A Quinta Exceção
6 Saído do Armário
Em duas semanas, o verão logo se aproximava de seu término, trazendo uma quantidade de chuvas maior que o normal em fins de setembro. Os alunos passavam a maior parte do tempo livre no Salão Principal, conversando e vendo o teto encantado se revolver, nebuloso, e iluminar o ambiente com alguns relâmpagos, ao mesmo tempo em que acidentalmente apagava algumas velas flutuantes com gotas d'água que se materializavam da ilusão mágica.
A aula dupla de Feitiços tinha acabado e a turma do terceiro ano da Sonserina já se agrupava em uma das quatro longas mesas das casas no salão, ainda que faltasse um tempo para a hora do jantar. Alvo explicava a Louis como conjurar as variações do Feitiço de Iluminação.
— A forma desconectada da ponta da varinha, apesar do nome, não precisa ser necessariamente mais forte. Você define a intensidade de acordo com o que for preciso — ensinou Alvo. — Lumos Maxima!
A extremidade da varinha do menino brilhou em um ponto de luz que logo se desvencilhou dela, flutuando até o meio da mesa como uma bolinha branca reluzente.
— Se você precisar ampliar o alcance da luz, é só mentalizar com esse movimento — Alvo ergueu novamente o punho apontado pra esfera cintilante, girando o braço em supinação como se virasse um interruptor invisível. A luz logo começou a aumentar, turvando a visão de vários estudantes em rajadas.
— Acho que ele entendeu o princípio, Al — comentou Escórpio, risonho, enquanto levantava a mão para cobrir os olhos (imitado por outros sonserinos).
— Perdão! — Alvo percebeu o problema. — Nox!
A lâmpada mágica involuiu pelo centro até restar um ponto mínimo branco no ar, que desapareceu.
— A variação de iluminação solar foi mais intuitiva — resmungou Louis, praticando o movimento com a varinha embaixo da mesa.
— E mais perigosa — completou Alvo, brincando de girar o dedo na boca de uma taça dourada. — Se o feixe daquele feitiço tocar a pele de alguém pode criar queimaduras bem feias.
Enquanto falavam sobre os deveres de casa do Prof. Flitwick, uma coruja solitária entrou, encharcada, por uma das janelinhas do topo do Salão Principal, e desceu planando até a mesa da Sonserina, onde pousou na frente de Alvo Potter.
— Eles sempre enviam correio fora do horário normal — ele comentou, desamarrando a carta da garra da coruja, que se debateu por dois segundos e saiu voando.
— E ela sempre faz isso... — disse Escórpio passando as mãos sobre as mangas das vestes, agora molhadas pela sacudida da ave.
Alvo desfez o lacre e começou a ler.
Alvo,
Obrigada pela carta dessa semana, sei que você não gosta muito de escrever, mas fico feliz pelo esforço. Não se preocupe com as aulas de DCAT, as aulas dos dois primeiros anos são mais maçantes mesmo, mas agora no terceiro vocês terão mais experiências práticas, como seu pai falou. E se você continuar não gostando tanto, paciência. Não é isso que vai definir sua formação, e você já me deixa mais que orgulhosa em todo o resto do seu desempenho, não entendo por que se cobra tanto.
De todo modo, não estou mandando essa carta pra contrariar, e sim para avisar que vamos ter um jantar aqui em casa no próximo mês, para que James possa nos apresentar à Emilly. Harry está ansioso e, bem, nem a Minerva consegue negar favores a ele se ele for insistente. Vocês sairão daí numa sexta-feira de noite pela lareira do escritório dela e ficarão aqui pelo final de semana, pra termos um tempo confortável.
Estou dizendo "sairão" mas obviamente você não é obrigado, imagino que já esteja pensando no que não conseguirá estudar nesses dois dias, então fica a seu critério. Só queria que você soubesse por mim e que saiba que seria bom você estar aqui no dia. Até pra ajudar no clima, pode pensar em como seu irmão deve ficar.
