A RUNA BRANCA DE ODIN
9 CAPÍTULO OITO: O plano...
Notas iniciais
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Lune olhou para o berserker com fúria nos olhos despertando-o, ainda mais, para aquilo que o levara a deixar o belo jovem distanciado dos demais até que pudesse passar despercebido. Todos haviam sido levados para o galpão, mas ele fora trazido para aquele lugar afastado, próximo da praia e sabia muito bem a razão. Tinha notado o olhar cobiçoso do grandalhão e a forma como ele o tocara. Ele o desejava...
– Escute, eu vou foder você de qualquer jeito. Mas, se você se mostrar disposto, posso torná-lo meu escravo e somente eu poderei tocá-lo. – disse o homem.
Um sorriso de escárnio se abriu nos lábios de Lune. O primeiro pensamento foi mandar o berserker foder com a vadia da mãe dele. Mas, em seguida, achou que teria uma boa oportunidade de começar a reverter aquela situação.
– Como sabe que gosto de foder com homem? – perguntou com um tom sugestivo.
O berserker riu.
– Esse seu corpo e essa sua bunda. Bonitos demais para um homem. Vai gostar do que eu tenho a oferecer, ele é bem grande. Vai te fazer urrar de prazer... – disse ele tocando os genitais.
– Ah! Será que é grande mesmo...? Como vai ser? Na boca ou... naquele lugar?
Os olhos do inimigo brilharam e Lune o incentivou mordendo o lábio e olhando-o com intensidade bem dentro dos olhos.
– Meu pau é enorme e parece um aríete. – disse o berserker, salivando.
– Eu quero pegar no seu pau, mas é claro que não vai me desamarrar. – continuou Lune, aproveitando a excitação do homem. — Você deve ter medo que eu faça alguma coisa contra você. Então acho que tenho que me contentar só em passar a língua neste monumento aí...
– Medo? Eu? O que você faria contra mim? Sou maior e mais forte. – vociferou o berserker com a respiração alterada e se aproximando do jovem.
Maior, mais forte e muito burro! Pensou Lune, enquanto o homem o desamarrava.
A cena que se seguiu foi orquestrada com maestria, Lune deslizou a mão pelo corpo coberto pela pele grossa e o grandalhão começou a ofegar. Impaciente, o berserker pegou Lune pelos cabelos e baixou-a até a altura do seu membro que já estava rijo. O jovem riu apesar de sentir o couro cabeludo formigar pela pegada violenta.
– Calma... Se forçar muito eu não poderei lhe dar o prazer que sei...
O homem suspirou e Lune sorriu contente por ter adivinhado aquela ação. Estava desarmado, mas o berserker não. O grandalhão trazia um punhal amarrado à perna e o ato de ele forçar a sua cabeça para baixo lhe deu a chance que precisava.
A partir dali, foi tudo muito rápido, Lune se abaixou mais, puxou o punhal e, quando o homem se deu conta do seu erro, era tarde!
O berserker arregalou os olhos com o grito preso na garganta. Lune enfiou o punhal de baixo para cima e puxou, rasgando-lhe os genitais e o baixo ventre, de modo que não houve chance de nenhuma reação por parte do inimigo.
Agilmente, Lune esquivou-se quando o berserker desabou, pesadamente, em meio ao sangue que se espalhou como uma imensa mancha vermelha no chão da caverna.
Lune olhou-o com desprezo e ainda cuspiu sobre o cadáver.
– Vai vagar no inferno de Hela, imbecil!
Livre, o jovem guerreiro arrastou o corpo para as rochas e o atirou no mar. Em seguida, tratou de correr até o esconderijo onde as crianças deviam estar. Ao chegar lá, encontrou-os temerosos, porque Alone havia sido pego.
– Permaneçam aqui até eu voltar. Tem água e comida o suficiente para mais sete dias. Antes disso, Hades voltará. – disse ele.
– Alone está bem? – perguntou Caragh.
– Eu não sei, mas vou verificar. Fiquem aqui e não façam barulho.
A menina levou o dedinho à boca e fez um beicinho de quem ia chorar.
– A c-culpa foi minha. Eu caí e ele enfrentou o homem mau por minha causa. – disse ela com os olhos claros cheios de lágrimas.
