A Queda do Mundo Pokémon

3 Um novo mundo de aventuras! (Eca, que horrível)


O caminho até o centro Pokémon foi tranquilo, bom... Depende da sua definição de tranquilo. Para mim foi algo bem estranho, fazia muito tempo que eu não tinha uma boa conversa com alguém que não fosse um Pokémon ou não estivesse bêbado, então devo dizer que minhas habilidades comunicativas estavam... falhas, no momento. Toda vez que eu a olhava, via como suas roupas eram de boa qualidade, seu cabelo era bonito, sua maquiagem bem-feita... Aquilo tudo era estranho para mim, porque alguém como ela se importaria comigo? Ser tratado como alguém e não somente como mais um era algo que eu definitivamente não estava acostumado.

Apesar dela conversar normalmente comigo eu ainda tinha desconfiava dela. Se eu aprendi algo nesse tempo que morei nas ruas foi que nada vem de graça. Ela poderia estar armando para mim ainda, não que eu tivesse algo de valor para ser roubado nem nada do tipo... Mas nunca se sabe, tem de doido pra tudo.

Enquanto caminhávamos, Kyla não parava de me explicar sobre a vida de um treinador Pokémon e de tudo que eles faziam, sobre os líderes de ginásios e sobre o dinheiro que eu poderia ganhar caso vencesse as batalhas.

—Sabe, você ainda não se apresentou completamente... — O tom dela era um pouco mais gentil agora, ela não lembrava nada aquela garota que lutou contra mim e me derrotou sem dó nem piedade, seu olhar passou de agressivo a desinteressado em questão de segundos.

—Como disse antes, eu sou Gray e esses são Kuro e Kage. Somos apenas um grupo de zé ninguéns tentando sobreviver como podemos. Nenhum de nós tem família ou conhecidos que se importem conosco, então... É isso, não somos nada interessantes. — Meu tom podia ser um pouco seco, mas eu não queria demonstrar afeto nem conforto, esse tipo de coisa pode ser facilmente explorado.

—Ah, ok — Disse ela dando de ombros — continuando nossa conversa de antes, a vida de um treinador Pokémon é como um emprego. Além da recompensa em dinheiro, quando você começa a coletar insígnias de ginásio, você passa a ter um reconhecimento muito grande. Não é incomum os líderes ou até mesmo a elite quatro e o campeão serem chamados para defender as pessoas de algum problema de grande escala, até mesmo bons treinadores são recrutados de vez em quando para trabalhar como “freelance”. Você vai ver como isso pode render e além do mais, as batalhas Pokémon são uma ótima chance de você criar vínculos ainda maiores com seus pokémons.

—Muita informação para processar... Elite quatro? Campeão? Seguimos uma hierarquia quando batalhamos?

Ao ouvir aquilo, Kyla deu uma risada que era natural e até mesmo doce, até me surpreendeu um pouco... Parecia que eu estava contando uma boa piada, algo que eu não conseguiria fazer nem mesmo se eu tentasse. Assim que se acalmou, ela voltou a me olhar com aquele olhar desanimado de antes, nem mesmo quando estava feliz ela deixava de me passar a impressão de cansaço, como se ela já estivesse cansada desse mundo há séculos.

—Existem no total, oito líderes de ginásios, que ficam em suas respectivas cidades. Cada líder de ginásio representa um tipo Pokémon, você sabe, não é? Existem pokémons de diferentes tipos como grass, fire, water, rock, ground e muitos outros. Está conseguindo acompanhar ou estou falando rápido demais novamente? — Seu tom era de deboche, mas decidi não dar a ela esse prazer.

—Certo... Até ai está fácil.

—Vou continuar explicando lá dentro. Venha, vamos recuperar a energia dos nossos amigos. — Disse ela enquanto abria as portas do centro Pokémon e entrava. O centro Pokémon era um lugar lindo de estrutura grande que fazia com que eu me sentisse em outro mundo diferente do que eu estava acostumado. Eu normalmente gostava de ir ao centro Pokémon para poder observar os pokémons de outros treinadores que passavam por lá (mesmo que eu fosse expulso se ficasse tempo demais por perto já que tinham medo que eu roubasse alguém). Claro, meu Sneasel estava mais que habituado com o local. Não é algo que eu goste de admitir, mas quando eu ia para lá nós aproveitávamos para roubar coisas de outros treinadores e pessoas desavisadas. Acho que eles estavam certos em me expulsar, afinal de contas.

