A Rainha de Copas
17 O tribunal.
O martelo bateu sobre a mesa do juiz que agora se apresentava pedindo ordem no pequeno recinto onde todos estavam sentados. Ali em frente a ele estava ela, a ruiva. Os jurados tomavam seus devidos lugares, assim como o promotor que estava ali apenas para jogá-la na cadeia. Sabia que ela tinha muita sorte por Batman decidir não dizer a eles sobre seu esconderijo de cabeças e nesses últimos meses teve sorte de não ter sido jogada no Arkham ou no Black Gate, mas agora a história era diferente. As crianças já haviam nascido, e já haviam sido arrancadas de si pelo palhaço. Era injusto, ele devia estar sendo julgado no lugar dela.
Angelique tinha em sua face a expressão derrotada, não tinha mais o belo sorriso que conquistava a todos por onde passava, nem mesmo o olhar sedutor de seus belos olhos verdes que agora haviam tomado o lugar do castanho mel. Ela parecia morta. Um corpo posto num lugar para se sentar e concordar com tudo que dissessem, o olhar vazio, perdido em pensamentos que se prendia em um único ponto do salão, o chão.
Por outro lado, alguém que parecia estar em um excelente dia era seu promotor, Oswald Von Karma. Ele era um homem alto e bonito, tinha por volta de seus quarenta anos de idade. Tinha seus cabelos num tom de castanho claro, e deixava a barba por fazer. Usava um terno preto e uma gravata vermelha, que o deixava ainda mais elegante para a ocasião. Oswald vinha de uma longa família de advogados, há anos defendendo Gotham de criminosos como o palhaço, ou a ruiva agora sentada ali. Seu trabalho era sempre objetivo e tranquilo, afinal, nenhum criminoso que passou por ele saiu livre de pena.
O estado havia contratado alguém para defender Angelique, é claro. O homem parecia tremer da cabeça aos pés só de pensar em enfrentar o senhor Von Karma. O que era, como sempre, uma covardia.
– A corte está em sessão para o julgamento da senhorita L’Croix.
Oswald se levantou em sinal de respeito.
– A promotoria está pronta, excelência.
– A defesa também está pronta, excelência. – Pelo tom de voz do advogado, era possível perceber que a defesa estava tudo, menos pronta.
A ruiva se levantou igualmente por alguns instantes, ajeitando seu terninho preto, que não era habitual, mas necessário para o julgamento. Talvez parecesse estar de luto, e estava.
– Caros integrantes deste egrégio tribunal, como sabem, estamos aqui reunidos para a condenação da senhorita Angelique L’Croix, a rainha do prostíbulo Wonderland... – Oswald iniciou o discurso.
– Boate. – Ela resmungou.
– Que seja. Ela é acusada de auxiliar uma gangue de notórios e patéticos bandidos, conhecidos como a gangue Gully, e bem... Acredito que vocês vão gostar de ouvir essa, — Era evidente em sua voz o tom de ironia – e também é acusada de ser amante e cúmplice, do famigerado palhaço do crime, o Coringa. É costumeiro saber que as casas noturnas de Gotham são excepcionalmente lotadas com a escória desta cidade. O prostíbulo wonderland não é exceção.
– Boate! – Ela falou alto e Oswald estreitou os olhos e pigarreou.
– Tanto não é exceção que o próprio palhaço do crime visitava constantemente a localidade, tendo como consorte a senhorita Angelique. Claro, muitos de vocês devem pensar “Ah, ser amante do Coringa não é crime, ser amante nunca foi crime.” De fato, mas alojar um criminoso altamente perigoso e procurado não só pela polícia, mas também pelo próprio justiceiro de Gotham, é crime suficiente para garantir uma estadia relativamente confortável na ala feminina em Black Gate. Talvez até na mesma cela que a Arlequina.
– Essas são acusações muito sérias. A defesa admite essas constatações da promotoria? – Disse o juiz.
– Eu... Sim... Excelência. – A voz do advogado tremia.
Angelique observou o advogado e suspirou, sabia que ele nada podia fazer por si.
– Tão rápido? Ora excelência, não há mais o que fazer. Sentencie.
– Bem... Eu diria que não há razão para hesitar... Senhorita L’Croix, por favor, levante-se para receber sua sentença.
Oswald cruzou os braços, triunfante, e o sorriso estava em seus lábios.
A garota se levantou a observar o juiz e suspirou.
– Senhor juiz, sei que não melhora nada, mas... Eu gostaria de poder corrigir os erros que cometi, por isso não nego nada em minhas acusações, fui uma estúpida, fui manipulada e estou pronta para pagar por isso.
