A Rainha Bastarda
4 Capítulo 4
Contrariando o primeiro pensamento de Oriane, a celebração fora minimamente agradável. Ela dançou, riu, conversou com algumas pessoas e passou grande parte da noite buscando se reaproximar de Thomas. Ele estava estranho, comportando-se como se não quisesse ser visto com a princesa. Ela até conseguiu convencê-lo a dançar uma música, mas ao fim desta ele saiu abruptamente e se escondeu entre os demais convidados. Quando o salão já estava ficando vazio, o cansaço finalmente a venceu. Oriane caminhou lentamente até a parede mais próxima, sentando-se cuidadosamente no chão. Ela não aguentava mais erguer as próprias pernas. Era como se elas não quisessem obedecê-la.
“ 'Ane? O que está fazendo?” ela mal conseguiu distinguir a voz do irmão. Tudo o que ouvia era um suave e baixo ruído que parecia se distanciar mais a cada segundo que se passava. Oriane apenas o observou por um instante antes que terminasse de cair no chão, já adormecida.
Thomas revirou os olhos e a levantou cuidadosamente. Por que não foi para cama mais cedo? Teimosa. pensou enquanto a carregava até o rei, um sorriso aparecendo em seus lábios. “Pai.” Ele disse, tentando fazer uma reverência mesmo com Oriane em seus braços. “Minha irmã acabou pegando no sono. Eu poderia levá-la até seu quarto?”
Seria mais fácil mandar uma criada, e William sabia disso, mas também conhecia Thomas, e ele insistiria em carregá-la. Então, para evitar qualquer tipo de discussão, ele simplesmente acenou a cabeça, concedendo-lhe permissão. “Depois de levá-la, pode se retirar. Fez seu papel por hoje.” Thomas agradeceu formalmente e se encaminhou até as escadas, andando o mais rápido possível.
Ele subiu os degraus com cuidado e entrou no quarto, colocando-a no centro da cama. “Durma bem, 'Ane.” Thomas disse carinhosamente, beijando sua testa e cobrindo-a para que não passasse frio durante a noite. Ele já estava se aproximando da porta quando o sentimento de culpa o atingiu. Faltara com Oriane naquela noite, e tinha conhecimento disso. Mas fora um mal necessário, estava apenas pensando na reputação de sua irmã. Mesmo que ainda fosse uma criança, a mente perversa da corte já estava começando a inventar boatos, afirmando que Thomas e Oriane compartilhavam de uma relação mais... profunda do que simplesmente o laço sanguíneo. Como pode existir mentes tão doentias! Por Deus, somos irmãos, e ela não passa de uma criança! Ele pensou com repulsa.
Thomas a observou dormir por alguns minutos, notando como parecia um anjo com os cabelos dourados espalhados pelo travesseiro. Como alguém poderia ter a coragem de falar mal dela? Oriane era a pessoa mais bondosa que já conhecera, e a mais inteligente. Mesmo com apenas oito anos ela já conhecia mais do mundo que muitos convidados presentes na festa.
Decidindo que já havia ficado um tempo demasiadamente longo dentro do quarto, o que provavelmente acenderia ainda mais a imaginação da corte, ele saiu e fechou a porta atrás de si. Assim que chegou em seu próprio quarto ele pegou um pedaço de papel, a pena e começou a escrever uma pequena carta. Quando terminou a dobrou e guardou entre seus pertences. Amanhã, assim que o sol nascesse, ele a entregaria para Oriane. Era um simples pedido de desculpas, mas Thomas não conseguiria dormir sabendo o quão magoada ela ficara. Pelo menos agora tinha uma carta, e seria a primeira coisa que ela leria pela manhã.
Assim que o sol despertou no horizonte, Oriane abriu os olhos se sentindo um pouco confusa, sem saber ao certo onde estava. A última coisa da qual lembrava era estar no salão, rodeada por pessoas bêbadas e grosseiras, e agora se encontrava confortável em sua própria cama. Levantou-se lentamente, tentando relembrar os acontecimentos da noite anterior, até que viu o pequeno pedaço de papel perto de sua porta. Reconheceu de imediato a letra elegante que endereçava a carta para ela. Thomas! É claro, foi ele que me trouxe ontem. Pensou, um pequeno sorriso em seus lábios. Ainda estava brava, mas pelo menos ele se preocupava com ela.
Pegou a carta e começou a ler. Conforme seus olhos passavam atentamente pela folha, absorvendo o significado de cada palavra, ela ficava mais confusa do que já estava. A parte que mais lhe chamou a atenção fora o final:
Amo-a, mas temo que não possa mais ficar contigo em público. Os criados estão começando a comentar sobre nossa proximidade, com mentiras maldosas e cruéis. Peço que entenda, minha pequena irmã, será melhor mantermos certa distância quando em ocasiões públicas. Mas nunca duvide, Oriane, que eu sempre estarei aqui.
