A Quinta Exceção
9 A Sétima Arte
Notas iniciais
Alguns meses se passaram, e com eles o inverno chegou. Hogwarts começou a ser tomada pela queda de temperatura, com topos de torres e telhados cobertos de branco. O Salgueiro Lutador perdeu todas as suas folhas e a paisagem escocesa ficou cinzenta. O Lago Negro foi tomado pela característica película de gelo e o corpo docente iniciou as decorações natalinas, com ramos de azevinho e estrelas pendendo em diversos corredores, além das tradicionais, e esplêndidas, árvores de natal ao longo do Salão Principal, cujo teto encantado passara a refletir o leve cair da neve fora do castelo. Logo, o recesso de fim de ano chegou.
Todavia, Alvo não se encontrava em sua casa em Godric’s Hollow, ou mesmo n’A Toca (como em algumas das outras épocas festivas). Estava em pé, segurando-se em um pilar de metal dentro do Nôitibus Andante.
O ônibus roxo de três andares atendia à parcela da comunidade bruxa que precisasse se locomover sem o auxílio da rede de Flu ou não tivesse condições de aparatar, precisamente as condições de Alvo. O meio de transporte, coincidentemente inspirado no veículo trouxa, levava agora o terceiranista para o passeio mais trouxa que se lembrava já ter feito: uma ida ao cinema.
Combinado com Escórpio e Louis tempos antes, Alvo agora apertava suas mãos nas luvas e contraía seu corpo dentro da parca e calças pretas (compradas por sua mãe dias antes ao saber da ocasião), protegendo-se do frio de 5 graus celsius que pairava sobre Londres em dezembro. Mal prestava atenção nos borrões passando pelas janelas do ônibus, trafegando em alta velocidade e não deixando um rastro de acidentes com o auxílio de magia. Checou suas poucas coisas trazidas na bolsa carteira tiracolo, apalpou a varinha no bolso traseiro, ajustou os óculos no rosto com o indicador e tentou se acalmar.
Não que houvesse motivos para Alvo ficar nervoso. Era uma inquietação despropositada. Sem razão de ser. Alguma.
— Cavendish Square Gardens, Sr. Pot… senhor. — o condutor anunciou o destino de Alvo, atrapalhado.
Alvo não teve tempo de se constranger por ter sido facilmente reconhecido, ficando apenas incerto sobre o que fazer já que o veículo continuava zunindo pelas ruas. Sua dúvida foi interrompida pelo solavanco brutal do Nôitibus, fazendo-o quase cair por cima de outro passageiro.
Recuperado do tranco, ajeitou a bolsa sobre o ombro, entregou alguns sicles de prata ao homem sentado do lado do motorista, acenou com a cabeça e desceu do automóvel. Ouviu o arranque e quando olhou para trás já não havia nada além dos prédios.
Alvo, não surpreendentemente, foi o primeiro a chegar. Marcaram alguns dias antes, por correio-coruja, esse parque circular como ponto de encontro às 02:00 da tarde. Pequeno, mas aconchegante, com alguma arborização pensada e uma estátua em bronze do Lorde George Bentinck. Tudo foi definido por Louis, que disse que a praça era próxima ao lugar que ele queria mostrar aos dois. Como ele era londrino e conhecedor dos “mistérios” do cinema, os dois nascidos-bruxos só acataram.
Caminhou por alguns minutos, vagaroso, até escolher um banco e sentar-se. Ficou olhando pro céu nublado, tirou os óculos e limpou um pouco as lentes com a camisa, igualmente preta, abaixo do casaco.
Escórpio havia dito que encontraria Louis na casa dele em Whitechapel, que não era muito longe dali, e eles viriam juntos. Agora que estava ali, Alvo se sentia, de súbito, animado por poder ver amigos fora do ambiente acadêmico. Não que tivesse empecilhos em Hogwarts, mas às vezes sentia falta de liberdade, coisa que também não era ampla em casa.
Ele não estava tendo conflitos com os pais, com a irmã e nem mesmo com o irmão, com quem vinha numa melhora significativa desde o ingresso na escola (além dele estar no ano dos N.O.M.s e, consequentemente, ocupado demais para implicar até com a amizade de Alvo com Escórpio). Não tinha um detalhe ou um acontecimento que ele pudesse olhar e dizer “é isso que está fazendo eu me sentir assim”. Mas estava. Quanto mais lembrava do que viu quando enfrentou o bicho-papão, e se lembrava com certa frequência, mais se via como um intruso.
