A RUNA BRANCA DE ODIN
3 CAPITULO DOIS : Desejos Ocultos...
Notas iniciais

Depois do período de luto, que se estendeu por quatro meses, uma festa foi dada para referendar a posição do jarl. Hades não gostava de festas, mas o costume servia para que ele confirmasse as novas regras sob a sua liderança. Muita coisa já tinha mudado e outras ainda precisavam mudar. No entanto, ele precisava de braços e lealdade, portanto ali estava, agregando ao seu grupo de guerreiros, os homens e os filhos do traidor do félag, algo que seu clã ainda não aceitara de todo e recebendo a visita de homens dos outros clãs que já haviam lutado ao seu lado.
O barulho das conversas e risos ressoava na cozinha. Em alguns momentos, parecia que gritos de guerra ecoavam no salão e Minos elevava a cabeça, atento aos pedidos das mulheres que se mostraram bastante satisfeitas com as mudanças que ele sugerira.
– Minos! – chamou Ingrid. – Precisamos de ajuda no salão, de preferência de um homem forte e sóbrio.
O jovem virou-se, respirando fundo.
– O que devo fazer? – perguntou revirando os olhos.
– Os guerreiros estão querendo mais hidromel. Você poderia levar um dos barris?
– Está bem, eu levo.
Ansiosa e afogueada, Ingrid sorriu e deu um beijo estalado no rosto de Minos.
– Tá, não precisa me beijar. – disse o jovem franzindo o cenho.
A mulher riu alto e deu uma palmada na bunda do jovem. Ele fez uma careta zangada, mas logo adentrava o salão. O lugar estava ainda mais cheio que no primeiro dia. Outros clãs haviam comparecido a festa e todas as tochas estavam acesas. Um tablado havia sido elevado e os jarls ocupavam a grande mesa farta de carne, pães e bebida.
Minos olhou na direção da mesa elevada e viu o jarl a quem servia. Hades estava belíssimo com os cabelos parecendo mais escuros à luz tremeluzente das tochas e desta vez, usava uma corrente e um bracelete de ouro. A túnica negra, ricamente bordada, e uma capa, também negra, sobre os ombros o faziam parecer um rei de algum reino obscuro e perigoso.
Sem se dar conta, o jovem entreabriu os lábios perante a presença bela e magnética do seu líder. Após o pequeno enfrentamento que haviam tido, eles não tinham se visto com frequência, mas Lune deixara de incomodá-lo e parecia bastante atarefado. De certo modo, sentira que Hades agira com justiça, e isso o surpreendera positivamente.
Colocando o barril próximo da mesa, Minos notou que os guerreiros estavam preparados para beber mais. Alguns já cambaleavam, outros falavam coisas sem sentido e batiam nas mesas. Após verificar tudo, deixou o salão abafado e respirou aliviado, ao sentir o ar fresco da noite. Havia tochas ao ar livre para iluminar os caminhos, porém todos estavam no interior do salão o que favorecia um momento de sossego e silêncio.
O céu exibia uma miríade de estrelas brilhantes, convidando a contemplação e também ao descanso.
Minos fechou os olhos por um instante e, do nada, ouviu uma voz grave em meio ao som de alguém urinando.
– Você tem jeito de quem gosta de foder com homem... essa sua bunda empinada não me engana. — a voz um pouco arrastada, fez Minos virar-se com o cenho franzido.
– E você tem jeito de ser um estúpido! Essa sua fala também não me engana!
O homem riu e a despeito de estar embriagado, moveu-se com agilidade e avançou na direção de Minos, pegando-o pelo braço. Ele parecia quase um berserker pelo porte avantajado e as roupas feitas de pele de urso. No entanto, um manto vermelho denotava que ele era um líder de clã.
– Mas que jovem irritadiço. Deve ser fogoso na cama... Deixa eu te mostrar o meu amigo aqui. – disse o viking apontando para os genitais e enxugando a saliva que lhe escorria da boca com o dorso do braço.
– Me solta ou eu chuto o seu amigo com bastante gosto! — ameaçou Minos sem demonstrar receio pelo porte gigantesco do homem.
O homem o ignorou, puxando-o para junto do corpo até ouvir uma voz grave irromper o ar da noite:
– Quando um dos meus homens diz não, é não, Bjorn!
Minos virou o rosto para ver Hades caminhando na direção deles. O homem encarou o jarl.
– Eu e o rapazinho aqui estamos nos entendendo... Você, mais que ninguém sabe do que eu estou falando, não é, Hades?
– Eu não sou cego. Solte-o. – disse Hades com um tom baixo.
Bjorn ainda tentou argumentar, mas Minos puxou o braço e ainda pisou cheio em seu pé, fazendo-o soltar um gemido de dor.
– Me solta, seu imbecil!
O grandalhão olhou feio para Minos.
– Eu também sou um jarl. – vociferou ele.
Hades aproximou-se mais, o olhar gélido adquirindo o brilho que fazia muitos temer desagradá-lo. Ele colocou-se entre os dois e mesmo sendo mais baixo e mais esguio que Bjorn, sua presença eclipsava o outro.
– Não confunda hospitalidade com permissividade, Bjorn. Volte para o salão e procure quem queira você. Não ouse forçar ninguém do meu clã ou eu mesmo o expulsarei da minha casa. – disse o jarl.
O homem recuou, enquanto Hades continuava a encará-lo. Assim que ele entrou no salão, o jarl voltou-se para Minos.