Fique bem.
Gina
— Quem morreu? — perguntou Escórpio olhando por cima de um exemplar do Profeta Diário, os olhos curiosos.
— Ninguém, não aconteceu nada... — disse Alvo irritado por ser tão ridiculamente transparente.
Emily Barclay. Morena, atlética, simpática, divertida, olhos brilhantes, artilheira do time de quadribol da Grifinória. Um resumo que, unido à personalidade de James, fazia Alvo ter enxaqueca.
Não que ele tivesse algum real problema com a menina, ou mesmo com o irmão. A relação dos dois melhorou consideravelmente depois do ingresso de Alvo à Hogwarts. Tirando os momentos de cordialidade estranhamente formal, quando outras pessoas da Sonserina (especialmente Malfoy) estavam por perto, os Potter cultivaram uma amizade mais significativa em dois anos do que em todo a infância do mais novo, tecida com zoações e brigas levadas ao pai (que delegava a resolução para uma irritada mãe ruiva). Alvo recorria a ele tanto quanto recorria a Rosa, ambos com formas de pensar e agir tão contrastantes que geravam um panorama ótimo pra resolver problemas. Alvo só não os buscava mais do que buscava, bem, Escórpio.
Ele não era íntimo de Emily, é claro, mas era difícil não gostar dela. Gentil como as melhores pessoas são, se esforçava pra ter conversas maiores que um simples cumprimento com o cunhado, e até disse uma vez que ele era mais parecido com o pai do que James, pelo puro prazer de irritar o outro (o que Alvo achou muito bom). De fato, era fácil entender o que James via nela, e era claro no jeito como ela olhava pra ele que ela via algo ímpar também.
A questão não era eles serem namorados e estarem bem. Era eles serem namorados e, no geral, tudo estar bem.
Ele soube pela boca de James por questão de horas, até receber cartas de ambos os pais falando sobre e, pra não ficar estranho, perguntando se havia novidades na escola fora o casal (o que Alvo achou vergonhoso, nitidamente estavam atrás da fofoca). No dia seguinte Rosa o contou que recebeu uma carta do pai na qual parecia que ela que tinha anunciado um relacionamento, de tão eufórico que ele parecia. No café da manhã os alunos do time de quadribol fizeram um pequeno estardalhaço à entrada de James no Salão Principal, o que ao invés de constrangê-lo o deixou sorrindo bobo o resto do dia. Escórpio se limitou a comentar que era um namoro frutífero pra ele. "Ela o acalmou no último jogo do ano passado, depois de eu piscar pra ele quando nós ganhamos. Tá, exagerei, mas o ponto é que a presença dela traz menos chances de brigarmos, ou melhor, dele brigar comigo."
A mais fria das reações ao casal ainda era quente como uma caldeira. Não havia uma única pessoa do ciclo de convívio que aparentasse estranheza, desconforto, ou coisa pior. Era uma notícia boa como a meteorologia (já mencionada em uma das aulas de Estudo dos Trouxas) declarando um dia ensolarado. O primogênito Potter, talentoso e carismático, com uma companheira tão bonita. Tão alegre. Tão querida. Tão... mulher.
— Alvo? — chamou Louis, batendo com o garfo na boca do cálice pra chamar atenção.
Alvo piscou os olhos duas vezes e o olhou, sem entender.
— Ele submergiu de novo — esclareceu Escórpio com ar de quem está acostumado, enquanto girava o garfo no prato para enrolar o espaguete. Alvo mas se tocara que a comida já havia surgido na mesa. — Tem certeza de que não tinha nada na carta? — acrescentou, a voz mais baixa.
— Só o que eu já esperava — ponderou Alvo, pensando no fato do incômodo não diminuir com a obviedade das coisas. Às vezes não importa o quanto você se prepara pra algo, o impacto continua tão forte quanto se fosse uma surpresa, se não maior. — Desculpe Louis, o que você ia dizendo?
