A Proposta
2 Departamento de Imigração
Notas iniciais
No momento em que Aurélio assinou toda papelada do divórcio com a mãe de Ema, ele havia decido que não entraria em outro matrimônio. A frustação em ver um relacionamento de anos se acabar em disputas materiais era cruel. Então, prometeu para si mesmo que não firmaria mais tal união.
Entretanto a vida é cheia de surpresas...
Em menos de 3 minutos, ele havia quebrado seu pacto em virtude de ter seu romance publicado e se casaria com Julieta Sampaio, sua chefe. E o loiro mal sabia como iria explicar tal situação para sua filha.
Até essa manhã, Aurélio tinha certeza absoluta que Julieta era uma mulher sensata e inteligente. Mas ao entrar no Departamento de Imigração dos Estados Unidos, percebeu que a melhor característica que definia sua chefe naquele momento era loucura.
Sim, Julieta Sampaio era louca.
E o homem constatou tal afirmação quando a chefe ignorou a enorme fila que havia no pátio central do edifício, passando na frente de todas as pessoas que estavam aguardando. O secretário chamou o nome da empresária na tentativa de alertá-la que era necessário respeitar aqueles indivíduos, mas foi em vão. Ela fingiu que não o ouviu.
— Me desculpa, mas só quero perguntar uma coisinha. – Julieta simplesmente disse ao entrar na frente da primeira pessoa na fila – Por favor, entre com esse pedido de visto de noiva.
A empresária exigiu docilmente para o funcionário da imigração, que a olhou de cara feia, mas ao ver o semblante sério da mulher decidiu fazer o que foi mandado. Enquanto isso, o loiro atrás de Julieta pedia desculpas para todos.
— Senhorita Sampaio, certo? – O funcionário pergunta a mulher, que acena com a cabeça – Por favor, venha comigo.
A empresária e o secretário são dirigidos para uma das pequenas salas existente no edifício e após serem informados que seriam atendidos em instantes, são deixados sozinhos no ambiente. Imediatamente, Julieta volta toda a sua atenção para o celular em sua mão e começa a resolver pequenos afazeres do seu trabalho.
Já Aurélio, decide sentar-se em uma das cadeiras dispostas em frente a modesta mesa presente na sala. A ansiedade dominava cada partícula do seu corpo, sentia que aquilo não iria dar certo.
— Estou com um mal pressentimento sobre isso. – O loiro sussurra, mais para si mesmo do que para a mulher.
Minutos depois, a porta é aberta e um senhor de terno entra na sala.
— Olá, sou o Senhor Gilbert. Vocês devem ser Aurélio e Julieta, certo? – Ele pergunta e os dois em sua frente concordam – Bem, me desculpem pela espera, o dia tem sido corrido.
— Claro, compreendemos como as coisas podem ser uma loucura. – A empresária responde com simpatia ao senhor- E somos nos que agradecemos por você nos receber em um prazo tão curto.
Aurélio se surpreende com a solidariedade presente na voz da mulher e arqueia a sobrancelha ao ver o pequeno sorriso nos lábios da mesma. Desde quando ela demostra afeto?
O senhor Gilbert sorri antes de pegar a pasta de documentos que estava em cima da mesa. Ele se senta e após olhar algumas folhas, torna a olhar para os noivos em sua frente.
— Tenho uma pergunta. Vocês estão cometendo fraude para que ela não seja deportada e mantenha seu cargo de diretora chefe na editora Coffee Vallery?
Tanto Aurélio como Julieta se surpreendem com a pergunta feita pelo senhor. O loiro fica sem reação e arregala os olhos, mas logo trata de mudar tal semblante. Já Julieta, fica tão assustada que sua boca se forma em um “o”. Entretanto, ela imediatamente finge indignação.
— Isso é ridículo! – A empresária exclama. – Desculpe, mas onde ouviu isso?
