A Quarta Colônia - Vera Cruz
4 Capitulo 4 - A segurança da colônia depende de você...
Notas iniciais
Os oficiais não costumavam mexer com a gente. Batidas como aquela eram realmente raras, as poucas que aconteceram foi em momentos de briga entre os grupos. Daquela vez não houve briga, mas eu sabia o motivo. Eu, o Pingo e principalmente o Joleno, mexemos com o cara errado. Tudo bem roubar um pouco de comida, mas se meter em seus negócios, isso são outros quinhentos.
O grupo se espalhou. Essa era a nossa tática, correr para diferentes direções e confundir os oficiais. O problema é que eles vieram preparados. Em seus braços traziam um aparelho que ao ser acionado disparava dardos elétricos que neutralizava quem era atingido. Foi o que fizeram. Começaram a atirar contra nós. Ao meu redor vários de nós caiam se debatendo enquanto a eletricidade percorria seu corpo.
Eu deles atirou contra mim, mas foi lento demais. Dei um salto para trás e evitei ser atingido. Me abaixei, rolei no chão para a frente e corri na direção de um deles. Outro oficial próximo percebeu meu movimento e atirou, era o que eu esperava. Derrapei por baixo das pernas do que estava logo à minha frente e chutei sua bunda, foi um escudo perfeito. O ataque elétrico não surtiu efeito no oficial, mas me deu a abertura que precisava para fugir.
Corri como se não houvesse amanhã. Quando algo assim acontecia nossa estratégia era reagrupar em um local seguro. Um dos pontos de encontro era atrás do clube aquático onde tomamos banho. Fui um dos primeiros a chegar. Pouco tempo depois pouco mais de meia dúzia já se reunira ali. Do meu ciclo de amigos mais próximo consegui identificar o Joleno, Carranca, Rico, Rafa e Lino.
— O Luca... – Um menino chamado Assis chegou falando ofegante. – Eles... o Luca.
— O que tem o Luca, Assis? – Carranca se aproximou.
— Pegaram ele... – Disse. – Eles pegaram o Luca!
— O Jão também não chegou ainda... – Rico disse.
— Joleno, você viu o Pingo? – Perguntei, mas ele não respondeu, manteve o olhar baixo, fitando o chão.
— Droga! – Carranca protestou. – Pegaram vários dessa vez.
— E agora Carranca, o que a gente vai fazer? – Lino perguntou.
— O que a gente sempre faz. Quando a poeira baixar vamo organizar rondas perto do orfanato pra organizar a fuga dos que foram capturados.
— E o Luca? – Rafa lembrou de algo que não tínhamos nos dado conta.
Ninguém mais disse nada. Luca já era maior de idade, já tinha dezoito anos. Não seria mais levado para o orfanato, mas para o presidio da colônia, onde teria de trabalhar nas lavouras do subsolo em troca de horas de trabalho que poderá usar quando sair.
Passamos o resto do dia sentados por ali, aguardando. Sabíamos que aquela ação dos cães era apenas um aviso, para dizer que o nosso grupo estava marcado e que não poderíamos sair da linha novamente. Por isso iriam nos deixar em paz até segunda ordem. Quando anoiteceu voltamos para o viaduto. Tudo estava como deixamos. Ver as coisas dos meninos que tinham sido capturados colocava um peso em meu peito, principalmente pelo Pingo, mas estava esperançoso que em breve nos veríamos.
Fui me deitar imaginando que não conseguiria dormir, estava enganado. Bastou deixar o corpo relaxar que apaguei. Acordei no dia seguinte com um clima de desanimo pairando. Carranca reuniu o pessoal que sobrou e formou dois grupos de patrulha pro orfanato, iriam revezar a partir de hoje para tentar fazer contato com os nossos. Com a ausência do Pingo e o Joleno fora dos grupos de caça, Rico me chamou para participar do grupo dele com o Lino, já que o Jão tinha sido capturado e eles estavam com um a menos.
Fomos para a zona oeste dessa vez. Rico e Lino me levaram aos locais aonde iam para pedir comida. A maioria nas áreas mais afastadas, onde os moradores são mais humildes.
— Não imaginava que haviam tantas pessoas que doavam alimentos. – Falei enquanto caminhávamos.
— Pois é, Gato. A maioria dessas pessoas não tem muito, mas compartilham o pouco que tem com quem também precisa. – Rico disse. – Vocês do grupo de invasões deveriam experimentar mais vezes pedir pelas casas.
— Você tem razão. – Concordei.
Depois de pegar o suficiente decidimos voltar para o viaduto. Olhei para a cúpula acima de nós e a quantidade de luz do farol que ela refletia começava a aumentar, estava se aproximando do meio dia. Foi quando avistei uma sombra projetada na capsula pelo lado de fora, o ponto foi se aproximando e colidiu contra a estrutura. Consegui ouvir o estrondo da colisão de onde estava. Rico e Lino ficaram paralisados observando o objeto desconhecido tentando se estabilizar numa queda vertical em direção à área mais distante da zona oeste.
— O que é aquilo? – Lino perguntou.