“Pare de pensar nisso”, ele sacudiu a cabeça em negação. Pelo menos hoje, ele tentaria focar em qualquer outra coisa. Fechou os olhos, relaxou os ombros e se acomodou no assento, pensando se eles já saberiam qual filme assistir. Nem ouviu o som dos passos de alguém se aproximando.
— Você sabe que pode usar outras cores fora de Hogwarts, não sabe?
Os olhos verdes se abriram, a pupila se contraiu, ajustando-se à luz, e ele focalizou os azuis-cinzentos olhando de volta para ele.
Escórpio estava em pé, as mãos nos bolsos de um sobretudo bege, compondo com um cachecol vinho e um sorriso leve pouco condizente com as pernas do dono, que ficavam indo de um lado para o outro evidenciando a ansiedade.
— É pra representar meu eu interior. — Alvo alegou, também sorrindo com ironia antes de se levantar para abraçá-lo, em seguida se afastando e erguendo uma sobrancelha — Onde está o Louis?
— Sobre isso… — Escórpio desviou o olhar para a diagonal e coçou o topo da cabeça, bagunçando um pouco o penteado — Ele não deve vir.
— Por quê?
— Porque ele aparentemente se esqueceu que marcou de ver os amigos trouxas dele.
— “Aparentemente”?
— Ele estava se arrumando enquanto eu esperava no quarto dele quando chegaram. Ele ficou bem sem graça e a mãe só não brigou porque estava na minha frente. Ele os vê muito pouco por causa de Hogwarts, fiquei com pena de dizer qualquer coisa, falei que não tinha problema. Ele prometeu que iria remarcar.
Instaurou-se um silêncio de alguns segundos.
— E agora…?
— Eu não podia deixar você aqui esperando, não é? — afirmou Escórpio, incontestável.
— Aliás, como você veio sozinho? — Alvo de repente pensou.
— De metrô. —respondeu o outro com simplicidade.
— Assim, tão fácil? — Alvo riu.
— Eu sei usar a boca. — Escórpio retrucou, também rindo e, sem reparar, deixando o outro um pouco tímido.
Outro silêncio.
— E o que fazemos agora?
— Não vamos ao cinema? — Escórpio pareceu confuso.
— Achei que Louis fosse remarcar.
— E vai, mas não viemos à toa, viemos? Tudo bem irmos só nós dois?
— Se não for problema pra você… — Alvo gaguejou.
— Não é.
— Certo…
— É claro.
Terceiro silêncio. Escórpio teve um acesso de tosse que evoluiu para um engasgo, precisando de um intervalo respirando. Recuperado, olhou para Alvo, cujo rosto era um misto de preocupação e vontade de rir contida.
— O quê está havendo? — o moreno finalmente questionou, cômico, enquanto o outro coçava a garganta.
— Não sei. Deve ser o mundo trouxa. — Escórpio teorizou, brincando.
— Seu rosto está muito vermelho. — Alvo reparou, ainda apreensivo.
— O seu também. — o loiro devolveu, refletindo que o outro não tossiu nenhuma vez, porém optando por não completar a frase.
— E você sabe para onde temos que ir? — Alvo ignorou o comentário.
— Essa parte eu lembro vagamente, mas estava torcendo pelo seu preparo… — o mais alto explicou, esperançoso.
— E quando eu não me preparo? — Alvo vangloriou-se, levantando a tampa da bolsa e afastando um tecido dentro dela para puxar o mapa de Londres.
Olharam o caminho no plástico dobrável com detalhes urbanos da região central da cidade e logo foram saindo da praça. Caminharam pela Margaret Street e viraram à esquerda, chegando na Regent Street. Encolheram-se com uma lufada de ar frio. Olharam o interior quase lotado de um belo restaurante na esquina de mesma calçada entre as duas vias, seguiram por mais alguns metros e então pararam.
O Regent Street Cinema, anexo à Universidade de Westminster, tinha uma fachada elegante e discreta, talvez nem sendo identificado como um cinema pela maioria dos pedestres que por ali passam todos os dias. Uma armação de vidro com algumas novidades em um painel colocado pelo interior e um letreiro em marrom com o nome do lugar resumem a entrada, guardada por um recepcionista que os conduziu prontamente ao interior.
