— Alvo! A gente vai se atrasar! — exclamou uma voz que se misturou ao som de uma cortina sendo puxada com agressividade.

O menino chamado começou a esfregar os olhos e bocejar, lentamente focalizando uma figura loura e magra, com os cabelos bagunçados, de pijama cinza em pé, ao lado de sua cama e com uma mão apoiada no dossel. Olhando para o relógio na mesa de cabeceira, Alvo recebeu uma injeção de adrenalina e já saiu puxando as vestes do malão, enquanto o colega de dormitório apontava a varinha pro próprio compartimento e fazia dois tubos de creme flutuarem em direção ao banheiro.

— Acho que não vai dar tempo de tomarmos café — disse Alvo cabisbaixo, olhando para a própria barriga protegida pelo pijama listrado.

— Pois eu tenho certeza — corrigiu Escórpio, puxando as roupas e se dirigindo à porta no meio do dormitório, em posição oposta a saída para o Salão Comunal — Não vou demorar.

Alvo tornou a se sentar na beira da cama e começou a brincar com o cubo mágico que estava na mesinha do outro lado da cama, pertencente a Louis. O nome daquele brinquedo sempre fazia Alvo rir, pela ironia de uma invenção essencialmente trouxa fazer referência ao mundo bruxo, ainda que sem querer.

A aula daquela manhã, uma sexta-feira, seria a última da semana, e a primeira de Estudo dos Trouxas. Os primeiros dias do ano letivo passaram como um pelúcio atrás de pedras preciosas. As aulas de Trato das Criaturas Mágicas, inéditas e cursadas pela maioria dos terceiranistas, começaram de forma excitante com os hipogrifos. Hagrid demonstrava certa timidez diante do receio de algumas pessoas com a segurança da aula ao ar livre numa clareira à entrada da Floresta Proibida, mas logo alguns corajosos se mobilizaram para iniciar o contato.

Era uma aula com estudantes da Grifinória e Sonserina, o que agradava Alvo, em contrapartida a quase todos os outros, por poder ficar próximo de sua prima. Ela e outros três alunos da mesma casa foram os primeiros a escolherem, cada um, um animal para cumprimentarem e tentarem acariciar, fazendo jus à reputação dos leões rubro-dourados. Alvo não estava preocupado em parecer mais destemido do que realmente era até Escórpio sair do emaranhado de sonserinos e fazer uma reverência para um belo hipogrifo de penas (e pelos) negros e olhos esverdeados. "Ele me lembrou você" Escórpio chegou a comentar, esfregando a mão com delicadeza no bico da criatura enquanto ela fechava os olhos, contente. Alvo agradeceu a necessidade do contato visual para que o amigo não levasse um coice, o que o impediu de ver o moreno corando.

A aula de Adivinhação, de acordo com Escórpio, foi uma incógnita. O louro reclamou da distância da torre, da escadaria em espiral até chegar à sala, do alçapão com escada para entrar na sala, do calor, do cheiro de garrafas de xerez, e, acima de tudo, da professora. "Trelawney é completamente desequilibrada". Alvo ficou rindo durante o almoço de terça-feira enquanto o amigo falava dos deveres de casa e da expressão da velha professora ficando horrorizada com borras de chícaras de chá. "Pelo menos esse problema não terei..." ele pensou consigo.

Logo Escórpio voltou, os cabelos ainda úmidos caindo pelo rosto. Alvo não se demorou no banho e ambos seguiram apressados para fora das Masmorras, esbarrando (ou o mais próximo disso) em alguns fantasmas e quase dando de cara com Pirraça até chegarem a um corredor no 2º andar na asa leste do castelo, onde pararam em frente a uma porta de madeira simples.

— Acho que é aqui, avisaram que a porta ficava entre uma armadura e uma tapeçaria com um dragão — comentou Alvo pondo a mão sobre a maçaneta de prata.