O centro Pokémon estava com um movimento tranquilo, era possível ver algumas Chanseys correndo para lá e para cá, eu não sabia como elas não caiam já que o chão era de mármore laranja claro nas bordas e escuro mais para o centro e ele era sempre liso e extremamente limpo, fazendo a pokébola enorme que estava desenhada em seu centro parecer sempre nova e passando um ar de seriedade aos treinadores que iam lá. Existiam também diversas enfermeiras que faziam o trabalho com cuidado e com calma, era comum as ver levando, junto com alguma Chansey, pokébolas para lá e para cá. E claro todos que trabalhavam naquele local eram extremamente gentis, parecia que o lugar tinha alguma aura boa que contagiava a todos.

Deixamos nossos pokémons com a enfermeira para ela recuperar sua saúde e subimos algumas escadas para o segundo andar, que era tão grande quanto o térreo. Kyla parecia estar acostumada com o lugar e me levou para um banco que estava no meio de duas portas. Ao lado de nosso banco estavam duas árvores de enfeite e logo a frente no chão, outra pokébola desenhada e sempre muito limpa. — Venha aqui Gray, enquanto esperamos vou falar para você mais sobre os treinadores pokémons. Tenho muito a te explicar ainda. —Obviamente eu fui e me sentei ao seu lado, era meio desconfortável ficar perto assim de uma garota, mas eu tinha que ouvir de qualquer forma as instruções dela. Admito que quanto mais ela falava sobre batalhas Pokémon, mais animada ela ficava. Parecia uma criança com um brinquedo novo.

— Depois de ganhar as oito insígnias de seus respectivos ginásios, os treinadores passam por um local desconhecido, aonde todos vão juntos no objetivo de chegar ao prédio onde a elite quatro está. E vamos dizer que você seja um bom treinador e consiga vencer a elite quatro, você tem a chance de desafiar o atual campeão e assumir o posto dele caso o derrote.

— Bem, acredito que seja mais fácil de entender na prática, mas entendi sim. — Não sei se meu olhar pareceu confuso ou fiquei sério demais ao prestar atenção, mas ela sorriu mais uma vez, dessa vez ela parecia rir comigo e não de mim, então resolvi não ligar.

—Você tem um local onde ficar, Gray? Ou você dorme nas ruas?

—Às vezes em alguns bancos, não necessariamente nas ruas. — Dei de ombros e abaixei um pouco a vista, não era muito legal e muito menos fácil você falar para os outros que sua definição de “casa” é a base de uma arvore, isso se você tiver sorte. Por mais que eu já vivesse daquela forma há algum tempo, ainda era difícil admitir que minha vida tivesse se resumido á aquilo, mas não era como se eu tivesse como fazer algo a respeito.

—Oh, entendo... Mas sabe, quando terminarmos aqui de recuperar nossos pokémons, você poderia me acompanhar até minha casa e eu te ensinaria um pouco mais sobre as batalhas pokémons, você é bem inexperiente nisso e com certeza vai tomar uma surra se tentar sair por ai desafiando os líderes sem instrução alguma, que tal? — Ela falava enquanto dava um sorriso amigável para mim. Apesar de eu não confiar nada nela e sua aparência ainda me assustar um pouco, eu começava a ter a impressão de que ela me via como igual, como alguém que não merecia viver nas ruas. Algo em seu tom me tranquilizava e me deixava confortável. Sem contar que ela parecia tão feliz em ter alguém para conversar sobre Pokémon que imagino que ela ainda tinha muito para me contar. Um toque vindo do primeiro andar chamou nossa atenção.

—Bom, vamos ver como estão nossos pokémons, Gray. A minha casa não é muito longe daqui e tenho certeza que você vai gostar de lá.

—Não quero incomodar sua família, provavelmente não vão gostar de alguém como eu por lá... — Minha expressão continuava fria e séria quando disso aquilo, eu já estava de pé, mas percebi que Kyla não levantou e me olhava de forma curiosa.

