A Queda do Mundo Pokémon

4 Caramba, eu sou um ótimo psicologo, hein?


Enfim estávamos na mansão de Kyla, e tenho que admitir que esse lugar faz jus ao nome. Apenas o salão principal já era grande o bastante para abrigar todos os Pokémons abandonados de Metal City. Um mordomo (sim, aqueles que usam terno preto de forma que o fazia parecer um Prinplup... Com um bigode branco na cara) me encarava com um olhar severo enquanto conversava com sua mestra, é até estranho pensar que alguém da idade de Kyla pudesse ser mestre de alguém além de seus pokémons.

—E aí? Maior do que esperava? Vamos lá, não precisa ser tão tímido aqui dentro. Caso precise de algo pode pedir para que Sullivan ou as outras empregadas peguem! Aliás, pessoal — Disse Kyla chamando a atenção de todos que estavam por perto — este rapaz com cara de Slaking se chama Gray e ele é meu convidado para ficar aqui algum tempo, espero que todos o tratem bem a menos que queiram ser mandados para a rua! — Enquanto ela falava todos os empregados se curvavam um pouco para mim em um ato de respeito. Apenas o mordomo que havia nos recepcionado, Sullivan, que relutou um pouco em se curvar e me receber. Mas por fim o olhar severo da Kyla foi mais forte que sua teimosia e ele o fez. Assim que ele se curvou eu percebi um sorriso surgir no canto do rosto de Kyla, ela parecia muito mais tranquila agora que não precisava fingir ser como suas amigas. Apesar de que sua aparência e tom de voz ainda eram um pouco agressivos.

—Espero que os mestres possam usufruir de tudo que desejarem, não seria conveniente preparar um banho para vocês e trazer roupas limpas para os dois? — Ele estreitou os olhos para mim e forçou um sorriso por de trás de seu bigode branco. – Especialmente para o senhor, creio que vestimentas melhores seriam mais adequadas enquanto permanecer em nossa humilde residência.

Aquele sorriso falso, seu cabelo acinzentado por conta da idade, a roupa de Prinplup e as malditas rugas que preenchiam seu rosto. Tudo isso junto fazia com que ele tivesse uma aparência altamente irritante, era como se meus instintos gritassem para que eu tomasse cuidado com ele. Primeiramente era só pela ironia que transbordava em sua forma de me tratar, mas após observar ele por alguns instantes eu comecei a desconfiar dele. Por mais que não tivesse base nenhuma preferi colocar em minha cabeça que ele era alguém perigoso, acho que viver nas ruas por tanto tempo fez com que eu criasse um olhar mais aguçado para esse tipo de coisa.

—Vou precisar de minhas roupas depois, então tome cuidado ao lava-las. E se puder preparar um banho ou algo do tipo para meus Pokémons, eu agradeceria. — Ele apenas acenou com a cabeça e se retirou, admito que eu realmente estava começando a gostar daquela situação, talvez eu consiga me acostumar a uma vida em uma casa daquelas. Tentei afastar aqueles pensamentos de minha mente o mais rápido possível, afinal, estava lá com o objetivo de roubar o máximo possível e ir embora então precisava conhecer o local antes de tudo. Não podia me dar ao luxo de ficar apegado com aquela situação — Olha Kyla, eu nunca imaginaria que você moraria em um lugar desses. Afinal, esse lugar é imenso! Acredito que eu não tenha visto nem metade ainda, certo?

Ela apenas deu um sorriso e fez um gesto com a cabeça para que eu a seguisse. Atravessamos aquela sala de entrada enorme e pude notar que havia uma escadaria branca de marfim que levava até o segundo andar. Haviam também diversas portas no segundo andar que provavelmente levariam a inúmeros quartos desconhecidos e assombrados? Provavelmente não... Mas não pude deixar de imaginar algo assim.

—Aqui é a cozinha — Comentou Kyla — A porta à sua direita é uma despensa, normalmente temos todo o tipo de comida então não se preocupe com isso. A porta á esquerda leva á um porão subterrâneo onde também guardamos alguns mantimentos além de vários barris de vinho que pertencem a meu pai juntos dos escravos que eu coletei durante os anos, acredito que você vá se dar bem com eles. — Disse ela sorrindo gentilmente para mim e continuando em frente. Quando percebeu que eu havia congelado no lugar, ela voltou para mim gargalhando alto — Estou só brincando, idiota! Vamos logo, temos muita coisa para ver ainda.

