A RUNA BRANCA DE ODIN

7 CAPÍTULO SEIS: Armadilha diabólica


Notas iniciais
♥*♥ Galerinha amada, obrigada pelo carinho, pelo apoio e pelos comentários!! Tenham um bom "findi" e espero que gostem do capítulo!!♥ Bjs

Os dias passaram rápido. A vida na aldeia seguia com as atividades comuns, enquanto Hades, Shina e Pandora alinhavavam os preparativos para a invasão a Lindsfarne. O tempo continuava firme, embora nuvens de tempestade se formassem ao longe.

– O primeiro dia da lua nova é amanhã. – disse Shina avaliando o mapa disposto sobre a mesa.

– São três dias até o mosteiro e temos que estar preparados para navegar à noite. Quero chegar antes do amanhecer. – falou Hades.

– Meu espião disse que será uma invasão fácil, poucos monges estarão no mosteiro, já que muitos estão fazendo sua peregrinação.

– Peregrinação? – questionou Pandora.

– Sim, todos os anos eles refazem o caminho de um dos seus santos, um tal de Santo Aidan que viveu na ilha de Iona,na Escócia e veio para Lindsfarne onde fundou o mosteiro atual.

Hades franziu o cenho. Atacar um mosteiro nunca estivera em seus planos, mas se Guilty deixara o tesouro devido ao félag com os monges, era seu dever como jarl resgatá-lo e caçar o traidor. Os homens do deus cristão não seriam um empecilho, porém levaria certo número de guerreiros para qualquer eventualidade.

– Partiremos amanhã à noite. – falou o jarl.

Shina sorriu e olhou para Pandora.

– Notei que você e o loiro estão mais próximos. Minhas chances que já eram poucas, agora acabaram de vez.

Pandora sorriu, o olhar iluminado.

– Eu gosto dele.

– Faz bem. – disse Shina tocando-a no ombro. – Ele me parece ser um guerreiro de valor e você merece esquecer aquele filho de uma cadela do Sweyn. Que ele esteja apodrecendo na mesa de Hela, faminto e miserável. Só sinto perder a chance...

Mais uma vez, Pandora sorriu. Estava cada vez mais fácil sentir-se assim, esperançosa e leve.

– Apesar de tudo, sabe que eu prefiro os homens. – disse ela beliscando o braço de Shina.

– Sei, o que é uma pena. Mas, fazer o quê? – respondeu a guerreira fazendo uma careta de dor.

– Ah, não se faça de vítima. Você e Elgiva...

– É, eu e ela nos damos bem na cama, mas é só sexo.

– Dá pra ver nos olhos dela que ela te adora. Não jogue isso fora.

– Olha só, quem me aconselhando. Vá cuidar do seu homem!

As duas riram e Hades deixou o salão para reunir-se com seus guerreiros. Ao cruzar o pátio, ele ouviu um coro de risadas infantis e depois a repetição de palavras em latim vindas de uma área próxima ao cercado dos animais. Andou lentamente e sem fazer barulho e o que viu, o surpreendeu. Minos estava em pé e manejava bonecos de madeira presos por cordões, enquanto um grupo de dez crianças, incluindo Alone, estava sentado no chão e ria ao ouvir os bonecos falarem em latim e pedirem para que eles repetissem as palavras e frases.

Hades ficou um tempo observando e admirando a iniciativa de Minos. Depois da noite em que ele recusara ser seu amante, os dois não haviam mais se encontrado às sós. A rotina dos encontros no salão para as refeições e breves trocas de cumprimentos se tornara o único momento em que se viam. Era estranho e, ao mesmo tempo, agradável, perceber que o jovem também pensara em ensinar mais crianças a ler e escrever e que o método usado estava dando certo.

Minos olhou na direção de Hades e o olhar do jarl fixou-se nos seus por um tempo rápido. Um ligeiro sorriso curvou-lhe os lábios, antes de retirar-se, e Minos sentiu a presença dele mesmo àquela distância.

– Bem, por hoje é só, amanhã nós continuamos! – disse o boneco manipulado por Minos.

Houve um murmúrio geral de desapontamento.

– Mestre Aldebaran já deve estar esperando vocês no campo de treinamento. – finalizou o boneco.

As crianças obedeceram e Minos tentou ver onde Hades havia ido. Não tinha mais falado com ele desde aquela noite e sentia falta, muita falta. Sem ter sucesso, suspirou e foi até a carpintaria. Halfdan estava concluindo as obras de um barco pequeno com um sistema inovador nos remos que possibilitava que, apenas dois homens pudessem manejá-lo com facilidade em mar aberto.

