A RUNA BRANCA DE ODIN

8 CAPÍTULO SETE: Wird, a runa branca de Odin


Notas iniciais
(❁ ⁀‿⁀❁) ♥ ❤ ❤ Mais um capítulo para iniciar a semana com feriado!!! Agradecimentos às meninas amadas que deixaram seu carinho registrado em reviews e que me apoiam sempre!

“Os desígnios dos deuses estão escritos,

A isso chamamos destino.”

Tudo aconteceu de forma vertiginosa. O guerreiro ferido soltou Alone e, em seguida, foi morto pela adaga de Lune que vinha correndo ao lado de Aldebaran, Halfdan, Rorik e outros guerreiros jovens que vinham juntar-se aos demais.

— Alone, junte as outras crianças e vá para o esconderijo! – gritou Aldebaran.

O menino assentiu e olhou para Minos. O jovem manteve o olhar firme para dar segurança ao menino e fez um gesto de incentivo para que ele cumprisse a tarefa.

Lune tinha o olhar fixo nas silhuetas que avançavam. Eram, no mínimo, cem homens, tirando os berserkers.

— Alguém tem que avisar Hades. Tudo não passou de uma armadilha. O espião de Shina era um traidor a serviço de Guilty. – disse ele.

Minos fitou-o, buscando ver o ódio explícito naqueles olhos semelhantes aos seus, mas o que viu, foi, apenas, uma preocupação genuína com tudo o que estava acontecendo.

— Você o matou?

— Sim. – a resposta curta de Lune deixava claro sua veia guerreira, embora na aparência ele fosse suave e não parecesse feroz, como demonstrava agora.

— Minos, corra até as rochas, desça e espere escurecer. A maré vai baixar e você verá a entrada de uma caverna onde escondi a pequena embarcação que terminei. Você é inteligente e conhece o céu. Quando a maré subir de novo, guie-se pelas estrelas e navegue em direção ao norte. Se os deuses forem gentis, o mar estará calmo e você encontrará Hades no caminho. – falou Halfdan, antes que o jovem continuasse a conversa com Lune.

— Certo.

— Tenha cuidado e não se deixe apanhar. – disse Lune. – Eu não gosto de você, mas é irmão de Aiacos e ele o ama. – completou.

Minos sorriu de canto e Lune o olhou sério, com uma cumplicidade vinculada a necessidade de sobreviver a tudo àquilo.

— Eu o farei.

Sem mais conversas, Minos fez o que lhe foi ordenado. No caminho, olhou para trás e viu os berserkers avançando com seus gritos de guerra. Diferente dos demais, ele nunca colocava sua fé nos deuses, embora os respeitasse. Sempre achara que os deuses pouco se importavam com os homens, a não ser quando recebiam oferendas ou sacrifícios. No entanto, ao constatar a diferença em número do seu clã para os guerreiros trazidos por Guilty e olhar para baixo, onde o mar rugia, ele voltou-se para o céu e, em seguida para as águas, orando em silêncio. Odin, tu que és guerreiro e justo, por favor, não permita que Guilty vença!

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Em seu drakkar, Hades estava cansado e esgotado pela perda de sangue, porém sua mente se recusava a descansar. A armadilha em Lindsfarne havia sido muito bem arquitetada e o espião de Shina podia ter sido enganado ou ser um traidor. Havia muitas pontas soltas naquela história, o homem da Nortúmbria, os tesouros escassos, a traição de Bjorn...

Aos seus pés, Pandora retirava de um saco de couro, uma agulha feita de metal, um rolinho de intestino limpo de cordeiro, talos de elder, yarrow e linhas feitas da fibrosa folha de urtiga. Desenrolando a longa tripa por entre os dedos, ela passou a agulha pelo fogo de uma pequena tocha acesa e embebeu a tripa em água fervente antes de enfiá-la na agulha como Guthrum lhe ensinara. Os guerreiros precisavam saber cuidar de seus ferimentos, pois nem sempre os curandeiros estariam com eles. Limpeza, rapidez e mão firme, três coisas que deveriam andar juntas para evitar a perda de um membro ou a morte.