O guerreiro não tinha muita paciência com crianças, mas obrigou-se a agir com mais gentileza. Aquela era uma situação de risco e os pequenos deviam estar com muito medo.
– Alone é o filho do jarl. Ele é forte e, certamente, saberá se defender. Agora eu tenho que ir. – falou Lune.
As crianças assentiram e ficaram juntas, enquanto Lune os deixava e ia em direção ao extremo oposto da vila.
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A noite estava fria e clara. O mar calmo nem parecia o mesmo da tempestade anterior. Hades recostou-se na amurada do navio ouvindo o som calmante das ondas batendo contra o casco de carvalho. Dentro de um dia, se os deuses fossem favoráveis, eles estariam em casa e o plano seria posto em prática.
O jarl olhou para os remadores que dormiam e para os guerreiros que descansavam conversando baixo. Minos estava entre eles, mas desde que todos souberam do que havia acontecido na aldeia, o jovem estava sendo ignorado por alguns poucos guerreiros e estava pálido, a exaustão visível no rosto bonito.
Sem se importar com a observação e atitude dos seus homens, Hades foi até onde Minos estava e retirou o cobertor que enrolara no corpo, colocando-o sobre os ombros do jovem.
– Venha, recoste-se aqui e tente dormir um pouco. – disse Hades.
Minos franziu o cenho.
– Dormir? Acho que só vou conseguir fechar os olhos quando tudo isso acabar.
– Não exija demais de si mesmo. Está exausto e ferido. – falou Hades pegando-lhe a mão envolta por uma faixa.
Pandora havia enfaixado as mãos do jovem, que haviam ficado em carne viva, com ervas curativas. Remar sozinho e durante um longo tempo tinha deixado ferimentos profundos que necessitavam cicatrizar.
Minos ficou olhando para as mãos de Hades, o gesto explícito deixando-o surpreso.
– Você também se feriu e não devia fazer isso. – disse o jovem puxando a mão. — Seus homens estão olhando para nós. Depois que souberam do ataque, o olhar deles mudou, dá para notar o ódio por eu ser o filho do homem que fez isso.
Hades fitou-o com intensidade.
– Você pertence ao clã, não importando de quem seja filho. E minhas atitudes não são questionáveis. Achei que já sabia disso.
– Você é o jarl e pode fazer o que quiser. Mas, não pense que isso resolve tudo. Não se pode controlar o que reside no coração dos outros.
Hades se sentou no chão do barco e sinalizou para que Minos se aproximasse. Quando ele o fez, puxou-o de encontro a si, fazendo-o sentar-se entre as suas pernas com as costas encostadas ao seu peito.
– Feche os olhos e descanse. – disse o jarl.
Desde pequeno Minos sabia lidar com a adversidade e a exclusão. O segredo era manter-se acima da sensação de não ser querido, nem aceito. No entanto, cada vez que Hades afirmava que ele pertencia ao clã, uma emoção nova se insinuava em seu peito, um pertencimento que parecia tão atraente, quanto perigoso, assim como aquele abraço íntimo e reconfortante na frente de todos.
– Depois não diga que não o avisei. Estreitar contato comigo, neste momento, não me parece uma boa opção para você.
– Cale a boca e durma. – falou Hades.
Garoto tolo. Pouco me importa o que pensam sobre mim. Não sou chamado de Kriger hjerteløs por um mero capricho. Os pensamentos de Hades foram se mesclando ao som das ondas e ele fechou os olhos sentindo o calor do corpo de Minos junto ao seu.
Hades aprendera com a crueldade de seu pai, desde cedo. O descontrole, a paixão desmedida, ambos destruíam até não sobrar mais nada. Então, desenvolvera o distanciamento, a frieza que lhe dava objetividade e visão. Não precisava de amor, nem de reconhecimento. Planejava, executava e colhia os frutos. Havia construído uma armadura ao redor de si, forte o suficiente para evitar fraquezas e reverter frustrações.
Era assim que vivia e era assim que ficara conhecido como Kriger hjerteløs o guerreiro sem coração. Porém, no que se referia a Minos, sentia que algo mudara e, não era necessariamente, ruim. Mas, também, não era bom. Tornava-se impulsivo em um nível mais profundo que, apenas, demonstrar considerá-lo importante para si, na frente dos homens. Era um sentimento intenso que crescia como as raízes da Yggdrasil, ocupando espaços que jamais foram permitidos...