Depararam-se com um espaço curto antecedendo uma escadaria. À esquerda, um guichê com duas funcionárias e uma placa escura com opções de filmes e horários em blocos brancos removíveis. A temperatura era maior do que lá fora.
— Ele disse que era só ver o que estivesse passando e escolher o filme. — Escórpio falou, vendo o mostruário enquanto desfazia o nó do cachecol.
— Que tal… — Alvo passou os olhos sem muito critério — …1917?
— Você já tinha visto alguma coisa?
— Só achei o título interessante. — Alvo expôs.
— O filme também é! — disse a atendente, sorrindo para os dois.
— Bom, então não há mais o que discutir. — Escórpio sorriu, simpático, um pouco envergonhado por ter esquecido que não estavam sozinhos — Serão dois ingressos para a sessão de 05:00 da tarde, por favor.
— £14,00 — a mulher comunicou, olhando para a tela do computador e digitando com velocidade.
Alvo fez um barulho agudo aspirando o ar, chamando a atenção de Escórpio.
— O quê foi?
— Eu esqueci completamente do dinheiro tro… — Alvo segurou a língua — esqueci de trocar o dinheiro.
— “E quando eu não me preparo?” — citou Escórpio cheio de escárnio, ao que Alvo crispou os lábios, fazendo o colega rir — Eu trouxe, sem problemas. — ele assegurou.
Escórpio retirou libras esterlinas dos bolsos do sobretudo e as entregou à funcionária, que as contou e voltou a brigar com o aparelho repentinamente lento, até conseguir obrigar a impressora a liberar os tíquetes.
— O que fazemos agora? Falta um tempo até a sessão… — Alvo questionou Escórpio, estendendo a mão para receber os bilhetes.
— Tem um lounge aí em cima, não tem ninguém no momento. — a moça sugeriu.
— Você prefere isso ou voltar para o frio? — o mais velho não poupou esforços em tornar a primeira opção mais atrativa.
— Vamos subir. — Alvo o tranquilizou sorrindo de novo.
A escada era cortada ao meio em duas faixas, com uma fila de pedestais dourados e divisórias em veludo vermelho. Subindo os degraus, chegaram em um espaço semicircular, com o carpete em um mosaico preto e branco bem ornamentado e o teto rebaixado, com algumas lâmpadas amarelas gerando uma leve penumbra no ambiente. Um balcão de madeira muito escura, no mesmo formato do salão, separava-os do bar & cafeteria.
Alvo sentou-se em uma das cadeiras verde-musgo enquanto Escórpio se dirigiu ao barista. Tirou a alça da bolsa, colocando-a na cadeira ao lado, abriu os botões da parca e ficou ouvindo o som de fundo. Um solo de saxofone lançava notas aleatórias porém harmônicas, num jazz de elevador um pouco mais inspirado.
Escórpio voltou andando a passos curtos, equilibrando duas xícaras em seus pires até escolher uma cadeira de frente para Alvo.
— Estou começando a entender por que ele queria vir pra cá. — comentou Alvo enquanto assoprava seu cappuccino fumegante, analisando os detalhes do local.
— É bonito mesmo. — Escórpio concordou, dando um gole e se aquecendo — mas não foi pela beleza que ele indicou aqui.
— Foi pelo quê?
— Se as pesquisas dele estiverem certas, esse é o primeiro cinema do Reino Unido.
— Sério?! — Alvo exclamou, curioso, desistindo de tomar a bebida antes de esfriar.
— Sim. Ele e a Sra. Hall ficaram quase como guias turísticos. — Escórpio ressaltou, achando graça — O espaço físico existe desde 1848, parece que funcionava como vitrine de inovações e às vezes como teatro. Até que em 1896 os Irmãos Lumière fizeram uma das primeiras demonstrações do cinematógrafo aqui, para a imprensa. Depois de alguns anos virou um cinema de vez.
— A Profª Ogden comentou sobre eles na aula de introdução às expressões artísticas trouxas. — recordou Alvo.
— A Profª Ogden também comentou sobre eles serem fascistas. — acrescentou Escórpio, tornando a sorver sua bebida.
— Eu lembro. — ele anuiu — Mas, pra ser sincero, não entendi perfeitamente o que ela quis dizer. Já vi que vamos estudar sobre isso no sétimo ano em História da Magia, e não sei muito mais.
