A RUNA BRANCA DE ODIN
2 CAPÍTULO UM - Uma nova vida...
Notas iniciais

Radamanthys suspirou e Aiacos coçou a cabeça. Pandora analisou-o, demoradamente e Hades também. O jarl podia sentir a rebeldia latente na personalidade do jovem, algo que o desagradava.
– Do jeito em que está não vejo outra escolha para você. No entanto, não pretendo perder meu tempo com um fedelho insolente! Decida por si mesmo e pare de choramingar como um cão. – disse Hades dando as costas, junto com Pandora.
O tom de voz e o olhar do jarl não demonstrava piedade. Um viking tinha de ser forte ou sucumbiria. Minos sentiu a força de aquele olhar e, por uma estranha contradição, as palavras de Hades mexeram com algo dentro de si. Não gostara dele, porém ele lhe dera uma escolha, algo que seu pai jamais fizera.
– Ele virá conosco. – adiantou-se Radamanthys tocando o ombro de Minos.
O jovem olhou feio para o irmão, tentando desvencilhar-se dele.
– Você quebrou meu braço! Quem disse que pode decidir por mim?
– Melhor quebrar o braço que perder a vida. Agora venha, sou seu irmão mais velho e digo que irá comigo em meu cavalo. Por bem ou... por mal. – disse Radamanthys tocando o cabo da espada ainda suja de sangue.
Com o cenho franzido, Minos não teve tempo de responder. Radamanthys sinalizou para Aiacos e, juntos, ambos o arrastaram até os cavalos. Assim que montou, o mais velho sinalizou para que Aiacos ajudasse Minos a montar e ele o fez.
Quando todos estavam prontos, Hades liderou-os de volta, tendo Wulfgar ao seu lado com uma expressão de triunfo. Pandora olhava enviesado para Radamanthys, pois a dívida que tinha com aquele homem a deixava desconfortável e intrigada. Em seu íntimo, rezava para que, a próxima vez em que ambos estivessem em uma batalha, fosse ela a saldar a dívida. Odiava dever algo a um homem.
A cavalgada foi feita sem percalços. Mas, para Minos, a paisagem foi ficando desfocada, úmida e dolorida fazendo-o se remexer na sela junto do irmão.
– Fique quieto. – a voz soou muito próxima e, quando Minos abriu os olhos, o mundo voltou a existir em meio à bruma.
O jovem havia dormido e agora estava em cima de um cavalo sendo segurado por seu irmão como se fosse uma criança. Estavam nas montanhas, indo em direção ao norte, para longe da fortaleza que fora o seu lar por vinte e três anos e agora queimava, lançando nuvens espessas e escuras de fumaça. Ele se contorceu sentindo o braço latejar. Seu irmão o mantinha firme contra o corpo.
– Solte-me... eu não vou...
– Cale-se, Minos. Pelo menos uma única vez na vida, deixe de ser cabeça dura! Você não está em condições de cavalgar sozinho.
O jovem se calou e se deixou levar. Seu corpo inteiro doía e aquela cavalgada estava sendo uma tortura.
Já era noite alta quando chegaram à fortaleza de Hades. Minos observou que o lugar era austero, porém limpo e amplo, muito diferente de seu antigo lar. O salão era arejado e havia tapeçarias nas paredes. As mesas exibiam toalhas escuras e já estavam guarnecidas com o jantar. Carnes, pães e barris de hidromel estavam dispostos sobre elas, enquanto enormes lareiras exibiam um fogo vivo, aquecendo todo o ambiente.
Um jovem com olhos violáceos e cabelos platinados estava escorado próximo à mesa central e quando Hades adentrou o salão, os dois se fitaram rapidamente, porém Minos notou uma cumplicidade entre eles. Por apenas um momento, sentiu uma leve pontada de inveja, pois sabia reconhecer o olhar da paixão. O jarl disfarçava bem, mas o jovem em questão, não.
Lune olhou os forasteiros com desdém. Ele sabia que Hades marchara até as terras de Guilty e aqueles homens deviam pertencer ao clã do traidor. Porque ele os tinha trazido? Para servi-lo? O jarl não devia confiar naquela espécie de homem!
Radamanthys e Aiacos percebiam os olhares furtivos. Não havia sorrisos ou boas-vindas, mesmo que tivessem jurado lealdade ao Jarl. Será que tinham feito a coisa certa?
Hades se posicionou no centro do salão.