No outro extremo, Pandora observava seu irmão. Radamanthys estava ao seu lado e bebia hidromel para afastar a dor. Os dois se olharam quando Hades abraçou Minos e Pandora não conseguiu evitar um meio sorriso.
– Nunca vi meu irmão interessado em um amante desse jeito.
– Você acha que ele gosta mesmo do Minos? Eu sinto que alguns ficaram receosos conosco depois do que aconteceu. Afinal, nós somos filhos de Guilty.
Com uma expressão séria, ela olhou para o guerreiro que a fizera redescobrir emoções negadas e guardadas, durante tanto tempo.
– Vocês pertencem ao clã e nada mais importa. Hades deixou isto bem claro quando os acolheu e aceitou.
– Hades é um líder forte e respeitado, mas, nem sempre isso assegura que se possa fazer certas escolhas, principalmente aquelas relativas aos sentimentos.
– Eu e meu irmão nunca nos apegamos a ninguém. Defendemos a família, o clã e os nossos aliados, mas jamais fomos seduzidos pelas emoções. Sempre tivemos um acordo implícito em manter o corpo e alma em equilíbrio, sem nada, nem ninguém nos impedindo de seguir em frente. Nós sempre consideramos o amor uma...
– Fraqueza. – completou Radamanthys.
Ela respirou fundo, antes de dizer:
– Não mais. Pelo menos, no que se refere a mim e, pelo que tenho percebido, Hades mudou, também.
Os olhos de Radamanthys pareceram mais dourados e intensos. Ele não escondia o sentimento que nutria por Pandora, mas, no entanto, respeitava o tempo e o ritmo dela, sem avançar, nem forçar. Queria que ela viesse por livre e espontânea vontade.
Então, como se pudesse ouvir seus desejos mais secretos, ela o beijou. Os dois estavam próximos o suficiente para que ela tomasse o rosto dele entre as mãos e saciasse a vontade de senti-lo, desde que o reencontrara no navio, após a batalha.
Os homens olhavam do jarl para Pandora, a Valquíria, a temida guerreira que jamais deixara um deles tocá-la como Radamanthys fazia. Aiacos percebeu os olhares e cochichos e pensou em Lune. Como ele estaria? Teria sido ferido? Capturado?
Em seu navio, Shina sentia saudade das risadas e da força de Elgiva, mas não se permitiu sentir melancolia. Ao olhar o firmamento, ela imaginou que a ex- companheira de batalha estava se banqueteando na mesa de Odin, tocando a coxa das Valquírias, bebendo e rindo como era a sua natureza.
– Olhe por nós, Elgiva. Mesmo quando estiver se banqueteando em Valhala, mande sua força para que o plano de Hades dê certo. – disse a guerreira apertando o cabo do punhal que sempre trazia consigo.
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O som do crepitar do fogo enchia o salão e a luz bruxuleante das tochas cobria os corpos dos guerreiros ali reunidos, com tons avermelhados. A expressão em seus rostos era de triunfo e também refletia os excessos de comida e hidromel. Cada um daqueles homens já tinha se fartado dos prazeres da mesa e da cama, como novos conquistadores e Guilty agia como se houvesse se tornado rei.
– Hades voltará logo. – disse ele com as mãos agarradas aos braços da cadeira. – Quero que dobrem a guarda dia e noite.
– Faremos isso. – respondeu Wolfson, um homem alto cujos olhos azuis pareciam duas esferas de gelo.
Bêbados e confiantes, todos gritaram em uníssono, enquanto as mulheres recolhiam os restos de comida e eram assediadas com palmadas nas nádegas e apalpadelas desrespeitosas. Entti sorriu para um deles de modo provocante e logo, o guerreiro foi ao seu encontro. Ela então fez um sinal para Asta que servia hidromel, de modo que ela pudesse sair pela lateral e fosse até o depósito onde ficavam os barris de bebida.