—
No intervalo entre as duas últimas aulas da tarde, Alvo se encontrava em um banco no Saguão de Entrada, uma perna cruzada sobre a outra, olhando para as ampulhetas com as pedras preciosas indicando os pontos de cada casa. A chuva, um pouco mais forte que nos últimos dias, fustigava as paredes do castelo, deixando o interior da escola com um som contínuo de batidas ecoando por todos os lados, junto de eventuais trovões. O céu nublado deixava o dia com cara de noite desde o horário do almoço, e, para fugir do corriqueiro fuzuê do Salão Principal, Alvo esperava próximo às portas de carvalho.
Alvo não tinha o mais estável dos humores, pode-se dizer. Não que fosse desequilibrado ou algo parecido, mas o menino tinha dias e dias. Alguns gratuitamente sorridente, outros nem tanto. Os menos eufóricos não necessariamente infelizes, só mais reservados. Alvo gostava da quenturinha do sol sobre a pele num dia frio, mas não era um apreciador de dias de céu limpo em si. Sempre contestou a ideia de "dias bonitos" aceita pela maioria das pessoas, pois via beleza na chegada de uma frente fria, de nuvens carregadas, queda de temperatura e um pouco de escuridão. Sentia que dias nublados refletiam a parte boa do seu ânimo mais contido. Sem raiva ou pesar, mas uma gostosa e, por que não, saudável melancolia. O som da chuva leve lhe acalmava (algo do qual ele sentia falta dormindo num Salão Comunal dentro das Masmorras), e até o barulho produzido pelos raios, quando abafado, trazia um certo prazer.
Mas de vez em quando, quando a chuva se transformava em um temporal menos dócil, ele sentia a vertente mais ortodoxa do seu mau-humor. Como uma taciturnidade virando verdadeiro desagrado e apreensão. O som deixando de ser reconfortante, a paisagem bagunçada pela ventania perdendo a imagem de garoa pintada.
Esse era um desses dias.
Já estava demandando um certo grau de força de vontade pra não deixar que isso o tornasse antipático com os colegas nas aulas, e ficar num lugar com um bando de alunos aglomerados falando alto só atrapalharia o sossego necessário pra que ele preservasse a socialização depois de melhorar.
Assim, o sonserino recostava o corpo na parede de pedra ao lado de uma estátua no saguão, os olhos fechados e coçando o couro cabeludo. Não se incomodava de ficar sozinho nessas ocasiões, e era melhor que ficasse mesmo, visto que ninguém sabia lidar perfeitamente com elas. Bom, quase ninguém.
Ele sentiu um peso ao lado direito e soube quem era antes de olhar, o cheiro de maçã-verde inconfundível.
— Está evitando todo o calor humano do salão? — disse o menino ao lado, com a voz carregada de ironia.
Escórpio, pra quem olhasse de fora, parecia ter feito algum curso de especialização sobre como se comunicar com Alvo nos dias complicados. Alvo já se perguntara como ele fazia isso algumas vezes também, mas cada vez mais suspeitava de que tinha muito menos a ver com o que ele dizia, e mais com o fato de ser ele dizendo.
Escórpio não mudava o jeito de se portar. Talvez ficasse ainda mais sarcástico, como se visse o aborrecimento do amigo como uma piada particular. Em outras pessoas isso só transformaria a solitude de Alvo em raiva, mas não com ele. James costumava ficar na dele, prevendo o atrito. Rosa ia por uma linha excessivamente gentil e prestativa, o que não fazia diferença, mas Alvo se sentiria culpado se fosse rude, então a respondia no piloto automático.
Entretanto, Escórpio chegava e parecia que metade da consciência de Alvo passava a focar na conversa que eles viriam a ter. Isso em qualquer circunstância, mas nos dias melancólicos acabava sendo um recurso.
