A Quarta Colônia - Vera Cruz

3 Capitulo 3 - Não tentem nenhuma gracinha, não queremos machucar ninguém.


Apesar de não vermos o céu, por causa da nuvem de poeira, e não saber quando era noite ou dia, o domo da colônia possui um sistema que a faz se tornar mais opaca gradativamente conforme o tempo passa, refletindo menos a luz do farol e simulando a noite. Nosso toque de recolher é quando anoitece, deitamos cedo para acordar cedo.

Eu já estava deitado sobre meu fino colchonete. Ao lado minha mochila com minhas poucas peças de roupa e minhas barras de ração nutritivas. Estava quase pegando no sono quando Joleno se aproximou do seu lugar e começou a fazer barulho remexendo suas coisas. Então se deitou. Me virei para olhar e ele estava de costas para mim, já pronto para pegar no sono.

Acordei pela manhã e fui direto para a rua do fundo do clube aquático. Eles trocam a água da piscina a cada dois dias e aproveitamos isso para tomar banho. Tirei a roupa e guardei em minha mochila. Contei até três e me joguei no jato de água fria. Como não tinha sabonete me fiz valer nas esfregadas. Quando terminei vesti a outra troca de roupas que tenho e voltei para o viaduto. Joleno ainda dormia, chutei a bunda dele.

— Bom dia flor do dia. – Eu disse.

— Droga, Alex! – Ele protestou com voz de sono.

— Se quiser tomar banho hoje é melhor se apressar, logo a água vai acabar. – Falei.

— Tá... tá. – Ele se sentou, coçou os olhos e bocejou.

— O pingo já está lá na fila. – Eu falei. – Quando vocês terminarem a gente se reúne para planejar a caçada de hoje.

Joleno pegou suas coisas e foi em direção ao banho. Eu fui procurar o Rico e o Rafa. Ambos eram dos outros dois grupos de caça.

— Para onde vocês vão hoje? – Perguntei assim que consegui reunir os dois.

— Ontem estivemos pedindo na zona leste. – Rico falou, se referindo a sua equipe, formada por ele, o Jão e o Aurelino, vulgo Lino.

— E nós na zona sul. – O Rafael falou. Em sua equipe também estavam o Jackson e o Cris.

— Nós só chegamos a invadir aquela casa ontem. – Eu falei. – Na zona norte, mas como a gente não pede nas portas acho que vamos para a zona leste hoje. Vocês que precisam variar.

— Verdade. – Rico disse. – Acho que iremos para a zona norte.

— Ok. – Falei. – Mas pelo amor de Deus, evitem a rua da casa do tubarão-baleia. – Me referia ao político do outro dia.

— Claro. – Rico disse.

— Nós iremos para a zona oeste então. – Rafa disse.

— Então está combinado. – Falei. – Avisem aos outros meninos.

— Fechou. – Rafa deu um tapinha nas minhas costas e na do Rico e depois saiu.

— Boa sorte. – Rico estendeu a mão.

— Para vocês também. – Eu apertei a mão dele.

Rico foi ao encontro do resto de sua equipe e eu me virei para tentar avistar o resto da minha. Porém, meus olhos avistaram uma figura diferente.

— Piranha! – Gritei e todos pararam o que estavam fazendo.

Carranca correu até suas coisas, o vi pegar o canivete e colocar na cintura. Então, junto ao Luca se aproximou para saber o que o invasor queria. Não era difícil identificar uma piranha, eles costumavam se vestir com boas roupas, como se fossem importantes, mas a forma de se portar e o jeito de falar mostravam o contrário. Além de serem muito extravagantes e sem qualquer noção de moda.

— O que você quer aqui? – Luca perguntou.

— Calma ai, piaba! – A piranha respondeu. – Pra quê essa marra toda? Aliás, tu já não tá velho demais para continuar sendo uma piaba não?

Alguns meninos se aproximaram cautelosos para ouvir melhor a conversa.

— Desembucha. – Carranca falou.

— Quero nada com vocês não. – Ele disse. – Só to procurando um carinha daqui, que tem nome de gente importante.

— Não sei quem é, mas o que você quer com ele? – Carranca perguntou.

Mais adiante, se aproximando, avistei Pingo e Joleno. Estavam conversando distraídos, até que Joleno percebeu a presença do intruso, falou alguma coisa para o Pingo e saiu apressado em outra direção.

— Digamos que eu fiquei sabendo que ele tem uns produtos interessantes ai. – Disse a Piranha.

— Não tem nada para você aqui. – Luca falou. – Dá o fora.

— Qual foi, pivete? – A Piranha estufou o peito para cima de Luca.

Carranca puxou o canivete da cintura e em um movimento ágil fez a lâmina sair do encaixe e apontou em direção ao pescoço da Piranha.