– Bom dia! – disse Halfdan.

– Bom dia.

– Que cara é essa?

– Nada. Vamos trabalhar. – respondeu o jovem.

Mais velho e experiente, Halfdan sorriu de canto. Ele passava boa parte do tempo dentro daquele galpão, porém ouvia muitas conversas e sabia de muitas coisas. Minos era um jovem de muito valor, aprendia rápido e ensinava, também. Nunca o jarl lhe tinha designado um ajudante tão apropriado e também nunca vira nos olhos frios do líder uma admiração por alguém, como demonstrara ter por Minos.

– Sabe, quando o jarl me disse para aceitá-lo como meu ajudante, eu só o fiz porque ele ordenou. Mas, agora, vejo que ele tinha razão em admirá-lo.

Minos ouviu as palavras e seu coração acelerou. Hades o admirava! Um sorriso contido brincou em seus lábios e ele encarou Halfdan.

– Hades disse isso?

– As palavras exatas foram: Minos é um jovem talentoso e inteligente. Use as habilidades dele para que possamos construir um clã forte. Chegará a época em que prosperidade não dependerá, apenas, da pilhagem. Ele será parte disso.

Sem saber o que dizer, Minos pegou as ferramentas e se preparou para ir até o deck. Halfdan pegou um corno cheio de hidromel e sorveu um longo gole.

– Eu acho que ele sente muito mais que admiração, mas...

– Do que você está falando?

– Eu sempre vivi aqui, portanto conheço muito bem a todos. Hades não tem aquela alcunha à toa. Nunca o vi expressar qualquer coisa sobre outra pessoa.

– Nem sobre os amantes dele? – questionou Minos com uma sobrancelha elevada.

– Nunca. Ele age na cama como age na batalha. É implacável, direto e quando termina... Termina.

– Então porque está insinuando algo sobre eu e ele?

– Porque eu nunca vi aquele brilho nos olhos dele ao falar de alguém.

Minos deu de ombros.

– Hades é um homem de visão. Ele não é como Guilty ou os outros jarls que só pensam em guerrear e saquear. Ele, apenas, reconhece que eu posso ajudar o clã a progredir. Só isso.

– Ele nunca deixou um amante dormir em seus aposentos...

– Eu não sou amante dele.

Halfdan soltou uma gargalhada.

– Bem, vamos trabalhar. – disse ele enfrentando o olhar irritado de Minos.

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Anoiteceu e, um fiozinho de luz lunar anunciava a passagem da minguante para a lua nova, teimando em permanecer no negror do céu estrelado. Grilos trilavam alto na noite calma e o salão estava repleto para o jantar. A comida era farta e o hidromel também. Todos se banqueteavam como se aquela fosse a sua última refeição. Era assim que se preparavam para a partida e para a batalha.

Hades comeu pouco, devagar, e saboreou o hidromel que tinha na caneca, mal prestando atenção à conversa dos homens e mulheres que tagarelavam sem parar. Seu olhar vasculhava o salão, procurando certo alguém, porém não o tinha visto.

De repente, Minos adentrou o salão, vinha junto de Halfdan e o guerreiro que servia como espião para Shina e com quem já havia conversado. O homem sorria e parecia muito interessado no que Minos dizia. Hades deduziu que falavam sobre carpintaria, mas aquela inclinação do corpo e o jeito de olhar falavam de outros interesses. Seu corpo enrijeceu, mas ele tratou de afastar aquele sentimento incômodo. Colocando a caneca sobre a mesa, se levantou da mesa, ato que chamou a atenção para si.

– Escutem todos! – disse ele com sua voz grave. – Esta noite, comam, bebam e festejem como se estivessem no salão de Odin. Amanhã, antes do nascer do sol, aqueles que foram escolhidos devem estar prontos para a jornada. Os outros, guardem a aldeia com as suas vidas.

Houve um brado em uníssono e canecas foram levantadas. O guerreiro ao lado de Minos e Halfdan sorriu e continuou a falar em tom baixo.

– Eu não preciso me preocupar, ficarei por aqui. E você? Muitos falam da sua inteligência por aqui... Gostaria de saber mais sobre as suas ideias. – disse Ivan com um olhar interessado e tocando a mão de Minos de forma provocante.

Minos ficou sério e puxou a mão.