– Estúpida? Sim! Manipulada? Duvido.
– Eu o amava... Faria qualquer coisa por ele.
– E eu espero que a cadeia conserte a porcaria na qual você transformou sua vida. Bom... A sentença é...
Antes que o juiz pudesse pronunciar algo a porta se abriu, trajando um terno preto e uma gravata azul escuro estava ele, Bruce Wayne.
– Não acredito que começaram a festa sem mim.
– Bruce... O que está fazendo aqui? – A ruiva murmurou.
– Senhor? O senhor está perturbando o tribunal. Por favor, sente-se e não interrompa mais.
– Excelência, esse cidadão está interrompendo a fluidez do julgamento, ele deve se retirar do recinto!
– Ora, senhor Juiz, não estou atrapalhando nada, apenas cheguei um pouco atrasado. A propósito, não seria bom se eu me retirasse do recinto, afinal, sei coisas demais sobre a senhorita L’Croix. Esqueceram que ela ficou na minha casa por esses seis meses?
– Ah sim, é verdade... O senhor foi o encarregado de cuidar da senhorita L’Croix no seu período de gestação.
– Não importa, excelência, o que ele pode adicionar a esse tribunal?!
– Passei nove meses com essa moça maravilhosa. Sei tudo sobre ela, tudo que ela aprendeu nesse tempo, e como ela melhorou significativamente. Senhor Juiz, deixe-me testemunhar.
– Bem... Os crimes da senhorita L’Croix já estão além dela poder ser considerada inocente das acusações. Mesmo seu advogado de defesa desistiu. O que acha, senhor Von Karma? Deseja ouvir esse testemunho?
– Eu penso ser completamente irrelevante, excelência. O senhor mesmo diz que não há mais dúvidas. E como deve saber, pela lei, se o juiz está convencido do veredicto, ele deve falar. Não preciso ensiná-lo, acredito que o senhor já sabe. – Ele ergueu a bengala em direção a Bruce Wayne. – Ante o exposto, julgo Angelique L’Croix, dona do prostíbulo Wonderland culpada. É isso que deve dizer, excelência. Nada mais, nada menos.
– É uma boate! – Ela gritou novamente.
As palavras de Von Karma nunca soaram tão intimidadoras, o juiz estava completamente convencido e não queria ouvir mais nada que alguém pudesse dizer.
– Então, se é assim... Acho melhor eu dizer. Declaro a senhorita Angelique L’Croix...
A porta se abriu uma segunda vez.
– Eu protesto!
– Ah, o que é agora? Mais um aspirante a advogadinho?
A ruiva se virou, arregalando os olhos em direção à porta do tribunal, principalmente ao ver quem estava ali diante de todos. O rapaz aspirava horror com apenas um olhar para a face dele, um homem com metade do rosto queimado e um estranho terno preto e branco, dividido ao meio em perfeita simetria. Porém uma das metades de sua face foi logo reconhecida: Harvey Dent.
– M-mas... Senhor Dent?! – O juiz falou com voz tremula.
– Harvey... Dent? – Oswald arregalou os olhos.
– Harvey Dent está morto, Von Karma. Prefiro que vocês me chamem pelo apelido que sempre falavam pelas costas... Como diziam mesmo? Duas-caras? A ironia não podia ser maior, não é?
Sua voz era assustadora em sua ambiguidade, era como se metade de sua voz também tivesse se afetado, como duas vozes em uma só.
Oswald apertou sua bengala com uma das mãos, usando toda a força para ficar em silêncio.
– Sua excelência, como se atreve a permitir tal infâmia nesse julgamento? Aonde está seu senso de justiça em deixar um promotor lhe dizer o que fazer? Se há um testemunho a ser dito, então devemos ouvi-lo! Está com medo de ter que soltar essa bela moça? É mais cômodo se apavorar com a lenda dos promotores Von Karma? Pois se é assim, então Gotham é uma vergonha. Eu exijo que o senhor que se manifestou seja ouvido.
O juiz pareceu empalidecer, de fato, a tal lenda era real. Os Von Karma nunca perdiam um julgamento se quer, mas aquele que havia entrado não era qualquer um, era Harvey Dent, um dos melhores promotores que Gotham já teve.
Angelique estava tão exausta, confusa demais para discutir com eles sobre isso, ela apenas esperava que tudo acabasse logo, Arkham ou a boate, não faria diferença, em qualquer lugar estaria do mesmo modo, com a mente destruída e o coração em partes.
– Me responda, Harvey Dent, o que diabos você está fazendo aqui? – Ele apontou a bengala ao homem em pé. — Não devia estar no hospital cuidando do seu corpo? Ou melhor, da sua mente? É como dizem mente sã, corpo são. – Sorriu de modo cruel.
