Após a centésima noite de amor entre Guinivere e rei Artur, a rainha acordou e seu marido não estava do seu lado, e ela havia dormido na cama dele. O noivo, depois da longa lua de mel, havia partido para a guerra da qual se preparava durante esses meses. Não deixou bilhete, nem se despediu, mas a noiva não estranhou. Ela o admirava, mas não amava. Acreditava que o amor viria com o tempo, mas sabia que ele a amou desde o principio e por isso o respeitava e tentava, de todas as maneiras, fazê-lo feliz. Nessa manhã sir Lancelot entrou em seu quarto sem permissão e eles conversaram a sós pela primeira vez:

– Sua graça... — Cumprimentou Sir Lancelot a bela dama sentada de frente para sua penteadeira. E como ela era bela em trajes de dormir, sob a luz da manhã.

– Sir Lancelot? Não o chamei — Disse a rainha, sem preocupar-se com a ausência de panos sobre seu corpo.

– Sei que não, mas precisava vê-la, especialmente essa manhã. Sente-se bem? — Disse o cavalheiro galante, aproximando-se sem pestanejar.

– Por que não me sentiria sir Lancelot? — Questionou com certa arrogância.

– Sua graça, o rei precisará fazer muitas viagens durante o reinado e seria melhor que se acostumasse. — Insistiu Sir Lancelot, dessa vez cauteloso.

– Não me importo se ele viaja em guerras se for para dar mais riquezas a Camelot e, consequentemente, a mim, sir Lancelot. Sei de suas responsabilidades e as respeito e apoio. — Nunca antes Lancelot havia visto em alguma mulher, e ele conhecia muitas, um olhar tão lascivo. — Chame a aia, preciso me vestir para sentar ao trono. Cuidarei de todos os assuntos reais até que Artur retorne.

– Sim, mas hoje a senhora receberá a visita de um botânico. E até então, o rei pediu que permanecesse em repouso e jejum. Ele já deve estar chegando.

– Pois, sim, mas sabe me responder o motivo de tal visita? — Preocupou-se a rainha.

– Não Sua Graça, mas o reino clama por um herdeiro ao trono. — Sorriu sem muita sinceridade.

– Claro... Eu também. — Mentiu Guinivere, pois sabia que um herdeiro arruinaria sua beleza tão estimada.

Em poucos minutos o botânico chegou e examinou a rainha Guinivere.

– E então. Boas novas?- Perguntou a mulher, já contente com o que achou que ouviria.

– Perdão, Sua Graça, mas não. Quem sabe na próxima lua? — Disse o botânico, simpático.

A rainha estava visivelmente atordoada. Aquele estava sendo um péssimo dia. Ela se levantou e começou a quebrar frasco por frasco, os perfumes das estantes e penteadeira e gesticular, e gritar "Eu quero bruxos, feiticeiros, curandeiros, clérigos, e todos os botânicos do reino aqui! Tem algo de errado. Eu estou, sim, esperando um herdeiro ao trono. Não é possível, três meses! Sei que estou gravida!". Estava completamente descontrolada. Quando uma aia entrou pra ajuda-la a se vestir, correu com as mãos esticadas em direção ao pescoço da dama, mas Sir Lancelot por precaução entrou com ela, e foi ele quem a salvou, segurando com toda força que pôde sua rainha. Depois de muito se debater inutilmente Guinivere se cansou e apoiou seu rosto no peitoral gelado da armadura do cavalheiro, e depois de ter as mãos libertas se aninhou nos braços dele, chorando. Sir Lancelot não sabia o que fazer naquele momento, mas ver uma rainha tão autoritária na sua forma mais impotente e submissa o atraía.

Depois de todas as visitas especializadas que a rainha exigiu foi constatado que a mesma não poderia ter filhos nunca.