— Acho que estou mais introspectivo hoje... — respondeu Alvo, devolvendo o escárnio e fazendo Escórpio soltar uma risadinha.
— Pelo menos agora teremos a sua aula favorita — ponderou Escórpio com o rosto falsamente gentil.
— Isso, zomba mesmo.
— Sempre ao seu dispor.
— Hoje pelo menos vamos começar a estudar criaturas das trevas, se anime — falou Escórpio, já um pouco mais doce.
— Realmente. Divertido ver grindylows. Motivo para soltar uma deflagração de luxo dos Fogos Espontâneos Weasley.
— Só vamos logo...
— Sim, o Prof. Daugherty é pontual.
Levantando juntos, os dois foram para as imensas portas do saguão para o Pátio de Entrada e abriram uma fresta, pela qual já puderam ver parte do castelo e das cadeias montanhosas que rodeiam o penhasco onde a escola se encarapita, cobertos de uma massa chuvosa cinzenta e névoa.
— Espero que esteja treinando seu Feitiço Secante — gemeu Escórpio olhando pra tempestade e colocando as mãos dentro das vestes.
— Talvez não seja necessário — contrapôs Alvo, retirado a varinha do bolso e apontando-a para cima, a mão na altura do pescoço — Aqua tectum.
Da ponta da varinha erigiu uma fina película de luz cintilante, que subiu até pouco acima da cabeça dos dois e então se expandiu em uma cobertura transparente em formato de cúpula. A forma era visível como um vidro líquido com flashes de arco-íris, além da chuva que batia nele e escorria pelas laterais, poupando os dois.
— Tá, isso é bem legal — admitiu Escórpio, ainda admirando o guarda-chuva mágico.
— Um truque de um livro de feitiços cotidianos lá de casa... — comentou Alvo com displicência, fazendo força pra esconder o orgulho.
Os dois seguiram caminhando, lado a lado, pelo Pátio até a Passarela, para chegar no outro lado do castelo, onde iriam para o 5º andar. No trecho aberto, Escórpio permaneceu bem grudado com Alvo para se proteger no calcance do feitiço, o que gerou um calafrio no outro que não tinha relação com o clima. Um clarão de uma descarga elétrica no céu se projetou sobre eles, fazendo os olhos azuis do louro ficarem brancos por um instante, e logo eles chegarao ao saguão da outra ala.
Escórpio continuou mais perto que o normal, o que acabou impelindo Alvo a se afastar, com medo de parecer estranho. Seguiram andando pelos corredores até chegarem à torre com escada espiral, pela qual andaram até o fim e abriram a porta.
A sala de aula de Defesa Contra as Artes das Trevas era uma das mais interessantes, arquitetonicamente. Situada em um canto curvo da torre, o chão e carteiras eram todos de madeira, e o ambiente contava com um teto abobadado de pedra e madeira entalhada, sendo um lado de parede voltado pro interior do prédio, com alguns quadros e pergaminhos estendidos, e o outro para fora, com altas janelas de vitrais. Alguns candelabros de ferro pendiam, além de objetos de função desconhecida em uma estante e outra. Na extremidade, uma bonita escada de mármore cor de areia levava teatralmente à porta do escritório do professor, por onde ele podia sair direto para o início da aula. A única novidade era um armário velho de mogno à frente da escadinha, bem centralizado em relação às cadeiras.
Eles se sentaram e logo foram acompanhados por outros alunos da Sonserina e da Corvinal. O Prof. Daugherty desceu do gabinete e parou de pé ao lado do armário.
— Bom, como todos devem saber, hoje iniciaremos o estudo das criaturas das trevas, como identificá-las e, é claro, como se defender em uma situação na qual enfrentá-las for inevitável — começou o homem de meia idade com forte sotaque irlandês. — Alguém, por acaso, imagina o que tenha aqui?
Ele pegou a farinha e deu um toquinho de leve na lateral do armário, sem realizar qualquer feitiço. O móvel imediatamente sacudiu como se guardasse um animal nervoso, sobressaltando alguns alunos.