– Eu estou aonde sou necessário. E você, o que está fazendo em meu lugar? Brincando de ser igual seu pai, sua avó, seu bisavô, um promotor malvado que mete medo no juiz? Seu sobrenome não o levará a lugar algum. E eu lhe provarei, pois não conseguirá colocar a dita senhorita L'Croix em Black Gate ou no Arkham.
– M-Mas... O advogado dela sou eu. – O rapaz pronunciou pela primeira vez, amedrontado.
– Você não tem procuração, não está regularmente representado, Dent! – Disse Oswald.
Angelique observou o rapaz tremulo, que suava frio ao seu lado.
– Acho melhor você sair antes que urine nas calças.
O homem saiu do local e Angelique suspirou, conformada. Já estava virando um show de horrores, ou pior, seu julgamento estava virando uma rixa entre os dois promotores mais amados de Gotham. Ou odiados, pelos criminosos.
– Acho que agora posso tomar o lugar que me pertence, certo senhorita L’Croix?
– Fique a vontade. – Ela disse com indiferença.
– Não importa quem a defenda, senhorita, você vai pra cadeia ainda hoje! – Oswald bateu a bengala no chão. – Não me importa se ela passou nove meses, um ano, dois na casa do senhor Wayne, ela continua sendo culpada pelos crimes hediondos!
– As pessoas mudam, senhor Von Karma, você mais do que ninguém devia saber disso, é só olhar pra mim. – Disse Harvey a tomar o seu lugar.
– Bem... Tudo isso é inesperado... Mas sou obrigado a concordar com o ponto de vista do senhor Dent. Portanto, não passarei meu veredicto agora.
– Excelência, peço que reconsidere. Não há qualquer evidência que possa contrariar tais crimes.
– Eu protesto! Há o testemunho do senhor que se manifestou e não foi ouvido até agora, tão covardemente calado pelo senhor Von Karma. É o nosso dever ouvi-lo, chame-o para depor, excelência.
– Eu protesto! Você pode garantir, com total, sem sombra de dúvida, que o testemunho desse senhor irá inocentá-la completamente?
– Se você faz conjecturas sem ter base em nenhuma testemunha ou evidência decisiva, só porque é mais conveniente, desonrando assim o nome de sua família de promotores, não está em posição de negociar. Um réu condenado sem direito a defesa é algo tão covarde quanto um veredicto sem a presença do réu! Excelência, vamos ouvir a testemunha.
– Harvey, você está sendo muito hipócrita agora. Quem diria que o antigo promotor linha dura de Gotham estaria dando uma de advogado bonzinho. Será porque ele perdeu o emprego? Bem, façamos o seguinte então. Se essa testemunha se provar completamente inútil para o caso, tanto você, quanto ela, quanto a dona do bordel vão para Black Gate.
– Boate! – A frase veio de trás do jure, Bruce Wayne havia protestado dessa vez. Angelique arqueou uma das sobrancelhas, de fato nem necessitou dizer algo.
– E quem é você pra achar que manda algo nessa corte? São crimes diferentes que serão julgados em tribunais diferentes. Mas se quer fazer uma aposta, aceito seus termos.
– Se é assim, eu convoco o senhor Wayne para depor. – Disse o juiz.
Bruce se levantou e seguiu categórico até o banco das testemunhas, sentando-se.
– Agradeço, senhor juiz.
– Testemunha! Nome e ocupação. – Falou Oswald.
– Ora, acho que isso se quer é necessário. Bruce Wayne, dono das empresas Wayne.
– Senhor Wayne, qual sua ligação com esse presente caso?
– Eu fiquei responsável por cuidar da senhorita L’Croix durante seu período de gestação.
– E o senhor a conhecia antes disso?
– Não.
– Então, se me permite a pergunta, senhor Wayne... Por que aceitou uma criminosa em sua casa?
– Gordon me contou sobre ela quando foi capturada, e parecia completamente arrependida de seus crimes, que o senhor julga ser hediondos, senhor Von Karma.
– Arrependida, pois sim. – Ele murmurou. – E o senhor nunca foi até o bordel da senhorita L’Croix?
– Boate, inferno. – Ela falou em tom claro.
– Eu protesto! – Disse Dent – Excelência, se este cavalheiro continuar usando linguagem chula para de referir ao estabelecimento de minha cliente, poderá ser acusado de desacato ao tribunal e ser removido da corte!
– Você sabe a natureza do estabelecimento comercial, não há como negar.
– É uma boate, conforme o registro aqui apresentado. – Ele tira um papel do bolso do paletó. – Submeterei isso à corte excelência.
