Oriane entrelaçou seus dedos com os de Thomas, sentindo o calor que emanava dele. Era inexplicável a forma como ele a fazia sentir, apenas sua presença já a deixava mais calma, mais segura. “Quero que me prometa algo, Oriane.” Ele sussurrou, apertando suavemente sua mão. “Prometa-me nunca se esquecer de tudo que passamos. Aconteça o que acontecer, sempre te amarei.”

Ela sorriu tristemente, entendendo a causa de tamanha aflição. “Acabará encontrando outra pessoa que o faça feliz, Thomas. Quanto a mim, não fique triste por estarmos crescendo. Quero viver minha vida, ter minhas próprias experiências, minha família. Deveria se alegrar com isso. Afinal, nada pode durar para sempre.” falou de forma madura, surpreendendo Thomas.

“Eu só não quero vê-la machucada, Oriane.” Ele disse, afastando-se um pouco para que pudesse olhá-la mais atentamente. “Não posso suportar a ideia de vê-la sofrendo.”

“Também não desejo isso, mas não temos controle sobre o destino.” Ambos ficaram em silêncio por alguns segundos, até que ela olhou o horizonte e percebeu o sol começando a se pôr. Surpresa, Oriane puxou seu irmão apressadamente em direção aos cavalos. “Está mais do que tarde! A criança já deve ter nascido há muito tempo. Papai não nos matou da última vez, mas certamente o fará agora.”

Eles cavalgaram rapidamente até o castelo, os guardas seguindo-os silenciosamente. As palavras de Oriane ecoavam na mente de Thomas, fazendo-o perceber o quanto era possessivo em relação a ela. Mas era sua irmã, e ele sentia a obrigação de protegê-la. Oriane era a única que se importava com ele, que o escutava e sempre estava lá quando ele mais necessitava de seu apoio. Suspirou profundamente, tentando não se preocupar tanto com isso. Ela tinha razão, precisava de suas próprias experiências. Casar, ter filhos, formar uma família... Oriane merecia tudo isso. A vida não seria tão cruel a ponto de tornar infeliz uma alma pura como a dela, e ele estava depositando toda sua confiança nessa certeza.

Os guardas que ali estavam abriram passagem assim que eles se aproximaram dos portões. Após deixar os cavalos em segurança nos estábulos, Oriane levantou sua mão trêmula e segurou a de Thomas, oferecendo-o o suporte que precisava. Ele sorriu para ela, dizendo que tudo estava bem e não tinha motivos para se preocupar. “Ele provavelmente nem notou nossa ausência.” comentou enquanto abria a porta e se encaminharam até o grande salão principal.

Enquanto andavam pelos corredores, tentando fazer o mínimo de barulho possível, ouviram a música alta e alegre que ressoava lá dentro. Sinal de que uma grande festa ocorria em homenagem ao recém-nascido. O que era algo raro, pois quando Thomas nasceu, e até mesmo quando Oriane chegou às mãos do rei, nenhuma celebração foi realizada. Isso só provava a influência que Eleanor já exercia sobre William.

“Sorria, e finja que estamos presentes desde o início.” Ele a alertou antes de entrar, sussurrando em seu ouvido. Ela apenas acenou com a cabeça, soltando sua mão para tentar arrumar o vestido. O rei a mataria por ter vindo à celebração nestas condições. Mesmo que fosse uma bastarda, ela ainda tinha sangue real e era considerada uma princesa. O mínimo que deveria fazer era comportar-se como uma, William sempre a dizia.

Colocando no rosto seu melhor sorriso, ele abriu as portas e misturou-se às várias pessoas que dançavam pelo salão, tentando ao máximo passar despercebido. A última coisa que desejava era a atenção de seu pai voltada para ele. O rei provavelmente o humilharia na frente de todas as pessoas presentes, e essa era uma recordação que não gostaria de ter. Porém, não demorou muito até que os nobres ao seu redor começassem a cumprimentá-lo. Em poucos minutos percebeu todos se afastando e prestando uma reverência formal, sinalizando que era seu pai quem vinha em sua direção.

“Thomas. Pensei que não viria.” Ele o olhava sério, a expressão dura e rígida. “Onde está sua irmã? E como ousa aparecer aqui com estas roupas sujas? Vá trocar-se imediatamente, e não ouse me envergonhar desta maneira novamente!” ele continuou, sem alterar a voz. Thomas curvou-se, obedientemente, e foi para seu quarto.

