Notas iniciais
Olá, galera amada! Esta fic já estava sendo escrita há algum tempo. Resolvi postá-la enquanto preparo a finalização de algumas que já estão na "estrada" há bastante tempo. Espero que gostem!

O entardecer cinzento exibia nuvens carregadas e uma chuva fina caía sob as cabeças que observavam o seu jarl morto adentrar o mar. A balsa oscilou nas ondas, até a flecha com ponta de fogo cravar-se nela, transformando-a em uma pira funerária.

Hades ostentava uma postura ereta, enquanto seu pai despedia-se deste mundo. Sua irmã gêmea, Pandora, estava ao seu lado, o olhar preso nas chamas e nenhuma lágrima nos exóticos olhos de tom violáceo. Conhecida como a “Valkyrie” a jovem estava acostumada aos rituais de morte e assim como Hades, chamado “Kriger hjerteløs”, dividia o mesmo sentimento de indiferença. Distante dos dois estava um menino com olhar tímido, porém forte, de mãos dadas com um homem gigantesco.

Nenhum dos três tinha motivos para sentir pesar. Ares Ragnarsson, o Terrível, havia sido um pai severo e cruel cuja tirania se estendia dos filhos, ao neto e ao povo que cultivava e mantinha as suas terras, enquanto ele embarcava em seu navio para pilhar e guerrear.

Talvez a fuga da esposa com seu amante tivesse despertado o lado perverso de Ares que nunca perdoara ter sido deixado com dois filhos pequenos para criar sozinho. E nem mesmo a morte trágica que acolhera ambos os amantes fora o suficiente para aplacar-lhe a ira. O certo era que, o adjetivo Terrível se encaixava, perfeitamente, na personalidade do Jarl e a lição que o amor era um sentimento dispensável, muito bem aprendida por todos que haviam convivido com ele.

Desde que se tornaram adultos, os gêmeos passavam mais tempo em batalhas e negociações que em seu lar de origem e, mesmo agora, quando Hades já havia substituído seu pai por causa da doença e estabelecido o seu lugar como jarl pareciam estar deslocados em meio ao povo que prestava sua última homenagem ao seu senhor.

O som dos cascos de vários cavalos e o estalar da sela quando os cavaleiros desmontaram fez Hades perceber que sua hora chegara. A autoridade herdada já seria desempenhada ali mesmo.

Um pequeno contingente de olhos azuis e cabelos, ora negros como os seus, ora dourados como o sol misturavam-se no grande grupo anunciando a visita de seus irmãos de sangue, membros do félag. Alguns, deles, já tinha encontrado em batalhas, outros pertenciam a clãs que ele não conhecia.

— Saudações, Hades! Nosso pesar pela partida de Ares. Pena que ele não morreu na batalha, pois há essa hora estaria se banqueteando no salão de Odin! – disse o homem loiro e alto com uma cicatriz profunda que atravessava o rosto bronzeado.

— Saudações, Wulfgar. – respondeu o jarl sem demonstrar nenhuma emoção.

Pandora olhou o recém-chegado de cima a baixo, recebendo um olhar demorado.

— Saudações, Valquíria!— falou Wulfgar.

— Saudações, Cara cortada!— devolveu ela.

Wulfgar não era homem de tolerar uma ofensa, mas as cicatrizes de batalha eram motivo de orgulho e o fato de uma mulher como aquela proferir aquelas palavras o deixou excitado. Os demais homens riram, porém o semblante de Hades permaneceu inalterado.

— Diga o que mais o traz, Wulfgar. Não veio aqui, apenas para trazer seus pêsames.

— Sei que é cedo, mas temos um assunto sério. Guilty tem uma negociação pendente há várias estações e surgiram rumores que ele tem negociado com os monges em Lindsfarne.

— Que tipo de negócio?

— Dizem que os monges católicos escondem o tesouro das pilhagens dos vikings em troca de algumas doações. Guilty não quer nos pagar o que deve, ele está tentando nos enganar fazendo destes monges seus guardiões.

— Eu irei até a propriedade dele. Se for verdade, ele pagará caro por esta traição.

— Eu e meus homens viemos para unir forças com você. – devolveu Wulfgar já excitado com a perspectiva de uma luta.