– O que faz aqui fora?
– Vim tomar um pouco de ar.
Hades encarou-o com severidade.
– Deixe para tomar ar, após concluir seu trabalho.
– Mas eu já terminei. E além do mais... – começou Minos com o rosto vermelho de raiva.
– Além do mais o quê? – questionou Hades.
– Não sabia que eu era um escravo, pensei ter ouvido que nos acolheria como se fôssemos do seu clã!
– Escravo? Julga que trabalhar é algo que o desmerece?
– Do jeito que fala, é! Não se pode tomar um ar fresco ou parar um pouco.
– Todos aqui têm a sua função e só descansam após exercê-la e muito bem. É assim que se comportam homens de verdade. E é assim que eu espero que o façam. Não o forcei a vir, eu lhe dei uma escolha.
O rosto de Minos ficou quente. Hades era severo, mas não injusto. Entretanto, mesmo assim sentia uma vontade insana de contrariá-lo e, ao mesmo tempo, de receber algum tipo de reconhecimento pelo seu valor.
– Nos trouxe para o seu clã e eu agradeço. Mas, não espere que eu o tema ou me porte com subserviência, quando não concordar com algo. Eu o respeito e sou leal e é só isso que eu posso oferecer.
Hades inspirou.
– Meu filho disse que foi você quem lhe deu aquele cavalo de madeira. – disse o jarl surpreendendo-o, mais uma vez, ao mudar de assunto e manter aquele tom frio e calmo.
– Sim. – respondeu Minos, ainda com um leve rubor do rosto.
– É um belo trabalho. Seu braço já está curado, mas talvez prefira trabalhar com os carpinteiros até sentir sua força voltar, totalmente. Aceito sua lealdade e respeito, mas espero que entenda os seus limites. Haverá momentos que a minha decisão é soberana e não permitirei questionamentos.
Minos franziu o cenho e depois sorriu, meio sem jeito. Hades conseguia deixá-lo com aquele misto de sentimentos contraditórios que iam da raiva à admiração em pouquíssimo tempo. Sempre desejara exercer o talento que tinha de construir, deixar a sua marca no mundo. Porém, em seu clã, o filho de um jarl deveria ser, antes de tudo, um guerreiro obediente ao seu pai, o que não era o seu caso...
– Eu sou bom em planejamento e construção. Agradeço a oportunidade.
Hades fitou o rosto de Minos sob a luz das tochas, notando detalhes que haviam lhe escapado. O jovem tinha a pele tão clara quanto à de Lune, mas as feições não eram afeminadas e ele possuía um tipo de beleza exótica que não era comum. Seus olhos violáceos brilhavam com destemor, algo raro em sua posição e havia algo mais... algo que mexia com o seu corpo de maneira estranha.
– Então, a partir de amanhã, procure Halfdan e se coloque à disposição.
– Bem, obrigado por ter me livrado daquele homem, também. – disse Minos rompendo o estranho clima que se criara entre os dois.
– Radamanthys disse que seu pai o castigou por sentir atração por um homem. Quem era ele? — a pergunta direta pegou Minos desprevenido.
– Ele se chamava Albafica e meu pai mandou enforcá-lo.
Hades fitou-o e seus olhos se fixaram nos lábios desenhados de Minos.
– Sinto pela sua perda.
– Eu também. – respondeu o jovem.
Por breves segundos, o jarl se viu observando o desenho e a umidade daqueles lábios e sentiu como se tivesse recebido um golpe ao dar-se conta que desejava cobrir aquela boca com a sua.
– Hades!
Ouvir seu nome o fez voltar-se para a porta do salão. Wulfgar o chamava e ele tratou de comparecer e tentar esquecer aquele desejo insólito.
Minos ficou olhando até que ele desaparecesse entre os homens que erguiam chifres e canecas. Uma incoerência emocional o envolvia, deixando-o com uma forte sensação de culpa. Se Hades não tivesse perguntado, ele não lembraria a dor da perda, porque seu corpo traía as lembranças que possuía, fazendo-o se sentir atraído por aquele homem...
Depois de algum tempo, as tochas foram se apagando e o som das risadas e conversas escasseando. Os colchões foram abertos no salão e alguns dormiram sentados nas mesas ou pelos cantos.
Toda vez que fechava os olhos, Minos se lembrava de Hades e o olhar intenso que ele lhe devotara. Ali, na escuridão, ele admitia para si mesmo que desejara sentir os lábios do jarl e muito mais. Como podia sentir desejo por Hades se Albafica pagara um preço trágico pela atração que ambos haviam sentido, um pelo outro?
Quando a madrugada cedeu ao amanhecer, Minos atravessou o salão e saiu. Inspirou profundamente o ar frio e foi caminhar. Sentia uma agitação interna, algo que não conseguia definir. Entretanto, ao seu redor tudo estava em silêncio, os animais estavam quietos e longe dali, na praia, podia ouvir o rugido do mar.
Não havia ninguém acordado para observá-lo ou incomodá-lo como aquele gigante imbecil que Hades dispensara. Resolveu ir até a praia que ainda não conhecia bem. Contornou o salão pelo lado de fora e desceu uma encosta suave até um lago que fornecia água limpa para beber e cozinhar.