— Nunca vi algo assim antes, parece um automóvel que voa. Não é Rico? – Perguntei.
Rico não me respondeu, parecia distraído, observava o objeto caindo, mas não parecia surpreso ou curioso. Estranho.
— Eu vou até lá. – Falei.
— O que?! – Rico saiu de seus devaneios. – Você não pode ir lá, é perigoso.
— Quase nunca algo assim acontece por aqui. – Disse. – Essa é a chance de descobrir mais sobre o que existe fora da colônia, preciso ver de perto.
Corri em direção ao local que tracei para a queda do objeto.
— Não, Gato! – Rico gritou. – Volta aqui!
— Encontro vocês no viaduto! – Gritei e acelerei o passo.
O objeto caiu onde imaginei. Continuei correndo por entre as ruas até que as casas foram se tornando mais escassas e dando lugar a alguns prédios residenciais, construções mais recentes para dar conta o crescimento da população. Quanto mais me afastava do centro, mais das antigas construções apareciam, prédios abandonados e destruídos. Logo avistei uma trilha de destroços até chegar ao local da queda. Ali havia um jato, era um jato, eu já tinha visto imagens de um quando mais novo, mas este era um pouco diferente dos que existiam no passado.
Me aproximei do corpo do jato. Será que o piloto estava vivo? Fui até a cabine e estava vazia. Subi sobre a lataria e consegui altura suficiente para ver toda a área em volta. Lá estava ele, caído a poucos metros. Saltei e fui a sua direção. Estava usando o mesmo traje que os cães usavam, porém as listras e detalhes eram em dourado e não usava uma coleira. Dei duas batidas de eleve no capacete.
— Ta vivo? – Perguntei.
O capacete emitiu um bip e se contraiu automaticamente, liberando a cabeça do oficial. Ele abriu os olhos lentamente, um filete de sangue escorria pelo canto de sua boca.
— Onde estou? – Conseguiu dizer. Sua voz estava fraca.
— Na zona oeste de Vera cruz. – Respondi. – Seu jato atingiu a cúpula por fora e caiu nas periferias.
Ele fechou os olhos por um instante, tentou respirar fundo, mas ao fazer isso tossiu sangue.
— Você tá cuspindo sangue, precisa chamar reforços. – Falei.
— Estou com hemorragia interna. – Disse. – Não irei sobreviver até eles chegarem.
— O que eu posso fazer?
Ele levantou o braço. Em seu pulso havia um bracelete de metal, tecnologia de ponta, lembrava a coleira que os cães usavam. Então removeu o bracelete.
— Qual seu, garoto? – Perguntou.
— Alex Anori, Senhor.
— Você quer me ajudar, Alex. – Ele colocou o bracelete em minha mão. – Leve isto até a base militar no farol e entregue a eles.
— O que é isso?
— Algo muito importante e que não pode cair em mãos erradas. – Falou. – A segurança da colônia depende de você realizar essa missão com sucesso.
— Espera ai, a segurança da colônia?
— Isso, não mostre ou conte a ninguém sobre isso. Leve até o farol e entregue ao oficial superior encarregado. – Ele levou a mão até o peito, retirou um pin do brasão da colônia que estava preso e me entregou. – Vai ajudar a abrir algumas portas.
— Não sei se posso fazer isso. Não seria melhor esperar que venham te socorrer e peguem?
— Não, assim como você viu a queda, outras pessoas, pessoas erradas, podem ter visto também. – Ele disse. – Não posso correr o risco de chegarem até mim antes dos oficiais. Por isso você precisa fazer isso.
— Certo.
— Ótimo... – Ele cuspiu mais sangue. – Vá!
Levantei e dei uma ultima olhada para ele. Estava em um estado deplorável, mas reunira forças para uma ultima ação, me dar aquela missão. Fechou os olhos e me mostrou um sinal de legal, para então deixar a mão cair.
Corri. Fui fazer o que ele havia mandando. De onde estava conseguia avistar o farol, imponente no centro da colônia. Precisava chegar lá mais rápido o possível e me livrar daquela responsabilidade. O problema é que enquanto corria distraído não prestei atenção no caminho que fazia e só quando era tarde demais percebi que estava passando pela Avenida Otelo. O lugar onde um dos grupos de garotos de rua problemáticos vive.
— Olha só se não é uma piaba do viaduto. – Ouvi alguém dizer e gelei.
Quatro deles estavam reunidos em uma fonte abandonada. Estava um careca narigudo, outro com um moicano tingido de loiro, os outros dois era cara de um focinho do outro, gêmeos.
— Tu não tá longe demais de tua área não? – Outro perguntou. Foi o careca.
— Tô só de passagem. – Continuei andando.
— Tá é? – Eles levantaram e me cercaram.
— Olha só piaba. – Disse o oxigenado. – Por causa de vocês nosso grupo foi atacado por oficiais ontem e estamos doidinhos para nos vingar.
— Por nossa causa?
— É... – Ele disse. – Acha que não sabemos de onde aquele Joleno achou os narcotes que tava trocando por cartões com a gente?
— Só não esperava ter tanta sorte. – Um dos gêmeos falou.