— Tivemos uma dica por telefone dada por um homem chamado...
— Teria sido Xavier Vidal? – Julieta corta o senhor, que ao ouvir a empresária, concorda com ela. – Pobre Xavier. Eu sinto muito. Xavier é um dos sócios da editoria que contém um enorme ressentimento por ter uma mulher no comando da diretoria. Me perdoe por isso. Sabemos que o senhor é muito ocupado, então é só nos dizer qual é o próximo passo que sairemos daqui o mais rápido possível.
Ao ouvir a fala da chefe, Aurélio concorda com a mulher e decide acenar com a cabeça, demostrando ao senhor em sua frente que está de acordo com a noiva.
— Senhorita Sampaio, sente-se, por favor. – O senhor pede à Julieta enquanto indica a cadeira e ela se senta ao lado de Aurélio – Deixe-me explicar o processo pelo qual vocês irão passar. Primeiro passo: será marcado uma entrevista, vocês serão colocados em salas diferentes e irei fazer todas as perguntas que um casal deve saber um do outro. Passo dois: eu vou mais fundo; Irei olhar todos os seus registros telefônicos, falo com seus vizinhos e companheiros de trabalho. Se as respostas não baterem em todos os pontos, você, Julieta, irá ser deportada indefinidamente. Enquanto o senhor ao lado, terá cometido um crime com multa de 250 mil dólares e ficará em uma estadia de cinco anos em uma prisão federal.
O senhor termina de falar e Aurélio se sente mais branco que o normal. Ele estava lascado! Arruinado! Ou como diria Ema, na merda! 250 mil dólares e cinco anos de prisão, esse era o preço que talvez ele pagaria por se casar com Julieta.
— Então, Aurélio, você quer falar comigo? – O homem de terno pergunta ao loiro em sua frente, que pensa em seu romance publicado e faz um sinal negativo com a cabeça – Não? – Porém, ao ouvir o funcionário da imigração questionar novamente, os cincos anos de prisão ecoam em sua mente e ele acena positivamente – Sim?
O secretário olha para a empresária, que balança a cabeça negativamente e sussurra um “não”. Pela primeira vez em quatro anos, Aurélio pode ver aflição nos olhos da mulher ao seu lado.
— A verdade é... – O loiro começa a falar e Julieta fica levemente tensa – Sr. Gilbert, a verdade é que... – Aurélio respira fundo e volta o seu olhar para o homem de terno – Eu e Julieta somos duas pessoas que não deveriam se apaixonar... Mas se apaixonaram. – O loiro fala e morena não pode deixar de sorrir aliviada – E... não falamos a ninguém do escritório por causa da minha futura... promoção.
— Promoção? – Tanto Julieta e o Sr. Gilbert questionam. O secretário não esconde o sorriso de satisfação em seu rosto. Se ele podia ser preso, então Julieta podia lhe conceder um cargo maior na editora.
— Nós dois sentimos que seria muito inapropriado se eu fosse promovido a editor enquanto...
— Editor? É mesmo? – Julieta interrompe o loiro erguendo as sobrancelhas. Mas, dessa vez, foi ele que ignorou a fala da chefe e continuou.
— Enquanto nós estivéssemos noivos. – Aurélio termina a frase, apoiando sua mão nas costas da mulher ao seu lado. Ela o mira com um olhar enfurecido, porém, ao ouvir a voz do Sr.Gilbert, disfarça tal gesto com um falso sorriso nos lábios.
— Então, vocês contaram a seus pais sobre esse amor secreto?
— Impossível, meus pais estão mortos. Sem irmãos e irmãs. – Julieta responde imediatamente — Tenho apenas um filho, mas ele é muito ciumento. Por isso, resolvi não contar a novidade ainda.
— Ciumento demais... – Aurélio concorda inconscientemente, ganhando atenção do homem de terno.
— E seus pais, Aurélio? Também estão mortos?