—Está tudo bem, ninguém vai nos incomodar pode confiar em mim. — Disse ela desviando seu olhar, algo parecia a incomodar ao pensar naquilo.

Assim que nossos pokémons foram devolvidos em suas respectivas poké-bolas, saímos do centro Pokémon e fomos até a casa da Kyla. Claro, minutos após sairmos de lá Kuro já estava em meu ombro e Kage me seguia flutuando logo atrás, eu não ia prendê-los mais naquelas poké-bolas, pokémons não foram feitos para ficar presos daquela forma e eu simplesmente não achava certo fazer aquilo com eles só pela minha comodidade.

O caminho foi curto, porém Kyla permaneceu quieta e séria por quase todo o percurso, algo que levantou minhas suspeitas novamente...

Isso me preocupava até encontrarmos duas amigas de Kyla no meio do caminho, ao chegarmos mais perto delas percebi que eram as duas esquisitas que estavam com Kyla antes de se separarem. Elas pararam de conversar assim que viram Kyla e se viraram para nós enquanto soltavam fumaça de cigarro em nossa direção, algo que fez eu querer quebrar a cara das duas. É sério gente, não tem coisa mais fedida do que fumaça de cigarro (e vomito de bêbado... Mas isso é uma história para outro dia), nunca soprem a fumaça na cara de alguém desse jeito a não ser que queira problemas.

—E então, entregou o fedelho que estava te seguindo para a polícia? – A moça mais alta falava com um tom de arrogância para Kyla, típica de pessoas com muito dinheiro e filhinhas de papai. Naquela altura, eu já havia percebido que minha presença poderia causar problemas eu me encolhi atrás de Kyla, mas infelizmente o corpo esquelético dela não foi suficiente para tampar meu corpo esquelético. Assim que ela me viu ela parou de falar e me analisou com cuidado enquanto estreitava os olhos para mim. — Parece que não... Qual a ideia brilhante dessa vez, garota? Está querendo mais um cachorrinho ou algum empregado, é isso?

—Ora, será que a nossa queridinha está tentando tirar esse pedaço de lixo das ruas? Vai ver caiu na lábia dele e vai dar roupas e comida para ele, ou talvez ela tenha ganhado um novo namoradinho... — Disse a outra garota com um sorriso irônico — Eu sinceramente esperava muito mais da tão cheia de pose, Kyla. — A arrogância da outra moça era igualmente grande de forma que o rosto de Kyla corou quase que instantaneamente, não sabendo o que responder para elas.

—Gente, vocês não precisam fazer todo esse barulho só porque eu estou acompanhando a Kyla, se continuar assim vocês vão se atrasar para a apresentação no circo. Ou será que essa maquiagem de vocês não foi feita na intenção de parecer um palhaço? Porque isso sim seria uma piada... — Assim que disse isso as garotas ameaçaram vir para cima de mim, porém Kyla foi mais rápida que elas ao dar uma cotovelada em meu estomago. Até mesmo Kuro pulou de meu ombro com o susto.

—Não liguem para o que esse moleque está falando, ele esqueceu o lugar dele. Apenas vou levar essa coisa para casa a fim de dar uma lição nele. Quem sabe vou deixar ele trancado em algum armário passando fome e implorar para ser entregue para a polícia, ou talvez eu pudesse colocar ele para fugir de alguns pokémons que nossa mansão tem, o Aerodactyl da família vai apreciar ter um novo brinquedo.

Ela me olhava com um olhar ameaçador e que fazia jus ás suas ameaças, eu não podia dizer se ela estava falando sério ou não apesar de suas amigas ainda olharem para ela com desconfiança. Apesar disso tudo, havia algo de verdadeiro no que ela havia falado. Eu não deveria estar lá, afinal, eu não me esqueci do meu lugar. Estava indo para lá com um objetivo e ele seria realizado, roubaria o que fosse de valor e conseguiria viver uma vida um pouco melhor. Ou pelo menos isso era o que eu dizia a mim mesmo, lá no fundo minha cabeça ainda estava incerta sobre o que fazer com essa garota...

—Você não era tão má assim Kyla, acho que nossa influencia começou a mudar você. Bem, faça como quiser, só não se esqueça de entregar ele logo para a polícia... A lábia desses tipinhos aí costuma ser algo bem traiçoeiro. — Disse a garota mais alto enquanto passava por nós, já com outro cigarro em mãos novamente.