Os dois entraram em uma sala relativamente pequena, pelo menos quando comparada às outras salas de aula do castelo. Era pouco menor que a masmorra de Poções, com paredes de pedra sem muitos ornamentos e quatro janelas com vitrais simples opostas à entrada. Seis carteiras de madeira estavam bem posicionadas próximas a uma mesa com apenas dois livros, uma cadeira de lado e, na parede principal, um quadro negro sendo preenchido por uma mulher de costas.

Ela tinha estatura mediana, pele muito escura, cabelos negros e crespos muito curtos nas laterais e maiores no topo da cabeça, bem cortados. Usava um terno feminino bege, ajustado, com uma blusa branca simples por dentro do blazer. Vestida, elegantemente, como trouxa para ensinar sobre os trouxas. Quando ela se virou, eles puderam ver um rosto bonito e animado, aparentando seus trinta, quase quarenta anos de idade. Ela deteve o olhar em Alvo por alguns instantes, mas logo desviou.

— Bom dia, vocês são os primeiros a chegar, podem escolher onde se sentar — disse ela apontando a varinha num leve aceno para a lousa e apagando o que quer que tivesse escrito com giz.

Em cinco minutos os outros inscritos chegaram, dentre eles Louis Hall, sete alunos da Lufa-Lufa, cinco da Corvinal e cinco da Grifinória.

— Agradável surpresa, acho que é minha maior turma desde que comecei a lecionar — ela disse com um sorriso singelo.

A mulher puxou a varinha e fez um movimento amplo em arco, conjurando mais carteiras para tornar o número suficiente. Todos se acomodaram e ficaram olhando para ela, em pé e encostada na mesa com os braços cruzados.

— Eu sou a Profª Helen Ogden, e, obviamente, estarei ministrando a disciplina de Estudo dos Trouxas. Antes de qualquer coisa, eu gostaria de perguntá-los o que vocês acreditam que torna a minha matéria algo digno de ser aprendido, além de um possível N.O.M. e N.I.E.M. menos complexo que a maioria — ela falou com um pitada de humor no final, fazendo alguns alunos rirem e o clima relaxar.

— Bom, acho que a oportunidade de aprender sobre a comunidade trouxa por uma perspectiva bruxa — arriscou uma menina da Corvinal.

— Uma resposta simples. Não necessariamente errada, mas apenas tangencia a questão. Por que, então, é relevante aprender sobre a comunidade trouxa por uma perspectiva bruxa?

— Porque a maior parte da população é trouxa e muitos de nós convivemos ou passaremos a conviver com eles em algum ponto da vida? — pronunciou-se Louis — Digo, dependendo do que façamos...

— Um bom começo Sr. Hall, mas a maioria dos bruxos que se enquadra nessas condições não teve aulas comigo, ou com os antigos professores. Por que, então, se dar ao trabalho?

— Porque essa mesma maioria de bruxos não enxerga os trouxas do seu cotidiano como iguais — pontuou Escórpio. Alvo levantou a sobrancelha para ele, ao seu lado.

— Esse é o problema, Sr. Malfoy — começou a Profª Ogden, com um tom satisfeito — Eu sou ex-funcionária do Ministério da Magia. Por um tempo estagiei no Departamento de Acidentes e Catástrofes Mágicas, e depois fui efetivada por alguns anos no Departamento de Execução das Leis da Magia, na Seção de Controle do Mau Uso dos Artefatos dos Trouxas. Resolvi inúmeros casos e tive contato com muitos outros bruxos, desses setores e de outros de todo o Ministério, portanto creio ser capaz de falar, com certa credibilidade, sobre como vivemos em uma cultura que despreza e desrespeita os direitos dos não-bruxos. Muitas das atividades dos trabalhadores dessas áreas visam a manutenção do Estatuto Internacional de Sigilo em Magia, vocês já devem ter estudado sobre a promulgação dessa lei com o Prof. Binns. Eu não questiono a validade dessa legislação, realmente acho que a decisão da Confederação Internacional dos Bruxos foi acertada, pois a nossa clandestinidade se mostrou proveitosa para ambos os lados. Contudo, muitos teimam em aplicá-la de forma unilateral. A lei serve, sim, para nos proteger, mas também para proteger os trouxas, o que infelizmente não ocorre com frequência. Bruxos que enfeitiçam objetos ou lugares-comuns, prejudicando ou até ferindo trouxas, só são adequadamente julgados se colocarem a exposição em risco. Não ligam tanto se eles "só" estiverem brincando com o livre arbítrio e o cotidiano das pessoas...