Logo, o plano de colocar erva venenosa no hidromel, que as mulheres haviam engendrado, seria colocado em prática. Elas não matariam ninguém de imediato, era, apenas, para deixá-los doentes e não levantar suspeitas. Assim, quando o jarl retornasse, saberia que elas não haviam sido dominadas como parecia.
Asta correu por detrás dos estábulos até chegar ao depósito. Cuidadosamente, ela entrou verificando se havia alguém por ali e não encontrou ninguém. Olhando para os lados, ela despejou as folhas secas e maceradas de genciana, uma erva que servia para ajudar a digestão e servia para fazer tônicos para a saúde. No entanto, em certa quantidade, ela provocava dor de cabeça e vômitos, deixando a pessoa fraca. O sabor marcante do hidromel não denunciaria o amargor da erva e ninguém saberia o que havia sido feito.
Quando ela se preparava para voltar, uma mão agarrou seu braço e ela quase gritou. O homem relaxou um pouco os dedos em sua pele e ela arriscou um olhar para cima.
– Lune...
– Sim, sou eu. Fui até as crianças. Como estão as coisas por aqui?
– Guilty está com os homens no salão, comendo e bebendo, enquanto que os nossos estão presos no galpão do ferreiro. Guthrum nos deu genciana para colocar no hidromel e assim deixá-los fracos.
– As crianças estão bem? – perguntou ela.
– Sim, elas estão. A água e a comida que elas têm durará a té o retorno do jarl. Eu matei um berserker e joguei o corpo no mar, mas logo darão falta dele. Como estão os homens?
– Guilty não nos deixou alimentá-los. Ele disse que eles serão sacrificados assim que o navio de Hades for avistado.
– E Alone?
– Ele o mantém enjaulado, mas mandou dar-lhe água e comida. O menino é exibido como um animalzinho raro.
– Hades não pode aportar aqui. – disse Lune.
– Guthrum disse que Hades está sob a proteção de Odin e saberá o que fazer. – falou Asta.
– Espero que a vidente tenha razão e Minos tenha conseguido avisá-lo. Senão, teremos que pensar em algo.
Suspirando, a mulher o encarou.
– As runas foram favoráveis e nos deram esperanças. Agora, preciso ir. Tome cuidado.
Lune assentiu e pensou no que fazer. Soltar os homens exigia paciência e movimentação silenciosa, já que o número de homens do inimigo era bem maior e eles tinham a vantagem de estar armados.
No salão, Guilty viu um tumulto, um dos berserkers parecia descontrolado, mas não de raiva. Ele gesticulava à procura de alguém.
– O que houve? – perguntou ele a Wolfson.
– É o irmão dele. Parece que sumiu.
– Como assim? Traga-o aqui.
– Sim, meu senhor.
O homem veio, o olhar brilhante pelo hidromel. Antes de falar ele arrotou e tentou gesticular, mas seus movimentos estavam lentos e desarticulados.
– O que aconteceu? – questionou Guilty com impaciência.
– Meu irmão sumiu! Ele tinha prendido aquele homem bonito de bunda redonda. Eu e ele... nós... ele... ele quis foder o homem sozinho. Ele foi egoísta! – gritou o homem.
Foi o último som que emitiu. Guilty levantou-se, desembainhou o punhal e, com um movimento rápido e preciso, cravou-a no pescoço do berserker bem abaixo do pomo de adão. O homem olhou para ele, fez um som grotesco parecido com um soluço e tombou sem vida.
Ninguém disse uma palavra. Não se ouviu um som. Até mesmo os cães que circulavam pelas mesas à procura de restos de comida ficaram quietos. Parecia que o ar tinha sido sugado do imenso salão. A expressão de todos era de perplexidade.
– Levem este traste daqui e o atirem ao mar, como ele acha que foi feito com o irmão! – ordenou Guilty. – Não quero nenhum espírito pervertido por aqui!
Quatro homens foram necessários para remover o corpo que deixava um rastro de sangue, enquanto os outros voltaram a beber e falar baixo.
– Ouçam todos! As mulheres estão disponíveis! Qualquer uma! Não importa se é virgem, casada ou viúva. Mas, não quero saber desta perversão de homem com homem. Aquele que for sodomita pense muito bem antes de satisfazer seus desejos vergonhosos, porque terão o mesmo destino que esse aí! Não admiti esse tipo de coisa com o maldito do meu filho. Então não esperem que eu tenha tolerância com vocês! – gritou Guilty, antes de se retirar.
