Notas iniciais
boa leitura escutem as músicas Untitled #4 (John Frusciante), Billie Holiday (Warpaint) e Feels Like We Only Go Backwards (Tame Impala)

A Quarta Dimensão

“É como se estivesse na quarta dimensão, e… pediram-me para descrevê-la verbalmente, do que se trata a quarta dimensão. Não há palavras, não há símbolos, não há imagens. É toda uma energia pura e real, e vibrações.”

— John Frusciante.

Estava completamente fora de si.

Não via nada, ou talvez apenas visse escuridão profunda. Mas não tinha certeza daquilo; àquela altura, não tinha certeza de nada. Nem mesmo sabia se seus olhos estavam abertos ou fechados, ou se respirava, ou se o coração ainda pulsava, bombeando seu sangue. E se estivesse morto? A pergunta poderia lhe soar amedrontadora em outras situações, mas não naquela. Estranhamente, não sentiu nenhuma emoção, nenhum sentimento lhe passou.

E então pôde ouvir.

Ouviu uma música maravilhosa. Uma música tão perfeita que, se estivesse em plena consciência, choraria de tão linda que soava. Era a Música: representava a tudo e todos. Todas as emoções eram sentidas em seus acordes, e todas as pessoas do mundo eram representadas em suas notas. Tudo do mundo e tudo o que não era do mundo fazia parte daquele som melodioso e divino. Todos os instrumentos foram combinados para dar origem àquele, que, por sua vez, tocava a mais impecável de todas as músicas terrenas. Talvez fossem os próprios anjos tocando-a, de tão sublime.

E depois, sentiu-se caindo no infinito abismo escuro, e depois, caiu sobre uma planície, cuja grama era verde feito esmeralda. Sentiu seu cheiro – o delicioso cheiro de grama e terra molhada – e sua espessura. As pequenas folhas lhe acariciavam o corpo. No entanto, embora sentisse tudo aquilo, não se sentia dentro do próprio corpo. A grama não acariciava seu corpo terreno, mas sim, sua alma. Era aquilo que via, sentia, cheirava e vivia, naquela dimensão.

E chorou, enquanto corria – planava – pela planície feito uma criança.

A Música começou a soar novamente, naquela paisagem igualmente divina. Os anjos começaram a tocar o instrumento, e ele continuou a planar sobre o chão. Planou até voar. Voar livre, feito um pássaro, feito um arcanjo. E subiu ao mais alto céu, para encontrar o músico que tocava aquela maravilha que lhe enchia os ouvidos de ar musical.

E, naquele instante, pensou que realmente estivesse morto. Mas ali, naquele lugar, nada iria lhe preocupar; estava no mais belo lugar de todo o mundo terreno e espiritual: estava no Paraíso, no Éden.

E foi quando pensou naquilo que os céus se abriram, com várias fumaças vermelhas saindo das maquinações e engrenagens que o mantinham no lugar.

Outro Paraíso, infinitamente mais belo, apareceu.

Era, além de perfeito, cheio de energia pura, majestosa, celestial, positiva. Respirou, o mais forte que podia, o ar. Não tinha cheiro, mas pôde sentir a força e beleza que carregava. A perfeição onírica que trazia para seus pulmões espirituais era revigorante e purificadora. Sentiu-se limpo, realizado, e bom ao ver e sentir aquele lugar.

A Música novamente ressonou. Os anjos a tocaram, desta vez, mais alto, e com mais determinação.

O chão daquele Paraíso era de nuvens. Aquele era o Céu, o verdadeiro Paraíso, ainda mais verdadeiro do que as planícies onde estivera. O firmamento daquele lugar era vermelho, com outras nuvens ao longe.

Pôde sentir a maciez das nuvens. Elas eram sem nenhum peso, mas tinham a textura de pelos minimamente escovados, de forma que, ao tocar, não se sentia pelo por pelo, mas todos ao mesmo tempo. Eram frias, mas de uma maneira deliciosa e agradável.

Fechou os olhos, sentindo a brisa divina. Mesmo nada enxergando, podia ver as cores no vento, as notas musicais, as palavras, o aroma e a matemática nele incrustadas. Via com os olhos da mente o carmim daquele paraíso, uma cor que quase chegava ao salmão; as notas que correspondiam à Música – não sabia como, mas apenas sabia que eram referentes à ela –, notas que ele não pôde entender, porque eram símbolos que jamais havia visto antes: símbolos transcendentais; palavras que, igualmente às notas musicais, não pôde entender, mas sentiu-se vivo ao ouvir sua mente pronunciando. Sentiu um frescor dentro de seu peito, onde ficava o coração, como acontecia ao ver algo que o animava. O aroma de flores coloridas que acabaram de desabrochar, os números, todos perfeitos, formando uma sequência que também faziam parte da Música.

Quando abriu os olhos novamente, estava em outro lugar, completamente diferente do Paraíso carmim e cheio de nuvens.

Era um belíssimo castelo, meio escuro, e um vento frio e gélido adentrava pelas janelas. No entanto, não sentia frio. Era um vento que o ansiava para sentir mais.

Saiu pelos portões até uma sacada, e tudo se clareou, mas suas pupilas não se dilataram ao ver o sol.