Caminhou sobre a relva macia em direção à margem do lago quando notou que havia alguém dentro dele. Apressou-se a se esconder atrás de uma pedra grande e acinzentada. Ficou olhando quando o banhista parou de nadar e ficou em pé. A água pingava de seus cabelos sobre os ombros e o peito nu.
Aquele corpo... Hades...
O jovem não acreditava no que via. Tinha ido até ali para pensar e, talvez, tentar esquecer, mas parecia que o destino brincava com as suas escolhas. Pior que isso, parecia uma conspiração dos deuses confrontando-o sobre seus desejos e sentimentos.
O peito de Hades era musculoso, estreitando-se em direção aos quadris e pernas que pareciam esculpidas com esmero pelos deuses. As gotículas de água na pele dele refletiam o brilho dos primeiros raios de sol e a imponência com que ele se deslocava, mostrando seu sexo e a ondulação dos músculos fez Minos sentir uma súbita onda de desejo que se refletiu no baixo ventre.
Com o coração disparado, Minos mal respirava e esperava que Hades se vestisse logo. Imagens eróticas vieram a sua mente sem que as pudesse dominar. Mas o que sabia sobre sexo? Não possuía nenhuma experiência, não tivera tempo de vivenciar a intimidade. Com Albafica fora, apenas um beijo, um roçar de lábios que nem pudera ser aprofundado. Ficar perto de Hades despertava certa ânsia, um desejo quase insuportável aliado a uma culpa e repulsa por sentir-se assim.
Assim que não havia mais o perigo de ser visto, Minos saiu do esconderijo. O pátio já não estava deserto e silencioso como quando deixara o salão. Vários guerreiros perambulavam por ali. Alguns ainda bebiam, outros pareciam estar com a cabeça pesada e dolorida.
Minos estava chegando ao salão quando reencontrou Bjorn. O rosto do jarl ficou vermelho, ele parecia estar sentindo uma forte dor de cabeça pela expressão do olhar, porém ele nada disse e desviou em seguida.
Bem feito! Pensou o jovem com um sorriso sardônico, porém, assim que colocou o pé no degrau, ouviu a voz grave de Hades.
– Minos!
Ele virou-se com um sobressalto. O jarl estava parado na porta do estábulo e lhe fez um sinal para que se aproximasse. O algodão escuro da sua camisa aderia com perfeição ao tórax e os cabelos estavam úmidos do banho no lago. A lembrança da nudez dele causando um profundo arrepio...
– Sim? – Minos estranhou o próprio som de sua voz. Estava nervoso e não queria demonstrar. Engoliu em seco e tentou de novo. – Deseja alguma coisa, jarl?
Jarl... Por que ele usara o seu título com aquele tom de voz? Hades pensou.
– Bjorn o estava importunando?
– Não, nós nos encontramos por acaso. – tentando um tom casual.
– A esta hora da manhã? Onde você andava? – perguntou Hades arqueando uma sobrancelha.
– Muitas pessoas madrugaram hoje. Culpa da fartura de comida e bebida. – respondeu Minos.
– Você certamente é uma delas.
Minos limpou a garganta.
– Ainda não me acostumei a dividir espaço com tanta gente. Às vezes sinto falta de ficar um pouco sozinho e fui andar por aí.
– Compreendo. – disse Hades, enquanto seu olhar percorria Minos de cima a baixo.
– Bem, preciso trabalhar. Vou me apresentar ao carpinteiro. – disse o jovem.
– Faça isso.
Minos se afastou com o coração acelerado, encontrando Lune no caminho. O jovem olhou-o com desprezo, mas não falou nada. Estavam todos muito quietos, naquela manhã. A ressaca oriunda do hidromel causava enjoos e uma terrível dor de cabeça.
Horas, mais tarde, a movimentação dos clãs que haviam participado da festa lembrava uma grande colmeia se desfazendo. Os navios já estavam preparados para zarpar, alguns homens eram carregados pelos companheiros, outros ainda bebiam hidromel.
Na carpintaria, Halfdan se despedia de Wulfgar, seu irmão de sangue, enquanto cortava a madeira, deixando-a preparada para a montagem.
Minos se aproximou dele. Halfdan era um homem grande, os cabelos eram loiros e brilhantes como o sol, o rosto bronzeado tinha alguns vincos que acentuava as feições maduras e viris. No conjunto, predominava uma aura forte e bondosa, porém, nos olhos azuis podia-se perceber um brilho de exigência.
– Eu sou Minos.
– O jarl me falou que você viria. Disse que eu teria ajuda de valor. Aproxime-se, vamos ver se você vale isso tudo.
Hades já tinha falado?
– Bem, estou a sua disposição. – falou Minos com renovado entusiasmo.
Halfdan guiou-o para uma peça grande, cheia de ferramentas e sorriu.
– O ferreiro faz espadas e nós fazemos história! Tenho o projeto de um navio ainda maior para o jarl.
Um amplo sorriso desenhou-se no rosto do jovem. Pela primeira vez sentiu que havia um lugar para si. Os dois conversaram e trabalharam até o cair da noite. Minos ficou exausto, mas pleno de contentamento. Naquela noite, seu sono foi profundo e quando tornou a amanhecer, ele despertou cheio de ideias que tratou de escrever sobre um pedaço de couro.
Os guerreiros se reuniram, como sempre, para treinar táticas de batalha. Após o desjejum todos seguiram para o campo de treinamento que era próximo do galpão da carpintaria. Era uma combinação interessante entre força e inteligência, dois locais tratando de assuntos distintos, porém complementares.