– Estes homens juraram lealdade a mim e serão tratados como pertencentes ao clã. Guilty fugiu e vamos caçá-lo no devido tempo. Por enquanto, essa questão será posta de lado e todos podem descansar.
Ditas as palavras, todos sentaram às mesas prontas. Alguns cochichavam, outros apenas olhavam. Entretanto, o que mais chamou de Minos foi que não havia disfarces sobre a preferência do jarl. Ele se aproximou do amante e espalmou uma das mãos em sua bunda, provocando um risinho de contentamento. Ninguém ali parecia se importar ou olhar de forma torta para a cena pouco vista entre os vikings. Aquele homem tinha a coragem e o poder de amar outro homem...
– Minos...
Mais uma vez, a voz de Radamanthys o tirava de seus devaneios.
– O que é? – respondeu instintivamente.
– Pare de encarar. Ainda não conquistamos nosso lugar aqui.
– E nunca vamos conquistar. Viu como nos olham? Parece que somos inimigos e não vikings como eles.
– Deixe de besteira e coma. A palavra de Hades é uma só e ele é o jarl.
Minos respirou fundo e engoliu a dor latejante em seu braço e também em sua cabeça. Olhou para a mesa farta e limpa e quase riu. Em seu lar, Guilty fazia questão de parecer quase um indigente, embora fosse tão próspero quanto o jarl que serviriam, a partir de agora.
Foi então que, inesperadamente, a presença de Hades o surpreendeu.
– Coma e depois vá até a cabana com uma galhada de antílope fixada na porta. Guthrum cuidará de seus ferimentos. – disse ele.
O jovem amante do jarl os observava do outro lado do salão com uma expressão de advertência em seus olhos exóticos que ora pareciam rosados, ora violáceos como os de Minos. Não gostara nada daqueles intrusos e, principalmente daquele que tinha os cabelos da cor semelhante aos seus.
Radamanthys agradeceu ao seu senhor e Minos apenas o encarou. Aqueles olhos azuis acinzentados do jarl pareciam o metal de uma espada, porém havia uma profundidade estranha neles que exerciam uma atração nada bem-vinda no jovem rebelde.
Quando seu irmão o cutucou, Minos fez um gesto de agradecimento, enquanto Hades lhes dava as costas e ia ter com seu amante.
Um tempo depois, Minos deixou a mesa sem tocar no alimento, indo até a tal cabana. Ao entrar se sentiu estonteado com o ambiente enfumaçado e pareceu ouvir vozes que não pertenciam a ninguém e sim há um tempo que nem mesmo ele sabia existir.
– Aproxime-se, jovem Minos...
A voz de Guthrum o puxou de dentro dos sons e ecos...
– Eu... Como sabe o meu nome?
– Eu sei muitas coisas. Agora se deite aqui. – disse ela apontando para o tapete negro feito de pele de urso.
Minos hesitou, piscando os olhos e ela sorriu.
– Não tenha medo.
– Eu não tenho medo. – respondeu ele franzindo o cenho.
Ela apontou mais uma vez e Minos obedeceu. Assim que sentiu a pele em contato com o seu corpo, ele fechou os olhos e tudo escureceu.
Guthrum entoava um cântico, enquanto enfaixava o braço do jovem tendo o cuidado de alinhar o osso quebrado e mantê-lo imobilizado com uma trama feita de galhos amarrados com finas tiras de couro. Em seguida mascou algumas ervas e colocou a massa amarronzada no ferimento da cabeça.
Por longos minutos, ela cantou e banhou o corpo de Minos com fumaça de ramos de avelã. Em seguida, traçou um símbolo em sua fronte e soprou sobre seus lábios. De imediato, Minos abriu os olhos. Assustado, tornou-se totalmente consciente do ambiente em que se encontrava. O crocitar do corvo, a dança da fumaça, o cântico que fazia seu peito vibrar...
– O que fez comigo? – perguntou ele.
A vidente sorriu.
– Vá agora e descanse. Em poucas luas, seu braço estará curado e seu coração... também.
– Vou poder usar a espada?
– Apesar de ser um homem forte, sua arma não é essa, meu jovem.
Com o cenho franzido e uma estranha leveza no corpo, Minos se levantou e voltou ao salão. Já havia passado algum tempo, mas ele não havia percebido que já era tarde.
A movimentação dos colchões sendo desenrolados conforme os homens encontravam um lugar para dormir o fazia lembrar-se que agora não era mais o filho de um jarl e não dividiria mais um quarto com seus irmãos. A partir de agora, dormiria com os outros homens sem ter nenhuma regalia ou comodidade.