– Que eu saiba, não é preciso tocar para conversar. Não lhe dei intimidade pra isso.

– Isso pode mudar, não é? – insistiu ele.

– Não perca o seu tempo. – cortou Minos e seu olhar deixou claro que o assunto estava encerrado.

O guerreiro deixou a mesa com uma expressão de poucos amigos.

Hades estava atento, embora não parecesse e olhou na direção de Minos que se virou para ele, no exato momento, criando aquela conexão de olhares. Shina chamou a atenção de Hades e quando ele tornou a olhar, Minos já não estava mais ali.

Calmamente, o jarl deixou a mesa.

– Vou andar um pouco. – disse ele à Shina, que estava ao seu lado.

– Pois eu vou beber mais um pouco. – respondeu ela enchendo mais uma caneca de hidromel.

Lá fora, Minos contemplava as águas cinzentas do lago que estavam recobertas de névoa. Sua mente fervilhava, mas era o seu corpo que exigia dele, algo que ele vinha negando todas as noites e que a cada encontro com Hades aumentava o seu sofrimento.

A angústia da frustração serpenteava dentro dele, assim como aquela saudade dolorida dos toques ardentes e do corpo ávido de Hades.

Ninguém chamava a sua atenção e, quando outro homem se aproximava, sentia uma aversão inexplicável que se convertia em irritação como tinha acontecido em relação a Ivan. Será que nunca mais se interessaria por outro homem?

Hades sabia que ele estaria ali. Não havia uma explicação racional, apenas que parecia haver entre ele e Minos uma ligação que transcendia a vontade de ambos e que permanecia mesmo quando decidiam ficar longe um do outro.

– Se veio insistir, minha resposta continua não. – disse Minos depois de alguns momentos, virando-se para encarar a presença sentida atrás de si.

O jarl franziu o cenho e Minos surpreendeu-se. Não era Hades quem pensava estar ali e sim Ivan, o espião de Shina que tentara seduzi-lo no salão.

– Pensei que era outra pessoa. – disse o jovem.

– Ivan?

– Sim, ele é um tanto insistente e há algo nele que me desagrada.

– Falarei com ele.

– Não precisa, eu sei me defender.

Aproximando o corpo, Hades o encarou com aquele olhar...

– Eu sei que sabe, mas é dever de um jarl deixar bem claras as regras do seu clã para os de fora.

Minos fez uma expressão de descrédito e abriu a boca para falar, porém se conteve. Hades percebeu e puxou-o de encontro ao corpo, beijando-o, moldando os lábios dele aos seus. O jovem abriu a boca para recebê-lo, correspondendo ao beijo, as línguas se entrelaçando, o desejo abrindo passagem com uma voracidade que não aceitava impedimentos.

– Hades... – murmurou Minos, ofegante, quando as bocas se afastaram para recuperar o fôlego.

– Já sei o que vai dizer... Não quer ser meu amante, mas seu corpo me quer. – falou Hades e, mais uma vez, as bocas se encontraram sem nenhuma resistência de ambas as partes.

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Os aposentos de Hades exibiam uma penumbra alaranjada e Minos já desistira de se importar ou sentir-se fraco por não resistir ao jarl. Seu corpo queria... Todo ele o queria.

Eles se beijaram sem pressa... Simplesmente, deixaram os lábios roçarem até os sons da respiração de ambos serem abafados pelo pulsar do desejo fluindo nas veias e nos corações descompassados.

Descendo dos lábios pelo pescoço que se oferecia a si, Hades puxou as coxas brancas de Minos, apanhando bem sua pele entre os dedos, marcando-o, tomando posse... A pele ardente atiçava a boca do jarl e ele foi à entrada do corpo que o deixava fora de si, como na primeira vez em que o tinha possuído, pressionando a língua naquela abertura, molhando-a e penetrando-a com sofreguidão.

Tudo em Minos tinha um gosto prazeroso, diferente, e Hades se excitava em prová-lo de todas as formas como nunca havia feito com outro homem. Os dedos soltavam lentamente as coxas e a boca passava pela virilha, pelo falo túrgido, deixando a respiração e o toque dos lábios arrancarem mais gemidos roucos de Minos.

O mais velho o estava torturando e Minos sentia cada vez mais desejo e impaciência. Num movimento hábil, Hades inverteu a posição dos corpos e fez com que Minos ficasse por cima dele, sentado sobre os seus quadris.