Minos e Halfdan estavam discutindo um projeto quando um brado alto soou de repente, seguido por um longo sopro de berrante.
– O que foi isso? – perguntou Minos.
– É um aviso que foi avistado a vela de um navio. – respondeu Halfdan.
– Será que algum dos navios teve de voltar? Ou será um inimigo?
– Saberemos daqui a pouco. Mas eu não me preocuparia. Ninguém em seu juízo perfeito atacaria Hades. – disse Halfdan, calmamente.
– Vou lá ver. – disse o jovem e o carpinteiro sorriu.
– Vá, vá!
Minos pulou por sobre a madeira e encontrou seus irmãos lá fora. Todos observavam o ponto distante que, aos poucos, revelava o corpo de um navio.
Hades aguçou o olhar, apesar da luz do sol. Uma serpente enrodilhada a um dragão adornava a proa, alta e imponente. Era o símbolo de Shina de Ofiúco, a mulher que guerreava como um homem e era meia-irmã de Freya.
Quando o barco aportou, ele já estava em posição e alguns de seus guerreiros também. Uma mulher com cabelos esverdeados e usando uma máscara que ocultava o seu rosto veio em sua direção acompanhada de duas mulheres e um homem.
– Saudações, Hades. Ou devo dizer jarl? – disse ela num tom provocativo.
– Saudações, Shina. Ou devo dizer mulher serpente? – devolveu Hades.
A mulher soltou uma gargalhada.
– Você continua o mesmo. Onde está Alone?
– Com Aldebaran, treinando. Agora me diga, o que a trouxe aqui?
– Negócios. Mas, também, preciso de sua ajuda. Meu navio sofreu avarias com uma forte tempestade. Preciso consertar as velas rasgadas e fazer reparos no casco.
– Vou providenciar tudo o que necessita. Quanto aos negócios, o que você está planejando?
– Soube que Guilty o atacou e fugiu. Meus espiões disseram que ele se refugiou em Lindsfarne.
Hades franziu o cenho.
– E qual é a sua proposta?
– Eu me uno a você na caçada ao traidor e, em troca, você reparte comigo a pilhagem do tesouro dos monges. Soube por fontes de confiança que a religião deles rende muitas riquezas.
O jarl elevou uma sobrancelha. Não estava em seus planos atacar um monastério. Porém, se eles estavam escondendo Guilty, ele teria todo o direito de invadir e tirar proveito disso. Shina tinha bons guerreiros e guerreiras em seu grupo. Unindo o seu ao dela, a pilhagem os deixaria muito bem por muitos invernos.
– Vamos beber um copo de hidromel e discutir os detalhes. –disse Hades.
Shina sorriu, satisfeita, e olhou em volta. Percebeu novos guerreiros que não conhecia e também sentiu que a liderança de Hades havia trazido uma melhor atmosfera ao lugar. As pessoas pareciam mais tranquilas, diferente do tempo de Ares onde todos eram dominados pelo medo e pareciam descuidados.
– Aqueles três... Não me lembro de tê-los visto por aqui, tempos atrás. – disse ela fitando Aiacos, Minos e Radamanthys.
– São os filhos de Guilty. Eles juraram fidelidade a mim.
Se o rosto de Shina pudesse ser visto, a expressão séria e feroz teria falado por si.
– Acha isso prudente? Confiar nos filhos de um traidor? E quando você matá-lo, acha que eles não exigirão vingança?
– Quando Guilty nos atacou, os filhos não o seguiram. O mais velho jurou desconhecer os planos do pai e salvou a vida de Pandora. Eu conheço bem a natureza humana, no seu melhor e no seu pior. Eles são leais.
– Será que não tem certo interesse seu mascarando sua percepção. Agora que é o jarl e está viúvo, pode, finalmente, dar vazão aos seus reais desejos. Aqueles rapazes são muito bonitos, cada um com uma qualidade, em especial...
Hades encarou-a com serenidade, embora seus olhos adquirissem aquele brilho metálico que casava bem com o seu apelido.
– A luxúria jamais nublou minha visão.
– Há sempre uma primeira vez.
– E também a última para quem não sabe quando calar. Mais uma palavra sobre isso e nossa conversa estará terminada.
Shina era destemida, sua fama de ser tão forte quanto um homem não era infundada. Entretanto, sabia ser cuidadosa. Bater de frente com Hades não estava em seus planos e nem era uma boa estratégia.
– Retiro o que disse. – falou a guerreira elevando as duas mãos em sinal de rendição.
O olhar de Hades abrandou, apesar de continuar sério. Conhecia bem a cunhada e a admirava. Ele sinalizou para que adentrassem o seu lar e o clima entre os dois voltou a ficar amigável.
Shina lembrou-se da irmã e seu semblante também modificou. Elas não eram próximas, nem compartilhavam das mesmas necessidades, mas sentia a morte dela, assim como o fato de nunca ter tido tempo para conhecê-la verdadeiramente.
O vento fez os cabelos platinados de Minos ondular, deixando-os com aparência mais rebelde que o habitual. Ele observou, atentamente, a mulher estranha e sorriu, internamente. Hades atraía todo o tipo de pessoas e situações inusitadas. Sua admiração por ele só aumentava...
– Bem, pelo visto são amigos ou parentes. – disse Aiacos. – Não temos com o que nos preocupar.