— Somente o pai, a mãe dele faleceu há dois anos. – A empresária fala pelo funcionário – Vamos contar ao meu sogro sobre o compromisso nesse final de semana. É o aniversário de 90 anos dele, toda família estará reunida e achamos que seria uma boa surpresa. Não é mesmo, meu amor? – Julieta levanta a voz para destacar a última parte de forma debochada. Se ele estava usando essa situação para ser promovido, ela iria usar a festa de aniversário do pai dele para sair o mais rápido possível daquela sala.
No mesmo instante, Aurélio lança um olhar incrédulo para Julieta.
Ele não estava acreditando que ela colocaria sua família nessa fraude. E de quebra, acabaria com o final de semana de folga do loiro.
— Onde será essa surpresa? – Gilbert pergunta, mas nenhumas das duas figuras em sua frente olham para ele. Tanto a empresária e o secretário se desfiam pelo olhar.
— Na casa dos pais do Aurélio.
— E onde ela fica? – O homem rebate e Julieta abre a boca para responder, porém, logo a fecha quando percebe que não sabe a resposta. Aurélio sorri vitorioso ao ver tal reação, mas Julieta inverte a situação.
— Ora, por que só eu falo? Aurélio, querido, é a casa dos seus pais. Diga onde ela fica.
— Sitka. – Aurélio diz e Julieta repete o que o loiro acabará de falar – Alasca.
— Alasca? – A morena fica perplexa com tal informação. Seu secretário era do Alasca? Aquele fim de mundo que nunca anoitece?
— Vão para o Alasca nesse final de semana?
— Sim! – O casal afirma.
— Vamos para o Alasca! — Julieta solta com um falso entusiasmo — É onde meu pequeno Aurélio... – Ela levanta o braço, depositando sua mão no ombro do secretário, acariciando — Meu Aurélinho, nasceu. – A empresária finaliza.
O loiro concorda, levando a sua mão em direção a seu ombro, para assim, tocar a mão da morena. Entretanto, ela nota o movimento do secretário e se afasta, fazendo com que Aurélio segurasse seu próprio ombro igual idiota.
— Oh Deus, já estou vendo onde isso irá dar. – O homem de terno suspira e começa a escrever em um papel — Vejo vocês na segunda-feira às onze da manhã para a entrevista. E espero que os dois acertem as respostas.
Ao terminar sua fala, o funcionário do departamento se levanta e entrega uma pequena nota para o casal em sua frente. Eles agradecem e antes de saírem daquela pequena sala, podem escutar Gilbert falando que ficaria de olhos nos dois.
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Aurélio sempre fora um homem calmo e sereno, poucas vezes em sua vida ele perdera a cabeça. Contudo, naquele momento ele estava irado com a mulher que andava atrás dele.
O loiro abre a porta do prédio do Departamento de Imigração e sai para rua. Ele precisava se acalmar.
— Então, o que vai acontecer é que vamos para o Alasca, fingimos que namoramos a algum tempo e contaremos a sua família que estamos noivos. – Aurélio continua andando pela calçada, tentando fingir que Julieta não estava tagarelando ao seu lado — Ah, use as milhagens para as passagens, deixarei você ir de primeira classe comigo. E, por favor, confirme a refeição vegetariana, na última viagem quase me forçaram a comer carne vermelha e... – A empresária para ao ver o secretário em total desleixo com relação a tudo que ela estava falando – Por que não está anotando?
O loiro para de andar e se vira para a morena. Incrédulo, aponta um dedo acusatório em direção a chefe.
— Desculpe, você não estava naquela sala?
— Claro que estava! O que foi?
Aurélio encara Julieta por alguns segundos. Ele se perguntava como ela poderia agir dessa forma depois de tudo que ocorreu no prédio atrás deles. Já a empresária, tentava descobrir o por quê que do loiro estar tão irritado. Finalmente, sua mente se recorda de algo.