O olhar febril de Minos pareceu entender o desejo de Hades. Inclinando o corpo, ele encaixou-se no falo rijo e desceu sobre ele com um movimento sinuoso, porém forte. Ofegou quando sentiu a glande invadir-lhe o canal quente e apertado e sorriu quando viu o jarl morder o lábio inferior...

Os olhos de Hades brilharam insanos e excitados provocando em Minos uma satisfação que o fez sentir-se poderoso. Ele se inclinou para frente e beijou o jarl, profundamente, na boca.

Hades agarrou a pélvis de Minos e o puxou para junto de si, aproveitando enquanto a boca se abria junto aos seus lábios, provocando o encontro das línguas, as salivas com gosto de hidromel sendo trocadas em meio aos ofegos e gemidos baixos. Os membros se tocaram e ficavam pressionados entre os corpos, fazendo-os experimentarem aquela comunhão erótica que lhes incendiava o sangue.

– Hades... – gemeu Minos extasiado ao sentir as mãos grandes e ásperas segurarem-no com força pelo quadril, fazendo-o sentir-se invadido, profunda e prazerosamente.

O interior de Minos o pressionava e a sensação de ser acolhido naquele espaço era diferente de todas as experiências anteriores. Não sabia, exatamente, o porquê, mas estar dentro dele, dominando-o e sendo dominado pela natureza passional era como estar em seu verdadeiro lar. Era no corpo de Minos, nas profundezas que seu falo golpeava com força, no interior apertado e quente, que atingia um prazer inexplicável, viciante e transcendente...

– Você é meu, somente meu! – grunhiu Hades movendo os quadris para cima e sentindo o impacto do corpo de Minos junto ao seu.

Com os olhos fechados e os lábios entreabertos, Minos usufruía daquela sensação, aquele falo quente, pulsante, deslizando para dentro do seu corpo, enlouquecendo-o, incitando-o cavalgar com mais rapidez e fúria para senti-lo tocar-lhe o ponto do prazer muitas e muitas vezes...

E foi assim que ele gemeu alto, abriu um pouco mais as pernas e fechou as mãos nos braços de Hades, com uma forte pressão nos dedos trêmulos pela chegada do clímax.

– Goza dentro de mim... – pediu Minos, o olhar ébrio de prazer, num tom urgente, querendo mais daquelas investidas.

Por fim, Minos acabou gozando, contraindo-se ainda mais, deixando os dedos cravarem-se nos braços do jarl, enquanto seus joelhos afundavam-se no colchão e as costas se arqueavam ainda mais no mesmo instante em que os respingos de seu sêmen cobriam o tórax de Hades.

Sentindo seu membro pulsando e o baixo ventre anunciando que logo chegaria ao orgasmo, Hades estremeceu, violentamente, e inundou o interior de Minos com seu prazer. Um último gemido saiu dos lábios bem desenhados do jarl e ele fechou os olhos com força. Moveu os quadris não tendo pressa em sair de dentro de Minos.

O corpo trêmulo de Minos se contraiu e ele desabou sobre o peito de Hades, fazendo-o sentir as batidas aceleradas de seu coração. O jarl apertou-o forte, sentindo o suor e o gozo espalharem-se, por ambos os corpos. Esperou que seu falo desinchasse e se moveu saindo e deixando que o gozo escorresse por entre as nádegas de Minos.

Ainda ofegante, Hades tomou seu rosto entre as mãos e o beijou , envolvendo-o com seus braços e olhando-o bem dentro dos olhos. Nada disse, apenas olhou-o de forma intensa e séria. Então tomou-lhe a boca, novamente, e colocou naquele beijo, o sentimento que jamais confessara, mas que tinha a certeza de nunca se extinguir ou ser dirigido a outro...

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A partida aconteceu antes que o céu clareasse. Minos passou a noite nos braços de Hades e quando chegou a hora, eles apenas se olharam em silêncio. Em seguida, Hades deixou os aposentos e Minos permaneceu por um breve momento, antes de juntar-se aos demais para a despedida.

Minos posicionou-se ao lado de Alone quando Hades embarcou. O menino estava contente, porque pela primeira vez, seu pai se despedira dele com um olhar de orgulho e afeto.

Os dois navios, cujas proas exibiam, respectivamente, uma serpente esculpida e a efígie de um dragão, adentraram o mar sob as bênçãos da vidente. Guthrum aspergiu água salgada sobre os escudos redondos e escuros que adornavam as laterais e soprou com a “voz dos espíritos” na direção das velas listradas de vermelho e branco que já inflavam com o vento.

