela sempre teve, inebriante, mas também não pôde deixar de notar que ela estava extremamente pálida.
– O que vai fazer quando sair daqui?
– Não sei... Ele está me deixando ficar aqui, mas, eu pretendo fechar a boate e fazer algo meu. Estava pensando em uma loja de doces.
– Hm, parece bom.
Ela sorriu.
– Eu vou morar no mesmo local, afinal é meu, e cuidar das crianças.
– Você deve saber que eu estou noivo.
– Sim, Bruce me contou.
Ele a observou atentamente, atencioso ao rosto enigmático da garota, que nunca aprendera a demonstrar suas emoções, e pensava no que poderia estar passando pela cabeça dela no momento.
– Eu gostaria de lhe dar um quarto na minha casa, venha morar comigo.
– Como eu poderia? Não... Já destruí muitas vidas. Não quero tirá-lo de sua esposa.
– Então eu virei, enquanto puder vê-la. E ajudarei a cuidar das crianças.
– Não é preciso, sei que terá os seus próprios em breve. Eu não quero causar nenhum problema. Mas eu agradeço a sua ajuda.
Ele observou a ela novamente, e em seguida as crianças, tão lindas quanto a mãe.
– O que há com eles? Parecem tão pálidos...
– É o efeito da antitoxina. Eles são imunes, assim como eu passei a ser. Eu só espero que isso não os afete como afetou o pai. Eles são uma benção pra mim. Nunca choram, só quando sentem fome, nunca pensei que poderia amar tanto alguém quanto eu os amo.
Ele analisou a outra e sua transformação incrível em apenas um ano. Talvez a gestação a tivesse mudado, ou talvez, Bruce Wayne havia feito um ótimo trabalho. Mas ainda podia ver as sequelas em seu rosto, as memórias ainda a aterrorizavam, e sabia que uma hora, ela perderia o controle de suas emoções tão bem escondidas.
– Ao menos me permita vir vê-la.
– Não há problema, venha quando quiser.
Ele sorriu.
– Eu virei.
– Ah, antes que vá embora, tenho algo a lhe dar.
Ela voltou-se a cômoda do quarto e abriu uma das gavetas, de onde retirou o livro de capa vermelha, ele não pôde ver o que tinha na capa, mas viu muito bem o que ela havia tirado de seu interior, a rosa vermelha, a mesma que ele havia dado a ela, agora estava seca, sem vida e morta, mas a garota ainda podia ver um tanto de vida nela.
– Não se esqueça de mim, como eu não me esqueci de você. Quero que a leve, e guarde. Cuide dela pra mim.
Ele assentiu, confuso, ou talvez comovido pelos modos da garota. Ele observou o berço com as pequenas e delicadas crianças e apenas abraçou a garota a sua frente, depositando-lhe um beijo sobre a testa e fechou os olhos a rezar em silêncio, como se pudesse voltar no tempo para aquele dia, onde tudo parecia tão mais fácil, ou talvez agora fosse tudo mais fácil, mas intocável. Ele se afastou e com um pequeno aceno se despediu dela que o retribuiu com um sorriso grande, em sua face branca como neve, e seus lábios, rubros como a rosa, tão cheia de vida, como era em seu início.
A garota voltou-se ao berço de suas duas belas crianças, caminhando pelo chão como quem caminha sobre nuvens, e de fato, se sentia no ar, feliz, extasiada, estava livre enfim. Ela se abaixou e dirigiu o olhar ao leito, porém nele nada havia, somente o vazio de cobertores ali largados. Ela arregalou os olhos e arrancou os cobertores do pequeno local, levantou-se e virou o berço, pondo em ruínas o quarto que aos poucos fora sua câmera de felicidade, agora tudo estava no chão pisoteado e o grito de terror surgiu em seus lábios.




A garota estava suando, ardendo em febre como nenhum deles havia visto antes, e em seu quarto no hospital estavam eles: Bruce e o francês, ou como gostava de chamar só pra descontrair: O valete de espadas. Bruce observava aflito os movimentos dela pela cama, como se algo a incomodasse, sim, estava tendo um pesadelo, e já era hora de interromper.
– Angel... – Ele disse a se aproximar.
Ela abriu os olhos num único sobressalto e de um deles escorreu a lágrima única por sua face.
– Meus filhos... Onde... Onde eles estão?
– Angel, fique calma...
A voz dele era afável, calma, embora dentro dela houvesse muita insatisfação, talvez consigo mesmo, mas não poder impedir que o palhaço a tivesse capturado.
– Bruce... Bruce, eu... Onde eu estou? Vocês tem que parar o Coringa!
– Angel, Graças a deus, você está bem! – O outro finalmente pronunciou.
– Vocês não estão me ouvindo! O Coringa pegou os meus filhos! Meu deus, mas... Mas eu morri, ele... Ele me deixou pra morrer.
Bruce se sentou ao lado dela e segurou a mão da garota.
–Angel, encontramos você poucos minutos depois do Coringa ter deixado o local. Eu, a policia e o senhor deRose estamos procurando dia e noite sem parar por alguma pista dele, mas até agora não tivemos sucesso. Mas eu vou achá-lo e trazer de volta seus filhos, nem que isso seja a ultima coisa que eu faça.
