A Quinta Exceção
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— O que você quer fazer quando sair daqui?
Alvo estava distraído lendo o exemplar de 16 de outubro do Profeta Diário enquanto bebericava suco de abóbora. Levantou os olhos e fitou a menina de volumosos cabelos ruivos.
— Não está um pouco cedo pra pensar nisso? — Alvo respondeu com ar de riso, porém interessado no assunto.
— Está. — confirmou Rosa Weasley entre um pedaço e outro de linguiças fritas — e eu duvido que isso tenha te impedido. Sua cabeça passa metade do tempo no futuro.
Isso também era verdade.
Em alguns dias da semana ambos desciam mais cedo para o Salão Principal, aproveitando o horário para sentarem à mesma mesa durante o café-da-manhã. Normalmente Alvo se sentava na da Grifinória (o que era levemente mais seguro do que Rosa se esgueirando pelos sonserinos) e ficavam pelo menos uns 40 minutos comendo e conversando em paz até o resto dos estudantes chegarem.
Desde o incidente na aula de Defesa Contra As Artes das Trevas ele, sem perceber, começou a vê-la com mais frequência. Talvez com receio de captar indícios de que o episódio ganhou notoriedade. Não via motivos racionais para que aquilo a fizesse mudar com ele, mas nada era muito racional para Alvo quando estava ansioso.
— Não posso negar — ele confirmou com um meio sorriso enquanto fechava o jornal bruxo. — Mas também ainda não cheguei a conclusão nenhuma. Você…?
— Só consigo pensar nas coisas que não faria de jeito nenhum. — disse Rosa, continuando após a expressão de curiosidade do primo — Cargos administrativos no Ministério.
— Não quer seguir os passos da sua mãe? — brincou Alvo.
— Eu tenho orgulho, sem dúvidas, mas é muito trabalho. — ela explicou e começou a rir com o olhar de falso julgamento do amigo — Você entendeu! Ela se esforça muito com a questão dos direitos dos elfos e eu acho que está querendo migrar pro Departamento de Execução das Leis da Magia, o que é incrível, mas é muita papelada. Muita papelada.
— Eu entendo. Não tenho essa aversão à burocracia, mas entendo que lidar só com isso deve ser meio entediante.
— E você? Pensa em fazer os testes para algum clube grande de Quadribol? — Rosa indagou com os olhos inocentes.
Alvo usou uma colher de catapulta e lançou um pouco de geleia de framboesa na prima, que desviou por pouco enquanto engasgava com o riso.
— Sinceramente eu não acordei mais cedo para isso. — resmungou Alvo em falsa mágoa.
— Você vai superar. — ela deu tapinhas no ombro do amigo do outro lado da mesa — Mas sério, você não tem nenhuma possibilidade também?
— Eu já tentei ver pelas disciplinas mais ligadas a diferentes carreiras, mas não sei. É como se eu gostasse das coisas que eu tenho que estudar mas não gostasse de aplicá-las em nada…
— Você pode ser professor, então.
— Já pensei nisso. — replicou Alvo, balançando a cabeça — Não sei se gostaria de viver em Hogwarts.
— Sendo sincera, eu acho que, dependendo da função, nada é “só” uma aplicação literal dos conhecimentos. Os aurores têm cursos específicos e toda uma formação à parte, eu lembro dos nossos pais fazendo. Não basta saber magia defensiva, então deve ser mais ou menos assim pra outras coisas.
Alvo refletiu por alguns segundos, até Rosa prosseguir.
— Você adora transfiguração e é muito bom na maioria das outras matérias. Já pensou em ser curandeiro?
Alvo a olhou com um sorriso irônico até reparar que a pergunta era genuína.
— Eu nunca cogitei. Não é difícil?
— Não sei, não conheço ninguém que queira, mas parece interessante, e parando pra pensar é mais um exemplo de como esses estudos fundamentais são só a base para coisas mais reais.
— Quais N.O.M.s e N.I.E.M.s são exigidos, além de transfiguração?
— Poções e herbologia, com certeza. — começou Rosa com a visão sem foco num ponto indefinido no ar — acho que trato das criaturas mágicas…, feitiços é sempre pedida, claro. Ah, não deve ter DCAAT, se é a sua preocupação.
— Atencioso da sua parte. — Alvo zombou.
Rosa meneou a cabeça de forma teatral, colocando um pouco de açúcar em sua xícara de café e fazendo menção de pegar o jornal para ler.