Oriane, que assistia tudo de longe, temeu receber a mesma reprimenda do irmão e avisou sua criada que iria banhar-se rapidamente e já voltava. A criada acenou com a cabeça e, depois que a menina já havia se retirado, encaminhou-se em direção ao rei, que estava sentado em seu trono com o filho mais novo no colo. “Majestade.” Ela falou, a cabeça abaixada o máximo possível em sinal de respeito. “Lady Oriane mandou avisar que subiu para seu quarto, mas voltará assim que possível para a celebração.”

William sorriu um pouco e dispensou a mulher, voltando-se para o bebê em seus braços. Ele nunca trataria 'Ane tão severamente como o fazia com Thomas, mas ela possivelmente também seria punida por não estar na festa. Assim que escutou o nome da bastarda, Eleanor sorriu maliciosamente. Há dias planejava algo para acabar com a vida daquela menina, e logo o colocaria em ação. Agora que seu filho nascera, sua posição na corte estava garantida e nada a impediria de afastar Oriane do rei.

Thomas já terminava seu banho quando escutou uma leve batida na porta. Havia ficado mais tempo do que necessário dentro da água, e mal percebera o tempo passar. Perdera-se em pensamentos relacionados ao nascimento de seu irmão e trechos da conversa que tivera com Oriane. “Entre.” Comandou, acreditando que fosse uma criada trazendo sua roupa.

“Está ocupado, Thomas?” ele se voltou bruscamente para a porta, surpreso ao ver Oriane entrando em seu quarto. “Não saiu da água ainda?! Papai deve estar furioso conosco! Não quero nem pensar no que ele fará quando perceber o tão tarde chegamos.” ela correu até ele, pagando a toalha que se encontrava sobre a cama no caminho. Antes que ele pudesse responder, Oriane o fez sair da água e enrolou a toalha em seu corpo.

“Pare, ‘Ane! O que está fazendo?” Ele segurou a toalha firmemente contra si, afastando-a. “Eu consigo muito bem me secar sozinho.” Disse irritado. Ela suspirou profundamente e se jogou na cama, escondendo o rosto nos lençóis enquanto ele começava a se trocar.

“Eu só queria ajudar, tornar tudo mais rápido. Não gosto quando papai fica bravo com a gente.” Ela disse, a voz abafada pelo lençol. Ele se apressou e dentro de cinco minutos já estava pronto. Subindo em cima da cama, colocou-se ao lado da irmã e tentou acalmá-la.

“Não precisa ficar com medo, não demoramos tanto tempo assim.” Mesmo sabendo que era mentira, o menino rezou para que a felicidade com o evento fizesse o rei perder a noção do tempo. “Agora vamos.” Segurando-a delicadamente pelo braço, ele a desceu da cama e andaram o mais rápido possível até o salão.

Diferente da última vez, eles queriam que toda a corte soubesse de sua presença. Portanto, assim que as portas foram abertas, a música parou de tocar e todos os olhos voltaram-se para os dois. “Lady Oriane e Príncipe Thomas.” O servo real anunciou-os e a corte afastou-se, dando passagem.

Eles andaram lentamente até o rei, toda a corte inclinando-se em reverência enquanto passavam. “Meu pai.” Thomas foi o primeiro a falar, abaixando a cabeça em sinal de respeito com seu pai e rei. Oriane fez o mesmo, mas permaneceu calada.

“Meus filhos. Fico feliz em ver-lhes decentemente vestidos desta vez.” O aviso em seus olhos não passou despercebido, mas o rei logo sorriu e ordenou que sentassem próximos a ele. Thomas e Oriane dirigiram-se para o local indicado e a festa continuou.

“Eu não queria estar aqui.” Ela sussurrou, percebendo a forma como sua madrasta a olhava. “Ainda mais na presença dessa mulher.”

Thomas segurou sua mão e a levou até um canto menos movimentado. “Olhe para mim. Não se preocupe com isso, está bem?” ele a fez olhá-lo e depois tentou tranquiliza-la “Eu estou aqui, e sempre estarei.” Oriane deixou escorrer uma lágrima e ele a abraçou o mais forte que pode sem chegar a machucá-la. “Calma, eu estou aqui.” Continuou dizendo enquanto acariciava seu cabelo. Depois de alguns minutos ela finalmente começou a relaxar.

“Obrigada, irmão. O que eu faria sem você?” ela sorriu docemente, os braços ainda em sua cintura. Thomas retribuiu o gesto, mas logo que virou para o lado notou os olhares atentos de alguns convidados e a soltou rapidamente, colocando certa distância entre eles. “O que aconteceu?” ela disse, franzindo levemente o cenho.

“Nada, não foi nada ‘Ane. Venha, vamos dançar um pouco.” Ela sabia que algo estava acontecendo, mas não queria pressioná-lo. Quando ele quisesse contar, contaria. Não existiam segredos entre eles.