— Tem muito a ver com o que a professora falou na primeira aula de Estudo dos Trouxas. — começou Escórpio com uma inusitada inflexão didática no jeito de falar (normalmente era Alvo quem assumia esse posto) — Sobre o legado do sentimento anti-trouxa e purista de sangue nos seguidores de Você-Sabe-Quem. Isso vem do início do século XX, com os movimentos fascistas. Grindelwald tinha essa mesma ideologia e acabou atraindo o apoio de bruxos demais, o que de alguma forma se entrelaçou com a política trouxa europeia e, enfim, gerou o que gerou. Esse purismo, nas relações dos não mágicos, se transformou em outros tipos de discriminação. O antissemitismo nazista, inclusive, tem possíveis relações com o fato da comunidade judaica ser, por algum motivo, quase isenta de bruxos. Os historiadores deles chamam isso de eugenia.
— Como sabe disso tudo? — Alvo indagou, admirado.
— Minha mãe. — resumiu Escórpio, com uma nota de carinho — Ela sempre fez questão, ainda mais depois de eu entrar em Hogwarts, de abordar isso em casa. Meu pai sempre só concorda e fica desviando os olhos todo sem jeito. — completou, rindo.
— E qual era a relação disso com os Lumière mesmo…?
— Um deles foi condecorado pelo General Pétain, que era o governante da França durante a Segunda Guerra Mundial. Ele foi controlado pela Maldição Imperius durante aqueles anos, colaborando com a Alemanha (e com Grindelwald). — Escórpio esclareceu.
Alvo assentiu, decidindo por fim bebericar seu café morno.
— E em dezembro de 2019 estamos aqui. — concluiu Alvo, reflexivo.
— Um brinde a nós. — Escórpio ergueu a xícara quase vazia com falsa pedância.
Ambos se aproximaram e encostaram as louças brancas num tilintar, os olhos se fitando pela segunda vez no dia. Demoraram um pouco na posição, até retrocederem com os braços e Alvo, no meio do caminho, deixar a xícara escapulir sobre a mesa num baque surdo, derramando o resto do líquido.
— Você se sujou? — Escórpio perguntou com a voz trêmula.
— Não, e não ria! — Alvo alertou, puxando os guardanapos para secar a sujeira feita.
— Não estou rindo. — negou Escórpio para, em seguida, começar a rir baixinho.
— Típico. — lamentou Alvo, se juntando ao amigo no riso até o funcionário vir com um pano umedecido e limpar a superfície.
— Sempre muito habilidoso. — zombou Escórpio.
— É muito chato não poder usar magia o tempo todo… — Alvo reclamou, abaixando o volume da fala — me faz ter saudades da escola.
— Só sente falta de Hogwarts pela magia?
Alvo o encarou, desorientado, até captar a insegurança. A música emitida pelos alto-falantes invisíveis pareceu ditar um novo clima.
— Acha que eu não ligo para você? — Alvo inquiriu, divertido, não sem antes reforçar as cordas vocais para que não o traíssem em seu nervosismo.
— Fiquei na dúvida se você só não foi embora, mais cedo, por educação. — admitiu o loiro, apertando o lóbulo da orelha.
Alvo esboçou algumas sílabas, chegou a esperar o outro revelar que não passava de uma chacota, mas a genuína e pouco comum melancolia no rosto de seu companheiro da Sonserina o deixou mudo.
— Alvo… — Escórpio preencheu a lacuna deixada — Às vezes, e eu digo isso na melhor das intenções, é difícil entender o que se passa na sua cabeça. Eu sinto que te conheço, de verdade, e superficialmente você é transparente. Quase sempre sei se você está bem ou não em algum momento específico. Eu sabia que você não estava bem no dia da aula de Defesa Contra as Artes das Trevas sobre o bicho-papão, sabia que não ficou bem depois e sabia, mais cedo, que você não tinha certeza se queria ficar aqui. A questão que sempre fica pendente é o quê motiva isso tudo.
Ele esperou uma intervenção do outro. Como não veio, continuou.
— Entendo que você tenha suas questões e talvez seja algo muito íntimo, mas acaba sendo complicado saber como lidar. Nem sempre eu sei se você realmente gosta de mim… ou se está feliz.
