A Proposta
3 Dando a notícia,.
Notas iniciais
Aquele era o pior dia da vida de Julieta, não havia dúvidas. Após a patética cena do pedido de casamento, a empresária decidiu tirar o resto do dia de folga. E agora, aqui estava ela, sentada em um belíssimo sofá localizado no terraço jardim da sua luxuosa cobertura. Seus cabelos estavam soltos, seus finíssimos saltos ficaram esquecidos em seu escritório juntamente com o terninho preto. O suave liquido bordô que enchia a taça em sua mão era a única alegria da empresária naquele momento.
A morena estava tão concentrada na vista proporcionada pelo Central Park que não percebeu a figura máscula adentrar o ambiente que ela estava. Julieta só notou a presença do homem quando o mesmo chamou suavemente o seu nome, pedindo permissão para sentar-se ao seu lado no sofá. A empresária sorriu levemente ao chefe de segurança, que respondeu o gesto se posicionando ao lado da ex-patroa.
— O que faz por aqui tão cedo? – Julieta perguntou ao homem, pensara que era a única que estava em casa naquele horário além dos empregados.
— A pressão de Susana caiu novamente – Olegário suspirou ao responder, mas ao notar a expressão de preocupação que se formava no rosto da mulher ao seu lado, se apressou a explicar — Ela já está bem, fique calma. Está dormindo feito princesa nesse momento.
— Céus, ela necessita ir ao médico. Já é a quinta vez que isso acontece em três dias! – Julieta comenta em um tom preocupado.
— Marquei um médico para ela sábado à tarde, vou acompanha-la, estou preocupado com essas quedas de pressão. – O ex-policial fala enquanto observa à empresária – Julieta, Susana me disse algo e não sei se era delírio por causa do mal-estar, mas ela disse o seu nome e a palavra casamento.
Julieta ri levemente, quem dera aquela situação fosse apenas uma alucinação de Susana.
— Não foi um delírio. É verdade. Julieta Sampaio irá se casar. – A mulher diz ao beber uma bela quantidade de vinho da taça que estava em sua mão.
— Uau... – Foi a única coisa que Olegário conseguiu falar, não acreditava que a ex-patroa iria se casar. Apesar de ser uma belíssima mulher, Julieta possuía uma forte personalidade e não era do seu feitio ficar de namorico por aí – O amor chega para todos, não é mesmo?
— O amor... É claro.
— Bonitão... – O homem solta e a empresária o encara sem entender – Susana disse que o afortunado era um bonitão com olhos do mar. – Olegário termina sua frase e Julieta sorri. Susana estava certa. Aurélio era um bonitão com olhos do mar, um homão com os mais formosos olhos que ela já vira.
— Sim. Ele realmente é um homem atraente com os seus belos olhos azuis. – A empresária sussurra olhando para taça. Parecia errado admitir tal fato em voz alta.
— E quando vou ter a honra de conhecer esse bonitão?
— No domingo, que tal? – Julieta pergunta ao olhar para o homem ao seu lado, que responde animado:
— Ótimo, não tenho nenhum compromisso nesse dia.
— Perfeito! Arrume suas malas e diga a Susana para fazer o mesmo, vocês partem para o Alasca após a consulta do médico.
— A l a s c a? – Olegário questiona pausadamente ao ouvir a morena
— Sim. É onde a família do meu noivo, o bonitão, mora.
— Uau... – Olegário solta novamente e Julieta não pode deixar de rir – Agora eu entendo o por quê você demorou tanto para se pronunciar sobre o tal bonitão. Olha... sei que não é da minha conta, mas Camilo sabe disso?
A empresária suspira ao ouvir o nome do filho. Céus, como iria explicar tal situação para Camilo? Inconscientemente, ela bebe outra golada do vinho em suas mãos. Somente o álcool poderia ajuda-la naquele momento. A morena se prepara para responder Olegário, quando uma voz quase a faz soltar a taça que segurava:
— Eu sei sobre...? – Camilo indaga ao fechar a porta de vidro da área gourmet, entrando no jardim – Mãe? Há algo que eu preciso saber?