— Mas não existe uma corregedoria? — interrompeu uma aluna da Lufa-Lufa.

— Evidente que sim. E quantas vezes você ouviu falar em bruxos sendo indiciados por perturbação da ordem trouxa de forma discreta? — indagou a Profª Ogden, esperando para ver se alguém falaria algo antes de prosseguir — Enquanto não houver a obrigatoriedade de alterar a memória de alguém pela pessoa ter visto mais do que poderia, fazem vista grossa. Pior do que isso, alguns membros do Esquadrão de Obliviadores não são tão aptos no Feitiço da Memória quanto o bom senso prega que deveriam ser. Já vi casos de apagamento excessivo da memória de trouxas sendo abafados pelo Ministério, e tudo isso recai no não reconhecimento deles como seres vivos, aliás, seres humanos equivalentes a nós. Agora, eu pergunto, que motivos históricos me levam a concluir que esse tipo de comportamento é extremamente perigoso para a nossa sociedade?

Por alguns segundos fez-se silêncio. Não havia muitos alunos na turma, mas a impressão que dava era de que o terceiro ano inteiro poderia estar ali e a atenção sobre aquela professora seria a mesma. Alvo, no fundo, sabia o que ela queria ouvir desde que ela terminou de falar, mas preferiu aguardar.

— Isso corrobora o discurso de Lorde Voldemort na última guerra bruxa — disse então Escórpio, olhando pra frente. Alvo o observou.

— Exato — a bruxa de terno entoou — A desumanização dos trouxas é alicerce primário das estratégias de dominação utilizadas por quase todos os bruxos das trevas. Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado foi, assim como Gerardo Grindelwald antes dele, notório anti-trouxa, o que fica claro tanto levando em conta as políticas de exclusão dos nascidos-trouxas quanto as ações dos chamados Comensais da Morte, que mesmo fora da ascenção do líder não tiveram problema em levitar e torturar trouxas na Copa Mundial de Quadribol de 1994. Na verdade, a forma mais clara de exemplificar isso é lembrando que a bruxa docente desta disciplina na época da Segunda Guerra Bruxa, Profª Caridade Burbage, foi sequestrada e presumidamente assassinada, já que o corpo nunca foi encontrado. Estudar os trouxas significa, entre muitas coisas, buscar assimilar nossas falhas enquanto coletividade, rever a história de nossa coevolução com humanos não mágicos e, enfim, ter como objetivo um futuro justo.

A Profª Ogden se recostou na mesa e olhou para os alunos séria, porém apreensiva. Alvo sentia como se todos estivessem vagarosamente absorvendo as (muitas) palavras ditas naquele discurso, e aproveitou o silêncio para ouvir os próprios pensamentos.

— Bom..., quem ainda quer ficar para as aulas? — ela questionou com a voz mais contida.

— É claro que a gente quer! — exclamou uma menina da Grifinória com a voz bem alterada, olhando pra professora como se ela tivesse perguntado se alguém queria um ano de licença das aulas de História da Magia.

Quase todos riram, o que a fez suspirar e dar um pequeno sorriso.

— Peguem seus exemplares de Hábitos Sociais dos Trouxas Britânicos e abram no capítulo 2 — ela comandou, se aproximando do quadro negro — Uma das formas de sustentar o sentimento anti-trouxa sobre o qual eu estava falando é através da descredibilização da intelectualidade dos trouxas. Hoje vamos começar a desmistificar essa concepção falando sobre a eletricidade.

