A Rainha Bastarda
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Com o punho ainda ensanguentado, Thomas se encaminhou ao quarto de Oriane. Precisava estar na presença da irmã, tê-la entre seus braços, abrandar o sentimento de impotência que o dominava. Com as mãos trêmulas, respirou fundo e esperou um pouco antes de bater à porta. “Entre.” Ele a escutou dizer, como se já o aguardasse. Encontrou-a deitada na cama, olhando fixamente o teto. Ele se aproximou cautelosamente, seu peito se constringindo a cada passo que dava.
“Minha irmã...” ele começou, mas as palavras pareciam perder-se em seus lábios. Oriane voltou-se para ele, e, percebendo a postura rígida do irmão, entendeu que a situação era devidamente séria. Indicou para que se sentasse em uma cadeira próxima à cama para que pudessem conversar mais a vontade. Segurando as mãos dela nas suas, Thomas evitou olhá-la nos olhos, assim como o rei havia feito com ele. “Papai conversou comigo esta tarde, e... bem...”
Por mais que tentasse, Thomas não sabia como revelar à sua pequena irmã o destino que a aguardava. Sem conseguir conter a emoção que transbordava de seu peito, ele a abraçou forte e deitou na cama, com Oriane ainda em seus braços. “Perdoe-me minha pequena, juro que tentei argumentar com ele. Tentei persuadi-lo a mudar de opinião, perceber que o seu lugar é aqui, conosco. Ah, Oriane, o quanto eu rezei para que ele mudasse de ideia. Mas foi tudo em vão.”
A ansiedade de Oriane aumentava a cada minuto, até que seu corpo inteiro tremia. Percebendo o sofrimento da irmã, Thomas entendeu que não havia alternativa a não ser contar-lhe a verdade. “Meu amor, olhe para mim.” Ela o obedeceu, mesmo que, diante tanto medo, não conseguisse vê-lo nitidamente. “Nosso pai, William, irá mandá-la a um convento, onde permanecerá por doze anos.” Thomas omitiu a parte do casamento que se seguiria quando retornasse. Sabia que Oriane temia se unir com alguém que não conhecesse, e ele não iria aumentar seu tormento contando que seria forçada a se casar.
“Como?” Oriane questionou, como se não tivesse escutado muito bem. “Não, não pode ser. Devo estar ficando louca, escutando coisas. Papai nunca iria...” O olhar de Thomas a interrompeu, e seus argumentos ficaram presos na garganta. Era verdade, ela não havia entendido errado. Seu pai realmente a mandaria embora. Com uma dor lancinante preenchendo seu peito, Oriane emitiu um som tão agonizante que não poderia ser considerado humano. “Não, não. Por Deus Thomas, diga que é mentira, que isso não passa de uma brincadeira cruel...”.
Ela chorava desconsolada, agarrando-se à camisa de Thomas como se fosse sua própria sanidade que estivesse se esvaindo. Ele apenas acariciou seus cabelos, tentando acalmá-la enquanto segurava-a firmemente contra si. O que será de minha vida sem minha pequena irmã. Ele pensava, aflito. Antes que pudesse perceber, uma lágrima solitária escorria por sua face. Aquela era a primeira vez que chorava desde que era um bebê.
Oriane, esquecendo-se um pouco de sua própria dor, secou o rosto do irmão. Assim que os dois se olharam, Thomas perdeu o controle de seus sentimentos e começou a chorar abertamente, o ódio sendo aos poucos substituído por uma mágoa e pesar imensuráveis. Segurou-a com mais firmeza, quase chegando a machuca-la, mas nenhum dos dois se importou com isso. Era como se quisessem fundir seus corpos, se tornando um. Dessa forma não haveria separação.
Permaneceram assim até o cair da noite, consolando-se mutuamente. Mesmo após as lágrimas terem secado, os dois se mantiveram na mesma posição, protegidos dentro de um abraço férreo. Ambos evitaram conversar sobre a fatídica separação, para que não tornasse a abrir as jovens feridas. “Prometa nunca se esquecer de mim e de tudo que já passamos juntos.” Oriane sussurrou de forma quase inaudível, com a voz fraca e abatida.
Thomas segurou o rosto de sua irmã, obrigando-a a olha-lo. “Nunca, minha pequena, em toda sua vida, me faça tal pergunta novamente. Como pode duvidar de meu amor e de minha devoção? Como pode acreditar que alguns anos separados apagarão de minha memória tudo o que vivemos juntos, tudo o que você significa para mim? Como pode me questionar sobre isso, Oriane? Acaso não confia em tudo que já lhe disse?”
“Tem razão, Thomas, sou uma tola por fazer tal pergunta.” Ela baixou o olhar, constrangida. “É só que... com tudo isso que está acontecendo eu me sinto tão sozinha, tão abandonada. Só de pensar que papai não me quer mais em sua casa, eu...” ela não conseguiu evitar que novas lágrimas caíssem, seu coração corroendo-se em amargura e ressentimento. “Desculpe-me, tentarei me controlar.”
“Oriane, não, deixe-se chorar. Fará bem, acredite. Permita-se ser vulnerável ao menos agora.” Ela sorriu fracamente diante tal conselho. Entretanto, por mais que ele estivesse certo, ela não suportava mais essa lamentação. Queria aproveitar os últimos momentos na companhia de seu irmão, já que demoraria mais de uma década para revê-lo. “Não poderei visita-la no convento, sabe disso. Mas, para compensar sua ausência, escreverei todos os dias uma carta.”