— Ah, aquilo que você falou sobre a promoção foi genial! O Sr.Gilbert acreditou direitinho. Mas não vai acontecer.
— Ah vai! Não sei se você ouviu, mas estou falando de uma multa de 250 mil dólares e cinco anos de prisão. Sem contar que Ema depende de um pai livre. Isso muda as coisas.
— Entendo a situação, mas não posso te promover a editor.
— Então eu me demito. – Aurélio afirma, resoluto – Tchau Julieta. Trabalhar para você foi como ter um pedacinho do céu. – O loiro suspira e vira as costas para a morena, que ao notar o quão sério o homem estava, se desespera e grita por ele.
— Aurélio, calma! Você ganhou! Se você for ao Alasca comigo e participar da entrevista, te promoverei a editor em dois anos. Feliz?
— Sem dois anos, tem que ser agora.
— Certo!
— E irá publicar meu romance com 20 mil cópias na primeira edição. – Aurélio é firme ao ditar suas exigências, mostrando a Julieta um homem de negócios que ela nunca havia percebido – E vamos falar para a minha família do noivado como e quando eu quiser.
— Ok. Sua família, suas regras. – A empresária concorda com o secretário e quando seu celular apita notificando um novo e-mail do trabalho, ela volta sua atenção para o aparelho.
— Agora, me peça direito. – A voz de Aurélio impede que Julieta se concentre em seu trabalho.
Ao escutar o loiro, ela questiona:
— Pedir direito o quê?
— Eu quero um pedido direito de casamento, Julieta.
— Oi? – A morena esbanja um semblante confuso — O que isso significa?
— Ora, você me ouviu. De joelhos.
Julieta não podia acreditar no que estava ouvindo. Aurélio só podia estar brincando com ela. Que por sinal, era uma brincadeira de muito mal gosto!
Ela deixa um sorriso nervoso escapar de seus lábios e encara o loiro em sua frente, mas ao notar a expressão séria no rosto do homem, percebe que ele realmente exige um pedido de casamento.
A empresária sente seu sangue ferver. Sempre esteve no controle de sua vida e nunca homem nenhum mandou nela. Nem mesmo seu pai teve tal domínio sobre a empresária. Agora, a morena se via depende de Aurélio para continuar em solo americano e tinha que acatar com condições impostas por ele.
Muito contrariada, Julieta estende sua mão para Aurélio em busca de apoio devido aos seus saltos enormes. O loiro segura levemente a mão da mulher até que ela esteja ajoelhada a sua frente.
Ele não pode segurar o sorriso de lado que se formou em seus lábios.
— É assim que você quer? – A empresária questiona ao gesticular para a sua posição.
— Está bom assim.
— Quer casar comigo? – Ela diz secamente, mirando o chão e tentando ignorar os olhares curiosos das pessoas que passavam ao seu redor pela calçada.
— Não. – Aurélio responde e a morena o olha – Diga como se precisasse, com carinho.
Julieta encara o chão novamente, passa a mão em seu perfeito rabo de cavalo e arruma levemente o terninho preto. Então para, respira profundamente e olha para as íris azuis do loiro.
— Aurélio.
— Sim, Julieta.
— Querido Aurélio...
— Estou ouvindo.
— Você poderia, por favor, casar-se comigo? Oh, meu querido Aurélio. – Julieta debocha e Aurélio, ao ouvir o questionamento da chefe, faz uma expressão pensativa.
— Não gostei do sarcasmo presente em sua voz, mas aceito. – O homem responde tirando a mão no bolso. A sensação de ter a temida Julieta Sampaio aos seus pés, o pedindo em casamento, era maravilhosa. Ah, se seus olhos pudessem fotografar – Vejo você amanhã no aeroporto.
Aurélio vira o corpo imediatamente, ignorando o pedido de ajuda de Julieta para se levantar, ouvindo-a xingar antes de cair no chão.
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