— Você não é bem vindo aqui. – Carranca disse. – Vaza.

A Piranha olhou tensa para a lâmina e deu um passo para trás.

— Também não precisa essa violência toda... – Ele disse. – Já entendi... já entendi. Tô saindo.

Então ele foi embora. Carranca e Luca permaneceram onde estavam, de olho nele, até que saísse da área do viaduto.

Quando Pingo chegou me aproximei dele.

— Cadê o Joleno? – Perguntei.

— Ele me disse que esqueceu uma coisa lá nas bicas e foi buscar. – Pingo falou e foi guardar suas coisas em seu canto. Eu o segui.

— Ele só disse isso? – Insisti. A atitude dele estava muito suspeita.

— Gato. – Carranca se aproximou de nós, acompanhado de Luca. — Cadê o Joleno?

— Eu não sei. – Falei. – Segundo o Pingo, ele foi buscar alguma coisa que esqueceu lá nas bicas.

— Alex, o único que tem nome de gente importante aqui é ele. – Luca falou. Era um dos poucos que me chamava pelo meu nome. – Você sabe de alguma coisa a respeito? Será que ele está fazendo algum negócio com os alimentos que recebe?

— Até agora eu não tinha suspeitado de nada. – Eu disse. Tudo bem que ele saia todo dia e ninguém sabia exatamente onde ele ia, mas nunca o vi levar nenhum tipo de alimento consigo.

— E você, Pingo? – Carranca perguntou.

Pingo, ainda confuso, fez sinal de negativo com a cabeça. Naquele momento eu comecei a sentir um incômodo estranho, uma sensação parecida com a que temos quando estamos com a palavra na ponta da língua, mas ela não veem à cabeça. Como se eu soubesse a resposta para o problema o tempo todo e não sabia exatamente o que era. Até que a ficha caiu. As imagens do Joleno achando a maleta de narcotes debaixo da cama do político, o fato dele ter voltando para dentro da casa ou invés de sair comigo... No fundo eu sabia que aquilo era terrivelmente possível, mas eu preferi acreditar que não. Pelo menos até tirar isso a limpo com ele.

— Se souberem de alguma coisa... – Luca disse. – Nos avisem.

— Pode deixar. – Pingo respondeu.

— Certo... – Falei, ainda pensativo. Não podia levantar aquela suspeita agora, não sem falar com o Joleno primeiro.

Luca e Carranca se afastaram para conversar com outros meninos do grupo.

Esperei durante toda a manhã, os outros grupos de caça já haviam saído para conseguir os alimentos enquanto Pingo e eu ficamos impedidos pela ausência do Joleno.

— Cara, perdemos a manhã quase toda. – Pingo falou, sentado com as mãos apoiando o queixo, claramente com tédio.

— Espero que o Joleno tenha uma boa desculpa. – Falei.

— Chamou? – Ele apareceu por trás, assustando nós dois.

— Onde é que você se meteu? – Perguntei.

— Tive um problema com um pessoal de outro grupo, precisei correr para despistar, mas deu tudo certo. – Ele falou.

— Ficamos com a zona leste. – Eu disse. – Vamos logo, estamos atrasados.

— Vamos. – Ele falou. Agia como se nada tivesse acontecido.

Saímos da área do viaduto em direção à zona residencial a leste do centro da colônia. Nós costumamos estudar o movimento de algumas casas que consideramos mais fáceis de invadir e sempre tínhamos os alvos pré-estipulados. Enquanto caminhávamos aproveitei para sondar o Joleno.

— Mais cedo uma Piranha apareceu lá no viaduto. – Falei.

— Sério? – Ele perguntou tentando parecer surpreso. – E o que ele queria?

— Estava procurando um carinha de lá que tinha nome de gente importante. – Expliquei. – Segundo ele, esse mesmo indivíduo tinha produtos interessantes a oferecer.

Fiquei olhando para a cara dele esperando uma reação, mas ele pareceu disfarçar bem.

— Que estranho. – Ele disse.

— Pois é... – Falei. – É muito estranho, até porque, o único por lá que tem nome de gente importante é você.

— Alex... – Ele parou de repente e segurou no meu ombro. – Escuta... Não conta nada para o Carranca... mas eu peguei um pote de cápsulas de narcotes do político e fiz um esquema com os caras lá da Otelo.

“Os caras la da Otelo” era como chamamos o grupo de meninos de rua que ficava em um prédio condenado que não foi reformado na Avenida Otelo. O problema é que os caras de lá eram totalmente envolvidos com os negócios de narcotes. Eles costumam entregar as “encomendas” e receber os “pagamentos”. Traduzindo para a nossa linguagem, são tilápias, meninos de rua que fazem serviços para as piranhas e tubarões em troca de algumas coisas.