– Com licença, minha boate é limpa. Não tem garotas nuas, nem prostitutas nem nada do tipo. Então é uma boate.
– Porém, mesmo que fosse o caso de ser um prostíbulo... Não justifica tal linguagem chula que pode ser encarado como desacato.
– Devo dizer que o senhor Dent tem razão. A corte aceita esse registro como uma evidência para este caso. – Disse o Juiz.
Oswald cruzou os braços.
– Irrelevante ao caso, mas prossiga.
– Bem, em todo caso, por favor, senhor Wayne, prossiga. – Disse o juiz a observar a testemunha.
– Certo, onde eu estava? Ah sim, bem, a senhorita L’Croix, de fato cometeu tais crimes, porém eu acredito que deva ser levado em consideração o que ocorreu nesse tempo em que ela esteve fora de tribunais, de boates e de prisões. De fato, ela se tornou uma pessoa muito boa e é até impressionante a mudança que pude ver nela. Desde que a levei comigo para casa, vi mudanças na senhorita L’Croix que jamais imaginei poder ver em nenhum criminoso de Gotham, de fato, ela não é louca, nem tem problemas com controle de raiva. Ela aprendeu a amar os filhos, e se importar com eles, tanto que posso ver que ela está de luto por eles agora.
– Sim, o estado está na procura de seus filhos, senhorita L’Croix. A propósito, sentimos muito por isso. – Disse o juiz.
Angelique não disse nada, apenas assentiu com a cabeça a observar Bruce. De fato, ele estava fazendo algo muito arriscado por ela, ainda mais dentro da aposta de Oswald. Era complicado competir com ele, ele sempre vencia.
– Acredito, que o amor pelo Coringa a fez cometer a maioria de seus crimes. E quem pode culpar uma pessoa por amar alguém, não é? Afinal, ela era só uma criança perdida nas ruas procurando pelos pais quando ele a encontrou.
– O amor é o maior dos bandidos. – Disse Oswald a negativar.
– Pelo menos em uma coisa concordamos, senhor Von Karma. – Angelique se manifestou.
De fato, Bruce estava mexendo com ela com aquelas palavras, não queria lembrar do passado horrível.
– Bem, nesse caso, não tenho outra escolha se não relembrar a vocês o porque da senhorita L’Croix estar nessa corte hoje. Vai se arrepender de ter saído da sua cama de hospital, Dent. Pois bem! Eu invoco para este tribunal uma das principais cúmplices do Coringa! Arlequina!
– O que? – Angelique se levantou. – Excelência, não pode permitir isso!
Harvey gargalhou.
– Pois bem, é bom ver que você começa a se acostumar com a derrota, Von Karma.
– Por que diz isso?
– Bem, nosso acordo foi que, se o testemunho do senhor Wayne fosse inútil, eu iria para Black Gate junto da senhorita L'Croix... E o depoimento dele não foi inútil, e sinal disso é que você agora quer tirá-lo do banco de testemunhas, pois ele não foi útil para você. Portanto,em oposição a ser útil a você, foi útil à senhorita L'Croix. Mostrou a realidade: que você não tem provas. O caso pode não estar acabado, Von Karma... Mas eu ganhei nossa pequena aposta. Quanto à senhorita Arlequina, concordo em trazê-la se minha cliente concordar.
– Vocês não podem fazer isso comigo... Não quero ver aquela maldita.
– Quem disse que tem que concordar, Dent? Ela é uma testemunha crucial!
– A corte é testemunha de como isso afetaria minha cliente. A senhorita Arlequina é completamente insana, a palavra dela não teria a mínima credibilidade.
– Isso é verdade, senhor Von Karma. – Disse o juiz.
– Pode ser insana, mas ela presenciou muitas coisas da senhorita L’Croix junto do palhaço. Acho justo que ela possa dar seu testemunho, afinal de contas, ela está envolvida no caso!
– Bem, que seja, vamos acabar logo com isso. – Harvey parecia inquieto.
A corte fez um intervalo, não fora longo, nem curto, afinal, precisariam de um tempo para arrumar a papelada que traria enfim, o bobo da corte até o tribunal. Não parecia que daria certo, mas no momento, sem o palhaço ali para dar seu testemunho, era a única pessoa que Oswald poderia chamar. Angelique estava aflita, sentia o coração bater mais rápido, não por medo, não... Sabia que de qualquer maneira a justiça seria feita, para seu bem ou seu mal, mas tinha a consciência limpa, sabia que realmente havia melhorado e naquele tempo, não cometera mais nenhum crime. Mas quem estava levando isso em consideração? Bruce Wayne? Se ao menos eles soubessem que ele é o Batman...