Hades estendeu o braço, os músculos rijos e fortes definidos pela luz do sol da tarde que se projetava por entre as nuvens escuras.

— Se eu fosse você, beberia mais hidromel. Isso vai doer. – disse ela.

— Beber mais hidromel me deixará grogue. Preciso pensar.

Pandora sorriu. Falara aquilo, somente por um descargo de consciência. Sabia que o irmão não descansaria até descobrir o que estava por detrás de tudo. Depois de lavar bem o ferimento, ela afastou a pele aberta e enfiou a agulha, sentindo na própria carne a vibração e a dor da primeira espetada.

Hades não se moveu, nem emitiu nenhum som. Ela costurou uma linha de pontos ao longo do corte vendo o sangue emergir a cada sutura. Assim que terminou, ela esmigalhou os talos secos de elder e yarrow, misturando-as com saliva. As ervas curativas viraram uma pasta acinzentada e ela as espalhou sobre o corte suturado e, em seguida o enfaixou com um pedaço de pano limpo.

O jarl flexionou o braço quando Pandora terminou, sentindo os pontos repuxarem a pele.

— Evite mexer o braço. Vamos torcer para que o ferimento não crie pus.

Hades assentiu com a cabeça. Gotículas de suor se insinuavam em sua testa e olheiras escuras se destacavam no rosto bonito.

— Como está Radamanthys? – perguntou ele.

— Aiacos está cuidando dele.

— Quantos homens nós perdemos?

— Dois. Shina perdeu Elgiva e mais três.

Hades inspirou fundo e olhou para o alto. O céu, aos poucos era tomado pelas nuvens, mas não havia sinais de tempestade. Apenas uma chuva fina e persistente que caía molhando tudo ao redor.

Tomado pela dor que se recusava a admitir, o jarl inspirou, novamente. Doía o braço, a cabeça e até a garganta, mas o que o incomodava mais era uma estranha sensação que o perigo rodeava os seus como um manto sombrio. Ele se enrolou em um cobertor e acabou adormecendo num sono agitado que Pandora temeu ser febre. Acordou quando os primeiros raios da aurora riscaram o céu e olhou para o mar aberto como se procurasse algo.

— O que foi? – perguntou Pandora.

— Nada. – respondeu ele e tornou a sentar-se.

A guerreira tocou-lhe a testa com o cenho franzido.

— Não está quente, mas precisa descansar. Não está enjoado?

Hades balançou a cabeça, negativamente.

A guerreira esboçou um sorriso.

— Bom sinal, mas não abuse. Se tiver febre, fica complicado.

— Eu disse a Shina e digo a você, não serei morto por traidores. A partir de agora, caçar Guilty se torna uma prioridade.

— Estamos voltando pra casa, mas você continua incomodado.

— Meus instintos dizem que há algo muito errado e eu não posso descansar até saber o que é.

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Minos correu como nunca. Tentou não pensar no que estaria acontecendo na aldeia, com aqueles que aprendera a amar e respeitar. Precisava manter a atenção e as emoções sob controle, porque estava em suas mãos evitar que Hades aportasse sem saber da invasão.

O caminho entre as rochas era íngreme e precisava ter cuidado. Uma pedra se soltou quase fazendo-o cair, mas ele se segurou até chegar ao destino. Rochas sobressaíam nos penhascos formando uma baía particular invisível do topo das pedras.

A pior parte era esperar sob a angústia de saber que havia uma batalha sendo travada na aldeia e isso implicava em ferimentos, mortes e aprisionamentos. Seu pai era cruel e, certamente, estava cercado de homens semelhantes a ele que lutavam por ganância, sem o mínimo de honra.

Na praia, os guerreiros do clã de Hades lutavam com ferocidade. Aldebaran, Halfdan e Rorik eram mais experientes e lideravam a ofensiva contra os berserkers, dando aos mais jovens o tom da batalha.