Minos continuou olhando a imensa embarcação, admirando os detalhes e o porte. Ideias brotaram em sua mente, fato que seria impossível, meses atrás. Ele foi até os homens que cuidavam do barco. A embarcação de vinte e dois metros de comprimento e aproximadamente cinco metros de largura fora construído em madeira de carvalho e possuía um mastro de cerca de dez metros de altura. O jovem calculava que tal barco pudesse atingir uma velocidade de 10 nós com aquele formato, porém o rasgo na única vela impediria aproveitar-se dos ventos fortes e faria o barco inclinar.
– Ei, eu gostaria de falar com o capitão. – disse o jovem.
– Sou eu, Hermund. – respondeu um homem ruivo e corpulento.
– Me chamo Minos e me coloco a disposição para ajudá-lo no conserto do navio.
O homem olhou Minos de cima a baixo, avaliando aquele jovem que lhe parecia pouco mais velho que seu filho.
– Suba aqui. Vamos ver o que você sabe fazer.
Durante algumas horas, Minos e Hermund conversaram. Logo, outros homens sob as ordens de Hades foram ajudar. O trabalho rendeu o dia inteiro e à noite, os reparos já haviam sido concluídos.
O ambiente no grande salão estava alegre, alguns homens de Hades riam e provocavam as mulheres do clã visitante. Enquanto isso, os dois líderes conversavam e trocavam informações. A comida farta e os barris de hidromel completavam o clima amigável. Quando Pandora juntou-se aos dois, Shina retirou a máscara e um sorriso largo iluminou seu belo rosto.
Lune olhava para o jarl, enquanto ouvia as fofocas das mulheres sobre o interesse de Shina por Pandora. O jovem guerreiro estava de mau humor e demonstrava isso, claramente, em seu rosto. Depois da noite que trouxera os homens do traidor e os integrara ao clã, Hades não o procurara mais. Sabia que ele não tomara outro amante para si, porém se sentia inseguro e carente. Sua intuição dizia que tinha algo errado...
Minos chegou acompanhado por Hermund. Assim que ele colocou os pés no salão, os olhos azuis acinzentados do jarl cravaram-se nos seus. Por alguns segundos, ambos ficaram conectados, até o capitão do navio se aproximar de sua senhora.
– Este jovem tem uma mente rara. Seguindo as suas ideias, nós fizemos os reparos em menos tempo. – falou Hermund.
Shina avaliou Minos e, discretamente, voltou os olhos para o cunhado. Havia uma centelha fugidia, porém intensa entre os dois. O interessante era que nenhum percebia o fato, tudo ainda era muito incipiente...
– Você é um dos novos agregados ao clã? – questionou ela.
– Sim, senhora.
– Não é comum o filho de um jarl executar tarefas que não sejam relacionadas ao domínio da espada. Seu pai não deve gostar muito de você.
Um lampejo de irritação tomou conta de Hades. Shina sabia ser desagradável com sua mania de dizer o que lhe vinha à mente. Não que ele se importasse ou preferisse o cinismo, mas a questão era que a aceitação dos filhos de Guilty estava sendo difícil e ele não precisava de mais gente colocando lenha na fogueira.
– Ao jurar lealdade a mim, os filhos de Guilty não precisam se preocupar com aceitação ou com seu passado. – disse Hades.
Entretanto, sem mostrar nenhum abalo, Minos se pronunciou.
– O que diz é verdade, senhora. Mas, assim como ele me odeia, posso afirmar que o sentimento é recíproco. Guilty é um traidor e um déspota, não o considero mais como parente.
Shina sorriu e tornou a olhar para Hades, enquanto bebia um longo e generoso gole de hidromel.
– Você tem sorte, meu cunhado. Este jovem reúne três qualidades em um só homem. É destemido, belo e inteligente. Se eu gostasse de homem, certamente teria prazer em saber se ele, também, tem talentos a serem praticados na cama.
Minos sentiu o rosto arder e seus olhos encontraram os do jarl. Hades tinha um olhar felino, as pálpebras estavam semicerradas, talvez sob o efeito da bebida. Parecia que ele o estava desnudando...
Foi neste momento que Lune se aproximou da mesa e de Hades, o corpo se inclinando sugestivamente. Ele sentou ao lado do jarl e, discretamente, levou a mão à coxa dele por baixo da mesa. Minos observou o ato e também a expressão indiferente de Hades que bebia hidromel e se mantinha sério e calmo, honrando a alcunha de Kriger hjerteløs, o “guerreiro sem coração”.
– O hidromel está afetando o seu juízo. – disse Hades voltando-se para Shina e ignorando os avanços de Lune.
Uma gargalhada rasgou o ar e Shina voltou-se para Pandora, cochichando algo em seu ouvido. Pandora deu-lhe um forte tapa no ombro e também riu. Logo, todos no salão estavam rindo à toa, contaminados pelas piadas e cantorias dos bêbados.
Lune ficou um tempo, mas depois voltou à mesa dos homens. Hades sequer lhe dirigira a palavra ou um olhar que indicasse que o desejava.
Olhando em volta, Minos constatou que seus irmãos já tinham feito amigos entre os homens do jarl. Franziu o cenho ao ver Aiacos se aproximando da mesa onde Lune bebia, visivelmente, aborrecido com o desdém de Hades.