— Um bicho-papão? — arriscou um aluno da Corvinal.
— Muito bem Sr. Davies. Esses seres são conhecidos por se alojarem em locais escuros e, se possível, fechados, como fundos de camas, sótãos, porões e, evidentemente, guarda-roupas. Mas, antes de tudo, o que é um bicho-papão?
— Um metamorfomago que perdeu a sanidade? — Louis falou baixinho para um colega, o que não passou despercebido pelo professor.
— Criativo, Sr. Hall, mas não.
— Um transformista — disse Escórpio — ele assume a forma daquilo que acha que será mais capaz de nos assustar.
— 5 pontos para a Sonserina, Sr. Malfoy — o Prof. Daugherty declarou, animado. — E se ele é um transformista, qual é a sua verdadeira forma?
— Não há como saber. Assim que ele é confrontado ele já se manifesta como o maior medo de quem estiver na frente dele — completou uma menina da Corvinal.
— Sim, sim, 5 pontos para a Corvinal. O bicho-papão se alimenta do horror que causa nos humanos ao evocar seus temores, então é lógico que o oposto do medo é justamente a melhor arma contra o ser das trevas. Mais precisamente, o riso. O feitiço para repelir um bicho-papão é razoavelmente simples, mas seu efeito depende de singular concentração do bruxo, na tentativa de visualizar aquela forma assustadora que ele assumiu em algo digno de ser ridicularizado. Pratiquemos sem as varinhas. Repitam, por favor: Riddikulus!
A turma entoou a fórmula mágica em uníssono.
— Muito bem, só precisam falar com um pouco mais de clareza, não como se estivessem falando a palavra, em inglês, mas a original em latim. E, acima de tudo, precisam pensar em algo que obrigue o bicho-papão a se transformar de novo, gerando o riso e diminuindo sua influência. Claro que, dependendo do medo da pessoa e do momento do embate, a dificuldade vai variar, mas estando em um ambiente controlado e com várias outras pessoas, creio que não teremos muitos problemas.
O burburinho se instaurou como o som de borbulhas na água de um bule posto no fogão. Ninguém esperava que as aulas fossem começar de forma tão prática, e logo os terceiranistas já confabulavam sobre quem não conseguiria derrotar o monstro, quase todos pensando no que lhes causava medo e em como isso poderia surgir ali, no meio da sala, na frente de todo mundo.
Alvo desviou os olhos para as janelas à esquerda, que tinham o vidro encharcado pela chuva, com gotas apostando corrida para a parte de baixo dos vitrais, iluminadas por um relâmpago ou outro. O professor fez um aceno de varinha que levou todas as carteiras para as laterais, pedindo aos alunos que formassem uma fila única que terminasse a 4 metros do armário.
Ele pensava no que o traria medo a ponto de ser escolhido pelo bicho-papão, mas não conseguia chegar a nenhuma conclusão. Parecia até engraçada a ideia da criatura virar algum bicho ou fonte de susto comum. Não que Alvo não ficasse receoso caso visse uma aranha ou gostasse de cobras, mas nenhuma dessas coisas vinha à sua mente de forma imediata. Não como o tio Rony e sua aracnofobia, ou seu pai com dementadores. O fato de não fazer ideia do que apareceria quando fosse sua vez lhe assustava mais do que qualquer coisa que pudesse imaginar.
Alvo se encontrava no meio da fila, logo atrás de Escórpio, e no minuto seguinte os estudantes começaram a ter, cada um, sua vez de enfrentar o bicho-papão, depois do Prof. Daugherty abrir a porta do armário com outro movimento da varinha.