Oriane olhou-o angustiada. “Thomas, não poderei ter qualquer contato com o exterior enquanto estiver lá. E isso inclui visitas e cartas. Não posso mandá-las ou recebê-las.” Antes que ela pudesse prosseguir em seu discurso, Thomas a interrompeu segurando-a levemente pelo braço.
“Sei disso, minha irmã. Mandarei uma pessoa de minha confiança entregá-las em segredo. Infelizmente, não poderá respondê-las, seria muito arriscado. Porém, acalentará meu coração saber que as terá em mãos, para ler sempre que desejar.” Ela sabia que sua promessa seria cumprida, como sempre o fizera. Mas, só de pensar em não poder respondê-lo, já sentia um aperto no peito. “Sempre estarei com você Oriane. Prometa nunca se esquecer disso.”
“Nunca esquecerei, meu irmão. Estaremos sempre juntos, lado a lado, independente do que acontecer. Eu te amo, Thomas.” Eles se abraçaram novamente. Já escurecera, e nenhum criado ousou interrompê-los em um momento tão íntimo. Nem seu pai teve a ousadia de tirá-la dos braços do jovem príncipe.
“Eu também te amo, Oriane. Sempre.” Ela estava tão exausta que logo caiu em um profundo sono. Thomas levantou-se lentamente, tomando cuidado para não acordá-la, e saiu para buscar comida suficiente para ambos. Porém, ao abrir a porta, deparou-se com um criado. Ele carregava uma bandeja em uma das mãos enquanto a outra se erguia para bater na porta. Assim que o menino percebeu a presença de seu senhor, começou a tremer.
“Perdoe-me, meu príncipe. Vim apenas trazer-lhes o jantar.” Thomas simplesmente pegou a bandeja das mãos tremulas do criado e o dispensou. Olhou o corredor e, não vendo mais ninguém, entrou novamente no quarto. Depositou a comida sobre uma mesinha e voltou à cama para acordar sua irmã. Não o queria fazê-lo, mas ela precisava se alimentar.
Sentou-se ao seu lado, observando-a dormir serenamente. O que será de nós, minha pequena? Não passa de uma criança, não deveria estar passando por isso. Deveria estar correndo pelos jardins, brincando com suas bonecas. Ele se inclinou para depositar um beijo suave em sua fronte. Meu amor, como gostaria de salvá-la. “Sei que será forte, Oriane. Sempre o foi.” Ele sussurrou em voz alta, antes de deitar-se ao seu lado. Colocando seus braços ao redor dela, como se quisesse protege-la do mundo, ele tentou dormir.
Oriane acordou pouco tempo depois, mas não conseguiu voltar a dormir naquela noite. Não com o ódio consumindo-a por dentro. Como poderia descansar, sabendo o que aconteceria amanha? O que William estava fazendo com ela era mais do que podia suportar. Tentava se controlar, manter o que restava de sua sanidade, tudo por Thomas. Sem ele ao seu lado ela jamais seria capaz suportar a dor e a decepção que a dilaceravam por dentro. Meu Deus, o que será de mim agora. Era apenas uma criança, não sabia nada sobre o mundo.
Apesar de toda sua frustação e sofrimento, recusava-se a derramar mais uma lágrima. Não, seria forte. Não daria à Eleanor a satisfação de vê-la abalada. Desceria as escadas amanhã com a cabeça erguida, como uma verdadeira princesa. Ela acredita ter me destruído. Nunca. Pensou, um sorriso finalmente aparecendo na face manchada pelo lamurio anterior.
Subitamente, sentiu um desejo crescer em seu coração, corrompendo-o. Um desejo primal de pura vingança. Não ansiava apenas a retaliação de sua madrasta, mas a morte. Uma morte lenta e dolorosa, digna da pena de Deus. Mas quem poderia saciar meu desejo? Assim que o pensamento passou por sua mente, ela virou-se para seu irmão, que dormia ao lado. “Thomas...” ela sussurrou na escuridão do quarto, empurrando-o delicadamente. “Está acordado?”
“Sim, Oriane. O que deseja?” ele respondeu com a voz sonolenta, sentindo-se letárgico devido às poucas horas de sono. Alarmou-se, entretanto, diante do silêncio de sua irmã, que ainda estava em seus braços. Sentiu-a enrijecer a postura, afastando-se após alguns minutos de silêncio. “Não tenha medo, fale comigo. O que está acontecendo?”
“Prometa-me que Eleanor pagará pelo o que fez, Thomas.” Ela pronunciou as palavras tão rapidamente, que Thomas pensou ter escutado errado. Mas não o tinha. Ao ver a expressão atônita do irmão, Oriane segurou seu rosto entre as mãos, forçando-o a prestar atenção. “Prometa-me que ela sofrerá. Disse que faria qualquer coisa para mim, Thomas, e sei que cumprirá sua palavra.”
“Sabe o que me pede, irmã? Tem certeza que deseja sangue manchando suas mãos, sua consciência? Uma vez que uma decisão como esta é tomada, não tem volta.” Bastou um olhar para que ele soube o que deveria fazer. “Realizarei o que anseia, mas preciso de tempo.”
“Terá todo o tempo que precisar, meu irmão. Não tenho pressa. Apenas me assegure que, um dia, será responsável pelo sofrimento de Eleanor. E eu estou falando de sangue, Thomas.” Ele apenas acenou a cabeça, em uma promessa silenciosa. Com esse pensamento em mente, Oriane finalmente deixou-se vencer pelo cansaço e dormiu nos braços de Thomas, que nunca deixam de envolvê-la.
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