Algumas horas mais tarde, após o fim da aula de Estudo dos Trouxas e o almoço, Alvo e Escórpio foram para a Biblioteca perto do fim da tarde.

A Biblioteca de Hogwarts, como boa parte dos lugares importantes do castelo, contava com um pé direito altíssimo, muita madeira e vitrais nos dois lados do ambiente, que seguia comprido até a Seção Reservada ao final. As estantes davam a impressão de guardar livros da época da fundação da instituição, e iam quase até o teto, com alguns livros flutuando de uma estante até a outra sem muito critério, e o ambiente era todo iluminado por lampiões nas prateleiras e bancadas. Os dois se sentaram em uma das mesas e se acomodaram, cada um com seu Transfiguração para o Curso Médio, próximos à janela por onde já dava pra ver o sol mais baixo.

— Precisávamos fazer o dever de Transfiguração agora mesmo? — resmungou Escórpio tirando um pedaço de pergaminho, pena e tinteiro da mochila. A Profª Ghazawwi tinha solicitado 20 linhas sobre animagos e Alvo, nitidamente, queria fazer tudo o quanto antes — Ainda tem o fim de semana...

— No qual você terá treino de quadribol, e eu quero ficar livre logo — Alvo foi taxativo, mas riu com a careta do amigo.

— Acordei assustado hoje — disse Escórpio, lembrando do atraso matutino — Estou sentindo o cansaço bater agora...

— Vou tentar ser objetivo — assegurou Alvo ironicamente — Enfim. Animagos são bruxos capazes de, deliberadamente, se transformarem em um animal específico, por quanto tempo e quantas vezes quiserem, se diferenciando do Lobisomem ou de uma pessoa forçosamente transfigurada em um animal por manter plenas faculdades mentais quando está na forma não humana. Todo bruxo ou bruxa que está estudando o processo para se tornar um animago ou já o concluiu deve entrar em contato com o Ministério da Magia para ser registrado pelo Departamento de Execução das Leis da Magia, na Seção de Controle do Uso Indevido da Magia . Uma das principais motivações para o registro é a garantia de segurança em...

Alvo ia lendo, devagar, suas anotações em voz alta, ajustando-as em formato de texto enquanto deslizava a ponta da pena sobre o pergaminho. Continuou ditando por um tempo até perceber que deveria estar ouvindo outra pena rabiscando sobre a mesa.

Ele parou de falar e levantou o rosto, olhando pra frente. Escórpio estava com um braço encostado na mesa pelo cotovelo, a mão fechada em punho e apoiando a cabeça bem virada para Alvo. Ele só o observava, talvez já há alguns minutos. A luz do crepúsculo entrava enviesada pela janela, jogando um raio de luz sobre o rosto do louro que fazia seu cabelo parecer dourado e seus olhos brancos, de tanto que reluziam. Alvo conseguia quase ver o próprio reflexo naquelas íris, mas a impressão que tinha era de que o outro que estava tentando ver o que tinha por trás dos seus olhos. Ele retribuiu o olhar por dez segundos até pigarrear e desviar a visão para uma das mãos, batendo em ritmo no pé do lampião.

— O que houve? Não está conseguindo prestar atenção?

— De certa forma eu estava, mas não nas informações em si. É interessante ver as expressões de pessoas falando sobre o que elas gostam — constatou Escórpio com casualidade, ainda fitando Alvo.

— Como a Profª Ogden hoje — lembrou Alvo, tentando desviar o assunto.

— Como a Profª Ogden hoje — concordou Escórpio com os olhos levemente arregalados, o que deixou Alvo curioso.

— Você gostou da aula também né — Alvo perguntou em tom de quem já afirma, em seguida vendo Escórpio adquirindo um aspecto sonhador na face.

— Pra falar a verdade foi uma das que mais gostei até hoje — ele disse transbordando de admiração pra qualquer um que assistisse a cena.