A paisagem, ao longe, era magnífica. Era até mais lindo que o segundo Paraíso onde estivera. Gigantescas montanhas, serras, montes, se estendiam para além daquele lugar. Montanhas que pareciam ser infinitas, e também infinitamente belas. Seus cumes eram cobertos de neve, e a base, marrom de terra. E o vento… ah, o vento era ainda mais perfeito e puríssimo. Parecia ser completamente isento de belezas, diferente do Paraíso anterior, mas assim que o respirou, e o sentiu invadir seu corpo, pôde ver a transcendência daquele vento, mas não entendê-la. Era tão, mas tão belo, que apenas algo ainda mais superior poderia compreender a magnificência daquele sopro. O céu era cinzento, mas de uma maneira alegre. Um cinza claro, que combinava com a neve das montanhas, e que quase chegava ao branco.

E houve uma explosão, um bum!, que o cegou por completo e o levou para a escuridão novamente. Por mais que abrisse e fechasse os olhos, só via o negro.

Até que seus verdadeiros olhos, os olhos da mente, se abriram para ajudá-lo a observar.

E viu o Universo.

Uma infinidade de azul, negro, roxo tomou conta do infinito. As estrelas eram incontáveis. Observou nebulosas, luas, planetas, satélites naturais, estrelas cadentes, meteoros, buracos negros, cometas… tudo o que o universo podia lhe oferecer.

O céu era escuro, e ao mesmo tempo, claro. As estrelas ao longe iluminavam todo o infinito que era o Universo.

Era como uma tela de pintura, com manchas lilases, púrpuras, negras, rosas e azuis, e que se mesclavam fazendo uma cor completamente nova. Bilhões de pontos brancos e brilhosos feito diamantes – as estrelas –, quase coligados uns aos outros, iluminavam o espaço sideral. Alguns planetas eram idênticos às estrelas, de tão longe que estavam. Viu uma enorme esfera azul quase engoli-lo, mas não teve medo. Ali não havia sentimento a não ser o de encantamento, de magia.

Cometas azuis, quase brancos, passavam ao longe, com suas caudas acariciando as estrelas e asteroides.

Era como um mar, um mar infinito, colorido, vivo. Nadou no universo, observando-o. Nunca observara com tanta vivacidade e clareza, nunca vira tantas cores, nunca vira tamanha perfeição. Tudo estava saturado. Se estivesse morto… não, aquilo não era morte. Aquilo era Vida, vida pura, perfeita, mágica. Era algo além do paraíso.

A Música irrompeu de algum lugar. Não havia lugar de onde surgir, a não ser de outro plano muito distante dali. Era como uma folha: o Universo era a parte de cima, onde ele estava completamente só, mas de uma maneira que não se sentisse solitário. O verso era o desconhecido, onde nada se sabia sobre, nem sobre o que vivia ali, ou o que se fazia; apenas sabia que ali eles tocavam a Música continuadamente.

O som da Música era alto, mas não ensurdecedor. Apenas dominava-o. Adentrava-o e preenchia a mente, preenchia o coração, o sangue, todo o corpo. E no fim, ele era a Música.

Nadou até adentrar numa nebulosa, e sentir sua energia, sua perfeição, sua transcendência.

Não havia vento ali. Não conseguia sentir o ar refrescante bater em si, e, frações de frações de segundo após isso, sentir o gélido. Não. Ali, o gélido estava em toda parte. Ele estava dentro do ar, e o ar estava dentro de seu corpo.

Na realidade, aquilo não era seu corpo. Era apenas energia, no estado mais puro que havia. Uma energia que tinha mais vida do que um corpo de carne, ossos e órgãos. Uma energia que tinha infinitos sentidos.

E nadou durante muito tempo pelo universo. Viu galáxias enormes, belas, espirais azul-brancas, nebulosas, estrelas, e tudo o que havia no universo que todos conheciam e tudo o que ninguém havia visto.

E tudo isso lhe despertou apenas um sentimento, mas um sentimento tão grande que o fazia uma energia poderosa e completamente mágica: o de entusiasmo. Entusiasmo por estar diante da coisa mais bela de todas as dimensões além daquela.

Mas começou a desaparecer, como uma folha de papel sendo queimada. O azul e roxo do universo deterioravam-se, e davam lugar ao negrume. Ele gritou “NÃO!”, mas não pôde ouvir sua voz.

E tudo apagou-se novamente.

Mas daquela vez… sentiu-se normal. Perdera toda a energia e a transcendência que havia em si.

Na sua boca, um terrível gosto metálico, gosto de sangue. Também sentiu o cheiro do líquido rubro. Mas não abriu os olhos. Tinha medo de abri-los e encontrar-se novamente em seu corpo. Na verdade, sabia que estava dentro de seu próprio corpo, novamente, mas não queria chorar ao ver-se na vida real… o Universo era tão mais perfeito e saturado que fazia aquilo, a sua vida, parecer um sonho.

Sentiu uma dor tão forte na cabeça que quase desmaiou de novo. Levou as mãos até seus cabelos, e sentiu a textura – ainda recusava-se a abrir os olhos – pegajosa, e o cheiro forte de sangue.

Queria voltar para o Universo de novo. Matem-me outra vez, por favor…, implorou.

Tudo tornou-se escuro de novo. Depois, ouviu bips, sentiu cheiro de éter, mas ainda não estava no Universo.

E a escuridão final o arrebatou. Mas não o levou para o Universo, nem para o Paraíso. Apenas o engoliu para um abismo amedrontador, terrível e horrendo.

Notas finais
oi, como vai você? espero que tenha gostado, agradeço pela leitura
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!