O impasse é que Alvo, em boa parte do tempo, também não sabia. Sabia valorizar a vontade que tinha de viver, mas a incapacidade de viver como desejava o mantinha numa espécie de transe. Um limbo entre as hipóteses de enclausuramento que descartou (mas continuavam sendo seu maior medo) e o ideal de vida que não tinha coragem de perseguir. No meio termo, ficou “confortável” naquela semi-existência: convicto de que não trairia a sua essência, porém inapto a respeitá-la. Por vezes questionava qual era, de forma efetiva, a sua essência. Já interpretava uma persona há tanto tempo, apesar de ser jovem, que não sabia mais o quê dela era autêntico.
Contudo, tinha autoconhecimento suficiente para saber suas opiniões sobre as pessoas. Não sabia explicar o quê o deixou incomodado com a perspectiva de passar o dia com Escórpio, mas se não tinha como oferecer todas as respostas, podia pelo menos desmentir sua hesitação.
— Tem poucas pessoas das quais eu gosto tanto quanto gosto de você. — Alvo exprimiu com o máximo de sinceridade que conseguia acumular, depois de pensar bem na frase para não perder o ritmo — Não sei muito o que falar sobre o resto, mas é isso.
Escórpio ficou olhando para ele com os braços cruzados, inexpressivo, por 1 minuto que pareceu durar mais do que todo o resto da tarde. Alvo sustentou o olhar até Malfoy levantar-se, tirar o sobretudo (ficando apenas com um suéter bege) e se sentar de novo.
— Ok. Eu acredito em você. — declarou Escórpio na mesma calmaria de antes de todo aquele embate.
As íris do menino pareciam mais cinzas do que azuis naquele momento, como o céu da cidade onde se encontravam. Pareciam tentar camuflar uma tempestade de pensamentos, mas Alvo não fazia ideia de quais seriam.
— O que tem feito no recesso? — soltou Potter como se estivesse falando como um desconhecido.
— Treino de voo com vassoura. — ele disse, impostando neutralidade na entonação.
— Não vai me perguntar o que eu tenho feito? — Alvo tentou provocar, parecendo mais desesperado que confiante.
— O que tem feito, Alvo? — Escórpio consentiu, ainda com certa frieza.
— Lido o livro Introdução à Magia Curativa: encantamentos básicos.
Era um golpe baixo. Alvo tinha total noção da empolgação de Escórpio desde que ele começou a ter “aulas” (ele não gostava de chamar assim) com Monsieur Pomfrey. Desde então, importunava o colega de quarto para dar detalhes sobre o que estava aprendendo, raras vezes tendo sucesso.
Escórpio sabia que era um golpe baixo, mas não conseguiu ficar irritado. Cedeu.
— Então você contou aos seus pais? — inquiriu.
— Não. Aluguei o livro da Biblioteca de Hogwarts e só leio à noite. — Alvo contrariou, peralta.
— Você fala como se fosse um criminoso. — destacou Escórpio com um sarcasmo mais distintivo de seu jeito.
— Isso me ajuda, sabe… — confessou Alvo, arriando a guarda — Todo esse tema de “felicidade”. Focar nesse hobby-possível-futura-profissão me ajuda a desligar o resto. Distrair da angústia…
— Você acha saudável substituir os outros ciclos do dia-a-dia pelo trabalho? E o lazer?
— Claro que não, mas se eu tenho dificuldade em ficar bem no dia-a-dia e isso diminui esse efeito, por que não?
— Isso não diminui, só te tira dessa realidade.
— Exatamente o que eu sinto que preciso, Escórpio. Sair dessa realidade.
— E no longo prazo…?
— O que tem de mais no longo prazo?
— Vai respirar para trabalhar?
— Isso é tão ruim assim?
— Qual o espaço para todo o resto das coisas que todos fazem durante a vida?
“Como eu vou fazer todo o resto das coisas que todos fazem durante a vida se eu não posso casar, não quero ter filhos e não gosto de meninas, Escórpio? Que razões eu tenho para criar essas expectativas se a minha forma legítima de atendê-las pode gerar a minha deserção? Por que eu não posso focar no que sou competente se é a única coisa que eu sei que consigo oferecer ao mundo e que sei que ele não vai rejeitar?”, foi o que Alvo gritou a plenos pulmões para o amigo…
…dentro de sua cabeça.
— A sessão começa em 15 minutos. — avisou a lanterninha para os dois bruxos e outras 5 pessoas no lounge que eles nem perceberam ter chegado.
