A Rainha Bastarda
5 Capítulo 5
Assim que entraram no cômodo, o rei encaminhou-se ao seu assento sob o olhar perspicaz de Thomas. A postura de seu pai denunciava o quão fadigado estava, como se carregasse um grande peso sobre os ombros. Os cabelos, esbranquiçados com a idade, perdera o brilho, e seus olhos, a cor. Alguma coisa estava-o atormentando, e por mais que Thomas ansiasse ignorar esse pressentimento, sabia que o comportamento incomum de William tinha relação direta com sua irmã. Com medo do destino de sua amada Oriane, ele sentou-se frente ao seu pai, vários papeis espalhados sobre a mesa.
William levou um copo de vinho aos lábios, como que para se acalmar. Thomas nunca vira seu pai daquela forma, tão abatido, angustiado. Percebeu a forma como suas mãos esfregavam-se uma nas outras, gesto que nunca o vira fazer, algo próprio de quem estava nervoso. E então, compreendeu que a situação era muito mais grave do que imaginara. “O que vocês vão fazer com Oriane?” ele não se preocupou em demonstrar qualquer sinal de respeito diante de seu pai, agitado demais para se preocupar com formalidades. Milhões de pensamentos passavam por sua mente, atordoando-o.
A forma como Thomas o encarava, recriminando-o, pareceu acender algo dentro do rei, que mascarou suas próprias emoções tornando-se o mesmo frio e distante William de sempre. Levantando-se, ele se voltou para seu filho mais velho como se o desafiasse a questioná-lo. “Sinto muito, meu pai.” Ele disse a contragosto, amargando sua boca. “Mas, sabe como me sinto em relação a minha irmã. Ela é muito especial para mim, e só desejava saber o que será de seu destino.” Sim, ele se curvaria desta vez. Tudo para saber o que fora decidido, o que Eleanor havia convencido seu pai a fazer para se ver livre de Oriane. E, se a expressão anterior de William fora alguma prévia, ele temia por sua irmã.
“Está bem, entendo que esteja preocupado com ela. Afinal, passam o dia todo juntos.” Ele tornou a se sentar, acreditando ter conseguido intimidar Thomas. Porém, quando o assunto se voltou para sua filha, ficara tenso novamente. “Thomas...” o rei começou, mas não conseguiu terminar a frase. Abria e fechava a boca incessantemente, tentando encontrar em seu rico vocabulário palavras para explicar o que estava por vir. Mas não conseguia. Não queria parecer vulnerável em frente ao filho mais velho, quem considerava um rival, mas não podia negar que Oriane era seu ponto fraco.
Respirou profundamente, percebendo Thomas olhando-o um pouco aturdido, e prosseguiu com sua fala. “Sabe, meu filho, foi uma escolha muito difícil para mim. Não pense nem por um segundo que minhas ações não reflitam o amor incondicional que sinto por sua irmã, minha pequena e única filha. Passei noites em total agonia, sabendo que, uma hora ou outra, teria de tomar minha decisão. E então, Eleanor...” Assim que escutou o nome de sua rainha, não conseguiu conter a raiva que se espalhara por seu corpo, um ódio tão violento como nunca sentira antes.
“Ah, mas é claro! Era óbvio que essa mulher desprezível estava envolvida! Deve ter sido muito fácil para ela, basta a cortesã lhe dar um filho homem, que você já cede a todos os seus caprichos e desejos. E você atenderá a todos, mesmo que minha pobre irmã seja prejudicada. E ela me avisou. Oriane avisou que Eleanor planejava algo contra ela, só basta descobrir agora o que é. O que você concordou em fazer com a minha irmã?!” ele se controlou para não bater na mesa, tentando canalizar um pouco do sentimento colérico que o dominava. Precisava manter o calma caso quisesse escutar o que seu pai queria lhe dizer.
“Não ouse elevar a voz em minha presença! Eu sou o Rei da Inglaterra, enquanto você não passa de um estorvo, filho de uma louca que não aguentava nem a si mesma!” Thomas ignorou as palavras de seu pai, esperando o que estava por vir. “Agora, voltando ao nosso assunto, Eleanor me propôs uma saída para a falta de disciplina de Oriane. Há muito eu estava pensando em casá-la...” os olhos de Thomas arregalaram-se instantaneamente, e ele já começava a discutir quando seu pai o interrompeu. “Espere, não tem sentido sua agitação. Eu disse que estive cogitando a possibilidade de casá-la com algum homem rico e influente, mas não posso negar que a ideia me deixou um pouco desconfortável. Afinal, ela ainda brinca de boneca nos corredores, não consigo imaginá-la com um filho nos braços. Então, diante desse dilema, sua rainha me ofereceu uma opção simples e sensata. Extremamente sensata, se me permite dizer. Não posso negar que, depois de avaliar os prós e contras, parece-me uma excelente ideia.”
Thomas prendeu a respiração, o coração batendo rápido em seu peito. Silenciosamente, fez uma breve oração enquanto seu pai encontrava a maneira mais fácil de expressar o que precisava. Sem o desejo de prolongar o inevitável, ele falou, os olhos fixos em seu filho. “Eu mandarei Oriane a um convento, bem longe do castelo, próximo à divisa com a Escócia. Sei que nossa relação com os escoceses não está muito boa, mas não creio que algum inimigo irá a procurar por lá. Estará salva e segura, até completar idade suficiente para voltar e se casar com um homem de minha escolha. Está tudo preparado.”
Nenhum barulho era ouvido na sala. Thomas tentava decifrar as palavras do pai, achar sentido no que lhe fora dito. Demorou um pouco até conseguir compreender totalmente o significado de tudo aquilo. Primeiro veio o choque. O rei permaneceu em silêncio enquanto esperava a reação violenta que, tratando de seu filho, certamente viria. Thomas sempre fora um garoto impetuoso.
Não demorou muito até que todos os sentimentos dentro de Thomas entrassem em erupção. Angústia, rancor, desgosto, raiva, desespero, um sentimento de impunidade e pesar tão grandes, que ele não conseguiu conter-se. Porcos imundos, como podem fazer algo tão cruel e vil. Como podem tirar de sua irmã a única que coisa que ela mais preza, sua própria liberdade. Oriane não sobreviveria trancafiada em um convento, privada de sua tão amada independência. Logo perderia toda a vida que brilhava em seus olhos. Brilho esse que ele sempre fora fascinado. Perderia sua irmã, e sabia disso. Naquele momento, jurou que teria sua vingança. Eleanor não sairia impune. Ele a faria sofrer por esse dia, em uma morte lenta e dolorosa.
Bateu o punho contra a parede, em uma tentativa frustrada de liberar ao menos uma parcela do ódio que corria em ondas por seu corpo, asfixiando-o. “Por quanto tempo ela ficará lá?” perguntou lentamente, os dentes cerrados tão fortemente que sentia o sangue escorrer por entre seus lábios.
“Ela ficará por 12 anos. E é você quem irá informá-la sobre nossa conversa. O cavalo estará aqui amanhã cedo para buscá-la, então certifique-se de que tudo esteja pronto até lá.” Sem dizer mais nada, o rei saiu do cômodo, deixando Thomas sozinho, o punho ainda na parede. Aos poucos, começou a recobrar sua sanidade, mas permanecia em um estado quase colérico. Lembrou-se de sua irmã, e do fato que fora deixado para ele a tarefa árdua de informa-lhe sua condição.
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