Ao ouvir Hades e Wulfgar, Pandora sorriu internamente. Nada como um pouco de ação para fazer juz ao nome com que era chamada. Valquíria, “aquela que escolhe os guerreiros mortos na batalha e os conduz ao Valhala”!

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Minos mordeu os lábios até rompê-los, sentindo o gosto do sangue. As lágrimas já haviam secado, porém a dor continuava consumindo-o por dentro. A imagem de Albafica sendo arrastado para a forca sob o olhar insano de seu pai o fazia arder de ódio. Gritara até perder a voz, implorara, mas de nada adiantara. Não havia perdão no clã dos Griffon. Não para a demonstração de seus sentimentos para com outro homem.

— O senhor... não comeu nada. – disse a serva com os olhos baixos ao retirar o prato intocado.

Não houve resposta por parte do jovem. Assim que a serva deixou o quarto, Radamanthys entrou. Minos não se moveu e continuou olhando a parede onde uma pele de cervo retesada exibia uma bela imagem que se mostrava quase transparente. A pintura mostrava Yggdrasil o grande freixo que crescia no centro do universo ligando os nove mundos. Suas raízes mais profundas arraigadas em Niflheim, um mundo sombrio onde ficavam várias árvores assombradas, solo onde não se produzia nada e a escuridão abrigava gigantes e terríveis monstros. O tronco já com as cores desgastadas pelo tempo mostrava Midgard, o mundo dos homens e a parte mais alta, que se dizia tocar o Sol e a Lua, chamava-se Asgard a cidade dourada, a terra dos deuses, e o Valhala, o local onde os guerreiros vikings eram recebidos após terem morrido, com honra, em batalha. .

— Guilty mandou levá-lo. – disse o jovem alto e esguio, cujos olhos dourados pareciam flamejar.

Só após ouvir a voz do irmão que Minos prestou atenção na sua presença.

— E você foi o escolhido para me dar uma morte rápida ou dolorosa? – desafiou o jovem.

— Ninguém vai matá-lo.

— Por que não? É público e notório o ódio de meu pai por mim.

— Porque eu pedi. Aiacos também interviu a seu favor.

— O que vão fazer comigo?

— Guilty vai castigá-lo e você deve mostrar arrependimento. Por favor, Minos...

O jovem com cabelos platinados encarou o irmão. Não havia medo em seus olhos, apenas dor. O violeta escuro aprofundou-se no dourado, quando ambos se encararam.

— É melhor me matar, porque eu jamais perdoarei meu pai pela morte de Albafica e não me arrependo de nada! Foi apenas um beijo, Radamanthys! Um beijo!

— Eu avisei você. Guilty jamais admitiria esse tipo de relação em nosso clã.

— Que relação? Eu e ele não tivemos tempo de saber o que existia entre nós! Ele não precisava matar o Albafica porque nos sentíamos atraídos um pelo outro!

— Você não entende, não é? Albafica não significava nada! Ele foi, apenas, o meio que Guilty encontrou de dominar você e deixar uma mensagem clara a todos os outros!

— Ele nunca vai me dominar e nem vai impedir que as pessoas escolham quem amar.

Radamanthys suspirou. Minos era o irmão caçula e rebelde que, segundo Guilty trouxera consigo uma maldição e isso matara a esposa no parto. Porém, apesar da opinião do pai, ele e Aiacos acolheram e amaram aquele menino exótico que cresceu e se tornou impulsivo e cheio de vida, sempre defendendo suas crenças e dotado de uma inteligência sem igual. Sua beleza exótica chamava a atenção das mulheres, mas fora um homem que o despertara, Albafica Ericsson, um jovem órfão que trabalhava nos campos e, a despeito do temperamento bélico dos vikings, cultivava os mais belos jardins daquelas terras.

— Minos, eu sei como se sente, mas, por favor, finja! Se não fizer isso ele acaba com você, entendeu?

— É isso que você e Aiacos fazem? Fingem? Eu não suporto nem olhar pra ele, quanto mais fingir! Eu quero matá-lo!

Não adiantava falar, nem aconselhar. Minos jamais se renderia e Guilty não teria nenhuma piedade em torná-lo um exemplo. Era preciso algo radical para salvá-lo de si mesmo. Refletiu Radamanthys.

Surpreendido pelo ato, Minos gritou quando Radamanthys bateu com força o cabo da espada em seu braço. O impacto fez o jovem dobrar os joelhos, enquanto ele batia uma segunda vez.