— Mesmo não tendo nenhum conhecimento, digamos, prático? — contrapôs Alvo.

— O que pode ser mais prático do que aprender a lidar com as pessoas? — ele contra-argumentou num meio sorriso.

— Tá — Alvo começou impaciente, o que fez Escórpio rir baixo — Mas você pretende viver próximo dos trouxas?

— Não sei ainda, não faço ideia na verdade, não tenho muita noção do que quero trabalhar com, mas não acredito que essa seja a questão.

— E qual é?

— A questão é que eu estou cem por cento de acordo com tudo que foi dito pela professora no discurso do início da aula. — Escórpio declarou, assumindo um tom mais firme enquanto juntava as mãos entrelaçando os dedos, numa postura diplomática — Temos, sim, que nos responsabilizar pelo fim dos estereótipos sobre os trouxas e pelo fim da forma com a qual lidamos com eles, pelo menos se não quisermos sucessores dos últimos "grandes" bruxos genocidas tendo vários apoiadores.

Alvo ficou ponderando e olhando pra ele, que parecia estar formulando a continuação mas queria dar a oportunidade de intervir ao amigo. Escórpio continuou.

— Quando você inferiu que eu tinha algum elfo doméstico em casa eu fiquei pensando sobre isso e... — ele estacou com a cara preocupada de Alvo — Não! Fique tranquilo, eu não fiquei chateado nem nada. Eu quero dizer que isso me fez pensar sobre a naturalidade com a qual as pessoas ainda imaginam bruxos sangue-puro tendo elfos, e esse tipo de mentalidade. Pra mim, o preconceito com nascidos-trouxas e trouxas no geral tem a ver com uma presumida superioridade no sangue humano mágico, e isso também se relaciona com a forma como os bruxos enxergam os outros seres conscientes, como elfos e duendes. Há um tempo que eu venho lendo os artigos que sua tia Hermione publicou no Profeta Diário sobre as tentativas de emancipação e modificação das leis do Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas, e desde então comecei a reclamar com meus pais sobre termos um elfo doméstico em casa, até que enchi tanto o saco deles que resolveram mandá-lo, pelo menos, para trabalhar na cozinha de Hogwarts. Acho que ele ainda não cogita ser liberto, mas não é esse o ponto. O ponto é a escravidão da espécie estar tão enraizada no nosso desenvolvimento, e no deles, que as pessoas nem discutem isso. Como se fosse a ordem natural das coisas, e não é!

Alvo receava estar com cara de bobo, pois sentia a boca entreaberta. Estava surpreso, mas não de uma forma negativa. Aliás, parte do choque vinha de se sentir tão bem, em seu âmago, por ouvir aquilo tudo saindo da garganta do amigo mais alto, e ao mesmo tempo não conseguir processar o que era aquele sentimento acoplado ao orgulho de ver que ele se mostrava, de fato, uma pessoa boa.

— É interessante ver a expressão das pessoas falando sobre o que gostam — disse então Alvo, com um sorriso encabulado.

Escórpio riu.

— Não é nem tanto "gostar", mas sentir que é importante — retificou o louro, menos inflamado do que antes.

— Eu sinto também, e não queria que você pensasse que eu te julgava por provavelmente ter elfos em casa, nós mesmos temos o Monstro, embora a relação não pareça tanto de serventia obrigatória — Alvo conjecturou — Só acho engraçado porque parece que você sabe muito mais sobre os trouxas.

— Bem..., de fato eu venho estudando sobre desde antes das aulas começarem...

— Sério? — Alvo ficou curioso — E o que você acha do que ela falou sobre a inteligência não-bruxa?

— Pra além do que ela mesmo disse? Acho que supera a nossa em muitos âmbitos... — ele parou um pouco ao ver Alvo fazendo uma cara de desdém — Não venha com deboche, eu não estou querendo comparar com as possibilidades da magia, sei que não dá, mas muito do que eles fazem com a eletricidade, que é uma ferramenta totalmente criada por eles, e não inata como nossa mágica, é impressionante.