Na praia, Lune olhava aborrecido. Hades, na última hora, ordenara que ele permanecesse como protetor da aldeia, junto com Aldebaran e outros guerreiros mais jovens e levara os guerreiros mais experientes para o saque.

A noite com Aiacos tinha sido formidável e era somente isso que impedia que Lune ficasse de mau humor por ficar de fora daquela aventura.

Ele ainda permaneceu olhando os navios, até que eles desaparecessem no horizonte, sem saber que o marasmo aborrecido que vivenciava, iria se desfazer, como por encanto....

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Os dias passaram rápido, tanto na aldeia, quanto no mar. E foi num alvorecer com nuvens de tempestade que os navios vikings roçaram sobre a faixa de areia em Lindsfarne.

Os dois grupos de guerreiros desembarcaram e avançaram com certa dificuldade através das ondas em direção à praia. Vestidos com calças e cota de malha, rumavam com suas armas em prontidão projetando uma aura selvagem ao seu redor.

Hades estranhou o silêncio, mas Shina confirmou que os monastérios cristãos eram assim.

De repente, antes que qualquer ato de invasão fosse iniciado, os portões do mosteiro se abriram e um monge de traços fortes e belos colocou-se no centro do enorme pátio fazendo com que Hades, Shina e Pandora tivessem que adentrar o lugar para poder ouvi-lo.

– Em que podemos ajudá-lo? – questionou ele sem demonstrar temor e, aos poucos, duas fileiras de monges se juntaram atrás dele.

– Sabemos que vocês guardam tesouros e um homem chamado Guilty os tornou guardiães de uma fortuna que não lhe pertence. Ele roubou o félag e estamos aqui para pegar de volta o que nos pertence. – falou Hades, desconfiado, mas sem demonstrar.

– Eu sou o abade e lhes digo que a violência é desnecessária aqui.

Shina tomou a palavra.

– Entregue o que nos pertence e os deixaremos viver. Simples.

O homem sorriu.

– Receio que estejam enganados.

Pandora sentiu algo no ar, assim como Hades. Os dois olharam em volta e então, o pequeno detalhe que poderia passar despercebido caso eles não conhecessem a indumentária dos seus...

– Estes homens não são religiosos, eles estão usando botas e os monges usam sandálias! – disse ela no exato momento em que os portões foram fechados e os guerreiros, cercados.

A expressão de Hades permaneceu inalterada. Ele mantinha o cenho franzido e a mão no punho da espada.

– A qual clã vocês pertencem?- perguntou com voz calma, certo que alguns lhe pareciam conhecidos.

Uma voz familiar destacou-se entre eles e um homem com porte avantajado vestindo roupas feitas de pele de urso se apresentou, tomando a frente do homem que recebera Hades.

– Guilty nos prometeu uma fortuna pela sua cabeça. Mas, mesmo que não fosse vantajoso, eu o faria pelo prazer!

– Bjorn... Então, além de idiota, você se tornou um traidor! – disse Hades.

– Por favor, estamos em um lugar sagrado! Tirem esses homens daqui! Guilty prometeu que o mosteiro não seria maculado! – gritou um monge que se juntou a Bjorn e tinha a pele do rosto cheia de manchas.

Entretanto, antes que o monge continuasse, Bjorn atingiu-o no estômago com uma adaga. Uma mancha vermelha alastrou-se pelo hábito de lã marrom. O homem caiu e os sinos começaram a tocar estridentemente.

– São todos uns fracos. – falou Bjorn com um tom de escárnio e, em sua mente, a lembrança aquele breve confronto com Hades por causa de Minos reforçou a vontade de matá-lo.

Hades avançou contra Bjorn que ergueu o machado gritando como uma fera selvagem. A lâmina do machado reluziu sob um filete de raio de sol que escapou por entre as nuvens cor de chumbo e desceu sobre o jarl, porém ele desviou e moveu a espada, de modo que ela cortasse o ombro coberto por uma pele de urso.

Bjorn urrou e Hades continuou investindo, enquanto Pandora, Aiacos, Shina, Radamanthys e mais quarenta guerreiros entravam em combate com os falsos monges e faziam tilintar espadas, machados e escudos, criando um ruído ensurdecedor.

Ofegante, Bjorn defendia-se como um animal acuado. O ferimento no ombro sangrava, o suor escorria de sua testa, porém ele ainda tinha forças de avançar e descer o machado sobre Hades, procurando uma brecha.