Alguns elevaram suas canecas de hidromel, uns poucos se entreolharam. Os berserkers não pareciam contentes, mas Guilty parecia controlá-los com ouro, bebida e outros prazeres que os mantinham sob o juramento de fidelidade.
Entti observou que o clima de camaradagem havia se modificado e sorriu. Logo, logo Hades retornaria e tudo voltaria a ser como antes. Ela circulou pelas mesas com um jarro cheio de hidromel, procurando ouvir as conversas. Um homem de barba grisalha a pegou pela cintura.
– Quero que aqueça minha cama, esta noite. Você é muito bonita, sabia? – disse ele sorrindo.
– Mas é claro, meu senhor...
– Claro o quê? – insistiu ele. – Que sabe que é bonita ou que vai me aquecer?
Os homens da mesa riram.
– Os dois, meu senhor. – respondeu ela com um tom atrevido.
Nesse meio tempo, Asta retornou e olhou para Entti. Houve uma compreensão muda entre as duas. Assim, Entti tornou a olhar o guerreiro bem dentro dos olhos.
– Irei, assim que terminar minhas tarefas... – disse ela, sorrindo, enquanto imaginava vê-lo vomitar e enfraquecer como todo o homem quando se sente doente.
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– Fique quieto. – disse Pandora para Hades, enquanto passava as cinzas em seu rosto.
Com movimentos circulares ela foi distribuindo as cinzas de modo que o rosto alvo do jarl ficou ainda mais branco, como se fosse o de um cadáver. Em seguida, ela usou um pouco de fuligem e criou olheiras escuras e alguns falsos hematomas perto do ferimento verdadeiro.
– Está perfeito! – disse ela com orgulho na voz.
Minos refletia sobre o plano de Hades. Era um plano inteligente, com certeza. Pela primeira vez, arrependeu-se por não ser um guerreiro e assim, poder lutar ao lado do homem por quem se apaixonara.
– Você está bem? – perguntou Radamanthys se aproximando do irmão caçula.
– Vou sobreviver. – respondeu Minos.
Radamanthys tocou-o no ombro.
– Alguns estão nos olhando torto, mas é compreensível.
– Eu sei. Só Hades acha que eles têm de esquecer que somos filhos de Guilty. – disse Minos.
– Hades é um líder como poucos e jamais aceita uma derrota. Mesmo não gostando de nós, os homens obedecerão e farão vista grossa ao fato que ele ama o filho de um traidor, desde que o insulto de Guilty seja vingado com sangue.
O jovem olhou-o com o cenho franzido e incredulidade nos olhos.
– De onde você tirou isso?
– Todo mundo vê o modo como ele o trata e até mesmo Pandora disse que nunca viu seu irmão agir assim.
– Bobagem. O que existe entre nós é desejo, só isso.
– Desejo...? Não foi isso que todos viram ontem à noite.
– Está vendo demais, irmão.
Aiacos se aproximou dos dois, abraçando-os.
– Posso saber sobre o que, vocês estão falando?
– Nada importante. – disse Minos. – Mas, já que está aqui, que tal contar sobre... Lune?
Os olhos escuros do guerreiro buscaram as águas do mar. O furacão de sensações que o dominava desde que vira Lune, pela primeira vez, era algo que ele nunca tinha experimentado antes. Já tivera amantes, mas todos longe de casa e das vistas de Guilty, aventuras que colecionava secretamente.
– Eu gosto dele. – disse, simplesmente.
– Isso eu sei. O que quero saber é... Como escondeu isso de todos?
– Eu não queria guerra com nosso pai.
– Nenhum de nós queria. Mas, por uma ironia do destino ou por vontade dos deuses, é o que vamos fazer. – falou Radamanthys.
– Ele nunca odiou vocês, somente a mim. – disse Minos.
– Guilty só ama a si mesmo. Agora vejo que ele nunca nos considerou como filhos e sim como peças de combate para usar e descartar. – disse Radamanthys tocando o braço ferido.