— Você tá louco? – Tirei a mão dele do meu ombro. – Se metendo com aqueles caras, Joleno? Sabe que nunca dá em coisa boa.

— Eu sei que eles são problema... – Ele disse. – Mas, se ligue... Eles tem um esquema em que você leva os produtos e recebe cartões de horas de trabalho em troca, que pode ser usado nos estabelecimentos para conseguir serviços. Eu consegui juntar um monte e tenho o suficiente para me hospedar em uma pousada por um mês, com direito a banho todos os dias, todas as refeições, lavanderia...

— Não acredito que você acha que isso vale a pena... – Eu falei. Pingo nos observava acompanhando a conversa, ainda confuso. – Essas porcarias só fazem causar mal às pessoas que ficam viciadas e você ajudando a comercializar esses “produtos”.

— Problema deles. – Ele disse. – O que não falta é campanha do governo informando os problemas que causa e pedindo para não usar, se vai procurar é porque quer.

— Joleno. – Eu precisava fazer ele desistir daquelas ideias. – Se envolver com narcotes é um problema, cara. O que não falta são exemplos de meninos que se envolvem com essas coisas e sempre acabam pagando caro e não é com cartões de horas não, é com a própria vida.

— Porque são otários, se tornam tilápias. – Ele disse. – Eu só vou pegar quando achar nas casas, levar lá e trocar pelos cartões. Sem me envolver diretamente com os esquemas.

— Sinto muito cara, mas se é para continuar com esses planos acho melhor não vir mais com a gente. – Falei. Era uma dor tremenda ter que fazer aquilo, mas eu precisava. – Eu prometo não falar nada para o Carranca, mas com a condição de que você peça a substituição no nosso grupo.

Ele ficou quieto por um tempo, me olhando na cara, acho que tentando processar a informação. Acredito que ele via aquilo como uma traição, o que me doía, porém, ver um amigo sofrendo o mesmo destino que outros garotos que se envolveram com narcotes é pior que perder uma amizade, sabendo que ele vai estar bem.

— Tá certo, Alex. – Ele disse. – Talvez seja melhor eu dar um tempo mesmo.

Invadimos a casa e pegamos o que podia. Fiquei de olho no Joleno para que não desviasse para outros cômodos. Como esperado não tinha ninguém, foi moleza. O único problema era o clima tenso entre nós. Saímos.

— Mais uma vez, sucesso garantido. – Pingo disse.

— Espero que amanhã tenham o mesmo sucesso. – Joleno disse e acelerou o passo para caminhar mais à frente.

Olhei para o Pingo e ele me olhou com um semblante triste.

Quando voltamos os outros grupos já estavam lá. Fizemos a partilha e Carranca foi tratar com Joleno. Provavelmente ele inventou alguma desculpa para se safar. Durante a conversa Carranca olhou em minha direção por um instante. Quando terminaram veio falar comigo.

— Joleno pediu um tempo nos grupos de caça. – Ele disse. – Tá tudo bem entre vocês?

— Tudo tranquilo. – Menti.

— Já encontraram algum substituto?

— Ainda não. – Falei. – Mas até amanhã informamos.

— Sem pressa. – Carranca disse e voltou para o seu canto.

Não estava feliz com aquilo. Joleno era um dos meus melhores amigos aqui no grupo. Decidi caminhar um pouco para esvaziar a mente. Saí da área do viaduto e me aproximei de uma das vias. O tráfego estava calmo, algumas pessoas transitavam de bicicleta, vez ou outra passava um automóvel. Mais á frente vi dois deles se aproximando em uma velocidade acima do comum. Olhei para o viaduto e os outros meninos pareciam não ter notado. Tornei a olhar para a pista e percebi que eram viaturas militares. Aquilo não era bom. Corri de volta para o centro do viaduto.

— Os cães! – Gritei enquanto corria. – Os cães estão vindo!

Todos levantaram de um sobressalto. Quando cheguei ao meio deles já era tarde demais, as duas viaturas chegaram cortando para fora das vias e bloqueando uma das saídas, outras duas fecharam o cerco. Os soldados desceram dos automóveis, todos usando os trajes especiais. Eram pretos, cobriam tudo, justos ao corpo e evidenciando os músculos. Traziam alguns detalhes e listras em prata e usavam capacetes especiais. Em seus pescoços aquilo que os identificava, uma gargantilha de prata, que lembrava uma coleira, por isso chamamos de cães.

— Todos parados! Não tentem nenhuma gracinha, não queremos machucar ninguém.

Naquele momento todos sabiam o que tinham de fazer. Se entregar não era um opção, já correr.

Notas finais
Fudeu!