Ao lado deles, a cabeça de um guerreiro inimigo foi estraçalhada por um machado de lâmina dupla, enquanto Aiacos atingia outro com sua espada fazendo-o cair de joelhos com a testa dividida em dois e sangue escorrendo por entre os olhos.

Foi então que um dos guerreiros de Bjorn usou o arco e disparou, atingindo Radamanthys no braço que empunhava a espada, atravessando-o. Ele cerrou os dentes, tentando conter o grito de dor e em seus olhos, um manto vermelho desceu como se tudo ao seu redor adquirisse aquela cor. Neste exato momento que uma sombra com olhos violáceos brandiu a espada e a cabeça do arqueiro foi lançada ao ar. Pandora fez sinal a ele e Radamanthys ergueu-se, ignorando o ferimento e arrancando a flecha que cravara no músculo.

Quando Pandora foi ao seu encontro, outro guerreiro se colocou no seu caminho. Com um movimento rápido, ela moveu a espada e atacou o inimigo com fúria, enquanto com extrema agilidade, Shina golpeava o outro na altura do ombro e abria um corte que lhe decepava o braço. Nesse meio tempo, Radamanthys foi atacado por outro inimigo e o pequeno mar de corpos os manteve separados.

Sangue vivo jorrava dos corpos dilacerados e Elgiva entrou na luta, saltando sobre um homem que acabara de trucidar um de seus companheiros, mas sendo interceptada na metade do movimento por um guerreiro corpulento cujos olhos pareciam tomados pela loucura.

Rapidamente, ela puxou um punhal e investiu direto na altura do rosto do guerreiro, furando seu olho direito e fazendo-o afastar-se com um grito de dor. Um sorriso de triunfo brincou nos lábios dela, antes que uma flecha lhe atingisse as costas perfurado o pulmão, ao mesmo tempo em que dois guerreiros se aproximavam para atacá-la.

Shina viu a cena e gritou, lançando-se na direção dos dois guerreiros e moveu-se com uma agilidade tão espantosa que quando ambos se deram conta, tiveram suas cabeças arrancadas de seus corpos, fazendo um caminho de sangue que se projetou no chão arenoso.

– Elgiva... – murmurou ela segurando a guerreira em seus braços.

Um filete de sangue vivo escorria pelo canto da boca carnuda, porém ela ainda sorria..

– A-Acho... que serei a primeira... a foder com as Valquírias de Odin. – disse ela.

– Sim, você será e ai da Valquíria que a desprezar. – disse Shina cerrando os dentes, enquanto lágrimas escorriam pelo seu belo rosto.

– E-Eu estarei esperando você... mas, não tenha pressa. Quero que viva, porque eu te amo. Sempre amei. – disse Elgiva tocando o rosto de Shina.

Shina beijou os lábios da guerreira e quando elevou o rosto, Elgiva estava com olhos vítreos e os lábios entreabertos. Abraçando a companheira de cama e de batalha, Shina sentiu uma dor profunda, porque mesmo não correspondendo àquele amor, ela fora muito amada e isso era uma benção quase rara para uma guerreira como ela.

No lado oposto, Hades continuava a lutar com Bjorn que agora tinha apoio de outro guerreiro, igualmente enorme e feroz.

Apesar do desgaste de ter que esquivar de dois machados, havia uma ausência de emoção ou qualquer outro sentimento dentro do jarl. O homem que viera ajudar Bjorn o olhava com cara de deboche, mas ainda assim isso não o afetou. Percebeu a postura do corpo dele e relaxou a sua. O guerreiro avançou e, em seguida, Bjorn se juntou a ele.

Um brilho gélido acentuou-se nos olhos de Hades e ele moveu a espada, girando sobre o próprio corpo e, trocando-a de mão, confundiu o primeiro que o atacou, cortando-o na altura da cintura, enquanto se abaixava e estocava Bjorn, profundamente, na altura do peito. Ambos caíram mortos e ele foi juntar-se à Shina que atacava em outra frente, usando duas espadas, cortando com fúria, rapidez e precisão.

Impiedosamente, Hades foi abrindo caminho cortando ventres, decepando braços. Os corpos sem vida desabavam como se fossem bonecos e um rio rubro escorria pelo chão.

Virando-se para à esquerda, Hades percebeu que Radamanthys estava ferido e enfrentava um adversário de pele muito branca e olhos estreitos que atacava. Aquele homem não era um viking. O povo da Nortúmbria era conhecido pela habilidade em lutar e aquele guerreiro só podia ser um deles! Mas o que ele fazia ali?