O colchão de palha era estreito, mas limpo e havia cobertas que podia usar. Minos cruzou as mãos sob a cabeça e esticou as pernas. Ao fechar os olhos, a lembrança daqueles olhos cinzentos sobre si despertava uma inquietação. Não simpatizara com o jarl, mas tinha que reconhecer que ele o surpreendera. Não imaginava que um homem como ele se mostrasse tão aberto e seguro de suas preferências sexuais. Os vikings eram orgulhosos de sua virilidade e a atração por outro homem, geralmente, era considerada nefasta ou proibida. No entanto, ele liderava um dos clãs mais numerosos e poderosos daquele lugar.
Olhou para o lado e viu seus irmãos já dormindo. Inspirou fundo e fechou os olhos. Ao contrário da dificuldade habitual para dormir, caiu logo em um sono profundo e sem sonhos.
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Na penumbra, Hades sentou-se na cadeira ao lado da cama em seu quarto e se serviu do tradicional chifre com hidromel. Seu corpo ainda estava molhado do banho e seus pensamentos vagando entre a recordação da luta com os berserkers e o acolhimento dos filhos e homens de Guilty, o traidor. O olhar do caçula o deixara intrigado. Diferente dos outros, o tal Minos não parecia se encaixar em nenhum sistema. Seu olhar indômito e as palavras ditas, sem nenhum medo, chamaram a sua atenção de forma inusitada, embora tal atitude se constituísse em um problema.
O ruído de passos do lado de fora o tirou de seus devaneios. A aldrava fez um som seco e estancou. Então a porta se abriu e um jovem entrou usando uma túnica aberta, o cabelo preso em duas longas tranças nas laterais da cabeça e o restante solto caindo abaixo da altura dos ombros em uma cascata platinada.
Uma leve expressão severa dominou o rosto do jarl.
– Não mandei chamá-lo.
Lune piscou, mas não baixou a cabeça.
– Vim ver se precisa de algo, jarl... – disse com uma voz sussurrada.
Levando o chifre aos lábios, Hades sorveu mais um gole de hidromel e encarou Lune. Eram amantes há poucos meses e estava satisfeito com a relação. O jovem era belo, inteligente e submisso a sua vontade. O manteria pelo tempo em que seu interesse perdurasse e já deixara isso bem claro. Os dois se davam bem na cama, mas logo seu desejo procuraria outro corpo, era somente uma questão de tempo.
– Venha cá. — o jarl largou a bebida sobre a mesa e Lune sorriu ao constatar o brilho da luxúria nos olhos azuis do amante. Ele o queria...
Hades se aproximou e o jovem abriu a boca ansiosa, gemendo quando o jarl abriu a sua camisa, enfiando as mãos por dentro e acariciando-o nas costas e mamilos enrijecidos. Não havia gentilezas ou toques brandos entre os dois. Havia apenas sexo, intenso e urgente. Com camisa aberta, Lune respirava acelerado, enquanto Hades o explorava com as mãos calejadas.
– O hidromel em seus lábios me excita... — disse o jovem aproximando sua boca da de Hades.
O jarl fitou-o com desejo, mas não o beijou. O beijo era uma carícia inexistente entre os dois. Hades era hábil nas carícias e fazia coisas incríveis com ele, satisfazendo-o como nenhum outro amante conseguira, porém nunca o tinha beijado e essa lacuna era algo que ainda desejava e que esperava um dia conseguir.
– Então vamos ao que interessa... — disse ele levando as mãos ao cordão da calça de Lune e afrouxando o cordão da sua.
Com agilidade, Hades o encostou na parede escura e mal iluminada. Apesar dos joelhos de Lune estarem trêmulos como o seu coração, o jovem sussurrou ao ouvido do jarl:
– Me fode...
Foi o bastante. Hades baixou as calças do amante e virou-o de frente para a parede, mordendo-o no pescoço, enquanto segurava os quadris dele e corria a língua pelas costas até chegar às nádegas roliças e bem feitas.
– Abra as pernas... – ordenou o jarl ouvindo o jovem gemer, enquanto obedecia e empinava a bunda.
Lune se moveu contra a boca de Hades, ofegando ao sentir o calor do hálito do jarl.
– Quer mais...? – perguntou Hades. – Então diga... – completou, enquanto provocava-o com a língua.