O tribunal estava reunido novamente e cada um tinha tomado seus lugares. Angelique se viu em frente à Arlequina, a garota estúpida que havia destruído parte da própria vida. Desejava loucamente poder estrangulá-la em frente à corte, pular no pescoço dela, mas conteve-se. Arlequina parecia a mesma pessoa de sempre, como se o tempo não a atingisse nunca, e para a infelicidade de Angelique, continuava iludida, mesmo depois de tanta coisa acontecendo.
– Ainda acho a opinião dela irrelevante, sendo que ela me odeia. – Resmungou Angelique.
– Ora e por que ela te odiaria senhorita L’Croix? – Oswald sorriu, maldoso.
– Ora, senhor Oswald, não é óbvio? Não preciso citar novamente que eu era amante do Coringa, disso você já está cansado de saber. Mas essa vadia era a outra amante dele. Aliás, ela só servia de saco de pancadas. Não é mesmo?
Arlequina estreitou os olhos a observar a garota a frente.
– Mande essa vadia calar a boca!
– Vadia é você, sua estúpida! Quem é que vive cheia de machucados?! E quem foi que fez? Seu “pudimzinho”.
– Testemunha! Nome e ocupação. – Oswald suspirou, não tinha tempo pra briguinhas de mulheres.
– Harley Quinnzel, e... O que diabos eu digo na ocupação?
– Você pode falar “imbecil, estúpida, manipulada, que rasteja aos pés dos outros.” Pode falar “chifruda” também.
– Quer dizer o que você... Ah esqueça. – Oswald disse, era notável que não estava com muita paciência. — Enfim, senhorita Quinnzel, por favor, poderia especificar a esta Egrégia Corte a relação na qual você, o Coringa e a ré possuíam? Sem se exaltar e ofender a ré, por favor.
– Até porque, se ela ofender eu mato ela.
– Senhorita L’Croix, contenha-se.
Angelique estreitou os olhos a ele.
– Muito bem... Você sabe, eu e meu Pudinzinho, o Sr. C, Coringa, Palhaço do Crime, ou qualquer nome pelo qual chamem meu amor... Nós sempre vivemos muito felizes, muito, muito felizes e apaixonados um pelo outro.
Angelique riu sem se conter a observá-la.
– Até que...Essa vadia apareceu! — Ela apontou o dedo para Angelique — E não sei que bruxaria ela fez, que seduziu meu Pudinzinho, fazendo com que ele ficasse longe de mim, naquela porcaria de puteiro de segunda categoria.
– Senhorita Quinnzel, eu solicitei que não se exaltasse.
– Eu vou matar essa vadia! – Angelique se levantou.
Harvey segurou a garota, antes que pudesse sair dali.
– Senhorita L’Croix, controle-se. – Ele a soltou e se recompôs, assim como ela. – Ela está exaltada! E falando tomada por emoção! Seu depoimento não tem a menor credibilidade!
– Eu protesto! Em fúria as pessoas falam mais verdades do que quando estão apaixonadas.
– E, nesse caso, ela está em ambos os estados, o que apenas reduz ainda mais a credibilidade de seu depoimento! Ela está iludida, acreditando que o Coringa a ama, e se afirma que isso é verdade quando todos sabemos que não é, nada de seu depoimento pode ser considerado verdadeiro!
– No fim, ela é só uma puta iludida. – Disse Angelique.
– Mas quem esse cara pensa que é pra falar assim do meu amor com o senhor C?!
– Primeiro: Ela é a pessoa mais próxima do Coringa para depor. Segundo: Não estamos julgando o Coringa, mas sim Angelique L'Croix, a senhorita Quinnzel não está apaixonada pela ré, mas sim por outro que, mesmo tendo a ver com caso, não é quem está sendo julgado.
– Você é totalmente desprezível e isso nem faz sentido. O que essa prostituta de quinta sabe sobre mim?
– Você me chamou de que?!
– DE PROSTITUTA DE QUINTA!
– SILÊNCIO! – Oswald gritou.
Oswald olhou com surpresa para o lado, Duas-caras havia gritado ao mesmo tempo que ele. O grito silenciou o tribunal com mais eficácia do que o martelo do juiz.
– Obrigado, agora como eu estava dizendo...
Angelique estreitou os olhos e voltou a se sentar.
– Está certo, Harley Quinnzel pode não ser apaixonada pela ré... Mas, só de olhar, nota-se que possui por ela um sentimento tão ou mais forte que o amor, e que a impulsionaria a falar mentiras ou delírios no tribunal apenas para colocá-la na cadeia. Ódio. Ou você está dizendo que o depoimento dela é confiável, e que ela e o Coringa eram apaixonados até que a senhorita L'Croix surgisse como uma bruxa má para atrapalhar a felicidade dos dois?