—Espero que saiba o que está fazendo cabeça de mato. Lembre-se de não matar esse rato, ou talvez você deva, ele não faria falta alguma para ninguém de qualquer jeito. — Disse a outra garota com um tom animado, como se estivesse contando uma piada. Antes de passar por nós ela parou em minha frente e fez um sinal com a mão direita para eu me aproximar dela. Aproximei-me lentamente por não querer causar mais problemas a Kyla, somente para pisar em um monte de cocô de Rattata que estava na calçada. Ela começou a rir exageradamente e finalmente passou por mim, meu primeiro instinto foi de perseguir ela e esfregar meu tênis na boca dele, porém apenas abaixei a cabeça.

Sim, isso me faz parecer um covarde. Mas para falar a verdade... Eu sou um mesmo. Já estou acostumado a ser maltratado por policiais entediados ou até mesmo pessoas de classe média passeando pela cidade, sabia bem que em situações como essa a escolha mais sabia era deixar meu orgulho de lado e ficar quieto até que meus agressores se cansassem de pisar em mim e fossem embora. Kuro estava claramente irritado com aquela situação, porém não iria atacar ninguém sem minha ordem. Eu estava envergonhado demais para o olhar nos olhos. Kage era mais compreensível com esse tipo de situação, assim como eu ele foi criado nas ruas (diferentemente de Kuro que foi abandonado por seu treinador no passado), então ele sabe melhor do que ninguém como sua situação pode piorar caso você tente lutar sempre que algo acontecer.

Tossi um pouco e ficamos lá parados por um tempo, parecia que o silencio iria nos fazer companhia para sempre, mas então Kyla resolveu quebrar o gelo.

— Esqueça o que aconteceu aqui e o que falamos. Nada daquilo importa, ok? Você tem muito que aprender sobre o mundo Pokémon e não vamos deixar aquelas duas atrapalharem isso. Vamos logo para minha casa e você vai ver muitas coisas! —Apesar das palavras de incentivo, ela não me olhava nos olhos. De alguma forma estranha, aquilo foi tão doloroso para ela quanto foi para mim.

Depois de andarmos um pouco em silencio, finalmente chegamos a sua casa. Perdão, eu disse casa? Acho que o termo mais apropriado seria mansão. Aquele local era verdadeiramente enorme, eu não me lembrava de ter visto nada assim na minha vida e eu jamais imaginaria que ela era de uma família tão rica. Assim que passamos pelos portões de ferro que protegiam a entrada, eu comecei a olhar em volta com um olhar impressionado.

— E aí, o que achou? Era o que esperava? — Ela dizia com um olhar travesso e mais animado do que antes. Diferente de mim, que estava quase sem ar com a imensidão daquele jardim, Kuro e Kage pareciam estar com a mesma impressão e igualmente surpresos.

O caminho principal era feito com tijolos beges claros e muito bem trabalhados, o caminho todo era cercado por árvores bem podadas e algumas até com desenhos. O caminho tinha algumas saídas que levavam para outros locais no próprio jardim, pude notar que um deles levava para uma cobertura pequena e redonda, feito de mármore branco e o teto redondo de madeira laranja escuro, provavelmente um local para descanso, já que o chão parecia ter um carpete vermelho e havia algo parecido com uma escrivaninha lá dentro.

Em outro caminho era possível notar uma estrutura grande a distancia, eu presumi que era alguma coisa parecida com uma estufa, pois o local era parecido com um galpão e coberto de vidros para todos os lados. Bem, eu acho que estava boquiaberto com tudo isso, porque a Kyla não parava de me olhar e rir da minha cara de besta. Realmente a situação era complicada, normalmente eu estava acostumado a viver nas sarjetas e agora estava naquela mansão... Imagino que minha cara deveria estar bem engraçada mesmo. Era possível ver alguns pokémons no jardim, como um hoothoot em uma árvore e um casal de Taillows voando devagar e passando por cima das nossas cabeças em direção à cidade.

—Bem-vindo! — Disse ela segurando meus ombros por trás e me empurrando em direção a entrada da mansão — A um novo começo!