– Quero... Quero que me foda e me faça seu... – disse o jovem com o desejo percorrendo suas veias e se derramando dentro dele como fogo.
Satisfazendo a vontade do amante, Hades o penetrou fundo e com força, sentindo o corpo do jovem estremecer contra o dele e ofegar, enquanto empinava a bunda e virava o rosto de lado, mostrando o prazer sentido nas feições crispadas.
O jarl mordeu o pescoço alvo e o puxou para si, apertando-se contra o corpo alvo. O falo rígido começou a adentrar o corpo de Lune lenta e sensualmente, intensificando os movimentos ao sentir que ele ofegava e gemia seu nome.
Ele continuou a mover-se dentro dele, possuindo-o num ritmo forte, fazendo Lune apertar os olhos pelo prazer sentido cada vez que o sentia mais fundo em sua cavidade.
Próximos ao clímax, o jovem gemeu alto e empurrou-se na direção dos quadris de Hades, enquanto o moreno grunhia e chegava ao orgasmo.
Fechando os olhos, Lune gozou alto e sorriu, sentindo os joelhos tremerem e seu sêmen projetar-se intenso e quente.
Quando os dois recuperaram o fôlego, desvencilharam-se um do outro sem mostrar nenhuma intimidade. Lune vestiu suas roupas, enquanto Hades voltava a beber seu hidromel.
– Estarei dormindo no lado esquerdo do salão... Caso deseje continuar mais tarde. – disse o jovem olhando dentro dos olhos acinzentados do jarl.
Os olhos de Hades ainda refletiam um brilho lascivo, porém nada mais que isso.
– Preciso descansar. Aproveite e faça o mesmo. – disse ele, por fim.
– Sim, jarl. — a resposta contendo uma nota de decepção, porém Lune não ousava ir além do que considerava próprio e seguro.
Assim que Lune saiu, Hades jogou-se sobre a cama e fechou os olhos. Tornara-se o líder e todos esperavam muito dele. Novamente, a imagem dos olhos violáceos do filho mais novo de Guilty se sobressaiu em sua mente. Era um olhar indômito, parecido com o seu, a diferença era que Minos não endurecera, ele ainda se rebelava como um lobo selvagem preso em uma armadilha, capaz de roer a própria pata para preservar a liberdade.
O sono enevoou seus pensamentos e Hades adormeceu. Seu corpo estava saciado e suas emoções trancafiadas em algum lugar muito bem guardado dentro de si. Ele era o jarl, o guerreiro sem coração e vivia muito bem assim.
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Nem bem o sol imprimiu seus raios sobre a vila, todos já estavam em pé e tratando da rotina habitual.
Minos não podia ir com os irmãos para o campo de treinamento e ficou à deriva, até a metade da manhã quando uma voz feminina em um tom levemente grave chegou aos seus ouvidos.
– Muito bem, já que está machucado e não pode juntar-se aos outros homens vai trabalhar em algo que seja útil. – disse Ingrid, uma mulher madura com um cabelo longo e grisalho que parecia uma das mulheres sábias as quais o clã devia e tinha muito respeito e admiração.
Minos franziu o cenho.
– Quem ordenou isso?
– Ora, o jarl. Quem mais seria? Lune mostre a este jovem o que deve fazer! – gritou ela.
O amante de Hades se aproximou com uma expressão astuta.
–Não pense que este seu... machucadinho vai livrá-lo do trabalho. O jarl não deixa ninguém sem fazer nada. Todos nós temos obrigações.
E a sua se resume a ser a vadia dele. Pensou Minos, enquanto encarava Lune sem dar-se ao trabalho de responder.
Lune conduziu Minos até a casa do ferreiro. O ambiente era quente e abafado. Um homem corpulento manejava a forja e batia sobre o aço com força, a testa exibia um vinco profundo que provinha do cenho franzido. O suor lhe banhava o rosto como se ele tivesse despejado um balde de água sobre a cabeça.
– Rorik, esse é Minos, um dos filhos do traidor Guilty que agora se encontra sob a tutela do nosso jarl. Arranje algo para ele fazer, até que possa ser útil novamente. – falou Lune tendo o cuidado de enfatizar a posição de Minos ali.
O ferreiro olhou para Minos com desdém.
– Se não pode empunhar uma espada ou fazer esforço, não me serve.
– Ora, ponha-o para limpar a lareira ou o chão. – disse Lune com um tom de divertimento.
Rorik suspirou passando o braço sobre a testa suada.