– Radamanthys tem razão. Ele nos manteve ao seu lado, não por amor, mas, para fazer o que ele desejava. Ele nos usou para trair o félag. Se não tivéssemos deposto as armas, os homens de Hades teriam nos matado e Guilty teria fugido, mesmo assim. – falou Aiacos.
O som de uma trompa interrompeu a conversa. Este era o sinal que todos deveriam se reunir, novamente, para repassar todos os detalhes do plano de Hades. O navio de Shina encostou ao de Hades e ela foi ao seu encontro.
O jarl parecia um fantasma com aquele disfarce. Ele se posicionou no centro e distribuiu as ordens.
– Eu, Aiacos e Radamanthys vamos desembarcar conforme o plano, tendo Shina à frente. Os demais terão que ser rápidos para que tudo funcione perfeitamente. Não podemos falhar e espero que isso fique bem claro.
– Senhor, e as nossas mulheres? – perguntou Hermund, um grandalhão com uma cicatriz atravessada no rosto.
– Pelo que eu conheço das mulheres, elas não aceitarão essa situação de braços cruzados. – respondeu Hades.
– Mas o que elas podem fazer contra os homens de Guilty? Eles devem tê-las violentado e... – a voz de Hermund falhou. Ele pensava em Asta, sua amada esposa e imaginá-la sendo possuída à força fazia seu sangue ferver.
– As mulheres possuem um senso estratégico avançado. Pensando como elas, eu arriscaria um ato subversivo como envenenar a bebida depois de um tempo. Assim, o inimigo ficará enfraquecido, favorecendo a ação dos guerreiros. – disse Minos.
Todos os olhares se voltaram para ele, principalmente o de Hades. O jarl franziu o cenho como que avaliando as palavras de Minos.
– Você tem razão. – disse ele com um olhar diferenciado que misturava orgulho e reconhecimento.
Shina também sorriu. Esse jovem é inteligente mesmo!
Os homens murmuraram algo e Hades aproveitou a ocasião.
– Sei que estão preocupados com seus filhos e suas mulheres. Meu filho também foi feito prisioneiro. Somos guerreiros e estamos ligados pela honra e pelo sangue. Não deve haver diferenças entre nós! Pertencemos ao mesmo clã, independente da nossa origem!
– Mas, eles são filhos de Guilty!- disse Hubba, um homem de olhar sombrio, apontando na direção de Minos, Aiacos e Radamanthys. — Como podemos confiar que não irão se arrepender e nos trair? – ousou perguntar.
Hades fitou-o e todos ficaram em silêncio. Não havia emoção nenhuma naquele olhar, mas ainda assim, causava desconforto e certo medo.
– Por acaso o juramento de sangue que fizemos é uma mentira para você, Hubba?
– N-Não, jarl.
– Então, porque acha que estes homens que já provaram seu valor e sua lealdade estão mentindo? Por acaso eles são menos homens por terem Guilty como genitor?
– E-Eu...
– Esse assunto se encerra aqui! Radamanthys, Aiacos e Minos já não são os filhos de Guilty. Eles pertencem ao clã e são homens da minha mais absoluta confiança. Aquele que duvidar disso, terá a oportunidade de me enfrentar. Agora. Alguém?
Silêncio.
Em seguida, um forte bramido tomou conta daqueles que pensavam como o jarl, pois já tinham vivenciado a companhia de Radamanthys e Aiacos em combate. Nenhum dos dois havia falhado ou hesitado em ajudar ou até salvar um companheiro.
Hades olhou para os guerreiros, satisfeito com a certeza em cada semblante. Em seguida, levantou a mão, pedindo silêncio.
– Não haverá desconfiança ou dúvida, entre nós. Amanhã nós estaremos chegando ao nosso lar e não podemos e nem iremos falhar.
Todos urraram, novamente. Agora em uníssono. Hades olhou para Minos e o brilho de contentamento nos olhos violáceos, inadvertidamente, aqueceu seu coração...
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A água estava muita escura naquele final de tarde, as ondas calmas e silenciosas. Wolfson foi ter com os vigias, pois pelas contas que Guilty tinha feito, Hades estaria voltando neste dia. Seu irmão, Olaf, estava mais adiante, na faixa de areia perto de um corpo estendido. Quando chegou junto dos dois, ele perguntou.
– Esse é?
