A Queda dos Devoradores
10 1979 - Parte 1
Notas iniciais
Fevereiro, 1979
Helena nunca se ia habituar a estar no mesmo espaço que outros Devoradores da Morte. As reuniões eram sempre uma tortura. Todos olhavam para Voldemort como se ele fosse uma espécie distorcida de deus, quase se matando uns aos outros apenas para beijar o chão que ele pisava. As reuniões em casa de Lucius Malfoy eram as que mais a entediavam.
Estava á cerca de meia hora a olhar para a mesa, com a mente a divagar sobre outros assuntos, quando ouviu algo que chamou a sua atenção – Não precisamos de nos preocupar com a Ordem de Fénix, tenho um fiel espião lá – Comentou Voldemort, parecendo aborrecido por terem tocado no assunto.
Os olhos azuis de Helena cravaram-se nele, atentos, antes de voltarem a olhar para mesa.
X-x-X
– Tens a certa do que estás a dizer? – Questionou Dumbledore, preocupado.
Helena puxou o capuz quando viu alguém entrar no bar e olhou para a mesa – Absoluta, foi o próprio Lorde que o disse numa das reuniões.
O professor suspirou, dando um gole na cerveja amanteigada que Aberforth tinha trazido para os dois, tinha-se tornado um costume – Porque fazes isto?
– Pode repetir?
– Porque me passas informações? Não pode ser só culpa. Isto é perigoso, tem de haver outros motivos para o fazeres.
A loira mordeu o lábio, ponderando falar — Amo o Sirius – Começou, desviando o olhar para as próprias mãos – Mas não podemos estar juntos, eu... Já fiz mal a muitas pessoas, professor, e ele merece alguém que não esteja tão sujo quanto eu, não faz parte do meu destino ficar com ele.
X-x-X
Regulus colocou a cabeça sobre o seu colo, com uma expressão abatida que parecia adornar a sua face nos últimos tempos. Helena suspirou, começando a mexer-lhe no cabelo gentilmente, esperando que ele lhe dissesse o que o preocupava.
– Quero deixar de ser um Devorador – Confessa, ao fim de alguns minutos.
Helena arregalou os olhos, surpresa, e segurou-lhe a cara, forçando-o a olhar para ela.
– Nunca mais repitas isso, Regulus, sabes o que eles te faziam – Humedeceu os lábios, nervosa – Não te posso perder, és tudo o que tenho.
Março, 1979
Todos os cómodos da casa cheiravam a pó e a ao mofo. Torceu o nariz, caminhando até uma das portas do corredor e descendo as escadas para a cave. O Lorde estava em pé, na frente de uma mulher desmaiada, provavelmente vitima de tortura.
Os olhos gelados dele fixaram-se em Helena quando notou a sua presença e quando ele sorriu, ela sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha – Tenho uma ordem para te dar.
– Eu vivo para servi-lo, meu Lorde – Respondeu, olhando para baixo em submissão.
Voldemort aproximou-se dela, colocando-lhe uma mexa do cabelo loiro para trás da orelha e sibilou – Quero que mates Regulus Black.
X-x-X
Helena chorava agarrada a Regulus, pedindo que arranjasse uma maneira de desaparecer, que não suportava a ideia de vê-lo morto. Ele acariciava os seus cabelos, pedindo-lhe calma, mas parecia mais abatido do que nunca.
– Eu descobri algumas coisas sobre o Lorde – Disse, continuando a passar-lhe a mão pelos cabelos. Helena abraçou-o, enterrando a cabeça na curva do seu pescoço – Ele dividiu a alma em Horcruxes e eu sei onde está um deles.
– Que precisas que eu faça? – Questionou com a voz abafada, entendendo onde ele queria chegar.
Regulus afastou-se, olhando-a no olhos – Preciso que me ajudes a roubá-lo.
X-x-X
Os gritos de Regulus pareciam ecoar na caverna, enquanto ele se remexia no chão e arranhava a própria garganta. Helena pegou numa pena e no pequeno papel, e começou a escrever, lentamente, pegando as poucas coisas que ele lhe conseguia dizer.
"Ao Lorde das Trevas
Sei que há muito estarei morto quando ler isto, mas quero que saiba que fui eu quem descobriu o seu segredo.
Roubei a Horcrux verdadeira e pretento destruí-la assim que puder.
Enfrento a morte na esperança de que, quando você encontrar um adversário à altura, terá se tornado outra vez mortal.
R.A.B."
Colocou o papel no medalhão falso, repetindo o feitiço que tinha desfeito antes, e que levara Regulus à beira da loucura. Pegou nele, apressada, e desaparatou.