O corpo rijo de Aldebaran revelava as suas habilidades e ele se movia como um predador, atacando o oponente com uma agilidade impressionante para um homem com a sua estatura avantajada. O longo cabelo escuro caía sobre os ombros e, na parte superior de um dos braços havia um aro de ouro que se moldava à musculatura.

O inimigo atacou com o machado na direção de Aldebaran que bloqueou o golpe com o escudo, enquanto brandia o machado duplo. O berserker gritou com fúria, porém, ao contrário de Aldebaran, ele não possuía leveza, fato que o fez atacar às cegas e, em um movimento impróprio dar chance de ataque preciso à Aldebaran.

Sem piedade, Aldebaran enterrou o machado na espinha do berserker cortando-o ao meio, enquanto Halfdan fazia o mesmo com outro, a única diferença era que o machado do carpinteiro traçou um semicírculo num golpe único e brutal sobre o pescoço do inimigo, criando um rastro avermelhado conforme a cabeça rolava na areia dourada.

Rorik usava a espada e o berserker que o atacou lambia os lábios, enquanto o olhava de um jeito insano com o rosto sujo de sangue. O ferreiro desviou-se para a direita e levantou o escudo, sentindo o golpe de o machado reverberar ao longo de seu braço. O berserker continuou atacando e Rorik ouviu seu escudo rachar sob a força sobre-humana do inimigo.

Um estalo e um chicote cortou o ar, enrolando-se no pescoço do berserker, enquanto uma adaga certeira se fixava em seu olho esquerdo. Um jato de sangue jorrou do ferimento e ele urrou, mas não caiu. Então Rorik usou a espada para cortar-lhe a perna na altura do joelho, enquanto Lune continuava a puxar o chicote.

O berserker desabou, pesadamente, sobre a areia, mas outros vieram e a luta continuou. Lune olhou para Rorik e ambos criaram um ataque conjunto, com o jovem usando o chicote para desestabilizar os guerreiros avantajados, enquanto o ferreiro passava a espada afiada cortando membros, expondo carne e ossos.

Enquanto os adultos lutavam, Alone fazia o que lhe tinha sido ordenado por Aldebaran. Já havia juntado as crianças e as levava pelo caminho estreito em direção ao esconderijo nas rochas. Lá haveria água e alimentos que lhes permitiria ficar um bom tempo escondidos.

— Ai! – gritou uma menina pequena, caindo em meio à corrida.

Alone percebeu e voltou para ajudá-la.

— Ela vai nos atrasar! – gritou um menino.

— Erick, continue correndo e levando os outros. – disse Alone para o menino que estava com olhos grandes e assustados.

O menino obedeceu e Alone pegou a mão da menina.

— Caragh, pegue firme na minha mão e não solte.

A garota estava com os olhinhos cheios de lágrimas, o corpo mignon tremia.

— Meu pé dói muito... – choramingou, ela.

Mordendo o lábio inferior, Alone tomou a menina nos braços e correu, porém com peso extra, não conseguiu imprimir muita velocidade. De repente, ele notou um brilho e franziu a testa. Muito rapidamente, um guerreiro inimigo colocou-se a sua frente. O homem exibiu um sorriso malévolo.

— Guilty não gosta de crianças. Vou levar suas cabecinhas de presente! – disse ele.

Alone não demonstrou medo. Calmamente, soltou Caragh sem desviar dos olhos do guerreiro.

— Fuja Caragh e não olhe para trás. – disse ele, baixinho.

A menina franziu o cenho e, ignorando a dor, fez o que Alone dissera.

O homem gargalhou.

— Ora, ora... Quem você pensa que é menino?

— Eu sou Alone, filho de Hades e vou matá-lo, seu cão covarde! – respondeu colocando-se frente ao guerreiro.

— Você ousa me chamar de cão? Esse foi seu último insulto, filho de Hades! – gritou o homem e seu sorriso transformou-se numa expressão de fúria.