– Sendo que ela nem conhece meu passado. E aposto que nem o senhor conhece.
– Isso quem dirá é a senhorita Quinzel, da maneira mais polida e educada possível. Caso não o faça, penso que ela não verá mais o Senhor C. que tanto ama.
– Ah, não... Não vai me afastar do meu Pudinzinho...
– É claro que ameaçando ela, ela vai fazer o que você quer. Ó, como você é um bom advogado.
– É claro que você é uma excelente ré, fique em seu lugar. – Oswald disse a observá-la.
– Senhor Dent, parece que a imbecilidade contaminou o outro lado da sala. – Angelique murmurou.
– Muito bem, se é assim posso falar? O que eu tenho pra falar mesmo... Sobre ela ser cúmplice do senhor C?
– Eu gostaria que contasse antes como que a senhorita L'Croix "apareceu" na vida de vocês.
– Não fui eu que aparecia na vida deles! Ela apareceu na nossa vida! – Angelique falou alto. – Eu me recuso a encarar esse show de aberrações por mais um minuto...
Duas caras não lhe respondeu, estava absolutamente sério e concentrado.
– Bem...Não faz muito tempo que eu soube da existência dela, na verdade. Não sei de onde ela surgiu... É que nem ela disse, eu não sei do passado dela, mas não estou nem aí pra isso. Só conheci ela quando fui até o put... Bah, boate dela. Ouvi um boato que o Sr. C estava se escondendo lá... E ela admitiu que estava escondendo ele lá, que até estava... Estava tirando a roupa quando cheguei, e que o meu pudinzinho estava... Passando as mãos pelo corpo nojento dela...
– Então a senhorita quer dizer que o Coringa estava, de fato, se escondendo no estabelecimento da ré? Isso é interessante. Se escondendo do que exatamente?
– O Coringa jamais se escondeu na minha boate, ele ia lá quando queria me ver! O próprio Batman revistou tudo e não encontrou nada!
– Com licença, senhorita L’Croix, estou indagando a testemunha, logo falo com a senhorita.
Angelique estreitou os olhos.
– Imbecil. – Murmurou.
– O que eu ouvi foi isso... E quando eu cheguei lá e ela disse isso, minhas suspeitas se confirmaram. Ele estava lá, escondido por ela, afastado de mim... Ela escondeu ele lá!
– Bem, a senhorita Quinnzel acabou de confirmar que o Coringa se escondia na boate dela, não há mais o que dizer, ela era cúmplice dele, todos sabem.
– Desculpe senhor Von Karma, até agora eu não ouvi a senhorita Arlequina dizer em nenhum momento que quando estava lá ouviu a voz de seu amado “pudinzinho”. – Disse Harvey.
– É só uma vadia mentirosa. – Angelique suspirou.
– Você diz isso porque está com inveja de mim e do Sr. C.
Angelique se levantou e antes que pudesse abrir a boca para dizer algo, Oswald a observou com o olhar severo e ela se sentou.
– Tudo porque ele me ama, um dia vamos casar e ter um montão de filhos!
Angelique estreitou os olhos e pegou uma das folhas na mesa, escrevendo algo rapidamente e ergueu a mostrar para a loira ali presente.
“2 x 0”
– Ora, sua...
– Bem, vamos voltar ao foco, por favor. – Oswald disse.
– Portanto, como eu dizia... A senhorita Quinnzel ouviu isso na rua, apenas boatos que podem ter sido de qualquer lugar. E, se é verdade que o próprio Batman procurou o Coringa lá e não encontrou... Quem garante que ele esteve mesmo lá? Quem garante que a senhorita L'Croix não queria apenas provocar a senhorita Quinnzel, por ter invadido sua boate?
– Até porque, deixar essa idiota com raiva é a coisa mais fácil do mundo.
– O mais interessante é que não foi negado que a senhorita L’Croix guardava um criminoso procurado. Esse fato isolado já se configura como um crime hediondo.
Duas-caras ficou em silencio por alguns instantes e por fim suspirou.
– Muito bem. Esse crime foi cometido pela minha cliente, como todos sabem, mas estamos aqui discutindo uma melhora considerável dela em tão pouco tempo, algo que possa ser considerado justo para que ela seja solta. Então, senhor juiz, com sua permissão, gostaria de chamar uma testemunha.
– Senhor juiz, ele admitiu que ela é culpada. Por que não encerramos isso logo?
– Muito bem... Que testemunha seria senhor Dent? – O juiz falou.