Saltando sobre os corpos que jaziam ao chão, Hades chegou até Radamanthys.

– Vá e encontre Pandora! – disse Hades e o homem de pele alva encarou-o com um brilho malévolo nos olhos azuis.

Kriger hjerteløs...

Hades fitou-o em silêncio, analisando a postura do corpo e as expressões do rosto. Preparou-se para atacar e ergueu a espada com a mão esquerda. Silencioso, o guerreiro projetou-se no ar, elevando a espada acima da cabeça e Hades fez o mesmo, fazendo com que elas se chocassem com fúria.

O guerreiro era rápido e forte. Diferente de Bjorn que usava da força bruta, aquele homem fora iniciado na espada e atacava de modo a penetrar nas defesas de Hades.

O jarl se esquivava, rapidamente, mas, ao tropeçar sobre um dos corpos caídos, o inimigo atacou seu braço causando um corte profundo, acima do cotovelo. O sangue quente jorrou e ele sentiu o líquido viscoso escorrer pela lâmina de sua espada.

Um sorriso de escárnio brincou nos lábios finos e o guerreiro olhou para o ferimento de Hades com uma expressão de triunfo. Veremos do que esse bárbaro é feito!

Hades inspirou fundo e posicionou-se defensivamente. Aboliu de dentro de si todas as emoções conflitantes. Não precisava pensar em nada, nem na dor, nem no sangue, apenas na ação que iria terminar aquele combate. Um único e certeiro golpe!

O guerreiro tensionou o maxilar ao perceber que Hades era um adversário diferente de todos que já enfrentara e apertou o cabo da espada. Procurou nos olhos de Hades uma expressão qualquer e não conseguiu decifrar nenhuma. Esse homem... ele não parece humano. Ele está sangrando e, mesmo assim, permanece calmo. Pensou o guerreiro enquanto decidia o golpe derradeiro.

Porém, ao contrário do esperado e da posição que ele havia assumido, Hades não esperou a ação ofensiva. Ele trocou a espada de mão, assumiu uma postura de ataque e golpeou, torcendo o corpo no ar e fazendo o guerreiro defender na altura do peito. Logo a seguir, torceu o pulso e girou a espada rápido como se fosse descer em linha reta. O guerreiro tentou o contra-ataque erguendo a sua e então, Hades inverteu o movimento e cortou-o, bem no baixo ventre, um golpe mortal e doloroso.

O guerreiro arfou e sentiu seu próprio sangue, quando deixou cair a espada. Suas vísceras ficaram expostas e ele olhou incrédulo para o sangue que vertia abundante e quente. M- Mas c-como?

Hades encarou-o.

– Por que lutou por Guilty? Você é da Nortúmbria e ele é um traidor.

–E-Ele ofereceu m-muito mais que r-riqueza... D-Disse que era... por... vingança e... — sussurrou ele com a boca cheia de sangue, caindo de joelhos e morrendo, antes de concluir a frase.

Shina e Pandora se aproximaram de Hades com as vestes sujas de sangue. Hades olhou para as duas e para os guerreiros que haviam sobrevivido. Havia algo de estranho em tudo aquilo, algo que não se encaixava, porém a perda de sangue começava a cobrar seu tributo.

– Matamos a corja traidora, mas sobraram alguns monges que estavam escondidos na capela. O que faremos? – questionou Shina.

– Passaremos todos à espada, pegaremos o tesouro que eles tiverem e vamos queimar este lugar. – respondeu Hades pressionando o ferimento que continuava sangrando abundantemente.

Shina tomou-lhe o braço e franziu o cenho ao ver o corte profundo.

– Como conseguiu lutar deste jeito?

– Não serei morto por traidores.

A guerreira teria sorrido se a lembrança que Elgiva perdera a vida em combate não sobreviesse a sua mente como se fosse um golpe violento e doloroso.

– Eu serei a primeira a acabar com este lugar maldito. – disse Shina.

Tomando uma tocha nas mãos, ela juntou-se aos outros. Logo, várias pilhas de objetos considerados sem valor foram queimadas. Livros, manuscritos e pergaminhos ardiam sob o olhar agressivo dos vikings.

As chamas devoravam várias das construções do mosteiro quando Hades e Shina comandaram seus guerreiros de volta para os navios. Mesmo sabendo que os mosteiros costumavam ser centros de conhecimento e aprendizagem, Hades se recusava a sentir piedade ou simpatia por aqueles monges. Eles não eram guerreiros, nem homens santos como queriam parecer. Eram gananciosos, mercenários e usavam da religião para tirar proveito. Que fossem para o inferno cristão e pagassem pela ganância traiçoeira, porque nem mesmo Hela abrigaria homens como eles!