— Escórpio vai trabalhar no mundo trouxa. — soltou Alvo sem pensar muito.
Rosa se engasgou enquanto lia o primeiro parágrafo de uma coluna sobre o aumento no número de prisões de bruxos das trevas na última década. Tossiu algumas vezes para se recompor e, sacando a varinha das vestes, sugou o excesso de líquido que sujou a mesa.
— O quê?! — ela só conseguiu traduzir a incredulidade na exclamação.
— Tá, na verdade eu não sei ao certo. — Alvo começou a esclarecer — Ele nunca afirmou isso mas desde que as aulas de Estudos dos Trouxas iniciaram ele fala coisas que me fazem ter essa visão.
— Que coisas? — instigou Rosa, entretida.
— Comparando nossos modos de vida, as vantagens e desvantagens de cada comunidade, as oportunidades…, é difícil explicar. Ele nunca disse, sei lá, que pensa em virar dentista. — pontuou Alvo, fazendo referência à profissão trouxa dos avós maternos de Rosa — Não é algo explícito, mas também não é uma coisa 100% fora dos planos dele, ao meu ver, o que já é surpreendente por si só, né?
— Até demais. — concordou a ruiva com certa admiração estampada no rosto — Um Malfoy vivendo com trouxas. — ela complementou, meio descrente.
Rosa, diferentemente do irmão mais velho de Alvo, não tardou a abandonar a postura cética com o outro sonserino. Quando mencionava a peculiaridade da situação, era sempre em tom de brincadeira, e sempre que via o louro tinha interações curtas porém amistosas.
Por um tempo, mesmo sem transparecer, ela ainda mantinha dúvidas sobre Escórpio. Não achava que valia a pena angustiar o primo com isso, mas não conseguia não levar em conta todos os contextos que construíam uma figura potencialmente danosa no sangue-puro, ainda que, dois anos antes, fosse só uma criança como eles.
O ponto decisivo para que a segurança externa de Rosa passasse a refletir como ela se sentia por dentro foi compreender que Alvo enxergava coisas nele que os outros não viam. Nem ela, nem os outros, tinham como assimilar a perspectiva dele, que foi para a casa rival e encontrou acolhimento onde menos esperava. Mais do que isso, Rosa percebia pequenas transformações de Alvo na presença de Escórpio. Os músculos acima das sobrancelhas pareciam relaxar. O tônus nos ombros parecia diminuir. O formato encurvado da boca que, num piscar de olhos, ficava realmente neutro (e não na posição “neutra” de Alvo, que para os outros era a mesma coisa que “irritado”).
Ela não sabia dizer os motivos para essas mudanças ou o que elas significavam, só sabia que as notava. E que eram positivas, logo, por que reclamar?
— Mas voltando à questão dos curandeiros…
— Diga. — encorajou Rosa, saindo de seu transe momentâneo.
— Com quem eu poderia falar sobre isso?
— Procura alguém no St. Mungus, ou pergunta aos seus pais.
— Com quem eu poderia falar sobre isso sem chamar atenção? — Alvo refraseou.
— Mas qual seria o problema em comentar que você pensa em ser curandeiro?
— Porque eu não sei se penso e não queria gerar essa expectativa. — Alvo replicou em tom de quem diz algo irrefutável. Rosa revirou levemente os olhos.
— Tá, vou pensar… — a filha dos Weasley matutou por um instante, até assumir uma face maliciosa — acho que já sei.
—
A Ala Hospitalar de Hogwarts ficava na asa oeste do castelo, do lado oposto no corredor que a conecta à Torre do Relógio. Um recinto de pé direito alto, abobadado, com grandes vitrais nos dois lados fornecendo muita luz. 10 leitos de enfermaria perfeitamente arrumados, simétricos, com divisórias não retraídas. Próximo da entrada, um portal pequeno para uma salinha onde normalmente se encontrava Antoine Pomfrey.
Monsieur Pomfrey, como era normalmente chamado, atuava como curandeiro de Hogwarts há quase 1 ano, tendo substituído sua avó após um longo período na função. Um homem de 25 anos, com um cabelo castanho escuro e comprido sempre preso em um rabo de cavalo, usando vestes claras e, não raro, com um livro flutuando na altura do peito, as páginas passando à velocidade do olhar.
— Bom dia Monsieur Pomfrey.