— P-Para com isso! O-O que você está fazendo? – gritou Minos, ofegante e segurando o braço.

— Salvando a sua vida! – respondeu Radamanthys descendo o cabo da espada, agora na cabeça do irmão deixando-o desacordado.

A expressão de Radamanthys era grave ao ver seu irmão ao chão. Sentira que quebrara o braço dele e a pancada na cabeça deixaria uma cicatriz. Era isso ou Minos perderia a vida. Guilty o mataria sem pestanejar. Seu pai não era chamado de Demônio à toa. Merda, Minos! Quando você vai aprender que a vida adulta exige certas concessões?

No salão malcuidado, Guilty estava sentado como se fosse um rei. O vento entrava pelas janelas quebradas, colchões de palha se espalhavam pelo piso coberto de poeira. As mesas estavam cobertas de restos de comida e os cães disputavam ossos embaixo delas. Não havia toalhas, nem tapeçarias. Tudo ali parecia abandonado e sujo, até mesmo os que ali moravam e serviam. Mas, quem pensasse que ele era um jarl pobre, se enganava. Ele possuía muitos bens e terras, conquistadas com a pilhagem e algumas negociações. No entanto, era avarento, perverso e desleixado. Manter aquele espaço sem cuidado era uma boa estratégia, em sua opinião, para manter os ambiciosos longe da sua convivência.

Radamanthys entrou arrastando Minos desacordado pelo colarinho como se ele fosse um animal abatido.

— O que aconteceu? – perguntou Guilty franzindo o cenho.

— Resolvi lhe poupar trabalho, pai. Castiguei-o com força. – respondeu Radamanthys soltando o irmão aos pés do pai.

— Ele reagiu?

— Não. Dei-lhe uma lição e sei que ele aprendeu.

— Sorte sua. Esse vadio nunca baixa a cabeça. Eu não perdoo o que ele fez!

— Quando ele voltar a si eu o tomarei aos meus cuidados e o farei aprender. – falou Radamanthys num tom que pretendia convencer o pai de suas intenções.

— Espero que consiga ou vou acabar matando esse desgraçado!

— Milorde! Milorde! As sentinelas avistaram um grupo de homens vindo para cá!- gritou um servo interrompendo a conversa.

— Merda! Devem ser os membros do félag. — falou Guilty levando a mão aos cabelos gordurosos.

— Por que não salda a sua dívida? O senhor tem como pagar. – falou Radamanthys.

— Não darei nada a estes cães! Logo, logo eu serei quase um rei...

Radamanthys não arriscou mais nenhuma opinião. Sabia que o pai tramava algo, mas ainda não descobrira o cerne da questão. Enquanto observava a tudo como irmão mais velho, viu Aiacos entrar junto com dez homens avantajados portando machados e usando peles grossas de animal.

— Ah! Eles chegaram! – disse Guilty exultante.

Berserkers? O senhor os contratou? – perguntou Radamanthys franzindo o cenho.

— Sim. Eles e os monges assegurarão o nosso futuro. – respondeu Guilty com uma expressão malévola.

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A vidente com olhos esbranquiçados e longos cabelos grisalhos separava as ervas quando Hades entrou. A cabana era escura e rescendia a fumaça misturada ao odor do couro curtido. Um corvo crocitava sobre um poleiro feito de galhos retorcidos cada vez que o borbulhar do caldeirão fazia respingar pequenas gotas do cozido no chão.

Kriger hjerteløs... Em que posso servi-lo, jarl?

— Saudações, Guthrum. Sairei com os homens em uma missão e gostaria da orientação das runas.

Um sorriso breve brincou nos lábios da mulher, revelando dentes amarelados. Ela mastigou uma erva e depois cuspiu. Em seguida ela entoou um cântico, tomando nas mãos uma cumbuca cheia de pedras.

“Folhas de Yggdrasil” revelem o destino daquele que nos lidera! – disse ela tirando as pedras rúnicas ao chão.

Hades permaneceu em silêncio, observando as runas e o olhar da vidente.