Enquanto as labaredas alaranjadas subiam em meio à fumaça negra, baús transbordando de cálices de ouro, crucifixos cravejados de pedras preciosas e peças de ouro e prata eram levadas para os navios, assim como o corpo dos companheiros mortos em combate.

Pandora olhou em volta, procurando por Radamanthys. Sentiu uma aflição ao não vê-lo junto dos outros.

– Aiacos! Você viu seu irmão? – perguntou ela.

– Estou aqui. – respondeu o guerreiro, atrás dela.

Um suspiro de alívio escapou dos lábios de Pandora e ela voltou-se para receber o homem que lhe despertara o corpo e o coração.

Radamanthys estava com uma atadura improvisada e mantinha uma postura ereta, apesar da dor.

– Agora sou eu que lhe devo a minha vida.

– Meses atrás eu estaria exultante com esta dívida, mas agora me sinto, apenas, aliviada em ver que você está bem. – sussurrou ela tocando-o no rosto com delicadeza.

– Graças a você. – falou o guerreiro.

Um sorriso trêmulo curvou os lábios de Pandora.

– Quando estivermos em casa, eu serei sua.

Levando a mão dela aos lábios num beijo silencioso, Radamanthys sorriu, mesmo que o braço queimasse como fogo e ele sentisse o corpo tão cansado que até respirar era doloroso.

– Eu fico muito honrado. – foi tudo que ele conseguiu dizer.

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Lune observava o mar, atento a qualquer embarcação. Sabia que ainda era cedo para a volta dos guerreiros, mas se sentia ansioso. De repente, notou um ponto escuro perto da enseada e franziu o cenho. Correu até o vigia que não estava em seu posto. Onde Haakon se meteu? Pensou ele.

Foi então que ele viu marcas de sangue no chão e afinou os sentidos, tocando no cabo da adaga que trazia consigo. Ivan surgiu a sua frente com um sorrisinho esquisito.

– É melhor guardar isso. – disse ele com uma espada ensanguentada na mão.

Devagar, Lune recuou, enquanto mantinha os olhos presos em Ivan.

– O que você fez, seu traidor? O que pretende?

– Você é bem bonito, Lune. Posso poupar sua vida se me chupar e...

Antes que Ivan terminasse a frase, Lune lançou a adaga bem na garganta do guerreiro, fazendo-o emitir um som rouco e cair para trás. Em seguida, ele se aproximou e puxou a adaga do corpo, fazendo jorrar um sangue vivo do buraco aberto.

O som abafado de passos chegou aos seus ouvidos e ele olhou na direção da praia onde o reflexo do sol nos elmos denunciou a grande massa de guerreiros e, entre eles, um grande número de berserkers. Ele correu na direção da carpintaria, enquanto gritava que estavam sob ataque.

Halfdan soltou as ferramentas e pegou seu machado. Minos parou o que estava fazendo e franziu o cenho. Era difícil acreditar naquilo, porém o tom de voz de Lune demonstrava que o perigo era real.

– Quem está nos atacando? — gritou o carpinteiro.

– Não sei, mas tem berserkers entre eles. – disse Lune.

Berserkers? Questionou-se Minos e saiu correndo à procura de Alone, pois sabia que o menino treinava o lançamento de suas adagas na praia.

Quando chegou perto do rochedo, Minos viu Alone lutando contra um homem enorme que o segurava pela túnica, enquanto os guerreiros do clã enfrentavam, desarmados, um grupo que desembarcara na praia.

– Alone... – murmurou ele.

Tocando a adaga que trazia consigo, Minos rezou para acertar de primeira. Lançou a arma que cravou-se no ombro do inimigo, apenas no músculo, não atingindo o osso. Com a força do golpe, o guerreiro perdeu o equilíbrio, soltando o menino.

Foi então que Minos olhos na direção do drakkar e viu a imagem do grifo negro.

Guilty! Murmurou ele, enquanto os homens avantajados conhecidos como berserkers desembarcavam na areia, prontos para o massacre...

Notas finais
♥Agradecimentos especiais a todos que leem, comentam, silenciam, apoiam, favoritam, recomendam, enfim, GRATIDÃO!!! Bjs e bom fim de semana!!!