A Queda dos Devoradores
9 1977 & 1978
Notas iniciais
Novembro, 1977
Helena colocou as malas no quarto de Regulus, antes de sair á procura dele pela casa. Walburga tinha saído, e Orion estava fechado na biblioteca. Não imaginava onde ele pudesse estar até o encontrar parado á frente da tapeçaria dos Black.
Suspirou, abraçando-o por trás e dando-lhe um beijo no pescoço.
– Está tudo bem?
Ele virou-se para ela, abraçando-a antes de lhe beijar a testa – Achas que fizemos bem? Tu vires viver comigo, quer dizer – Pausou, mordendo o lábio – Eu sei que ainda pensas no Sirius, e nós só estamos juntos á um mês.
– Estou contigo porque quero – Disse, antes de sorrir – E sabes como é a minha mãe, ela quase me expulsou de casa para vir viver contigo.
Dezembro, 1977
– Tens tido noticias do meu irmão?
A pergunta é feita tão casualmente, enquanto ele lhe acaricia os cabelos após fazem amor, que Helena quase acredita ter sido fruto da sua imaginação. Depois, ele repete, e ela sente o ar fugir-lhe os pulmões, como se a estivessem a esmagar.
– Nunca mais o vi desde que terminei o 7º ano – Responde, ao fim de um tempo.
Regulus puxa-a para si, dando-lhe um beijo demorado nos lábios. Helena corresponde, automaticamente, mas o seu coração está pesado de culpa. Quando ele a solta, e a olha com carinho, é como se uma faca lhe atravessasse o peito – Gostava que as coisas tivessem sido diferentes. Por vezes tenho saudades dele.
Eu também.
Março, 1978
– Tenho ordens para ti – Informa-a Bella, quando ela desce para tomar o pequeno almoço e a encontra na sala. Kreacher traz-lhe algumas torradas, desaparecendo no corredor, e Helena senta-se, comendo e esperando que ela fale – O Lorde tem alguém que precisa que tortures.
Helena coloca a torrada que comia de lado, quando o sabor lhe parece subitamente terra.
– Está bem, quando tenho de começar? – Bella sorri, satisfeita, e levanta-se, dando-lhe um beijo na bochecha.
– Estou tão orgulhosa por seres parte da nossa família. Começas hoje mesmo.
X-x-X
– Crucio! – Os gritos do jovem homem preencheram a cave e Helena sorriu, quase sadicamente, enquanto caminhava em volta da cadeira e o via remexer-se, impossibilitado de se mexer devido ás cordas que o prendiam.
– Por favor, por favor – Ele suplicou, no meio dos gritos.
A loira parou à frente dele e segurou-lhe o rosto, olhando no fundo dos seus olhos castanhos, e parando a maldição – Tens algo a dizer? Algo sobre o Ministério? – A pergunta pareceu despertá-lo da dor que infligia sobre ele fazia duas horas.
– Nunca te vou dizer nada – Disse, com a respiração entrecortada.
Helena olhou para ele, antes de sorrir – Bem, tenho de dizer que isto é realmente uma pena, começava a achar-te alguma piada – Confessou, antes de puxar a varinha e aponta-la na direção dele – Avada Kedavra.
Outubro, 1978
Helena ainda não tinha decido o que fazia ali, para dizer a verdade.
Os olhares de ódio e desprezo que lhe direcionavam eram mais do que justos, mas mesmo assim, sentia-se incomodada. Tinha destruído familiares daquelas pessoas, tinha observado com um sorriso enquanto eles eram torturados ou mortos à sua frente. Era um monstro.
O que fazia um monstro no casamento de Lilian Evans e James Potter? Suspirou, pegando uma taça de champanhe e apreciando o sabor. Talvez as bebidas Muggles não fossem tão más quanto pensava.
X-x-X
A cerimónia tinha sido lenta. Dolorosamente lenta, na opinião de Helena.
Tinham-na sentado do lado de Sturgis Podmore, e o que ele tinha de belo, também tinha de irritante. As outras mulheres podiam acha-lo encantador, mas Helena já só queria que ele se calasse e passou o tempo todo, até que James e Lily dissessem o sim, suplicando mentalmente que aquilo acabasse depressa.
Parte da sua irritação devia-se ao facto de Sirius estar presente, o que era natural por ele ser padrinho, mas também por estar acompanhado de Marlene, num estonteante vestido vermelho que parecia querer ofuscar a noiva.