Alvo aguardou ele continuar, ficando mais receptivo. Escórpio voltou a abrir a boca.

— Você já deve ter ouvido falar da internet, seu pai cresceu em família trouxa, certo? — o menino inquiriu, ao que Alvo acenou com a cabeça — E você sabe o que é, de fato?

— Mais ou menos. Me explicaram que era como se fosse uma versão da rede de flu, só que sem ser um meio de transporte, apenas de comunicação, entre todos que tivessem a internet em casa.

— Boa analogia — Escórpio sorriu — Mas vai além. A internet é como se fosse um mundo secundário, cheio de possibilidades, que você acessa por meio de um computador, uma máquina. Só que nos últimos anos começaram a existir computadores de tamanhos menores, portáteis, que os trouxas podem carregar pra fora de casa e usar pra entrar na internet.

Ele fez uma pausa e analisou a compreensão chegando no amigo.

— Isso quer dizer que eles podem falar uns com os outros a qualquer momento e distância?

— Instantaneamente — confirmou Escórpio, excitado — Podem se ligar ou escrever mensagens, como cartas, que chegam para os mini-computadores dos outros, eles chamam de telefones celulares.

Alvo sabia da existência dos aparelhos chamados telefones, algumas vezes viu os tios rindo e se lembrando de uma vez em que o tio Rony tinha feito uma ligação para a casa dos tios Dursley, de seu pai, quando eles ainda estavam na escola. Aparentemente o Weasley só falava gritando, o que fez o homem desligar na cara dele. Contudo, a ideia disso se estender pra qualquer lugar era espantosa. Os bruxos levavam algum tempo para falarem uns com os outros por meio do correio-coruja. A rede de flu podia ser usada só pra falar, mas tinha como requisito um lugar com uma lareira, e uma lareira conectada à rede pelo Ministério.

— Acho que você está pensando o mesmo que eu — soltou Escórpio com voz de riso, as mãos apoiadas na borda da mesa — Eles nos superaram nesse sentido.

— Bom... — arriscou Alvo, incerto — Dependendo da distância, pode-se enviar um patrono com mensagens...

— E você sabe que a maior parte dos bruxos não consegue conjurar um patrono corpóreo com facilidade, quanto mais um patrono porta-voz. É magia além de N.I.E.M.

Alvo suspirou e revirou os olhos sorrindo, erguendo as mãos como quem diz "tá, não tenho mais objeções"

— Não é um pouco chocante? Pensar neles podendo fazer coisas que não podemos? — Malfoy instigou.

— Frustrante, você quer dizer — corrigiu Potter, olhando para a janela e percebendo que o pôr do sol chegara ao fim, o céu ainda iluminado por nuvens que refletiam tons de laranja no céu azul — Pensei também no Feitiço de Proteu, mas além de ser um encantamento também avançado, não funcionaria no mesmo nível que uma carta, dá pra transmitir poucas informações no objeto enfeitiçado. Não daria pra termos os celulares?

— Nossa magia faz com que os circuitos dos aparelhos eletrônicos não funcionem muito bem. — desencorajou Escórpio — Nada disso funciona em Hogwarts, pelos mesmos motivos.

— Tenho receio disso acabar me afastando das pessoas — revelou Alvo, levemente aflito — Sei que existe a aparatação, nossas casas costumam ter lareiras e tudo mais, mas não é a mesma coisa. Não sei o que quero fazer em termos de profissão, nem onde morar, mas sei que vai ser difícil ter muito tempo livre para me deslocar e encontrar os outros. Não que eu fale com muita gente...

Alvo se perdeu nas ideias e a visão desfocou. Escórpio o olhava penetrante como quando ele estava discorrendo sobre animagos, e parecia querer dizer alguma coisa, mas preferiu deixar o outro concluir.

— Tenho medo de ficar distante de você — admitiu o mais baixo dos sonserinos, se xingando internamente por já sentir as bochechas queimando sem razão.