O guerreiro avançou com a espada em riste e Alone abaixou-se e lançou a adaga que carregava abaixo da coxa. A arma cravou-se na cota de malha e o guerreiro estancou, olhando o objeto. Então, voltou a atacar como se estivesse fazendo um jogo.

Alone se esquivou, mas outro inimigo avantajado surgiu do nada e o segurou, violentamente, pela túnica. Ele se debateu, chutando o quanto pode, mas o guerreiro foi mais rápido e o socou perto do ouvido. O menino sentiu o impacto da mão calejada, a dor e viu tudo girar. Segundos depois, estava inconsciente.

— Eu vou sangrar esse fedelho! – gritou Hermund.

— Não. – disse o outro. – Ele é filho de Hades, Guilty gostará de saber que tem uma vantagem importante nas mãos.

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Os corpos estavam espalhados e corvos já sobrevoavam a praia e adjacências. As baixas aconteceram de ambos os lados, porém Aldebaran, Halfdan, Lune e Rorik continuavam de pé, liderando os jovens remanescentes na batalha. Apesar de estarem em maior número, os homens de Guilty não era páreo para guerreiros que defendiam suas famílias e seu clã.

Foi então que Guilty aproveitou a vantagem que tinha em mãos e tomou a palavra. A voz grave e rouca irrompendo o ar:

— Entreguem-se, ou eu matarei o menino!

O som das espadas, machados e escudos cessou. Todos olharam para o homem que lançara sua voz em meio à batalha. O brilho insano do olhar de Guilty fez cessar a luta e, tanto Aldebaran, quanto Lune, Halfdan e Rorik baixaram as armas.

Alone foi mostrado a todos, preso em uma jaula de madeira como se fosse um animal. O menino tinha um hematoma no lado do rosto, mas não havia lágrimas, nem medo em seus olhos claros.

— Vejam todos! Aqui está o filho do jarl e depende de vocês mantê-lo vivo! Deponham as armas e nada acontecerá ao menino. Continuem e eu o cortarei em pedaços e darei aos cães!

Aldebaran ainda segurava forte o machado duplo, assim como os demais guerreiros. A ira visível em seus olhos escuros.

— Hades vai matá-lo. – disse Halfdan.

Os lábios de Guilty se curvaram para cima em um sorriso cruel.

— Ele já teve a sua chance. E, talvez, seja ele quem esteja morto há essa hora. Lindsfarne foi uma armadilha. Paguei muito bem para que me tragam a cabeça de Hades, mas, sinceramente, não acredito que tenham conseguido. Eu mesmo quero ter o prazer de matá-lo!

Ao ouvir aquilo, Alone se levantou e enfiou as mãos por entre as barras de madeira.

— Meu pai vai cortar você em pedaços!

Guilty chegou bem perto da jaula.

— Não, não vai... Se ele o ama, ele vai se entregar e serei eu quem vai cortá-lo! E quando ele estiver morto, você será meu escravo e fará tudo que eu mandar.

— Nunca! – disse Alone sentindo o lábio tremer e não mais conseguindo conter as lágrimas.

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Na aldeia, Guthrum entoava um cântico monótono e triste. A cabana estava às escuras e grande parte das mulheres estava com ela, enquanto outras haviam pegado em armas para ajudar os homens.

Ali, em meio a fumaça misturada ao odor do couro curtido, elas podiam ouvir o som da batalha que acontecia na praia.

— O som parou! – disse uma das mulheres.

A vidente voltou os olhos esbranquiçados para a fumaça que espiralava.

— Sim, a batalha cessou.

— Será que... os homens conseguiram? – perguntou outra.

O corvo crocitou sobre um poleiro feito de galhos retorcidos e o ambiente pareceu ainda mais tenso e abafado.

— Não. Nós fomos derrotados. – disse a vidente.

As mulheres olharam umas para as outras, o medo estampado nos olhos claros.

— O que faremos? Logo eles chegarão aqui! E nossas crianças?

— Nosso destino está traçado. Wird não pode ser evitada. Os deuses nos testam, não importa o quanto demore... As crianças estão escondidas e ficarão bem. – respondeu Guthrum com um tom melancólico.