Ela descrevia sua mansão como se fosse apenas um lugar qualquer no meio da cidade, mas para alguém como eu (apesar de que qualquer pessoa que não fosse ela provavelmente ficaria surpreso ao ver o tamanho daquele lugar) aquilo parecia coisa de outro mundo. Após a cozinha, ela me levou para a despensa que tinha um formato de ‘T’, o corredor ia reto até o fim e depois se dividia em dois, ambos grandes e largos, apesar de darem uma sensação de velhos, com várias vigas de madeira passando no teto e as prateleiras de madeira cheia de produtos. Não passamos muito tempo no porão, já que o lugar parecia um labirinto de barris eu não achei aquele um lugar muito interessante. Ele era incrivelmente grande, provavelmente tinha o tamanho da cozinha e diversos caminhos formados por entre barris e estandes ocupadas por inúmeras garrafas.

A cozinha era tão grande quanto o esperado e tinha diversas cozinheiras, cada uma preparando alguma coisa para a janta que seria servida logo mais. Kyla parecia estar acostumada com aquela situação e andava por lá naturalmente, já eu parecia um robô com um Pokémon no ombro. Kuro estava igualmente impressionado e se mostrava um pouco inquieto perante aquela situação, ele era como eu, não sabia como se comportar em locais muito populosos. Já Kage parecia mais tranquilo em seu jeito brincalhão de sempre, pude até o ver desligando um fio que mantinha um aparelho ligado ao passarmos pela cozinha, o cozinheiro estava doido tentando descobrir o porquê do liquidificador ter parado de funcionar enquanto Kage se dirigia ao meu lado com um grande sorriso no rosto.

Ao passarmos pela cozinha, voltamos ao jardim que rodeava a mansão. Dessa vez estávamos no lado esquerdo da casa, bem perto daquela estrutura redonda coberta que mencionei antes. Agora pude ver que era como uma área de descanso, bem organizada e limpa assim como o resto do local. O jardim estava sendo podado por dois jardineiros mais seus Pokémons. Um Bulbasaur usava Razor Leaf para cortar as plantas mais altas enquanto um Machoke levava uma caixa de instrumentos para seu mestre que estava ocupado podando a grama.

—Você realmente tem muita gente trabalhando aqui, pelo menos solidão não deve ser um problema em um local como esse não é mesmo Kuro? Com uma vida dessas eu nunca reclamaria de nada, isso é um fato...

Ela parou bruscamente e com uma batida dos pés se virou para mim com uma expressão séria e fechada, parecia a menina que eu havia tentado assaltar, que me via como um simples ladrão. Seu olhar apesar estava cheio de ‘raiva’, porém seu rosto estava vermelho como se ela sentisse vergonha disso. Parece que eu acidentalmente encontrei um ponto fraco dela.

—Não tente supor coisas sobre a minha vida! Não tente supor coisas sobre a vida de ninguém mais! Já te mostrei demais desse lugar... —Ela se virou e chamou um dos empregados que estava pelo jardim para perto de nós. — Ele quer ir para o quarto de hospedes, mostre o lugar a ele e ensine como funciona o banheiro, tenho certeza que ele sabe se virar a partir daí.

O empregado apenas acenou positivamente com a cabeça e sem dizer nem uma palavra, ele se aproximou de mim e fez um gesto para que eu o seguisse. Eu realmente queria me desculpar, mas ela já estava tão longe que eu teria que correr para alcança-la.

Então apenas segui o empregado para dentro da mansão enquanto Kyla andava na direção oposta. Poderia apostar tudo o que tenho (vale lembrar que não é muito) que ela estava prestes a chorar quando brigou comigo.

Ao entrar na casa pude notar que todos estavam mais quietos do que antes, os empregados que estavam cozinhando já haviam ido para algum outro local então o barulho dentro da mansão havia diminuído consideravelmente. O homem que me acompanhava me levou até o quarto onde eu poderia me hospedar e descobri que ele possuía um banheiro próprio! A banheira já estava pronta e como seu tamanho era descomunal não foi difícil para mim, Kuro e Kage nos acomodarmos nela e relaxarmos.