Escórpio deu um sorriso torto de rosto inteiro, fazendo os olhos ficarem um pouco menores e gerando um certo calafrio em Alvo, que não entendeu a necessidade de se arrepiar. Ainda estavam no verão.

— Também quero ficar perto de você, Al — declarou Escórpio com a voz mais suave, aconchegante — No mundo dos trouxas, vários trabalhos precisam de um diploma depois da escola, que eles conseguem estudando em Universidades, ou algo do tipo. Muitos alunos moram juntos durante a época das aulas...

— Não sei se captei a sugestão, você quer que a gente faça faculdade trouxa ou tá me chamando pra dividir um quarto? — Alvo perguntou já rindo, o que fez o outro rir e jogar um pedaço de pergaminho rasgado nele, em forma de bolinha.

— Como se nós já não dormíssemos em camas uma do lado da outra — lembrou Escórpio, travesso.

O comentário fez Alvo estrangular um riso, mas não passou despercebido. Eles voltaram ao manuscrito para a aula de Transfiguração e, meia hora mais tarde, foram direto para o Salão Principal, para jantar.

O resto da noite passou normalmente. No Salão Comunal eles ficaram até um pouco mais tarde do que de costume, pelo dia seguinte ser um sábado. Jogaram xadrez de bruxo (cada um venceu uma partida contra o outro, e ambos perderam para Louis, que alegava ser um esporte de trouxas no fim das contas) e dividiram algumas caixas de sapos de chocolate que tinham recebido dos pais. Tudo estava do mesmo jeito de sempre, exceto para Alvo. Ele não conseguia afastar a conversa da Biblioteca da mente, e em vários momentos se desligava do ambiente, até que alguém estalasse os dedos bem próximos de seu rosto e comentasse que ele estava distraído. Alvo se desculpava e justificava pelo cansaço. Escórpio ficou reflexivo sobre mas não se manifestou.

Pouco depois da meia-noite eles se levantaram do sofá e seguiram para o dormitório, onde dessa vez Alvo se trocou primeiro, colocando o pijama listrado e já se sentando na beira de sua cama, com as costas apoiadas no dossel e novamente brincando com o cubo mágico. Lembrou-se do início do dia, pensando naquilo como um inerte artefato trouxa. Agora já via aquilo como uma possível demonstração da genialidade daquele povo que desconhecia tudo sobre bruxaria. Ele riu sozinho, "Acho que isso já é exagero".

Quando levantou a cabeça, viu que Escórpio já tinha saído do banheiro e estava de costas para ele, na frente da cama, arrumando coisas na mochila e no malão. Ele estava de cabelos despenteados e com a mesma roupa cinza e fina de algodão que usava de manhã. Só que Alvo prestou mais atenção. Era uma camiseta e short simples, com a parte de baixo pouco acima do joelho, e a luz amarelada vinda dos lampiões (já que agora nada era visível pelas janelas) tremulava sobre o corpo mais alto do colega de casa. Alvo percebeu seus braços curvados enquanto as mãos moviam coisas na bolsa, além das pernas, mais volumosas que nos últimos anos, com finos pelos claros da coxa até o calcanhar.

— Alvo?

Desperto do transe, Potter viu Escórpio agora virado para ele, com o rosto desentendido. Se tocando de que ainda estava com os olhos vidrados nas partes mais baixas do corpo do sonserino, Alvo simulou um bocejo e disse que não estava nem raciocinando direito. Escórpio riu de forma graciosa e desejou boa noite, se deitando e puxando o dossel num mesmo movimento.

Alvo repousou a cabeça no travesseiro e pôs uma mão na testa, praguejando contra todas as entidades divinas que conhecia pela gafe, e pela ligeira pulsação na região do baixo-ventre que ele tratou logo de cobrir com os lençóis.

Notas finais
Gostei muito de escrever esse capítulo e gostaria que todos que o lessem fizessem algum comentário.