Alvo, que tinha um período livre nessa manhã, estava encostado no portal, olhando para o bruxo sentado segurando uma xícara de chá e lendo um livro pairando no ar. O curandeiro se virou enquanto dava um gole, os olhos levemente arregalados, e logo se aprumou.
— À que devo o prazer, Sr. Potter? — ele indagou com um suave sotaque francês.
Alvo não ligou pro fato dele não ter fingido não conhecê-lo. Às vezes era melhor deixar os pressupostos escancarados.
— Bem… — ele expirou por mais tempo do que o necessário, viu a expressão convidativa do mais velho, e continuou — O que é preciso para se tornar um curandeiro?
Monsieur Pomfrey não piscou por alguns segundos, então pousou a xícara sobre o pires e, puxando a varinha do bolso, fez o livro se fechar (não antes de marcar a página) e descer até a mesa.
— De vez em quando um aluno ou outro vem me perguntar sobre isso. — ele começou, solene — Só costumam ser mais velhos. Sendo específico, do último ano em Hogwarts. — ele complementou, bem humorado.
— Eu sei que é cedo, mas eu queria falar com alguém antes de…
— ...declarar e depois não saber como voltar atrás?
Alvo riu.
— Eu era assim também. — disse Pomfrey sorrindo e olhando para baixo enquanto girava a varinha nas mãos — As pessoas parecem sedimentar conclusões sobre nós sem nosso aval. Mas o quê quer saber, exatamente, Sr. Potter?
— Alvo, Monsieur Pomfrey.
— Antoine, Alvo.
Ambos compartilharam uma risada.
— Eu tenho uma ideia dos N.I.E.M.s que preciso ter e tudo mais, mas queria entender como é o processo depois de nos formarmos.
— Você irá ao Ministério da Magia assinar um formulário do Departamento de Educação Mágica, aplicando como aspirante a curandeiro. Esse formulário é o que você vai levar, junto dos documentos de Hogwarts com suas avaliações, para o St. Mungus.
— E então….?
— Se aprovado, você inicia o período probatório de um ano com aulas teóricas, e depois começa a prática sob supervisão de outros curandeiros já graduados. Tem várias outras coisas no meio, mas resumidamente é isso.
— E dura, no total…?
— Quatro anos.
— E o que você achou?
— Bom, eu terminei, não é? — Antoine faiscou os olhos em um leve desafio.
— Não parece muito otimista. — Alvo comentou, tentando manter a voz neutra.
— Perceptivo. Acho que não preciso reiterar a lição de que nem sempre as pessoas estão satisfeitas com o que fazem. — Antoine avançou com certo sarcasmo, andando devagar para fora da salinha — Não que seja o meu caso.
— Então não é? — questionou Alvo, acompanhando-o para perto dos leitos.
— Não. — respondeu Antoine com simplicidade, virando-se de frente pro terceiranista — O que não significa que seja perfeito ou como eu imaginava.
— Como você imaginava?
— Que eu “me” encontraria. Que um trabalho me traria propósito, me tiraria certas apreensões da cabeça. Não foi, e não é, bem assim.
Alvo se sentia cada vez mais intrigado com a quantidade de coisas não ditas naquelas falas. Também via o medo dessa decisão. Resultado da crença no trabalho como algo que diminuiria as demais aflições, completaria a vida (ou pelo menos agiria como anestésico pro resto dela). Quando pensava no que fazer para tapar os buracos que não conseguisse preencher, para distrair os outros do fato de não se adequar a certas tradições sociais, costumava chegar no trabalho. Alvo via adultos sendo resumidos aos seus empregos o tempo todo. Tendo a profissão como primeiro qualificador na hora de descrever alguém para colegas. “Harry, o auror”. “Neville, o professor”. Começou a se agarrar neste tópico. Se ele fosse uma pessoa competente, despertasse admiração por suas habilidades (quaisquer que fossem), talvez fizessem vista grossa para as lacunas. “Apesar de tudo ele é um bom insira aqui um ofício”.
Por isso, ver aquele jovem curandeiro tão desdenhoso era como receber um tiro no próprio castelo de cartas.
— Decepcionado? — conferiu Antoine, a cabeça levemente torta para a esquerda, meio preocupado.
— Talvez, mas quanto mais cedo a gente encara a realidade, melhor, né? — corrigiu tentando imprimir mais sabedoria do que realmente sentia ter.