A maioria seguia bem. Alguns tinham medos fáceis de "atrapalhar" fisicamente, como Louis. Um dos primeiros da fila, assim que se deparou com o bicho-papão, que tinha acabado de se transformar em um monte de baratas, o estimulou a se erguer em um disco esférico rodopiante que parecia assumir mil formas ao mesmo tempo, até se estabilizar na de um palhaço particularmente esquisito. Louis lançou o feitiço e o palhaço ficou só de cuecas, gerando o primeiro riso coletivo da turma.
Outros já ficavam um pouco mais tensos e precisavam de um pouco de amparo do professor, mas acabam conseguindo forçar a criatura a virar outra coisa, ainda que não engraçada.
Alvo prestava pouca atenção no andamento da fila, curioso pelo desempenho dos outros mas ainda frustrado por não saber o que teria de confrontar, até que...
— Sr. Malfoy, um passo adiante por favor.
Alvo levou a mão ao ombro do outro e deu um leve afago, fazendo Escórpio virar e dar um leve sorriso. Os outros provavelmente não perceberiam, mas Alvo já se acostumara a enxergar algumas coisas através da máscara (muito bem formulada) de confiança, e sabia que ele estava um pouco nervoso.
Escórpio se afastou da linha de alunos e olhou para a planta carnívora que tinha sido enfeitada pelo aluno anterior com flores e um laço fechando a boca. O vegetal invaginou para dentro de si e começou a rodopiar, pensando em que silhueta assumir.
Passaram alguns segundos a mais do que nos outros, até que o mini-furacão começou a escurecer e perder definição. Alvo tentou focar a visão, mas a imagem foi ficando cada vez mais densa e negra, até que, num estalo, se expandiu e pareceu preencher toda a sala com absoluta escuridão.
Alguns alunos grunhiram de susto, mas o professor fez um chiado pedindo silêncio, dando a entender que estava tudo sob controle. Alvo não conseguia enxergar nem mesmo Escórpio, um metro e meio na sua frente. Dava pra ouvir um murmúrio ou outro, mas todos pareciam estar na expectativa pela resolução.
Alvo estava tão preocupado consigo que não tinha pensado no que apareceria para o melhor amigo, mas realmente não se lembrava de nada que o tivesse amedrontado nos dois anos que se conheciam. O escuro era um medo quase que universal, natural à própria essência humana, mas devia ser especialmente ruim para ele. E era, no mínimo, algo inusitado de tentar mudar a forma. Como transfigurar a simples falta de luz?
— Bem, Sr. Malfoy... se precisar de ajuda...
— Lumos Maxima.
A voz de Escórpio reverberou pela sala com limpidez, e da ponta de sua varinha uma luz branca começou a crescer, refletindo em todos os cantos e deixando o ambiente visível de novo. As tochas nas paredes que antes iluminavam o local tinham se apagado, mas a cada segundo que passava o brilho conjurado pelo louro se intensificava, até que ficou possível ver o globo giratório do bicho-papão, ainda obscuro, no mesmo lugar onde estivera antes de se alastrar no recinto.
Alvo ficou olhando a postura perfeita de Escórpio, que acenou com a varinha, fazendo a fonte de luz se desprender e se aproximar da besta, diminuindo-a até um pequeno ponto preto pairando no ar. Ele abaixou a varinha, apagando a luz, e o bicho-papão permaneceu inerte.
Fez-se um silêncio por um momento.
— Muito curioso. Pouquíssimas vezes vi um bicho-papão ser neutralizado de forma tão eficiente com outras estratégias mágicas, mas acredito que, no seu caso, o Feitiço de Iluminação tenha sido um contraponto ainda mais poderoso do que o que eu ensinei hoje. Parabéns Sr. Malfoy, 10 pontos para a Sonserina.
Alvo mal teve tempo de olhar para ele conforme Escórpio ia para o fundo da sala.
— Sr. Potter, pode se aproximar.
Alvo deu um suspiro e se adiantou, olhando para a pequena bola preta flutuante largada pelo amigo.