O corpo bronzeado do irmão mostrava uma inclinação de visível interesse. Nunca havia percebido que Aiacos também se interessava por homens. Radamanthys gostava das mulheres, isso ele o sabia, mas Aiacos mostrava uma faceta de si mesmo que ele nunca soubera existir. Talvez agora, sem a sombra malévola de Guilty, eles pudessem viver suas vidas com mais inteireza. Porém, o irmão estava investindo numa barca furada!
– Então, Minos nos conte as suas ideias. – disse Hades.
Minos encarou o jarl.
– Ainda não acabei o trabalho, prefiro ver se tudo dará certo como imaginei.
A postura altiva de Minos fez Hades admirá-lo. Gostava de obediência e de respeito, mas também admirava a fibra daquele jovem. Ele o provocava e, ao mesmo tempo o excitava.
– Então conclua. – disse o jarl.
– É o que farei. Agora preciso verificar uma coisa. Com licença. — Minos fez uma mesura e voltou para as mesas, encontrando Ingrid pelo caminho.
– E então? Conseguiu um elogio da senhora das serpentes, heim?
– Hã? Ah, aquilo foi um elogio?
– A senhora Shina é uma mulher admirável. Muito diferente da senhora Freya, que hoje habita Elvidner e deve conversar muito com Hela.
– Como ela era?
– A esposa do Jarl era delicada, uma mulher bela, mas melancólica e doente.
– Eles se amavam?
– Os dois? Claro que não! Foi um casamento arranjado e muito infeliz. O jarl nunca esteve ao lado dela e ela mesma se encarregava de mantê-lo longe. A única coisa que os dois tinham em comum era Alone.
– Por falar nele, onde ele está? – perguntou Minos olhando em volta.
– Lá fora. O menino não gosta muito de ajuntamento. Acho que herdou o temperamento da mãe, embora tenha o espírito guerreiro do pai.
– Pois eu vou lá também, aqui está muito abafado. – disse Minos se levantando.
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O céu estava limpo e estrelado. Sentado em uma pedra, Alone contava estrelas e sorria. Já estava acostumado com a brincadeira solitária e costumava dividi-la com o cão ao seu lado, um Lapphund de pelagem negra que ficava abanando o rabo sempre que se mexia.
– Olhe lá, Dag! É o rastro da carruagem de Thor! Faça um pedido! – disse o menino.
O cão latiu e, em seguida, fixou seus pequenos olhos em Minos.
– Posso me sentar ao seu lado? – perguntou Minos.
Alone franziu o cenho. Nunca, ninguém além de Aldebaran, fazia questão da sua companhia.
– Claro, mas... Porque não está lá dentro com os outros?
– Muito quente e barulhento. Prefiro o ar fresco e o silêncio. – respondeu Minos.
– Assim como eu. – falou o menino com um sorriso.
– Veja, uma estrela cadente! – disse Minos.
– Estrela cadente?
– É. Assim que se chamam essas estrelas que se movem no céu.
– Mestre Aldebaran diz que é o rastro da carruagem de Thor. Quem lhe disse que são estrelas cadentes?
– Um monge, quando eu era criança. Ele me ensinou a ler e também o nome das estrelas.
– Nome? As estrelas tem nome?
– Sim, elas têm. O nome do seu mestre, por exemplo. Aldebaran é a estrela mais brilhante da constelação Taurus.
– Puxa...
Os dois passaram a conversar animadamente, o tempo passou sem que se dessem conta que já era tarde. Também não perceberam um vulto muito próximo. Hades ouvia com o cenho franzido, a cena proporcionando uma comoção incomum para um homem endurecido como ele. Era a primeira vez que via Alone interagindo com outra pessoa que não fosse Aldebaran. E ele parecia feliz, solto, sem aquela timidez que o fechava em um mundo particular e o tornava muito parecido com Freya.
– Não só as estrelas tem nome. Os corpos celestes também têm.
Ao som da voz grave, Minos e Alone viraram a cabeça, ao mesmo tempo.
– Pai!
Hades colocou a mão no ombro do filho e apontou para o céu.
– Um homem chamado Aristarco de Samos propôs que a Terra onde estamos gira em torno do Sol.
– Verdade? Mas, como pode? – questionou o menino.
Minos surpreendeu-se com a fala de Hades e com o seu conhecimento. Ter ideias sobre outras coisas que não a batalha e a sobrevivência não era comum entre os jarls. Onde será que ele tinha aprendido?
– Existe um conhecimento muito acima do que pregam as religiões. Existem livros contando sobre este mundo. – respondeu o jarl.
– O monge cristão que me ensinou a ler disse que as Escrituras Sagradas afirmam que a Terra é o centro de tudo. – falou Minos.
Hades encarou-o e, embora não demonstrasse, também estava surpreendido com o conhecimento do jovem, além da sua paciência em conversar com Alone.
– E em quê você acredita? – perguntou o jarl.
Minos deu de ombros e franziu a testa enquanto olhava para cima.
– Não sei. Há muitos mistérios neste mundo e mais perguntas que respostas. Mas, na maioria das vezes, eu acho que os interesses criam tudo isso. Tanto os monges, quanto nós, criamos um sistema de crenças baseado em nossas necessidades. No fim, quem sabe o que realmente existe neste mundo vasto e além dele? Eu confesso que não me arrisco, prefiro acreditar que tenho uma missão e devo desempenhá-la da melhor forma possível.