Após um longo e relaxante banho, voltei para meu quarto e notei que haviam roupas limpas na minha cama, era um tipo de roupão cinzento que tinha a aparência de ser mais caro do que todas minhas coisas combinadas (o que, de novo, não é muito). Logo que me troquei e deitei na cama, uma empregada bateu na porta e me olhou por entre o vão da porta.

—A senhorita Kyla solicita sua presença para participar da janta. A janta começará a ser servida em breve, então peço que se apresse já que a senhorita não gosta de esperar.

Antes mesmo de conseguir responder ela fechou a porta.

—Um pouco de comida não fará mal para nós, não é? — Disse passando a mão na cabeça de Kuro, ele e Kage apenas concordaram e me acompanharam. Obviamente nossas barrigas estavam roncando como sempre, ao passarmos pela cozinha pudemos sentir cheiros maravilhosos que só aumentaram nossa fome. Afinal, a única coisa que estava em meu estomago era um copo de leite que tomei logo de manhã, me sentia incrivelmente fraco.

A mesa de jantar ela longa e preenchia todo o centro do local, haviam em torno de 20 cadeiras arrumadas simetricamente ao redor dela. Vi que Kyla estava sentada na ponta da mesa então decidi me sentar na cadeira mais próxima, meus Pokémons se sentaram com animação ao meu lado (Bom... Kuro se sentou, Kage apenas... sei lá, flutuou sobre a cadeira dele). Kyla não nos deu atenção, ela lia uma revista com o rosto descansando sobre sua mão. Ela usava uma camisa larga azul junta de uma calça de moletom e pantufas verdes. Seu visual colorido combinava com as tatuagens que cobriam seu corpo, apesar de eu ter ficado encarando ela me ignorou completamente.

Dentro de minutos a mesa estava completamente arrumada, fomos autorizados a comer o que quiséssemos então decidi aproveitar! Comemos sem parar até ficarmos completamente satisfeitos, coisa que demorou muito. Nós chegamos a um ponto em que comíamos tão rapidamente que eu mal sentia o sabor da comida. Como consequência, o jantar passou rapidamente por nós, Kyla se manteve quieta enquanto comia apenas olhando ao seu redor de vez em quando, como se algo estivesse faltando por ali. Ela não comeu muito, parecia realmente desinteressada na comida então não fez muita questão de repetir. Após apenas um prato de sopa ela se levantou, esticou os braços atrás da cabeça e disse que ia dormir. Pensei em perguntar a ela o que havia acontecido, porém não me sentia confortável em perguntar algo tão sério assim no meio de tantos empregados. Então apenas terminei de comer e voltei para meu quarto junto de meus companheiros comilões.

A noite foi quieta demais, não consegui pegar no sono já que a cama de meu quarto era tão macia (Não que eu estivesse reclamando da cama, apenas estou dizendo que seu corpo não se consegue se acostumar a dormir em uma cama maravilhosa após anos dormindo no asfalto) então eu apenas fiquei deitado pensando no que poderia ter acontecido para Kyla perder todo seu ânimo tão subitamente. Kuro dormia tranquilamente e Kage descansava dentro de uma das sombras do quarto, então quando decidi levantar tive que tomar cuidado para não os acordar. Encostei na janela do quarto e comecei a observar o céu estrelado, a lua cheia estava especialmente linda em uma noite como aquela. Ao reparar melhor no jardim, vi algo que parecia uma pessoa sentada em um dos bancos. O vulto olhava distraidamente para o céu, da mesma forma que eu fazia toda noite antes de dormir no banco da praça.

Desci as escadas e decidi checar o jardim, tomei cuidado para não fazer muito barulho pois durante a noite a mansão ficava completamente silenciosa. Era até estranho ver um lugar que era tão vivo durante o dia em um silencio total, qualquer som que eu fizesse ecoava por toda a mansão.

Ao chegar no jardim, pude ver que a sombra era na verdade a mesma garota de cabelo verde que havia passado o dia comigo. Ela estava completamente perdida em seus pensamentos quando eu me aproximei, precisei limpar a garganta para que ela notasse minha presença.