Lily caminhou na sua direção quando a cerimónia acabou e se seguiu a festa. Sorria de uma maneira tão genuína e feliz, que o seu rosto pareceu brilhar. Helena retribuiu o sorriso e o abraço que ela lhe deu, meio atrapalhada.
– Parabéns – Disse, quando ela a soltou.
– Um dia espero que me convides para o teu casamento também.
Riu, nervosa – Acho que te ias sentir tão deslocada quanto eu me sinto.
– Desculpa – O sorriso de Lily pareceu morrer quando falou – Eu sei que deve ser difícil, mas eu queria que estivesses cá... És minha amiga, apesar de todas as más escolhas que possas ter feito e continues a fazer.
A marca no seu braço parecia arder, e Helena esfregou-o nervosa, como se as pessoas á sua volta a pudessem ver debaixo das mangas do vestido – Está tudo bem, eu consigo lidar com uns quantos olhares, se não, não tinha vindo.
X-x-X
Sirius impediu-se de olhar para Helena desde que ela tinha aparecido. Os murmúrios que a seguiam pareciam deixa-la incomodá-la e ele tentou colocar-se na pele dela, estando no meio de uma festa onde maioritariamente era odiada. Apesar de tudo, não conseguiu evitar notar o quão ela estava estonteante, mesmo que sombria, no longo vestido preto que se colocava ao corpo como uma segunda pele. Foi incapaz de evita-la, contudo, quando Lily caminhou na direção dele, James e Marlene, puxando Helena consigo.
– James, a Helena quer ir embora, diz-lhe que ainda é cedo! – Ralhou Lily, parando na frente deles. A loira olhou para Sirius e desviou o olhar, incomodada, quando ele retribuiu.
– Lily, a Helena é grandinha, sabe o que quer – Explicou James, paciente.
A ruiva bufou inconformada, mas antes que pudesse retorquir, Marlene falou – Soube que estás com o Regulus, não conseguiste o Sirius e correste atrás da cópia barata?
– Marlene! – Rosnou, avisando-a.
A namorada revirou os olhos – É verdade. Não é? – Perguntou, olhando para a loira.
Helena fitava-a, visivelmente irritada, mas voltou-se para Lily e para James, ignorando a morena – Parabéns, de novo, desculpem, mas o melhor é mesmo ir embora.
James sorriu-lhe, dando-lhe um pequeno abraço — Tudo bem, obrigado por teres vindo.
Lily abraçou-a e choramingou um pouco, pedindo desculpas pela atitude de Marlene. Helena despediu-se e foi embora, sem nem mesmo olhar na direção dele. Sirius observou-a desaparecer entre os convidados, sem saber se algum dia a voltaria a ver.
Novembro, 1978
O Cabeça de Javali estava quase vazio, àquela hora da noite. Helena franziu o nariz, perante o cheiro forte a cabra e sentou-se numa das mesas de madeira tosca. Puxou ainda mais o capuz, certificando-se que tinha o rosto encoberto pela escuridão, e aguardou.
O dono do bar, um homem alto e magro, de cabelos e barbas grisalhas, aproximou-se.
– Vais querer alguma coisa?
Helena olhou para ele, mas quando ia falar, o homem que esperava sentou-se á sua frente, sorrindo – Trás duas canecas de cerveja de manteiga, Aberforth, por favor – Ele assentiu, desaparecendo na direção do balcão, e Helena respirou fundo.
– Obrigada por ter vindo.
– Então, sobre o que querias falar?
– Eu preciso de ajuda, sinto-me perdida – Fez uma pausa, olhando para ele nervosa – Sabe quem eu sirvo, não sabe professor? Lily e James, talvez eles tenham comentado.
– Suspeitava, sim, mas nunca nenhum dos teus amigos me disse nada, garanto-te.
As canecas foram colocadas à frente deles. Helena tomou um longo gole, antes de continuar – A morte, a tortura, está a acabar comigo, aquilo que eu tenho de ver, aquilo que me estou a tornar, é como se eu fosse duas pessoas diferentes, eu... – Mordeu o lábio, sentindo os olhos arderem, antes de olhar para ele com determinação – Eu irei passar-lhe todas as informações que conseguir do Lorde, professor Dumbledore, mas, por favor, é um segredo só nosso.
Ele fitou-a, preocupado – Tens a certeza?
– Nunca tive tanta certeza de algo na minha vida.
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