Levantaram-se de forma mecânica, entregaram os ingressos e passaram pela portinha à esquerda do balcão.
Seguiram por um pequeno corredor com uma parede decrescente do lado direito até chegarem a um palco com uma cortina verde e uma estrutura de holofotes acesos no topo. Olhando para trás, perceberam estar em um anfiteatro com aproximadamente 150 lugares, cada fileira num nível um pouco mais alto que a da frente. O teto tinha cantos curvos e clarabóias, por onde entrava uma boa quantidade de luz que enaltecia os adornos recém-reformados. Era lindo, acolhedor e estranho ao mesmo tempo. Uma pena não ser tão relevante para os dois enquanto reviravam a discussão em suas mentes.
Alvo tomou a dianteira e escolheu uma fileira próxima da mais distante, inconscientemente querendo atrair o mínimo de atenção possível. Estava prestes a se sentar quando sentiu a mão de Escórpio em seu ombro.
— Alvo…?
Ele se virou, o pescoço extendendo uns centímetros para poder olhar à altura, e ficou estupefato ao ver olhos marejados.
— Esquece o que eu falei. Eu não pretendia… eu não queria te deixar mal ou dizer qualquer coisa para te magoar… — as palavras saíam meio desconexas, o timbre mais agudo que o normal, lutando para não embargar — Me desculpe por estragar o dia, o cinema, eu só queria…
— Escórpio, tá tudo bem. — Alvo interrompeu, assimilando que não conseguia guardar qualquer mágoa dele. Pior. Não conseguia vê-lo sentindo dor daquele jeito. Doía também.
— Sério, eu não devia…
— Vamos ver o filme. — encerrou o garoto de óculos, com o rosto sereno de novo.
Alvo se acomodou na poltrona e foi imitado por Escórpio, aos poucos retornando ao sossego costumeiro. Mais algumas pessoas foram entrando e ocupando o espaço.
— O que fazemos agora? — questionou Alvo.
— Acho que nada. É só esperar até começar.
E como numa premonição, as lâmpadas dos corredores de entrada e saída se apagaram. Placas cobriram as janelas e o recinto foi dominado por uma escuridão densa, incompleta apenas por discretas luminárias nos degraus e na parte inferior do palco.
Alvo já tinha ficado bem próximo, fisicamente, de Escórpio. Andavam juntos pelo castelo boa parte do tempo, dormiam em camas vizinhas, já tinham até se abraçado. No entanto, algo naquele momento tornava o contato peculiar. Fosse o breu aguçando os outros sentidos ou a divergência dos últimos minutos, algum motivo o deixou hiperconsciente do braço encostado no seu. O calor que sentia emanar por ele e se espalhar pelo resto do seu corpo, o arrepio dos pêlos escondidos pela roupa que o fazia quase invisível naquele cenário, o ruído da respiração alterada, meio ofegante. Parecia que as sensações estavam amplificadas, controlando sua já baixa concentração.
Mesmo com o campo reduzido, não achou seguro testar a visão para checar se o outro reagia como ele. Não sabia se queria ver. Não sabia o que ele próprio estava passando. Ao menos não com lucidez.
A última lanterna se apagou e as cortinas deslizaram para as laterais. Alvo ficou confuso por alguns minutos nos quais os trailers de outros filmes foram exibidos na tela, a cada vez achando que estavam assistindo o início da obra. Não quis consultar o responsável por estar com calor em franco inverno europeu, apenas esperou.
O filme começou. Alvo levou um tempo até habituar-se, mas foi natural ser tragado pela narrativa dos dois soldados em um contínuo plano-sequência. Teve um momento em que quis comentar, tirar dúvidas, mas a cultura do cinema aparentava ser de absoluta observação. Num determinado ponto da história teve um sobressalto, em choque com uma cena, e bateu com o ombro do Escórpio.
— O que houve? — sussurrou o outro, virando o rosto.
Alvo olhou para ele, processando o seu hálito, e reparou em sua silhueta distinguível apenas por um leve reflexo perolado vindo do projetor. Sacudiu a cabeça e mirou a tela de novo.
Foi passando o tempo, foi modificando-se o conto, a tela ficando tão escura quanto o próprio auditório. Sons de tiro. Ele ficou impressionado com o realismo dos barulhos. Mais sons de tiro.
Som de dois tiros. E um grito estridente.
— Isso é normal? — conferiu Alvo, ainda cochichando.