— Não é porque não é a minha realidade que não pode ser a sua — o mais velho interpelou — E pelo menos você pode ter um pouco de contato antes de decidir.
— Como?
— Comigo. — concluiu o franco-britânico sorrindo com as palmas das mãos abertas para frente, como quem diz a coisa mais óbvia do mundo.
—
— Finalmente essa aula insuportável de poções acabou. — gemeu Louis Hall ao se jogar em uma das poltronas do Salão Comunal da Sonserina, ao lado de Alvo e à frente de Escórpio.
— Eu achei agradável. — ironizou Alvo, que nunca foi um fã particular do Prof. Slughorn, enquanto puxava um pedaço de pergaminho de dentro da bolsa e uma pena da mesinha ao lado.
— Eu não acredito que você vai anotar isso agora… — resmungou Escórpio, bocejando em seguida e escorregando no sofá para esticar as pernas.
— Vou fazer anotações sim, mas não dessa aula. — respondeu Alvo já pressionando a ponta molhada de tinta sobre o papel. Em seguida explicou a passagem que teve na Ala Hospitalar mais cedo no mesmo dia.
— Então agora você vai ter aulas com Monsieur Pomfrey? — perguntou Louis, animado.
— Não sei exatamente se serão aulas, mas ele disse que vai marcar algumas semanas para ensinar coisas sobre magia médica e poções terapêuticas que não ensinam na nossa grade curricular.
— A própria definição de “aulas”. — comentou Escórpio.
Louis riu enquanto Alvo revirava os olhos em meio sorriso.
— E o que você achou dele? — questionou o londrino, curioso.
— Meio melancólico. Não que eu seja um poço de alegria, mas ele não parecia muito satisfeito com a função...
Escórpio franziu a testa, repentinamente interessado. Alvo explicou aos dois sobre esses detalhes da conversa.
— Tem uma frase de um filme que meu pai me fez assistir uma vez, Sociedade dos Poetas Mortos, que era algo tipo “Medicina, engenharia, negócios são ocupações para manter a vida, mas poesia, beleza, romance e amor são razões para viver”. Acho que era mais ou menos assim. Lembrei disso com o que você disse. — Louis discorreu olhando para o fundo do Lago Negro pelas paredes de vidro, enquanto os dois prestavam atenção.
Alvo ficou pensando naquelas palavras e se lembrou do dia em que foi atrás de uma livraria e tomou café em pleno mundo trouxa. Algo ali fazia sentido com aquela imagem de dois meses antes. Nos letreiros, nas conversas públicas, nos grupos de amigos e casais que viu andando pela rua. Nos anúncios, inclusive de longa-metragens em algumas paredes e outdoors.
— Como é assistir filmes? — disse Alvo, por fim.
— Vocês nunca viram nenhum? — o nascido trouxa não conseguiu esconder o espanto.
— Meu pai já falou sobre mas nunca muito a fundo. Só fui entender melhor o propósito nas aulas de Estudo dos Trouxas.
— Eu acho muito engraçado que os bruxos tenham música mas não tenham uma forma de arte tão essencial como o cinema. — Louis desenvolveu.
— Eu queria ir ao cinema. — soltou Escórpio.
— Mas não ia ter os problemas com os aparelhos, como você falou antes? — rebateu Alvo, surpreso.
— Não é como computadores, é um sistema de projeção. Não sei explicar, mas eu já fui depois de ter vindo para Hogwarts e não tive problemas.
— Então por que não vamos ver um filme?! — exclamou Escórpio, ajeitando o topete louro já caindo sobre a testa.
— Como? — riu Alvo.
— Indo a algum cinema? — Louis não pareceu entender a dúvida.
— Podemos marcar, sei lá, no recesso de natal. Nos encontraríamos em Londres…
— Obrigado! — Louis adicionou.
— …e lá resolvemos o que fazer.
—
Alvo nunca foi muito afeito a mudanças em sua rotina. Talvez menos por dar valor a ela e mais por medo do fim da sensação de segurança decorrente dessas mudanças. De qualquer modo, não podia negar as expectativas.
Não tinha a menor ideia se a ambição de ser curandeiro era realmente algo que existia dentro de si em algum lugar ou se estava só seguindo o fluxo, mas era um entusiasta de conhecimentos específicos por natureza. E, de qualquer forma, se optasse fazer outra coisa não mudaria a utilidade de aprender um ou outro feitiço curativo.