Hades quase sorriu. Minos não possuía artifícios, era sagaz, impetuoso e o atraía como nenhum outro. Ali, junto do filho e sob aquele céu, admitia para si mesmo que havia algo diferente e intrigante naquele jovem. Ele era belo, mas não era isso que ficava evidente. Seu magnetismo residia em sua inteligência, talento e opiniões que tinham a estranha habilidade de surpreender a todos e, principalmente, a ele, Hades.
– Está na hora de se recolher, Alone. – disse o jarl.
– Ah, pai...
– Vá dormir. Amanhã cedo vou acordá-lo para treinar comigo.
– Verdade? – os olhos do menino brilharam.
– Sim, agora vá.
– Até amanhã, Minos e obrigado pela companhia. Boa noite – disse Alone chamando seu cãozinho.
– O prazer foi meu. – respondeu Minos.
O menino correu para dentro, sendo seguido por Dag, deixando Minos e Hades sozinhos. Por um momento, envoltos pelo silêncio da noite e com o céu salpicado de estrelas sobre as suas cabeças, ambos se olharam e, mais uma vez, aquele estranho magnetismo os conectou.
– Alone nunca foi de falar muito. Surpreende-me que ele converse com você. – disse Hades.
– Talvez, porque não tenha quem o escute. É comum os adultos ignorarem uma criança, principalmente os pais.
– Você sempre fala tudo que lhe vem à cabeça? Eu me pergunto como sobreviveu tanto tempo. – falou o jarl se aproximando ao ponto de Minos sentir-lhe a respiração quente.
– A verdade é para ser dita.
Mais uma vez o enfrentamento. Não houve resposta, apenas o olhar destemido que confirmava cada palavra dita. O ar que Minos não se dera conta de estar prendendo escapou de seus pulmões, enquanto sentia a presença de Hades muito próxima. Seu corpo reagiu e uma incômoda ereção começou a despontar somente com aquele contato...
Ele tentou desviar, porém Hades se aproximou mais.
– Gosto disso... Sua franqueza é excitante.
– Eu...
Como se estivesse enfeitiçado, os lábios de Hades encontraram a pele sensível do pescoço de Minos, as mãos experientes adentrando a túnica de lã, subindo devagar, através de tecido e pele, explorando, acariciando, as narinas dilatando ao perceber que Minos também estava excitado.
Minos deveria ter se afastado, impedido aquela intimidade, mas ao contrário do que ele achava certo, seu corpo aceitava com fervor, o roçar áspero do dedo de Hades em seu mamilo, a forma possessiva com que ele o tomava para si. Um ofego de prazer escapou de seus lábios ao sentir-se enrijecer contra o polegar que o atiçava, assim como sua ereção latejou ao ponto de doer com aquele ataque erótico jamais experimentado com outro homem.
Na escuridão da noite, Hades esqueceu as próprias regras, rendendo-se ao desejo selvagem que sentia por Minos. Desprovida de suavidade, sua língua percorreu uma trilha ardente ao longo dos lábios do jovem antes de saquear-lhe a boca, explorando o interior, impedindo-o de respirar...
O beijo foi sôfrego, profundo, quase desesperado. Nenhum dos dois experimentara tanta intimidade, nem a necessidade que os levava a segurar a cabeça um do outro, os dedos se emaranhando nos cabelos fartos, os corpos se unindo como que amarrados por algum laço invisível...
Então, como começou, terminou. Hades afastou-se com um olhar tenso e a respiração ofegante. Levou a mão aos lábios, enquanto Minos fazia o mesmo.
O jarl, mesmo a muito custo, havia recuperado a sanidade. Culpa do hidromel! Disse para si mesmo, enquanto desfazia aquela proximidade.
Confuso, Minos ficou olhando-o. Pela primeira vez, não conseguia articular uma palavra que fosse. Seu corpo estava trêmulo e excitado, enquanto Hades lhe dava as costas e saia a passos largos como se nada tivesse acontecido.
O jovem praguejou, internamente, sentindo-se humilhado, mas a excitação era maior e não arrefecia.
No escuro, uma silhueta observava tudo, a raiva se construindo em seu interior de forma pungente e intensa. Hades nunca o beijara. Aliás, nunca soubera que o jarl tivesse beijado um amante, pensou Lune enquanto levava a mão ao cabo da adaga que sempre trazia junto ao corpo.
Quando Minos resolveu voltar para o salão, Lune se colocou a sua frente.
– O que você pensa estar fazendo, filho de um traidor?
Minos o encarou.
– Algum problema?
Lune exibiu a adaga, seus dentes estavam cerrados.
– Eu vou acabar com você! – vociferou ele.
Desarmado, Minos assumiu uma postura de defesa e encarou Lune sem demonstrar temor.
– Você pode tentar... – disse, calmamente.
Assim que Lune se posicionou para atacar, mãos fortes o seguraram por trás e uma voz firme se fez ouvir.
– Você é o homem mais bonito que eu já vi na vida, mas nem por isso vou deixá-lo ferir o meu irmão. – disse Aiacos.
– Me solta!
– Não até que se acalme e me dê a adaga.
– Seu irmão teve a ousadia de beijar o Hades! Ele quer tirá-lo de mim!
– Eu não quero nada! Foi ele quem... Ah, vá para o inferno! Eu tenho mais o que fazer. – disse Minos virando as costas.
Aiacos continuou segurando Lune.
– Me larga! – disse o jovem.
– Só se prometer se acalmar.