Wird, a runa branca de Odin! Sua jornada será bem sucedida, apesar da traição que acontecerá. Sangue e morte fazem casa na sua vida, jarl, mas, será mais forte que seus inimigos e os vencerá. Junto a tudo isso, o seu destino cruzará com o destino de outrem e seu coração experimentará um sentimento que jamais vivenciou nesta e em outras vidas. – disse ela fitando-o no fundo dos olhos. – Kenaz abre os seus caminhos e Othala fala de um rompimento necessário mandando deixar o passado para trás. A vitória acompanha os seus passos, Kriger hjerteløs, mas tenha cuidado!

Olhando-a, Hades retirou algumas moedas do saco de couro, mas a vidente as recusou.

— Guarde suas moedas. Um dia, eu lhe pedirei um favor. – disse ela com um olhar profundo.

Hades assentiu com a cabeça e deixou a cabana. Das previsões da vidente, o que lhe chamou a atenção foi a vitória como resultado. Do lado de fora encontrou Aldebaran com Alone.

— Seu filho fez grandes progressos, jarl.— disse o homem gigante com um sorriso.

— Ótimo. Vou testá-lo quando eu voltar. – respondeu Hades sem nenhuma emoção.

O menino baixou os olhos, consciente da indiferença do pai. Mesmo tendo apenas nove anos de idade, já tinha sido iniciado no manejo dos punhais de lâmina curta. Pouco convivia com Hades ou sua tia Pandora. Ficava sob os cuidados de Aldebaran, guerreiro que treinava os homens do clã e era um dos poucos que contava com a mais absoluta confiança do jarl.

— Não demorará muito tempo para que Alone o acompanhe. – falou Aldebaran elogiando o menino.

— Eu já sou um guerreiro, só preciso crescer mais um pouco e eu vou crescer rápido. — disse o menino com a esperança que sua fala trouxesse orgulho ao seu pai.

Hades encarou o menino loiro e de olhar profundo. Ele se parecia com a mãe, embora não demonstrasse a fragilidade que Freya possuía. Fitá-lo era quase como rever a esposa infeliz que ele nunca amara e que fora, apenas, um receptáculo de seu herdeiro.

Seu casamento fora uma exigência por ser filho de um jarl e ter seu papel definido dentro do clã. Tudo acontecera quando completara dezessete anos. Os primeiros dois anos, ele passara fora de casa, navegando e pilhando. Quando retornou encontrou Freya doente e melancólica, mas mesmo assim ela engravidou vindo a perder a criança. Somente após, quatro anos de casados, ela deu a luz à Alone, numa gravidez difícil e um parto perigoso. Nem bem o menino completara seis meses ela viera a falecer devido a uma febre desconhecida.

Ele não estava junto dela quando Alone nasceu e nem quando ela morreu. Aliás, nunca estivera, verdadeiramente, junto da esposa. Aquela união era uma fachada, um artifício necessário para herdar sua posição no clã. Seus gostos e desejos se direcionavam aos homens e era nas viagens que podia saciá-los sem que tivesse de dar satisfações sobre sua inclinação sexual.

Também não aprendera a dar, nem receber amor. Vivia sob a tutela dos instintos básicos, comer, beber, foder e guerrear. Embora nutrisse um sentimento genuíno pelo filho e pela irmã, Pandora, não o expressava abertamente. Sua irmã sempre fora sua companheira e braço direito e ambos se defendiam com unhas e dentes. Quando ela matou o marido escolhido por seu pai e que a estuprara na noite de núpcias, ele a apoiara e enfrentara o pai para que ela tivesse o direito de permanecer sem homem e decidir sua própria vida. Seu filho era a sua promessa de eternidade e desejava que ele tivesse uma vida plena, porém pouco convivia com ele e cada vez que o via, parecia que ele crescia muito bem sem sua interferência.

Agora Ares estava morto e as novas leis prontas para serem colocadas em prática.

— Obedeça Aldebaran e logo estará ao meu lado. – disse Hades tocando o ombro do filho.

Um sorriso despontou no rosto infantil. O simples toque trazendo uma rara alegria.

— Que Thor o proteja, pai. – disse ele.

Hades assentiu e foi em direção aos homens que já o esperavam em prontidão.

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Havia algo de errado no ar. Não era nada que pudesse ser explicado pela lógica e, ainda assim, tão palpável quanto aquelas terras... Guthrum previra uma traição e a vidente jamais havia falhado com o clã.

As terras de Guilty eram verdejantes, porém pouco exploradas. Era a criação de cavalos que predominava ali e assim mesmo, não parecia que fosse algo valorizado e organizado.