Para sempre seu,
T. B.
Ainda segurando a carta em suas mãos levemente trêmulas, ela voltou a se sentar na cama e tentou controlar a respiração. Confusão, raiva e rejeição eram sentimentos que atormentavam seu coração, impedindo-a de pensar com clareza. Não sabia ao certo quanto tempo tinha ficado ali, mas quando deu por si o sol já estava alto e ela precisava descer imediatamente. Sua ama havia entrado em seu quarto e lhe arrumado, mas ela nem prestara atenção. Já tendo controlado suas emoções, se preparou para sair, o coração pesado com a certeza de que, para Thomas, a opinião dos criados era mais importante que sua própria felicidade.
Ela desceu as escadas e encontrou-se com seu pai e irmão sentados a mesa. “Oh, minha querida. Vejo que acordou mais tarde hoje. Entendo, estava tão cansada ontem...” William continuou a falar, mas ela não encontrou dentro de si ânimo para prestar atenção. Seus olhos estavam em Thomas, que a olhava com um pedido de desculpas. Ele já abria a boca quando ela se antecipou e murmurou “mais tarde”, contente em ver que seu pai não percebera o que se passava entre eles.
“Perdoe-me por ter dormido, meu pai. Foi uma atitude extremamente grosseira de minha parte, e não acontecerá novamente.” Ela disse, as mentiras saindo naturalmente por seus lábios. O Rei William levantou-se e a abraçou, sinal de que a excitação de ontem ainda permanecia. Ela se perguntou por quanto tempo o feitiço daquela bruxa ainda duraria em seu pai. E como sabia que seria muito tempo, já estava se preparando para o que Eleanor tinha preparado para ela.
“Não se preocupe com isso, querida, e venha comer. Eleanor ainda está um pouco exausta depois do parto e das celebrações, então a deixei dormir por um tempo mais longo...” Oriane parou de ouvi-lo novamente, um desinteresse quase hostil com o bem-estar daquela megera. Ela se encontrava sentada ao lado de Thomas, como sempre, perdida em seus pensamentos quando sentiu uma mão segurar firmemente a sua debaixo da mesa. Ao olhar para cima percebeu Thomas sorrindo, deixando-a ainda mais confusa e irritada. Tentou ao máximo ignorá-lo e soltou sua mão, levando-a a mesa e comendo o mais rápido possível. Aquele não era o momento para conversar sobre a carta, mas o faria assim que terminassem de comer. Infelizmente, seus planos mostraram-se fracassados quando o rei voltou-se para seu irmão.
“Preciso discutir um assunto de extrema importância com você mais tarde, Thomas. Iremos a minha sala assim que acabar.” Ninguém ousou questionar a ordem do rei, por mais súbita que fosse. Oriane sentiu que alguém a observava, e ficou surpresa em descobrir que não era seu irmão, mas sim seu pai quem a fitava com a expressão preocupada e pensativa. Ela tentou disfarçar o calafrio que sentira diante tal olhar, como se soubesse que algo ruim estava por vir.
“Aconteceu alguma coisa, meu pai?” ela perguntou de forma sucinta, temendo que a resposta tivesse alguma relação com Eleanor. Não, ela não agiria tão cedo. Com certeza esperaria até a criança crescer um pouco mais. Oriane pensava, tentando ao máximo manter a calma e acreditar em si mesma. Mesmo que, no fundo, soubesse o quão imprevisível era sua madrasta, sempre a surpreendendo da pior forma possível.
Ao término da refeição, William e seu filho se retiraram para tratar de seus assuntos, deixando Oriane sozinha. Já que perdera a oportunidade de conversar com Thomas, ela resolveu passar seu tempo observando as árvores enquanto passeava pelo jardim. O que desejava mesmo era cavalgar na floresta, mas ninguém permitiria que fosse sozinha. Ficou um pouco triste, mas sabia que faziam isso para seu próprio bem. Nunca conseguiria lutar contra alguém com o dobro de seu tamanho, caso fosse surpreendida por um ladrão ou algo pior.
O tempo nunca passou tão lentamente como naquela manhã, e ela não aguentava mais esperar por seu irmão. Conforme o sol subia, a aflição que Oriane sentia aumentava. Mas seu estado de espírito piorou quando, ao olhar para cima, percebeu Eleanor observando-a através de sua janela, sorrindo maliciosamente e quase triunfante, fazendo-a estremecer. Naquele momento ela teve certeza de que algo muito ruim estava por vir, e ela seria a maior prejudicada. Elevando seus olhos aos céus, pediu a Deus que desse a sabedoria necessária para seu pai, fazendo-o tomar a decisão certa.
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