X-x-X
– Kreacher, por favor, ajuda-me – Pediu, aparatando na cozinha e arrastando Regulus consigo. O elfo resmungou alguma coisa sobre a senhora, e ajudou-a a carrega-lo para o quarto. Colocou-o sobre a cama e tentou todos os feitiços que conhecia, tentando aliviar-lhe a dor. Inúteis, na verdade, pois ele continuava a gritar, e logo Walburga ou Orion estariam em casa, tinha pouco tempo para resolver a situação.
– Mata-me – Suplicou-lhe, mas Helena balançou a cabeça, segurando as lágrimas – Eu não aguento, por favor. É a única maneira de te salvares também. Se o Voldemort descobre, estamos os dois mortos de qualquer maneira.
A loira começou a chorar, e abaixou-se, dando-lhe um longo demorado beijo nos lábios – Desculpa Regulus, desculpa-me – Pediu, antes de puxar a varinha. Ele sorriu-lhe e Helena fechou os olhos, apontando a varinha na sua direção – Avada Kedavra.
X-x-X
– O Regulus está morto – Comentou Marlene, como se estivesse a falar de mudar a cor das unhas.
– O quê?
Ela olhou para ele, suspirando – O teu irmão morreu Sirius. Queres ir ao funeral?
Balançou a cabeça, sentindo-a de repente mais pesada – Não, não faço parte daquela família.
X-x-X
O funeral tinha sido difícil, o mais difícil que podia ser para a pessoa que matou quem estava a ser enterrado. Helena permaneceu à distancia e mesmo que todos soubessem que Regulus era um traidor, depois do Lorde ter explicado a ordem que lhe dera, ela ainda sentia os olhares de Walburga na sua pele, queimando-a por dentro. Imaginou que ela a culpasse por ter levado o único filho que tinha, uma vez que Sirius tinha sido completamente esquecido.
X-x-X
Sirius abriu a porta à terceira batida. A loira abraçou-o, chorando, e ele puxou-a para dentro. No fundo, tinha imaginado que ela iria aparecer, querendo algum consolo depois da morte de Regulus, mas não podia evitar sentir-se de certa forma usado.
– Fui eu que o matei, Voldemort deu-me a ordem – Sussurrou, agarrando-se ainda mais a ele.
Engoliu em seco, absorvendo as palavras, antes de falar – Não te culpo, Helena, tenho a certeza que o Regulus também não. Ele... – Mordeu o lábio, pausando – Ele amava-te. O que te ia acontecer se não cumprisses ordens?
– Não sei, não parei para pensar ainda, não consigo esquecer o olhar do Regulus quando eu o matei – Murmurou, contra o seu pescoço. Sirius estremeceu, sendo abalado por memórias deles os dois juntos, naquele mesmo sofá.
– Sei de uma maneira de te fazer esquecer – Disse, antes de puxá-la para um beijo.
X-x-X
Kreacher colocou as malas de Helena na entrada, ainda a refilar. Duas semanas mais tarde, tinha finalmente conseguido encontrar uma pequena casa e podia começar a viver sozinha. Sem Regulus, não fazia qualquer sentido continuar a viver com os Black, e não tinha qualquer vontade de voltar a viver com os pais. Abaixou-se, puxando o medalhão do casaco e colocando-o na mão do elfo.
– Preciso que o destruas, era a ultima vontade do Regulus.
O elfo olhou-a, parecendo desinteressado, mas desaparatou com o medalhão, sem mesmo lhe dar explicações. Helena suspirou, pegando nas malas e fazendo o mesmo.
Maio, 1979
Aparentemente, estava destinada a ver funerais da família Black.
Orion, pai de Sirius e de Regulus, tinha morrido com apenas cinquenta anos. Walburga podia ser uma mulher fria, mas parecia realmente desolada, agarrada a Narcissa. Helena não se quis aproximar, sabendo que a mulher ainda guardava algum rancor, então sentou-se, esperando que Kreacher aparecesse com as bebidas.
Morgana apareceu estonteante num vestido preto colado ao corpo, e sentou-se ao seu lado. Tinha que admitir, a sua mãe sabia sempre o que usar, fosse qual fosse a ocasião.
– O Regulus morreu à dois meses – Começou, chamando a sua atenção – Por muito que gostasses dele, não passava de um traidor – Helena mordeu o lábio, impedindo uma resposta mal educada de sair – Acho que devias mostrar algum afeto ao Rabastan, ele parece um tolo apaixonado perto de ti.
A loira soltou uma gargalhada, mal acreditando no que ouvia – Preferia mostrar afeto a um troll – Cuspiu, levantando-se e olhando furiosa para a mãe – Ainda bem que não giro a minha vida em torno daquilo que achas, Morgana.
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