– Então vocês... Vocês me salvaram?
– Sim, nós a salvamos.
– Mas... Você disse dia e noite? Há quanto tempo estou aqui?
– Já faz uma semana. Você teve uma grande perda de sangue, mas parece que está melhor agora. Quando chegamos lá, parecia um cenário de filme de terror.
– Bruce... – Ela disse, a voz chorosa a sentir as lágrimas que rolaram pela face. – Quero meus filhos... Eles são a única coisa que eu tenho, por favor... Eu imploro.
– Nós vamos achar, eu juro pela minha vida, que vamos encontrar seus filhos. Você não se lembra sobre nada sobre o Coringa que precisamos saber?
– Ele... Ele não deixava pistas... Nunca me dizia onde ia, e quando me levava junto... Ele me fazia andar por ruas escuras...
Ela suspirou, ofegante ainda pelo sono anterior, não estava processando direito as informações, tudo que sabia era que estava sozinha de novo. E isso nunca doeu tanto. Cuidou com tanto carinho daquelas crianças por todos os meses, e por fim, acabou numa cama de hospital, sozinha, sem sinal delas, nem rastros, um crime tão bem feito como o nascimento de novos criminosos, seria isso que os próprios filhos de tornariam? Criminosos?
Bruce se levantou e suspirou a se dirigir ao rapaz atrás dele.
– Eu vou falar com a polícia de novo, ver se eles têm alguma novidade. Cuide dela.
O outro assentiu e sentou-se ao lado dela na poltrona, entregando o pequeno pano úmido trazido pela enfermeira, o qual era colocou sobre a testa.
– Teve um pesadelo?
– É... Acho que sim. Embora tenha começado como um sonho.
– Acho que é sempre assim, não é? As coisas começam de um modo lindo, e de repente, descobrimos o que realmente são. Como máscaras.
– Se eu não tivesse acreditado nessas máscaras desde o inicio, nada disso estaria acontecendo.
– Você não teve culpa, Angel.
– Não me digam que eu não tive culpa. Eu sou feita de culpa, até o ultimo fio de cabelo. Eu sempre soube que ele era mau, mas nunca dei a mínima importância... Eu cavei minha própria cova, agora não adianta chorar por isso...
– Não é hora para pensar nisso, e eu espero que compreenda que as coisas não são realmente assim, ele é o bandido, culpe a ele.
Ela abaixou a cabeça.
– Você está com fome? Depois de dias sem comer...
– Não tenho muita vontade de fazer alguma coisa... Que horas são agora?
Ele retirou o celular do bolso e olhou a hora.
– Três e vinte da manhã.
– E o que você faz aqui?
– Ué, vim visitá-la, como fiz todos os dias.
– Mas e sua esposa?
– Ah... O Bruce contou não é? Bem... – Ele coçou a cabeça. – Ela entende.
Angelique o observou por alguns instantes e por fim suspirou, observando as próprias mãos, e o aparelho do hospital, preso ao dedo indicador.
– Vá para casa, tem alguém te esperando lá, eu não quero te causar mais problemas do que eu já causei. Eu já me cansei de ver corredores de hospital, e creio que você também já esteja bem cansado.
Ele permaneceu inerte alguns segundos a observá-la.
– Como queira, mas... Amanhã eu venho ver você.
– Certo. Boa noite.
Ele aproximou-se da outra e lhe deu um beijo sobre a testa, abrindo-lhe o melhor sorriso que pôde, mesmo que soubesse que aquilo não ajudaria de nada. Cabisbaixo, seguiu em direção para a porta e deixou o local. A ruiva observou o quarto e notou que ali na cômoda, próximo dela estava o livro que antes lia, com as escritas douradas na capa: Alice no país das maravilhas. Ela o apanhou em meio às mãos e abriu na página certa, a página que marcava a aparição da rainha vermelha na história, e ali naquela página descansava em sono eterno a rosa vermelha já com suas pétalas murchas, que jamais perderam a beleza.
Bruce se sentia indignado consigo mesmo, em pensar que se quer pode proteger alguém que amava, mas concentrava-se na busca, aquelas noites seriam muito difíceis afinal, e já tivera esse mesmo sentimento de impotência antes, lembrava-se muito bem de seus pais e ele, acima de todos, sabia como Angelique se sentia naquele momento. Ele jurou por sua vida, e iria cumprir, seguiria cada rastro, cada pegada, cada marca que aquele monstro havia deixado para trás, tinha que haver alguma pista, tinha que haver! Pegá-lo era possível, e pra ele era isso que importava.
Ao voltar cansado da noite, ele pôde ver a garota que já havia adormecido entre os lençóis brancos da cama, perguntou-se por um momento como ela poderia dormir com a situação daquele modo, mas si mesmo já estava pegando no sono, fechando os olhos aos poucos, os sonhos eram um lugar perigoso quando se tinha muita coisa na cabeça, mas talvez somente por aquele dia, se permitiria cochilar, agora que sabia que ela ao menos estava a salvo.
Enquanto isso, em algum lugar não muito longe dali, um palhaço olhava pela janela, e ria insanamente.