— Acho que não… — Escórpio respondeu, incerto, notando a inquietação dos outros espectadores num burburinho audível.
— O filme ainda está passando né, não deve ser…
Nesse momento, um homem mascarado surgiu pela lateral por onde eles entraram, apontou uma arma para o teto e puxou o gatilho. E então as coisas aconteceram rápido.
Alvo pouco registrou a sucessão de eventos. Mais tarde conseguiria apenas resumir. No pandemônio em que parte do público danou a berrar e tentar correr para a saída de emergência e parte ficou estática em prantos, o atirador deu dois novos disparos direcionados ao lado oposto. Foi o que bastou para Alvo sair da inércia.
Agarrando Escórpio pelo braço, enfiou a mão livre dentro de sua bolsa e puxou todo o tecido fino e maleável de seu interior, jogando-o sobre os dois. A capa da invisibilidade tinha seu uso inaugurado de forma dramática, com os dois se esgueirando para fora dos assentos enquanto o criminoso se aproximava das fileiras de cima. Passos calculados, ainda com a mão no punho do amigo, tentando conduzir os dois para o corredor da direita. Alvo olhou para trás, localizou a figura uma última vez e viu sua mão tremendo, o dedo alojado na fenda da pistola, procurando o escopo seguinte. Não raciocinou muito. Puxou a varinha, mirou o melhor que conseguiu no sujeito e bradou um dos poucos feitiços defensivos que acreditava dominar. O único que seu pai fez questão de lhe ensinar.
— Expelliarmus!
Um lampejo branco sóbrio cruzou o cômodo, acompanhado de um estampido parecido com o estalo de um chicote sobre o metal. O revólver rodopiou pelo ar pela eternidade de um segundo, e o caos engoliu a sala de vez.
Prestes a ser atropelado, Alvo sentiu o braço de Escórpio se desvencilhar de sua mão e jogá-lo pelo peito até a parede, fora do caminho. Quando um dos últimos fugitivos passou por eles, quase tropeçando na barra da capa, puderam ver o homem com o rosto coberto de quatro, tateando pelo instrumento perdido em algum lugar dos degraus. Alvo ergueu a varinha uma segunda vez.
— Petrificus Totalus!
O Feitiço do Corpo Preso foi executado sem cerimônias. Os braços se alinharam com as pernas e ele só não rolou para baixo por conta da cabeça que bateu na base do corrimão. Um clássico opistótono, no meio do salão agora anárquico pela debandada.
— Temos que sair daqui… — Alvo se esforçou para continuar pragmático, ajeitando a proteção mágica dos dois e puxando Escórpio novamente para a saída.
Eles andaram até o lounge, desceram a escada e chegaram na bilheteria sem encontrar ninguém além de copos, potes de pipoca e papéis pisados pelo chão. Aproveitaram a porta de vidro escancarada e deixaram o Regent Street Cinema pouco antes do serviço policial de Londres entrar.
Já era noite na cidade, o frio se agravara e, sem pudor, os bruxos abraçaram-se pela cintura enquanto caminhavam, indetectáveis aos olhos trouxas. Mantiveram uma marcha sem pressa, intuitivamente fugindo de cidadãos nos quais pudessem esbarrar. A adrenalina foi sendo depurada do organismo e o peso do episódio assentando. Depois de quase meia hora, entraram em uma viela sem saída e pararam, encostados em um muro mal cuidado.
Alvo não conseguiu esboçar o “você está bem?” que pretendia, sendo absorvido em um abraço de ferro de Escórpio, que, apoiando a cabeça no ombro do mais baixo, desatou a chorar.
As lágrimas chegaram atrasadas na pele do mais novo, que ouviu bem antes os soluços estrangulados de seu melhor amigo entrando em estado de choque. Passou os braços pelas costas do outro e repousou a testa em seu peito. Deixou Escórpio normalizar a respiração e só desfez o enlace quando ele tomou a iniciativa.
Não foi naquele instante, nem nos instantes posteriores, nem na noite daquele dia quando chegou em casa sendo quase sufocado pela mãe. Não foi durante o relato do atentado nem na explicação de que não precisaria se preocupar com a violação, justificada, do Decreto de Restrição à Prática de Magia por Menores.
Somente anos depois que Alvo entenderia o motivo para, naquele instante, já não ter como imaginar a vida sem ele.
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