— Sorte de que? – Perguntei já me arrependendo.
— De mesmo depois de não poder ir no grupo que vamos mandar para nos vingar de vocês, uma piabinha ia aparecer dando bobeira por aqui. – O irmão respondeu.
O que aconteceu depois foi uma barra. Eles me atacaram. Eu era mais ágil, consegui me esquivar bem no inicio, mas não poderia fazer por muito tempo, não numa luta de quatro contra um. Além do mais estar levando o bracelete na mão me atrasava. Fiz o que imaginei ser o mais prático, o coloquei no pulso e travei. O problema é que aquela distração foi o que o careca precisava para me acertar um chute no estomago e me derrubar.
Só tive tempo de colocar os braços sobre o rosto e travar as pernas para evitar que acertassem meus testículos. Depois disso foi segurar a respiração e aguentar a dor. Chutes, socos, pisadas, tudo que puderam usar para me causar dor não pensaram duas vezes antes de usar.
— Olha só Calo. – Senti alguém agarrar meu pulso, o que trazia o bracelete. – Olha o que essa piaba ta usando.
— Roubou isso de quem, piaba? – O careca perguntou, o tal do Calo.
Então ele começou a puxar o bracelete para tirar do meu pulso, como estava folgado iria sair fácil. Tentei impedir, mas no processo pressionei algum botão, ele emitiu um bip e vibrou. Em seguida diminuiu o tamanho e se ajustou ao meu pulso, ficando preso de tal forma que parecia ter sido colado.
— Droga! – Calo protestou. – Tá preso... mas vai sair nem que eu corte essa mão fora.
Então o loiro se aproximou oferecendo um canivete ao careca.
— Corta fora, Calo. – Disse.
Ele expôs a lamina e aproximou de meu braço, e quando senti o metal tocar minha pele o bracelete apitou mais uma vez e emitiu um pulso elétrico tão potente que lançou o careca para trás. Ele caiu ruidosamente no chão e se debatendo.
— Que porra é essa?! – Um dos gêmeos gritou.
— Calo? Calo? – O loiro se aproximou quando ele parou de se debater e ficou inerte. Os gêmeos fizeram o mesmo, então carregaram ele e o levaram embora.
Tentei levantar e todo meu corpo doía. Me apoiando em uma parede consegui me forçar a andar. Fui me acostumando com a dor e acelerei o passo, eles poderiam voltar a qualquer momento com reforços e eu estaria morto. Quando percebi que aguentaria, comecei a correr. Deveria ir direto ao farol, mas depois de ouvir aquilo, que mandariam um grupo para se vingar de nós, precisava avisar o pessoal para sair do viaduto. Após alguns minutos reunindo todas as forças que ainda restavam consegui alcançar o viaduto.
— Gato? – Rico se aproximou ao me ver. – O que aconteceu?
— Os caras da Otelo. – Respondi. – Temos que sair daqui.
— O que tá rolando, aqui? – Carranca veio ao meu encontro.
— Os caras da Otelo estão vindo para cá, vão nos atacar. – Avisei.
— Foram eles que fizeram isso contigo?
— Carranca... – Fui incisivo. – Temos de sair daqui!
— Certo. – Ele entendeu a urgência. – Vou pegar o canivete.
Então ele se afastou em direção a suas coisas e ouvi um estrondo. Me virei para olhar e só consegui ver o Carranca caindo de costas no chão. Não entendi o que estava acontecendo no inicio, mas então olhei para de onde tinha vindo o som e avistei três caras sem camisa, usando-as como mascara para encobrir seus rostos. Traziam armas de fogo na mão, bem antigas, já não eram mais fabricadas, mas ainda existiam algumas circulando por ai.
Eles abriram fogo contra nós. Vários disparos e vários meninos caindo, um após o outro. Empurrei Rico para trás e ele caiu no chão, minha intenção era me jogar logo em seguida para evitar os tiros, mas olhei em volta e pude ver vários daqueles pequenos corpos caídos banhados de sangue. Senti uma raiva tão grande e desejei que tivesse forças para acabar com aqueles desgraçados. Foi quando avistei um deles mirando em minha direção, o bracelete vibrou nervosamente e senti estática percorrer o meu corpo e um trovão rebimbou no céu, não o céu artificial da colônia, mas o céu de verdade, lá fora. Um raio entrou pelo buraco causado pelo jato e caiu sobre mim.
Senti o calor que ele projetava e a intensa potencia daquela quantidade absurda de eletricidade, mas não me afetava, era como se eu fosse imune. Aquele poder se acumulou em meu corpo e precisava ser liberado, apontei a mão na direção dos atiradores e o raio foi direcionado contra eles. A luminosidade me cegou e o estrondo do ataque veio logo em seguida. Quando senti a pressão diminuir abri os olhos e não havia mais atiradores, apenas três marcas de queimadura no chão onde estavam.
— O que... – Rico tentou falar, mas não conseguiu. – Você está bem?
— Eu... – Eu queria dizer que sim, mas as palavras fugiram. Na verdade minha consciência inteira estava fugindo. Apaguei.
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