Lune resistiu, um pouco, mas ao constatar que a mão que o segurava parecia uma garra de aço, fez que sim com a cabeça. Mas, quando Aiacos o soltou ele lhe desferiu uma sonora bofetada.
– Isso é por colocar essas... Essas mãos sujas em mim! Já disse lá dentro pra ficar longe!
Com um sorriso malicioso, Aiacos tocou a face como se a bofetada tivesse sido uma carícia e percorreu o corpo de Lune com os olhos.
– Minha ideia era colocar outra coisa... Prometo que, se me der uma chance, não vai se arrepender.
Ofegante, Lune o encarou com raiva. Aiacos era alto e forte. Não só isso, belo, selvagem e viril, ele o olhava como nenhum outro tinha feito, nem mesmo Hades. Aqueles olhos tinham uma profundidade que o fazia sentir-se nu, não, apenas, de forma erótica. Era como se, pela primeira vez, alguém o olhasse verdadeiramente.
– Nunca!
– Você é quem sabe... Tome. – disse Aiacos virando a lâmina para si e devolvendo a adaga.
Com um movimento brusco, Lune pegou a arma da mão de Aiacos e saiu. Internamente, a raiva duelava com outro sentimento, algo que nem mesmo ele sabia o que era. Desde a primeira vez que o tocara, aquele homem irritante tinha o dom de fazê-lo sentir-se estranho.
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Em seus aposentos, Hades despejou um balde de água gelada sobre a cabeça. O que dera na sua cabeça para beijar Minos? Ele nunca beijava! Nunca! Este tipo de intimidade nunca lhe agradara e seus amantes sabiam disso. Então, porque aquele desejo atroz de sentir a boca de Minos na sua? Tocar-lhe a língua, sentir a umidade quente... Por Odin, só podia estar bêbado!
A água fria escorreu pelo corpo, mas não aplacou o ardor que insistia em permanecer dentro de si. Levou a mão aos cabelos negros e relembrou a sensação de ter aquele corpo junto ao seu. Tinha sido como se Midgard deixasse de existir e só houvesse Minos, sua pele, seu cheiro, seu gosto...
A porta do quarto se abriu interrompendo as lembranças e fazendo-o retesar o corpo.
– Ah, você está aqui. Shina está desafiando meio salão para uma queda de braço e perguntou por você. Ei... Está com tanto calor assim? – disse Pandora com uma caneca de hidromel na mão e com o olhar fixo na água que escorria pelo corpo do irmão.
Hades olhou-a com severidade.
– Sabe que não gosto que entre sem bater.
– Ah, o que é que tem de mais nisso? Somos vikings, apesar da herança grega de nossa mãe. Essa sua mania de boas maneiras chega a ser exasperante.
– Até mesmo o barbarismo tem um limite. O que quer Pandora?
– Nada. Senti sua falta e Shina também. Você sumiu em plena festa.
Com o cenho franzido, Hades encarou a irmã que brincava com a caneca. Eram gêmeos e ele a conhecia bem. Pandora, raramente, se perturbava com alguma coisa. Era destemida e ambos eram muito parecidos na questão emocional.
– O que houve? Fale.
Pandora suspirou, a vontade de compartilhar seus temores sussurrando em seu ouvido. Porém, ao encarar o irmão, mudou de ideia.
– Nada, apenas, bobagem. – disse ela bebendo todo o hidromel. – Vai descer?
– Não, chega de festa por hoje.
A jovem se encaminhou para a porta a passos lentos. Temia voltar para o salão sozinha e deixar-se seduzir pelo homem que salvara a sua vida. Após seu casamento nefasto, nunca mais deixara um homem se aproximar. Seu corpo sentia prazer na batalha, mas jamais nos braços de um amante. Ela pedira a deusa Hela que a tornasse uma de suas Valquírias e matasse a necessidade de sentir. O pedido havia sido atendido, até agora.
Não conseguia esquecer o olhar de Radamanthys, após vencer um dos homens de Shina em uma queda de braço...
– Você venceu Ormund, loiro! Tem o direito de escolher uma das minhas guerreiras para festejar! – dissera ela.
– Obrigado, minha senhora. Mas, meu coração já está comprometido. — respondera o guerreiro.
A resposta com voz grave e segura denotava confiança. E quando ele o fez, seus olhos dourados estavam cravados nos seus e ela soube que as palavras eram direcionadas para si.
Radamanthys era diferente dos outros homens e isso a deixava apreensiva. Com os outros, ela sabia lidar e manter-se indiferente. Mas, com ele, percebia-se desejando e sentindo coisas que considerava ter esquecido...
– Pandora. – chamou Hades.
– Sim? – disse ela voltando a cabeça e encontrando os olhos atentos do irmão.
– Somos parecidos, mas você é mulher. Se achar um guerreiro que a mereça, o aceite e esqueça o passado.
Pandora sorriu triste. Seu irmão parecia ter adquirido o dom da vidência. Ou seria o estreito laço que possuíam por serem gêmeos?
– Não é estranho? Não tenho medo da morte, nem de guerrear. Mas, meu coração teme pertencer a outrem.
– Nem todos os homens são como Sweyn.
– Sweyn feriu meu corpo, mas, quanto a isso, creio que já superei. Não quero abrir meu coração e ser ferida de um jeito que pode me destruir. Por isso, melhor deixar meu coração intacto. – disse Pandora com um suspiro. – Agora vou deixá-lo descansar, boa noite.
– Boa noite, Pandora.
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