– Está bem. Vá alimentar o fogo. – disse ele olhando para Minos.
Minos trincou os dentes, a vontade de recusar aquela situação humilhante se avolumando dentro de si. Então viu seus irmãos galopando ao lado de Hades e, pela primeira vez em sua vida, resolveu obedecer para não prejudicar sua família.
Olhou em volta e logo registrou em sua mente os objetos e seus respectivos lugares. A lenha jazia em um monte um tanto longe da fornalha, os instrumentos juntos demais, entulhos no meio do caminho e tinha a sujeira proveniente dos restos de ferro e madeira. Logo, seu cérebro começou a pensar como deixar aquele ambiente mais funcional. Então, enquanto Rorik modelava o metal para transformá-lo em armas, ele ia rearranjando o espaço, tornando-o prático e limpo.
– O que você fez? – perguntou Rorik, assim que terminou de malhar o ferro.
– Reorganizei o espaço para que possa trabalhar melhor.
– Como ousa mexer no meu local de trabalho?
– Experimente como está e me diga se não ficou um ambiente mais viável. – respondeu Minos sem se abalar com o desconforto de Rorik.
Com o cenho franzido, o ferreiro estranhou o modo de falar do jovem, mas verificou que ele tinha razão. Como sempre estava ocupado em forjar, não tinha tempo de organizar certas coisas e, admitia que não tinha ideia de como o espaço poderia ser melhor aproveitado como fora feito por Minos.
– É, ficou bom. Continue a alimentar o fogo. – disse ele, coçando a cabeça.
Com um discreto sorriso, Minos obedeceu se sentindo satisfeito com aquela pequena vitória.
O tempo passou, Minos foi se ambientando e seus irmãos também. Comiam e participavam da rotina diária do seu novo clã e, por mais incrível que parecesse, trabalhar ali não era ruim. Tudo era mais organizado que em seu clã e as pessoas pareciam mais dispostas e felizes.
Dois dias depois, um menino entrou na casa do ferreiro com um imenso sorriso, ao lado de um homem que mais parecia um gigante.
– Rorik! – chamou o grandalhão.
– Rorik deu uma saída. – falou Minos saindo detrás de uma pilha de lenha.
– Você é o novo ajudante? Estranho, Rorik nunca quis ninguém para ajudá-lo. – disse Aldebaran.
– Nem ele e nem eu tivemos escolha. Sou Minos, filho de...
– Guilty. – completou Aldebaran. – Entendo, está cumprindo uma função até poder empunhar uma espada.
– É.
Alone, que ao verificar a ausência do ferreiro, parara de sorrir, encarou Minos e também o braço enfaixado do jovem.
– Você quebrou o braço, talvez não consiga mais empunhar uma...
Antes que Alone continuasse, Aldebaran o interrompeu.
– Diga a Rorik que estivemos aqui. Voltaremos ao final do dia.
– Eu direi.
Alone ficou decepcionado, pois estava ali para que Rorik lhe fizesse uma espada. Seria a sua primeira e, teria que desenvolver muita força para empunhá-la. Aldebaran o tinha promovido e isso lhe dera o direito de encomendar sua arma de combate.
– Adeus. – disse o menino.
Notando a expressão dele, Minos pegou uma pequena escultura de madeira que tinha feito. Mesmo com o braço imobilizado, podia firmar a madeira e esculpir pequenas figuras, habilidade que possuía desde criança.
– Tome. Para não perder a viagem. – disse ele estendendo um pequeno cavalo de madeira para o menino.
– Puxa! – disse Alone maravilhado, a expressão de desapontamento desaparecendo do rosto infantil.
Aldebaran sorriu.
– Um cavalo é importante para um guerreiro.
– Obrigado! – disse Alone e Minos sorriu com gosto, pela primeira vez em dias.
Os dois deixaram a casa e, em seguida, Lune chegou à porta com uma expressão séria. Aquele filho de um traidor estava se saindo muito bem. Bem demais! Não gostava dele! Não mesmo!
– As mulheres precisam de ajuda na cozinha. – disse ele, satisfeito ao saber que atividades domésticas não eram consideradas adequadas aos homens.
Os olhos violáceos de Minos o perscrutaram de cima a baixo.
– A sua principal função no clã é ser um moleque de recados? – provocou ele.
Lune fuzilou-o com o olhar antes de responder.
– O jarl confia em mim para organizar e cuidar do funcionamento das coisas!