—O que você quer Gray? — Disse ela assim que me viu, ela esfregava seus olhos enquanto falava. Percebi que eles estavam vermelhos e um pouco inchados. Decidi me sentar ao lado dela com cuidado.

—Bem, eu vi que você estava por aqui e fiquei preocupado, além de não conseguir dormir naquela cama super macia. Aparentemente meu corpo foi feito para sofrer mesmo— Comentei esperando algum tipo de reação positiva vindo dela, nem que fosse um sorriso de canto de boca, mas ela apenas me ignorou — ... Você está assim por conta do que eu disse mais cedo? Eu sinceramente não acredito ter dito nada demais, acho que qualquer morador de rua sonharia com... — Fui interrompido por ela antes de terminar

—Você não entende nada Gray, você acha que só ter pessoas perto de você é o suficiente para não estar sozinho, mas não é assim que a vida funciona Gray, não é assim! — As lágrimas voltaram a correr em seu rosto enquanto ela falava, seu tom de voz parecia mais deprimido do que irritado. A luz da lua era o suficiente para que eu conseguisse ver a dor em seu olhar. — Você está agindo como todo os outros que eu já conheci, você pensa que me entende, mas não chega nem perto! Não sabe nada sobre mim e mesmo assim está ai, falando bobagens! Estou cansada de tentar me aproximar de alguém, só para descobrir que no final todos me veem da mesma forma... Apenas uma garota rica que consegue tudo o que quer!

Fiquei quieto por alguns instantes até que decidi responder —Sabe Kyla, eu realmente não conheço nada sobre você, mas eu entendo muito sobre mim. Passei muito tempo sozinho nas ruas sendo tratado como lixo. Isso faz com que você admire certas coisas, sabe? Apesar de você não achar isso algo bom, essas pessoas estão aqui por você. Todas elas trabalham para fazer suas vontades e você mesmo assim se sente sozinha? Eu quero conhecer mais você, mas não adianta você ficar chorando e não fazer nada para melhorar! Eu... — parei de falar por um instante, minha mente dizia para que eu calasse a boca agora, porém meu coração me fez continuar — Eu não deixarei você sofrer sozinha! Não sei qual o motivo de você estar incomodada, mas darei tudo de mim para te ajudar. É o mínimo que posso fazer por alguém que me ajudou como você. — Eu falava com calma já que realmente entendia melhor aquela situação do que ela mesma. Eu provavelmente daria tudo para ter tido alguma companhia enquanto cresci nas ruas, me irritava ver que ela tinha tudo aquilo e mesmo assim não conseguia se sentir melhor. Mas aquelas lagrimas não eram falsas, então decidi conhecer ela melhor antes de julgar seus sentimentos.

Pude ver que as lágrimas paravam de escorrer aos poucos e ela apenas me encarava seriamente sem mudar sua expressão.

—Sabe... — continuei — O mundo não é um grande arco-íris. O mundo é um lugar sujo, cruel e injusto que vai te deixar chorando para sempre se você não se levantar! Você tem disposição para encarar ele e fazer a diferença, assim como fez hoje dando uma chance para um ladrãozinho imundo como eu. Ainda temos muito pela frente e você ainda me deve algumas explicações sobre o mundo Pokémon e suas batalhas. Eu aprendi com meus Pokémons que devo seguir em frente e continuar tentando, sem apontar dedos e dizer que a culpa é dele, dela ou de quem seja! Nós somos melhor que isso, Kyla.

Ela continuou me encarando por alguns instantes antes de falar algo, até que finalmente se aproximou de mim enquanto enxugava as lagrimas.

—Vamos entrar Gray, já está muito tarde e temos que descansar, afinal, hoje o dia foi bem cheio, não é? Tivemos muitas novidades e bem... Vamos logo! — Ela me deu um soco fraco no braço e voltou para a mansão andando mais rápido que eu.

Me chamem de louco, mas eu podia jurar que por alguns segundos ela estava sorrindo. Bom, eu também estava, então isso faria sentido. Aos poucos a ideia de fugir daquele lugar parecia ficar mais e mais distante...