– Isso já está virando uma piada... – Oswald suspirou.
– Eu gostaria de chamar... A doutora Collins para depor!
– Doutora Collins...? – O juiz disse.
– Sim, a doutora Collins. Foi ela mesma quem trouxe Arlequina até aqui.
A doutora estava sentada num dos bancos, ouvindo atenta todo o julgamento sem dizer uma palavra, mas por fim ela se levantou e seguiu a tomar o assento liberado pela criminosa que voltaria ao Arkham em breve.
– O que essa testemunha vai trazer de útil ao jure, Dent? – Disse Oswald.
– Ela foi a doutora responsável por Angelique, no tempo em que ela estava sob os cuidados do senhor Wayne. Inclusive ela foi a responsável também por gravar as fitas do tratamento parcial da senhorita L’Croix. Estou certo, senhorita Collins?
– Sim... Sim meritíssimo. – Ela disse.
– Certo, prossiga.
– Doutora Collins, a senhora era a responsável por Angelique L’Croix, como já citado. Você se lembra da reação dela na primeira vez que se encontraram?
– Sim, eu me lembro.
– E como foi?
– A senhorita L’Croix foi extremamente gentil e educada ao me receber. Não se exaltou com nenhuma pergunta, mesmo quando eu perguntei a ela sobre o Coringa. Ela me respondeu com calma e serenidade.
– E como foi no decorrer da terapia?
– A cada vez que eu a encontrava, era como se não houvesse visto ela a anos. Ela sempre ficou muito feliz em responder as minhas perguntas e em me ver também, talvez por ver alguém diferente dos limites da casa. Ela nunca me tratou com desrespeito e criou um amor indescritível por seus filhos... Ao mesmo tempo em que pareceu perder o interesse na vida do crime.
– Eu protesto! A senhora tem como provar isso?
– Sim, eu tenho todas as fitas gravadas das reações da senhorita L’Croix.
– Essas fitas estão aqui?
– Não senhor... Estão... No Arkham.
– Bem, se não estão no tribunal, porque essa senhorita foi chamada para depor? Vindo sem prova alguma.
O tribunal pareceu em silencio por alguns segundos e o juiz considerou.
– Bem, sendo assim, terei de dar o meu veredicto, senhorita L’Croix, e essa ultima testemunha será desconsiderada.
Angelique uniu as sobrancelhas. De fato, no inicio achava que seria só mais um tribunal chato que adiaria sua ida para a cadeia, mas no meio de tudo, foi convencida de que algo realmente podia salvá-la, ou talvez, pudesse.
– Sendo assim, considerado as acusações de Angelique L’Croix eu declaro a ré...
– Excelência! Antes de dar o veredicto... Eu gostaria da sua permissão para uma ultima observação.
– Certo, senhor Dent... Mas a essa altura, acha que isso realmente ajudaria a senhorita Angelique?
Harvey permaneceu em silencio e do bolso retirou sua moeda típica, jogando-a para o alto e verificando o resultado.
– Sim, eu penso que é relevante.
– Já chega, já foi ouvido coisas demais para o juiz dar o veredicto! Todos aqui na corte sabemos disso! Você está prolongando o inevitável.
– Harvey... Já fez o suficiente por mim... Esqueça, não há um meio de escapar. – Angelique murmurou.
– Não me agradeça, ainda não terminei, e não fiz isso por você.
Duas-caras em um movimento rápido, tirou de dentro do paletó o revolver calibre 38 e apontou-o para Oswald, mirando em seu coração, Oswald sempre fora rápido, estava acostumado a esse tipo de coisa afinal, ele tentou se desviar com rapidez e por um milagre conseguiu se desviar do objetivo, porém a bala acertou em cheio sem ombro esquerdo. Harvey estreitou os olhos e novamente mirou no alvo.
– Dois tiros. – Ele resmungou.
Angelique arregalou os olhos e levantou-se, paralisada a observar as atitudes do que julgava ser o próprio advogado, porém teria que agir rápido, ela se aproximou de Harvey e o segurou pelos braços atrás de seu corpo, o livrando da arma que segurava em uma das mãos. Oswald caiu no chão e o grito de dor deixou seus lábios, agradecendo por Harvey não ter acertado seu peito, e mesmo que o tivesse feito, ele não sabia de sua destrocardia, é, até que foi uma jogada de sorte. Harvey se movia ferozmente nos braços de Angelique, tentando se livrar de qualquer maneira até que Bruce se aproximou, segurando-o a tomar o lugar de Angelique e a observou ainda tão próxima.
– Você sabe o que fazer.