Deitado em sua cama, olhando para o topo do dossel, ainda sem sono, Alvo esticou a mão para a cabeceira à esquerda e pegou o cubo mágico de Louis. Já tinha pedido dicas a ele de como resolvê-lo. Lembrava-se vagamente de instruções como “formar uma cruz no lado branco” e “preencher os cantos brancos”, não tendo certeza mais do que aquilo significava. Partiu para o bom e velho método da tentativa e erro. Já estava há uns 10 minutos girando o objeto nas mãos, não muito mais resolvido do que quando começou, quando o cubo deu um tranco em suas mãos, suas fileiras de repente rodopiando sozinhas até que cada lado estivesse perfeitamente preenchido apenas por uma cor.
Levantou a cabeça e viu Escórpio na porta do dormitório, o rosto travesso e a varinha ainda apontada para o colega de casa.
— Pelo que me falaram a ideia era resolver só com as mãos. — Alvo falou, mordaz, os olhos semicerrados mas os cantos da boca tremendo e delatando o desejo de rir.
— Seja mais rápido na próxima. — zombou o outro, jogando-se na própria cama à direita.
Instaurou-se um silêncio confortável, como era comum entre eles dado o ganho de intimidade, até que Alvo se pronunciou.
— Mais cedo eu estava conversando com Rosa e acabei comentando que achava, sem muita credibilidade, que você acabaria fazendo alguma coisa no mundo dos trouxas no futuro.
Escórpio fez um leve som como quem pede para dar continuidade, ajeitando-se sob os lençóis e deixando o corpo de lado para olhar diretamente para Alvo, a cabeça apoiada pelo braço no travesseiro.
— Não sei, isso saiu da minha cabeça do nada. Desde que começamos a ter essas aulas você parece muito animado com o mundo deles. Você já pensou no que fazer quando atingir a maioridade?
— Sendo sincero não penso muito, já que continuo sendo rico independentemente do que escolher. — declarou Escórpio com a maior seriedade que conseguiu impostar à voz.
Alvo pegou a almofada debaixo da cabeceira e a jogou no amigo, que a agarrou ainda no ar gargalhando.
— É uma pena não ter fotografado a sua reação. — lamentou Malfoy.
— É sério. — falou Alvo, também se entregando aos risos — Não pretende tentar ser jogador no Chudley Cannons?
— Eu não teria paciência pro quadribol profissional. — informou Escórpio — Às vezes acho que não vou ter paciência para nada…, mas você pensando em ser curandeiro, hein!
— Não estamos mais falando de mim.
Escórpio bufou com a boca.
— Eu tenho mais quatro anos para pensar nisso, no mínimo.
— Não estou pedindo para você decidir, estou perguntando se tem algo em mente.
— Professor de Defesa Contra as Artes das Trevas.
— Duvido, você não gostaria de dar aula nem de ficar em Hogwarts sempre.
— Tá. Eu penso em trabalhar no Ministério da Mag…
— Mentira!
— Alvo?
— Você só está falando a primeira coisa que vem na sua cabeça para me distrair do assunto.
— Eu não seria capaz. — Escórpio referiu, cínico.
Alvo deu um sonoro suspiro.
— Quantas vezes eu vou ter que pedir? — Alvo se queixou, sentando-se de pernas cruzadas na cama e elevando as sobrancelhas, pedinte.
— Eu não faço ideia, Alvo. — admitiu Escórpio com o semblante cansado, agora também girando o cubo mágico em suas mãos sem tentar decodificá-lo — Meu pai às vezes fala sobre querer que eu faça algo importante, independentemente do quê, mas só essa ideia já é estranha. Tipo, o que é “importante”? Quais trabalhos não são? Ele meio que tenta me deixar à vontade ao mesmo tempo em que pressiona. Nunca sei o quê dizer. — ele fez uma pausa — Mamãe é diferente. Na única vez em que ela interviu, só falou que eu deveria fazer algo que quisesse e pronto.
— Como é a Sra. Greengrass?
— Acho que ela é o motivo de eu ser como eu sou. — constatou Escórpio com naturalidade, os olhos turvos como quem se perde em memórias, um leve sorriso estampando o rosto branco — Durante a última Guerra Bruxa ela, que é também de família sangue-puro, meio que mudou. Parou de falar com os parentes que faziam pouco caso da situação, contribuiu com informações clandestinas para aquele Observatório Potter por um tempo, até que nos meses finais fugiu de casa. Só voltou depois da queda definitiva de Você-Sabe-Quem. Meus avós maternos estavam desesperados. Foi ela quem comprou a minha briga para não termos elfos domésticos em casa também, sendo bem tratados ou não. Ela… — ele não soube como continuar e aquietou.