Nem bem a vidente terminou sua fala, Aldebaran, Rorik, Lune e Halfdan adentraram a aldeia amarrados, enquanto os feridos e mortos eram arrastados e atirados de qualquer jeito formando uma pilha humana.

Diferente das outras invasões, Guilty não pretendia incendiar e saquear. Suas intenções eram de vingança, posse e dominação. Faria um espetáculo de morte, sacrificando os guerreiros mais fortes, depois escravizaria as crianças e jovens e ordenaria que seus homens violentassem as mulheres, deixando nelas as suas sementes. Ao final de tudo, depois de matar Hades, ocuparia aquela aldeia cuja localização privilegiada lhe traria poder e riquezas.

— Saiam todos! Eu não vou lhes fazer mal! Obedeçam a mim e tudo ficará bem!- gritou Guilty.

Após um tempo, Guthrum deixou a cabana vestindo uma capa de pele animal. Na mão direita segurava um cajado feito de carvalho. Os cabelos grisalhos em desalinho, os passos firmes. Ela olhou no fundo dos olhos de Guilty.

— As runas disseram que você viria.

Guilty encarou-a.

— Uma Völva... Aproxime-se e jogue as runas para o seu novo senhor.

A vidente bateu o cajado no chão.

Diabhail é assim que você deseja ser conhecido?

Uma gargalhada sonora escapou da boca de Guilty, assim como de seus homens.

— Sim, velha! Eu sou o próprio demônio encarnado! Chamam Hades de Kriger hjerteløs... Pois eu o farei honrar esta alcunha. Eu, o Diabhail, tirarei o coração dele e o darei aos cães para que o comam!

— Se quer conservar a sua vida, desista de tudo isso. Vá embora!

Um olhar para o homem ao seu lado e Guilty deixou claro as suas intenções. O homem se aproximou de Guthrum com certo receio. Então, olhou para o seu senhor e fez o que era esperado, esbofeteou a vidente, fazendo-a cair com o lábio partido.

Os guerreiros amarrados se debateram e foram contidos pelos homens de Guilty. Guthrum se levantou em silêncio e limpou a boca com as costas da mão. Seu olhar não refletia raiva ou temor. Guilty se aproximou dela e pegou-a pela gola da túnica cinza. As mulheres levaram a mão às bocas e suprimiram a indignação, tentando não chamar a atenção para si e também para a ausência das crianças.

— Escute bem, Völva... Eu sou seu senhor, agora! Pouco me importa as suas malditas previsões! Agora, suma ou mandarei sacrificá-la com os outros!

Guthrum olhou para Guilty de forma penetrante e destemida. Pela primeira vez, ele se sentiu desconfortável com o olhar de alguém. Entretanto, afastou o mal-estar com a arrogância que lhe era peculiar.

— Onde estão as crianças? – gritou ele e um silêncio sepulcral baixou sobre todos.

Guilty repetiu a pergunta, agora com um tom ameaçador.

— N-Nós as sacrificamos. – disse Alna, uma mulher grande.

— Sacrificaram? – insistiu Guilty.

— Sim, elas foram lançadas ao mar. Preferimos a morte a ver nossos filhos como escravos. – mentiu ela.

— Veremos se diz a verdade. – disse Guilty com um olhar cruel. – Hermund traga o machado!

O homem obedeceu e Guilty pegou a mulher pelo braço, levando-a até um tronco cortado de forma a servir de suporte para cortar madeira. Com violência, encostou o braço da mulher no centro e levantou o machado.

— Onde estão as crianças? – perguntou, mais uma vez.

Alna cerrou os dentes e encarou Guilty com altivez.

— Estão mortas, assim como você, quando nosso jarl voltar!

O machado desceu implacável, cortando a mão de Alna. Ela gritou antes de desmaiar e Guilty elevou o machado ensanguentado falando alto e com visível prazer:

— Muito bem, já que sacrificaram seus filhos, terei de lhes dar outros!