O bicho-papão cresceu até o tamanho normal e voltou a se desconfigurar em seu tornado próprio. Alvo tentou pensar em alguma coisa assustadora trivial, mas suspeitava que o ser não se deixaria enganar por uma tentativa de induzi-lo a virar qualquer coisa que não o maior pavor do combatente. Na disputa mais demorada, o monstro levou 10 segundos para se decidir em uma forma, e agora já estava há mais de um minuto. O silêncio voltou a se impôr, a expectativa crescendo, e o professor começou a olhar intrigado para o bicho-papão, talvez conjecturando se Escórpio não o tinha "quebrado". Alvo já estava começando a pensar se aquela não seria a desconhecida forma original da criatura: um vórtex disforme voador. Distraído, Alvo quase não se tocou de que, lentamente, o bicho parecia desacelerar.
Finalmente percebendo a mudança, Alvo observou enquanto a esfera se achatava, transformando-se em um disco plano e espectral, as bordas se desfazendo em traços de sombras como uma moldura fantasmagórica. Era como um espelho oval sem pedestal, a superfície sem reflexão virada para a classe.
Aos poucos, imagens começaram a se tingir no objeto, mas não eram um reflexo da turma. O disco mostrava, sem dúvidas, a sala de estar da casa dos Potter, e nela se via o desenrolar de uma cena. Harry apontava, claramente gritando (embora não saísse nenhum som do bicho-papão), para um Alvo petrificado na parede da porta de entrada, o rosto pálido e a expressão de puro desespero. Gina, na parede oposta, se encostava em uma cristaleira e cobria o rosto, as mãos trêmulas. Harry apontava a varinha para Alvo, mas, depois de ponderar, virava para a escada e emitia um lampejo, fazendo com que uma mala, a mala de Alvo em Hogwarts, descesse flutuando, estacionando do lado do menino. Outro aceno de varinha e a porta da sala se escancarou, a rua lá fora sendo castigada pela chuva. Harry deu as costas pro filho e subiu para o segundo andar, a capa esvoaçando pelos degraus. Alvo deu uma última olhada para a mãe, puxou a bagagem e deixou a casa.
A porta mal se fechara e a cena mudou, passando a mostrar uma cozinha com uma mesa de jantar no centro. Nela, sentavam-se duas crianças, uma mulher e, na ponta do móvel, um Alvo já em sua terceira década de vida. Muito parecido com ele aos 13 anos, e também muito parecido com o próprio pai, Alvo mostrava ali uma face de total e inegável apatia. As crianças pareciam comer entusiasmadas, e a mulher falava com ele com um rosto aparentando felicidade. Tudo que não se via nos olhos verdes quase mortos de seu marido.
Mais uma mudança de imagem. Alvo agora tinha seus 50 anos, sentado em uma poltrona de um quartinho mal decorado, um livro largado do lado, o rosto fitando o vazio. Parecendo sozinho. Um flash, e agora Alvo tinha 60 anos, caminhando em um bosque vendo outras famílias, casais jovens, casais idosos, todos em seu próprio ritmo e parecendo mini-sóis vigorosos, orbitando em torno de Alvo, mais pálido, mais indiferente, também sozinho. Um último estalo, Alvo enrugado em um leito do Hospital St. Mungus para Doenças e Acidentes Mágicos. Na enfermaria, outros senhores e senhoras em suas camas, cada um sendo visitado por outro indivíduo. Filhas, filhos, cônjuges envelhecidos com as mãos entrelaçadas no amado, agora enfermo. Alvo olhou para a mesa de cabeceira branca ao lado, um vaso de vidro vazio. Em todos os outros de outros leitos, flores das mais diversas cores. Ele fechou os olhos.
— Sr. Potter...
Alvo não virou para o Prof. Daugherty, nem para nenhum dos outros alunos. Pegou sua mochila com uma mão e foi andando para sair da sala, a outra mão esfregando com força os olhos cheios de lágrimas. Não quis fechar a porta nem olhar para trás.
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