Ela assentiu e correu até o outro lado da sala, ajudando Oswald a se levantar com um dos braços ao redor de seu ombro, pressionando o local do tiro com a outra mão.
– Tem que se levantar, antes que ele atire em você de novo.
– Ah... Senhorita L’Croix? – Oswald se levantou com a ajuda dela. – M-Mas por que?
– Você só estava fazendo o seu trabalho.
A guarda da corte agiu depressa, alcançando Duas-caras com seis dos guardas apontando suas armas para ele, que a essa altura já estava imóvel sendo mantido preso por Bruce Wayne.
Angelique ajudou Oswald a sair da sala, mesmo com passos lentos e o deixou se sentar no banco do local.
– Obrigado... Talvez você não seja tão má afinal das contas.
– Não, não sou. Mas não faz diferença agora. Preciso de uma ambulância! – Ela gritou no corredor e viu o tumulto das pessoas a pegar seus telefones, semelhante ao ambiente dentro da sala anterior.
Duas-caras fora conduzido para fora por dois policiais que o mantinham preso com algemas, iria direto para a prisão. Ao passar por Oswald, ele estreitou os olhos.
– Não acabou, Von Karma! Ainda vamos nos encontrar de novo! Você vai pagar por ter me destruído!
– Boa sorte tentando... – Oswald murmurou para si mesmo e gemeu ao sentir a dor da ferida em seu ombro.
– Se eu soubesse que ele era tão maldito assim... – Ela suspirou e pressionou a ferida. – Oswald, tem que me ajudar, eu vou ver se alguém conseguiu uma ambulância. Por favor, pressione a ferida. – Ela se levantou e Oswald fez o indicado.
Na sala, a única pessoa que mantinha-se no mesmo lugar, boquiaberto, era o juiz. Ele não sabia como julgava os acontecimentos, se não, aterrorizantes. Nunca havia presenciado algo assim na corte. De fato, o senhor Dent ter atacado o senhor Von Karma fora interessante, mas Angelique se prontificar a salvá-lo foi a novidade do dia. Em poucos instantes a ambulância estava ali para buscá-lo, levando Oswald para o hospital onde faria sua cirurgia para retirar a bala. Quanto a Angelique... Ela teve que voltar para o tribunal, se colocando em frente ao juiz.
– Senhor... Estou pronta para ir ao Arkham.
Ele pareceu ainda mais extático e por fim se sentou novamente.
– Senhorita Angelique... Como espera que eu a envie para o Arkham depois de ver tudo isso?
– Eu fiz o que eu deveria fazer, senhor. Eu aprendi muitas coisas na casa do senhor Wayne. Mas principalmente, aprendi que toda vida tem o seu valor, não importa de onde venha e quais serão seus objetivos... Todos temos que aprender a conviver com isso, todos temos que dar valor a vida.
De fato, não era todo dia que se via aquilo. Angelique era uma peça rara em seus julgamentos. Quem diria que uma criminosa como ela, poderia se tornar aquela garota doce, a heroína que a pouco salvara um homem de uma morte trágica em um tribunal. Ela se quer sabia sobre a vida de Oswald, não tinha nem ideia, mas o juiz sabia. Oswald sempre fora o advogado mais respeitado do local, há anos atrás, teve sua primeira derrota em um caso deplorável e acabou por adotar um garotinho, cuja mãe havia falecido e era o motivo do jure naquele dia.
Angelique não sabia, como poderia? Mas se Oswald não voltasse para casa, quem cuidaria daquele garotinho? Quem lhe daria a vida que Oswald um dia se dispôs a dar? Quem teria uma atitude mais admirável do que a dele? Ela também foi admirável. Sim... Ela era um caso para estudo, mas o Arkham agora, estava muito longe.
– Você não vai para o Arkham, senhorita L’Croix. Você vai voltar para a sua casa em liberdade. E nós vamos achar os seus filhos, nem que isso custe nossas vidas. O amanhã está mais brilhante para você agora. – Ele pigarreou — Eu declaro a ré inocente, e encerro o caso. – Disse e bateu o martelo. – Mas escute, senhorita Angelique. Esse é o meu voto de confiança. De qualquer maneira, você terá de pagar por seus crimes, então terá de pagar uma alta fiança e cumprir serviços comunitários por um tempo. A policia de Gotham estará investigando você, e qualquer deslize e não poderei salvá-la novamente.
Ela assentiu e fez uma pequena reverência.
– Muito, muito obrigada meritíssimo.
Notas finais
E também ao Sortudo que interpretou o Duas-Caras, Arlequina e narrou boa parte no jogo original. ♥
Lembrando que eu adaptei o capítulo do jogo pra fazer sentido na história, então alguns personagens foram retirados.
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