Hades franziu o cenho quando notou o alarme dado pela sentinela da fortaleza que se apresentava a sua visão, mostrando uma estrutura forte, apesar da aparência malcuidada.

— Fiquem de prontidão. As runas previram que não seremos bem recebidos. – disse o jarl.

Nem bem terminara sua fala, a voz de Hades foi encoberta pelo zunido da salva de flechas que partiu detrás dos portões. Pandora empunhou o arco, disparando uma flecha certeira no peito de uma sentinela que estava no alto.

Ao notar a movimentação fora da fortaleza, Radamanthys olhou para o seu pai que permanecia sentado e com uma expressão tensa.

— O senhor mandou atacar os membros do félag?— questionou o jovem elevando uma sobrancelha.

— Eu não entregarei nada àqueles cães! Os homens que contratei darão cabo de todos eles! – respondeu Guilty cravando os dedos nos braços do trono de pedra.

Radamanthys não acreditava no que estava acontecendo. Ele olhou para Aiacos que parecia tão surpreso quanto ele.

— O pai pediu para trazer os berserkers, mas eu não achei que...

Um grito selvagem cortou o ar e a fala de Aiacos. Os homens chamados de berserkers eram grupos de guerreiros inspirados na força guerreira de Odin. Capazes de entrar em um descomunal estado de fúria em combate, dizia-se que guerreavam com selvageria e suas peles podiam repelir as armas, tornando-os invencíveis.

Hades liderou a ofensiva e quando brandiu a espada, um pequeno grupo de homens saiu pelo portão, antes dos guerreiros lendários. Wulfgar ergueu o machado e a batalha começou...

Logo todos estavam gritando e lutando com espadas, machados, escudos e punhais. Era uma ciranda violenta e confusa que já começava a exibir partes de corpos mutilados e o vermelho vivo do sangue sendo absorvido pela terra.

Os berserkers tinham uma estatura avantajada, parecendo com os gigantes das lendas. Eram chamados de guerreiros sanguinários com sede de violência e morte, sem nenhum controle ou medo. Seus machados cortavam sem piedade, enquanto gritavam o nome de Odin com os olhos avermelhados refletindo loucura.

Em pouco tempo, Wulfgar e seus homens ficaram cercados.

Radamanthys e Aiacos se prepararam para proteger-se do ataque.

— Que loucura o pai fez? – murmurou Aiacos.

— Agora não é hora para indagações. Temos que nos defender. – disse o mais velho empunhando a espada.

Hades foi ajudar Wulfgar e sua espada foi atingida por um machado de guerra, se partindo em pedaços. Mesmo assim, ele avançou para cima do inimigo com o pedaço de lâmina que havia restado e num salto, fincou-a no pescoço do berserker fazendo jorrar um jato vivo de sangue. O guerreiro lendário ainda urrou avançando, porém Hades atingiu-o, novamente, agora no olho esquerdo. Com o olhar vítreo, o gigante desabou recebendo uma flecha no meio do peito disparada por Pandora.

Sim, um berserker podia ser morto! Disse o jarl para si mesmo, enquanto procurava outra espada para empunhar.

Pandora sinalizou para Hades e ambos foram com alguns homens para a fortaleza de Guilty. Diferente dos berserkers, o jarl exibia uma frieza inacreditável em batalha. Por isso era chamado de Kriger hjerteløs, o “guerreiro sem coração”. Nada o desestabilizava, nem despertava sua fúria. Sua espada cortava sem piedade e seu olhar era capaz de gelar o sangue de um homem e, em nenhum momento ele perdia o controle.

Em meio à cena de espadas ensanguentadas e corpos em frenesi, Pandora abriu caminho para o salão onde Guilty se encontrava. Os homens abriram a porta central com um estrondo, fazendo-a se espatifar. Radamanthys e Aiacos tomaram a frente, assim como um homem enorme com aparência animalesca com um machado nas mãos. Por trás do elmo ele exibia olhos com um brilho avermelhado e sua boca aberta rosnava.

Pandora deixou o arco e pegou a espada, enquanto Hades se colocou à frente dela e elevou o escudo, recebendo o golpe do machado que reverberou ao longo do seu braço.

— Vá e encontre Guilty! – gritou ele sustentando a força do ataque do berserker.