– É o berserker que tinha sumido. Alguém enfiou um punhal nas partes dele.
Wolfson franziu o cenho.
– Quem quer que tenha sido está solto por aí. Precisamos achá-lo.
Nem bem ele concluíra a frase, seu irmão apontou. A visão do navio viking no horizonte os alertou. Wolfson reconheceu a vela listrada e os escudos ornados com um padrão vermelho e branco. No topo do mastro principal via-se a cabeça de uma serpente.
– Aquele não é o navio de Hades. – disse Wolfson.
– Mas está vindo para cá.
– Vou avisar Guilty. Reúna os homens, precisamos estar prontos quando eles desembarcarem.
Olaf obedeceu, deixando o corpo inchado e inerte onde havia encontrado. Das rochas, Lune observava tudo. Não conseguira entrar no galpão que estava guardado por guerreiros muito atentos. Então resolvera voltar às rochas para ficar de olho no esconderijo das crianças e também no mar. Aquele navio era de Shina, mas e o navio de Hades? O que havia acontecido? Será que o jarl tivera problemas?
Na aldeia, alguns dos homens vomitavam pelos cantos, outros não conseguiam abandonar a latrina. As mulheres faziam cara de desentendidas e traziam baldes e panos úmidos, fingindo um cuidado que mascarava suas ações.
Guilty levantou-se da cadeira com um olhar raivoso. Ele não havia bebido a segunda leva de hidromel e, portanto, não sentia os efeitos do veneno.
– Tragam a curandeira aqui! – gritou ele.
Em alguns minutos, Guthrum entrou calmamente. Seus cabelos grisalhos estavam presos em uma trança embutida na nuca. Ela trazia nas mãos um prato contendo corações e vísceras de animais, comendo com visível apetite e sem desviar dos olhos de Guilty. Com uma expressão de repugnância ele a encarou também.
– Alguns dos meus homens estão doentes do estômago. Faça um dos seus remédios e cure-os!
– Existe uma poção feita com excremento de cabra. Preciso de ajuda para recolher bastante. – disse ela chupando os dedos cobertos de sangue.
– Excremento de cabra?
Os homens que estavam por perto fizeram uma careta de nojo e alguns não conseguiram conter o vômito, sujando os pés uns dos outros.
–Pelos deuses, mulher! Deve existir outro modo de curar isso!
A vidente sorriu.
– Um sacrifício, talvez.
Os olhos de Guilty se arregalaram, mas logo se estreitaram como se ele fosse um felino caçando ratos.
– Talvez tenha razão. – disse ele. – Quem sabe os deuses sejam benéficos se eu lhes oferecer o filho de um Jarl...
Se ficou impactada, Guthrum não demonstrou. Ela tirou as runas de dentro de uma bolsa de couro gasto e as lançou ao chão.
– Ansuz, Hagalaz e Thurizaz... E, de novo, a runa branca de Odin. Mais uma vez, eu o aconselho, meu senhor. Deixe esta aldeia antes que Hades volte. Senão...
– Senão o quê, sua velha louca?!
– O senhor morrerá.
Guilty fechou o punho, mas em seguida Wolfson entrou esbaforido.
– Avistamos um navio na praia. Não é o navio de Hades, pois tem uma serpente esculpida no mastro! – disse o homem.
O semblante de Guilty mudou da raiva para a surpresa. Ele olhou para Guthrum que permanecia serena.
– Posicione os homens na aldeia. Deixe que pensem que está tudo bem.
Wolfson assentiu e voltou tão rápido como tinha chegado.
Guthrum o encarou. Em seus olhos havia um sentimento profundo de tristeza, mas ela voltou a escondê-lo do inimigo. Guilty cuspiu no chão.
– Saia da minha frente, antes que eu a mate!
A vidente murmurou algo baixinho e se retirou.
Na praia, a proa do navio de Shina já estava sob a faixa de areia. Ela desceu junto com doze guerreiros. Cada quatro carregava uma padiola com corpos cobertos.
Das rochas, Lune podia ver a cena e seu semblante se fechou. Se tudo aquilo era o que parecia ser, Shina havia voltado para trazer os corpos dos guerreiros mortos na batalha e um dos corpos era o de Hades.
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