— Entendo, mas você falou “ser como eu sou” como se fosse lá muito boa pessoa. — alegou Alvo, ingênuo.
— Reducto!
Num estalo agudo, uma das tábuas de madeira do topo do dossel da cama de Alvo se desconectou da armação, fazendo a cortina verde-esmeralda cair sobre o moreno que, de repente cego, não viu a parte solta da estrutura sofrer a ação da gravidade. Só sentiu, sem se preparar, quando ela o acertou em cheio na altura do abdome. Alvo gritou.
— O que houve?! — disse, preocupado, um colega de quarto.
— Alvo! — Escórpio chamou com uma nota de medo, erguendo novamente a varinha e fazendo um movimento circular no ar — Reparo!
Uma leve luz azulada emanou por um instante da varinha do louro, seguida da tábua que flutuou de volta para sua posição inicial, acompanhada pelo tecido, reajustando-se com um estampido seco.
Alvo, agora novamente exposto, apertava as mãos sobre a própria barriga, o rosto dedurando a própria dor. Escórpio saiu da própria cama e se sentou ao lado do amigo.
— Alvo, eu juro que era só pra cortina cair em você, eu nem usei todo o potencial do feitiço justamente para não destruir tudo e fazer o dossel cair em você, por Merlin… — Malfoy cuspia as palavras, sem saber se segurava os ombros de Alvo ou mantinha uma distância segura, a própria face do desespero — Cara, me perdoa, foi muito rápido e eu só estava brinc…
Alvo começou a ter uma crise de risos.
— Se eu tinha alguma chance de ficar irritado, você acabou de reduzir a zero. — ele falou entre grunhidos de dor e sorrisos, ainda massageando os flancos — Mas francamente, você acha que eu já virei curandeiro ou quer me matar?
Escórpio ficou mudo, olhando o companheiro de dormitório sem saber se ficava mais preocupado ou se ria junto. Louis e o outro inquilino, em algum momento, pararam de se incomodar com o pequeno acidente.
— Está muito machucado?
Alvo ergueu a camisa listrada do pijama e mostrou um hematoma de cor pouco visível à luz dos fracos archotes, próximo do umbigo.
— Eu devo ficar andando meio torto por alguns dias… — mencionou Alvo, ainda olhando para a contusão.
Escórpio começou a gaguejar repetindo as explicações, o que fez Alvo tornar a rir e tranquilizá-lo. Torturou o amigo mais algumas vezes antes do assunto progredir. Ainda falaram amenidades por um tempo antes de ambos proferirem “boa noite” e se acomodarem de vez sob os cobertores.
Alvo, entretanto, demorou um pouco mais para dormir. Não pela dor (embora de fato estivesse difícil de ficar confortável em uma posição que não fosse virado para cima), mas por ficar pensando no causador dela.
Quando tripudiou da suposta confiança que Escórpio tinha em si, na crença de ser uma boa pessoa, Alvo não poderia estar sendo menos sincero. Há muito tempo tinha a convicção irrestrita de que o melhor amigo era uma pessoa idônea. Suas posições não poderiam estar mais de acordo com quem ele demonstrava ser, dia após dia, desde o momento em que quebrou o gelo após a seleção, pouco mais de dois anos antes. Potter chegou a agradecer pelo outro ter divagado enquanto justificava o orgulho que sente pela própria mãe. Foi o que o impediu de vê-lo olhando para o louro despudorado, exprimindo toda a admiração e carinho intensos que sentia por ele. Era penoso ouvir Escórpio falar coisas que provavam seus valores e não ficar, de algum modo, cativo. Sua perspectiva de mundo divergia da hegemônica, como a de Alvo, mas era dotada de algo que lhe faltava: coragem. “Por que ele não entrou para a Grifinória?”, Alvo se questionava diversas vezes. “O que o torna mais ambicioso do que nobre?”. “Ele escolheu a própria casa como meu pai? Mesmo pertencendo a outra?”. Esses pensamentos revolviam a cabeça do filho d’O Menino que Sobreviveu com uma frequência maior do que seria saudável, e sempre levando à mesma conclusão: “O que ele vai pensar se um dia souber sobre mim?”
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