– Hummm... Então é por isso que está tudo tão precário por aqui.
– Cuidado, filho de um traidor! Não provoque...
Um sorriso debochado brincou nos lábios de Minos o que despertou ainda mais a raiva de Lune.
– Ria enquanto pode, vamos ver se mantém este sorriso depois que eu reclamar de suas atitudes ao jarl!
– Estou morrendo de medo... – disse Minos fazendo um gesto afetado, provocando-o ainda mais.
Entretanto, ao invés de Lune retrucar, viu-o esboçar um sorriso satisfeito e sentiu uma presença atrás de si, uma energia que não estava ali antes.
– Pelo que vejo está se divertindo, ao invés de trabalhar. – a voz de Hades soou seca e fria.
Minos refletiu por um momento. Precisava ser cuidadoso, algo que era inédito para si. Virou-se si devagar, preparando-se para encarar o jarl.
– De certa forma, sim, eu estou me divertindo. Enquanto uns e outros só sabem falar, eu já organizei muita coisa. Pergunte ao ferreiro. – disse Minos com voz firme.
Hades tinha tomado banho, os cabelos longos e negros ainda estavam úmidos. Em vez da cota de malha, ele usava uma camisa de lã fina marrom escura e uma calça justa num tom mais claro, o que salientava as coxas fortes. Calçava botas altas de couro cru e mantinha uma expressão dura no rosto bonito.
– Interessante. – ele esfregou as mãos na calça. – Já que tem esse talento, use-o no local que Lune indicou para o seu próximo trabalho.
– Seu protegido só tem esta tarefa? Mandar os outros e se eximir de colocar a mão na massa? – questionou Minos.
A fisionomia de Hades endureceu.
– Lune faz aquilo que eu mando, assim como todos aqui. Portanto, não teste a minha paciência.
Lune sorriu vitorioso e Minos enrijeceu o corpo.
– E por que eu o testaria? Você é o jarl. – disse o jovem sem disfarçar a raiva na voz.
Um brilho azul metálico flamejou nos olhos de Hades.
– Sim, e é bom que você se lembre disso.
Minos fechou os punhos e seu braço ferido latejou. Ele não desviou o olhar dos olhos afiados de Hades e houve um enfrentamento silencioso, até o jovem dar as costas e sair, pisando duro. Lune sentia-se poderoso até Hades encará-lo.
– Vá cuidar dos cavalos e depois ajude na cozinha.
– C-Cozinha? Mas...
– Ele tem razão, só pode mandar quem sabe fazer.
Mordendo o lábio, Lune concordou e sentiu mais raiva ainda de Minos. Aquele intrometido! Enquanto se dirigia aos estábulos, trombou com Aiacos e quase caiu.
– O-Olhe por onde anda! – disse ele.
Aiacos perdeu-se naqueles olhos estranhos. O tinha visto quando chegara, mas havia muito tumulto e não reparara muito nele. Mas, por Odin, aquele homem era lindo!
– O que está olhando? Saia da frente! – falou Lune irritado.
– Perdoe-me, mas...
– Mas o quê?
– Eu jamais conheci alguém tão belo. – disse Aiacos.
Ao ouvir o elogio dito de forma tão natural, Lune franziu o cenho, tomando consciência da presença do guerreiro. Aiacos era alto e esguio, a musculatura firme, o braço direito tatuado com símbolos desconhecidos... E os olhos... Os olhos castanhos escuro tinham um brilho diferente, cheio de força e... calor.
– Saia da minha frente! – falou Lune com estremecimento na voz.
– Perdão se o machuquei ou ofendi! – disse Aiacos segurando-o pelo braço.
Inesperadamente, Lune se viu sem voz. Um arrepio na base da espinha percorreu-o ao sentir a mão quente e forte de Aiacos em sua pele. Então, como se retornasse a si de repente, ele desvencilhou-se do contato e seguiu em frente.
Aiacos permaneceu parado, olhando-o. Radamanthys se aproximou dele, tocando-o no ombro.
– Não ouse desejar o amante do jarl.
Arregalando os olhos, Aiacos encarou o irmão.
– Amante do jarl? Mas...
– Mas, nada. Agora que o Minos está se ajeitando, não seja você a desandar com tudo.
Um suspiro escapou dos lábios do guerreiro.
– Tem razão. No final, acho que todos nós nascemos amaldiçoados.
Radamanthys suspirou junto.
– Hades é nosso jarl, agora. Vamos cumprir o nosso dever.
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