Os homens de Guilty sorriram e lamberam os lábios, enquanto as mulheres deram as mãos e inspiraram fundo. Pelos nossos filhos! Disseram todas em pensamento, enquanto tinham suas roupas rasgadas e seus corpos violados.

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A noite chegou e a maré revelou o lugar secreto. Minos viu-se entrando na caverna que estava gélida e escura. Tateando, encontrou gravetos e turfa, assim como as pedras de fogo, porém, apesar do frio e da escuridão, não acenderia nenhuma fogueira para não chamar a atenção do inimigo. Também encontrou cobertores e potes com água assim como peixe seco enrolado em folhas de carvalho. Aquele recanto servia para dar maior privacidade a Halfdan em suas surpresas para o jarl.

Minos pegou tudo e, tateando, continuou seu caminho até chegar a uma abertura na rocha que dava para o mar. Ali estava o barco construído para quatro remadores e com um sistema que facilitava o deslocamento rápido. Colocou tudo dentro dele e esperou.

Horas depois, a maré subiu, novamente, e ele começou a remar, rumo ao seu destino. O mar estava calmo e ele sabia guiar-se pelas estrelas, embora só tivesse navegado uma vez, quando criança. Sentia-se inquieto e ansioso e isso lhe dava forças para manter um ritmo com os remos. Aquele barco era mesmo inovador, mas mesmo assim, remar sozinho seria uma tarefa árdua e perigosa. Perder-se no mar poderia ser fatal, assim como ser acolhido por alguma tempestade, também.

Um dia havia se passado.

Exausto, Minos fechou os olhos, por um instante, e pediu por mais força. O rosto de Alone lhe veio à mente, assim como o de Hades e todos os outros. Foi com essas imagens que continuou remando e remando sem descansar por muito tempo, apenas o necessário para não desabar e para fazer as correções de rumo.

O balanço das ondas começou a ficar mais intenso e Minos viu o céu, antes claro, tornar-se tão escuro quanto a noite. Não havia nem tempo de pedir clemência aos deuses.

A tempestade veio e com ela, ondas enormes que ameaçavam engolfar a pequena embarcação. O cansaço e a dor nos músculos eram grandes fazendo-o sentir como se estivesse com os dois braços quebrados.

Raios e trovões deixavam o céu iluminado, assim como a água que enchia a embarcação. Minos amarrou-se ao assento e continuou firme, enquanto a água gelada açoitava sua pele, impedindo-o de abrir os olhos. Quando conseguiu enxergar um pouco, sua respiração falhou, uma onda gigantesca se elevava como uma parede...

Por Odin... Murmurou ele e tudo escureceu.

Hades se mantinha firme, apesar dos jatos de água que varriam o navio. Pandora e os outros se agarravam aos remos e olhavam para o navio de Shina que continuava próximo ao seu.

O jarl quase não conseguia manter os olhos abertos, porém um enorme relâmpago iluminou os céus e o mar por um tempo maior e ele viu uma pequena embarcação sendo engolfada pelas ondas. Ele não soube como ou porque, mas seu coração disparou.

— Sculla! Manobrem o barco até aquele ponto! – gritou Hades.

O chefe dos remadores deu a ordem e logo o drakkar movia-se na direção apontada pelo jarl.

Minos sentiu o ar fugir-lhe dos pulmões quando a onda o atingiu em cheio e ele foi ao fundo. A água fria roubou-lhe o fôlego e, quando um segundo vagalhão o engolfou, fazendo seu cabelo se enroscar nos braços, ele lutou para segurar a respiração e esperar a chance de emergir, novamente. Quando conseguiu, um clarão iluminou seu rosto e ele agradeceu a Thor. Se o navio de Hades estivesse perto, mesmo que não sobrevivesse para transmitir a mensagem, seu corpo seria a prova que algo estava errado.

Foi nesse exato instante que Hades o viu e, sem pensar, atirou-se no mar.

— Hades! – gritou Pandora ao ver o irmão lançar-se nas ondas bravias.