No entanto, outro grandalhão surgiu com a mesma expressão estranha nos olhos com um machado pingando sangue. Pandora deslizou para baixo atingindo o homem na perna, mas ainda assim ele continuou e seu machado passou rente ao corpo da jovem. Foi nesse momento que Radamanthys e Aiacos se juntaram aos gigantes, mas, ao contrário do esperado, o mais velho elevou a espada e cortou o pescoço do berserker com uma agilidade surpreendente. Um jato de sangue jorrou do corte e da boca do viking e uma expressão de espanto surgiu nos olhos esbugalhados. Ele desabou e Pandora olhou confusa para o homem que salvara a sua vida.

Radamanthys olhou para o homem morto e, em seguida, largou a espada falando em um tom alto e grave:

— Homens do clã deponham as espadas! Essa loucura acaba aqui!

Aiacos olhou com o cenho franzido na direção do irmão, sendo acompanhado pelos guerreiros de seu pai. O jovem obedeceu, mas estranhou a ordem, assim como Hades e Pandora.

— Estamos depondo as armas, Kriger hjerteløs.— reiterou Radamanthys.

Hades elevou o braço e seus homens pararam de lutar. Não havia mais nenhum berserker em pé. Wulfgar havia ordenado que seus homens cortassem as pernas dos gigantes, obrigando-os a cair. Depois que Hades matara um deles, todos acreditaram que até uma lenda poderia ser abatida e o fizeram com alegria selvagem.

Guilty tinha aproveitado a confusão para desaparecer. Nem mesmo os seus filhos sabiam como ele tinha feito, pois estavam ocupados em salvar suas vidas e a dos homens a serviço do clã.

— Onde está Guilty? – perguntou Hades.

— Não sabemos. Meu pai enlouqueceu e nem nós sabíamos o que ele planejava. Ele deve ter fugido enquanto lutávamos. – respondeu Radamanthys.

O jarl encarou o jovem a sua frente. Olho no olho. Radamanthys não desviou, nem mesmo quando Hades tocou com a lâmina da espada em seu pescoço.

— É corajoso e salvou a vida de minha irmã. Vou acreditar que tem honra, mesmo sendo filho de um traidor. Jure lealdade a mim e poderá juntar-se a nós.

Radamanthys puxou a adaga que trazia junto ao corpo e passou a lâmina na palma da mão, olhando nos olhos frios de Hades. No mesmo instante, Aiacos e os homens que restaram fizeram o mesmo. Unidos pelo juramento de sangue, todos ali selavam seu destino e passavam a aceitar a liderança de Hades.

— Pois bem, venham! Wulfgar! Mande os homens verificar o que tem de valor na fortaleza e depois queimar o lugar. Que não reste nada que lembre o traidor.

Foi neste momento que Minos acordou. O cheiro do sangue, a poeira junto ao rosto... Seu gemido alertou Hades que olhou de imediato para os pés da cadeira feita de pedra, agora vazia.

— Quem é este? – perguntou o jarl.

— É nosso irmão.

— E o que ele faz ali? – perguntou ele, notando que o jovem havia se levantado e segurava o braço. Uma mancha de sangue insinuando-se na testa pálida...

— Guilty o condenou por sentir-se atraído por um homem. Eu tentei salvá-lo, antes que nosso pai acabasse matando-o por isso.

Minos estava tonto e sentindo dor. Mas, isso não foi o suficiente para que ele se calasse quando compreendeu o que tinha acontecido ali. Desafiador, ele encarou Hades.

— Não sei se ainda poderei levantar uma espada e não vou sujeitar-me a outro tirano. É melhor me matar!

Notas finais
**♥**Agradecimentos especiais a todos que leem, comentam, silenciam, favoritam. Muito obrigada pelo enorme carinho!!!**♥**A trama da fic foi baseada nas runas e aqui o significado do título:“A Runa Branca é a runa de Odin, o Criador. Fala das surpresas do destino e da finalização de ciclos. Odin representa as três Nornes: Urd – passado, Verdandi – presente e Skuld – futuro. É a misteriosa lei que atua dentro do indivíduo. É o próprio Universo. Viver o presente de maneira a ter certeza de que está contribuindo e semeando o solo, para colher um amanhã mais próspero. É a contribuição não só para o crescimento individual, mas também para o crescimento do mundo em que se vive. A frase que a define é: Aprenda a viver o destino e confie no criador.”