O mar rugia, os pingos da chuva formavam cavidades na superfície da água dando a impressão que o mar borbulhava. Hades sempre fora um excelente nadador, resistente como poucos. Porém, não foi a confiança em suas habilidades que o fez pular do navio e sim aquela emoção impulsiva que só acontecia quando Minos estava envolvido.

A espuma espirrava ao redor de Minos que submergia e voltava, sendo fustigado pela chuva que o fazia cerrar os dentes na tentativa de não engolir a água salgada. Suas mãos e pernas começaram a ficar dormentes e suas forças ameaçavam abandoná-lo, entretanto ele resistia. Eles confiaram em mim, não posso desistir...

Pandora gritou para Sculla lançar cordas ao mar, na esperança que Hades as pegasse. Radamanthys e Aiacos foram ajudar a recolhê-las quando o jarl as utilizasse para voltar.

Hades podia sentir nos ouvidos a propria pulsação conforme a força da água o fazia afundar e emergir. No entanto, ele estava se aproximando, cada vez mais, ao ponto de perceber que Minos lutava e isso o fortaleceu. Mais algumas braçadas e ele chegou até o jovem.

— Pegue minha mão! – gritou Hades.

Minos ouviu a voz forte como se fosse um eco, seu corpo estava tão gelado e dormente que ele sentia estar fora do próprio corpo. De repente, sentiu um puxão e despertou daquela espécie de transe.

— H-Hades...

— Estou aqui, fique comigo! – gritou o jarl.

Uma onda enorme engolfou os dois e eles submergiram em meio à espuma salgada e às agulhadas da chuva. Hades manteve Minos preso a si, agarrando o tecido grosso da túnica e sentiu que o corpo dele estava relaxando. Mergulhados na água escura, Hades viu Minos virar a cabeça na sua direção e os olhares de ambos se encontraram dentro do mar, o do jovem opaco contra a pele mortalmente lívida.

Fique comigo, Minos! Fique comigo! Pensou com tanta força que quase abriu a boca, enquanto emergia, trazendo Minos consigo, aproveitando para respirar e ver se o drakkar estava perto.

Cordas dançavam bem próximas e ele conseguiu agarrar-se a uma delas, sem descuidar de Minos. Como por encanto, a tempestade arrefeceu e os homens, rapidamente, os puxaram para o convés do navio.

Hades sentiu o braço ferido, mas sua prioridade era Minos que não parecia respirar. Aplicando uma forte pancada nas costas dele, com a parte posterior do pulso, Hades ouviu-o exalar ruidosamente e depois tossir, cuspindo água. O cabelo platinado estava grudado ao rosto, os lábios estavam azulados, mas ele respirava.

— Minos! – chamou Hades tomando-o nos braços sob o olhar de todos.

O jovem tremia, mas a urgência em contar sobre o que havia acontecido o fez ignorar as dores e agarrar-se ao jarl com a mesma força de quando estava no mar.

— G-Guilty... ele invadiu a aldeia e...t-trouxe muitos homens.

Então era isso... Enfim a resposta aos seus questionamentos. Hades amaldiçoou-se por não respeitar seus instintos. O ataque à Lindsfarne nunca lhe pareceu tentador, mas se deixara convencer, porque os argumentos de Shina pareciam corretos e também não imaginara que Guilty teria tantos aliados para uma ação deste porte.

No entanto, o pesar por ter caído naquela armadilha foi substituído pela frieza das deliberações. Havia pago um alto preço por subestimar Guilty e não poderia se dar ao luxo de perder ainda mais. Era preciso um plano muito bem engendrado, porque o único resultado aceitável era a cabeça daquele maldito fincada em uma estaca! E, por todos os deuses, ele a teria!

Notas finais
♥ ♡ ❤ ♥ ♡ ❤ ♥ ♡ ❤ Obrigada a quem favorita, comenta, lê pelo celular, acompanha em silêncio. Como eu sempre digo, a energia se manifesta de acordo com a disponibilidade, tempo e vontade!!!Bjs, XD