Olegário, ao notar a reação de Julieta em relação a aparição repentina de Camilo, conclui que o jovem não tinha o conhecimento do casamento da mãe. Dessa maneira, ele decide se retirar do ambiente, deixando mãe e filho a sós.
Após a saída do homem mais velho, Julieta põe sua taça na mesinha de canto e dá um tapinha no sofá, convidando Camilo a se juntar a ela. O jovem de 22 anos sorri ao ver o gesto e rapidamente se deita no mobiliário, colocando sua cabeça no colo da mãe. Julieta, imediatamente, deposita um pequeno beijo na testa do filho e começa a mexer nos cabelos castanhos de Camilo, fazendo um cafune.
— Como foi a semana de economia da faculdade? – Ela pergunta, tentando adiar a conversa sobre seu noivado com Aurélio.
— Excelente! – Camilo fala entusiasmado, ele inclina um pouco a cabeça para poder olhar o rosto da mãe – A palestra com Eric Maskin foi maravilhosa! Realmente ele merecia o Prêmio Nobel em economia.
Era impossível não se alegrar com a animação de Camilo, o jovem era apaixonado pelo curso de economia e Julieta se orgulhava do esforço que o filho fazia para se destacar nos estudos. Apesar de estudar na Universidade de Harvard em Massachusett, Camilo fazia questão de voltar nos finais de semana para trabalhar com a mãe e participar dos negócios em Nova York. Para ele, a maneira na qual Julieta lidava com os acordos comercias era fascinante. Ela era seu maior exemplo.
— Adoraria debater todos os temas abordados na palestra, mas sei que você está utilizando minha paixão em economia para fugir de algo. Então, dona Julieta, o que está acontecendo?
Camilo a conhecia muito bem, era impossível querer fugir do assunto naquele momento.
Julieta, ao notar que não havia escapatória, respira profundamente. Odiava mentir para o filho, mas não queria que Camilo se preocupasse com sua possível deportação, muito menos com o seu casamento falso.
— Não sei como ter esse assunto com você, mas é necessário que você saiba por mim. – Julieta começa sua fala e ao notar o nervosismo presente na voz da mãe, o jovem se senta rapidamente, observando-a atentamente – Eu vou... eu vou me casar.
Os olhos de Camilo se arregalam ao ouvir o que mãe acabara de dizer. Ele a encara com uma expressão confusa. Será que ele realmente escutou certo? Sua mãe iria se casar?
— Casar? – O jovem questiona, precisava ter certeza que ouvira aquilo — Você vai se casar?
— Sim, irei me casar. – Julieta responde
— Com quem? Como assim, você vai se casar? Nunca te vi com um homem, nem sabia que estava apaixonada! – Desorientado, era como Camilo se sentia. – Mãe, por favor, preciso de respostas.
— Eu sei e vou explicar toda essa situação para você. – Julieta fala na tentativa de acalmar o filho. Seu coração estava apertado, odiava mentir para Camilo – Sei que sempre fui muito privada em relação a minha vida amorosa, mas... Eu acabei me apaixonando pelo meu secretário...
— Aurélio? – Camilo a interrompe – Vai se casar com ele?
— Sim, eu pretendo...
— Que fantástico, mãe! – O jovem a interrompe novamente, deixando Julieta surpresa.
— Como? – Julieta solta com a voz relativamente mais alta que o normal. Ela estava em choque, não podia acreditar que Camilo estava celebrando seu casamento com Aurélio.
— Ele é um ótimo homem! Sempre deixou claro o quanto a admira! Um belo partido para você! Confesso que sempre torci pelos dois, mas os anos se passaram e nada de vocês ficarem mais íntimos. – O jovem explica a mãe – Ema irá adorar a notícia!
— Camilo, desde quando você e Aurélio são tão próximos? – A morena indaga – Você conhece Ema?
— Ora mãe, Aurélio sempre me ajudou quando estava na editora atarefado com a papelada. Sem contar na força que ele me deu em alguns tópicos da matéria de contabilidade. Confesso que fui surpreendido ao saber que ele largou a carreira administrativa para seguir seu sonho de escritor. E em relação à Ema, ela é a melhor amiga de Elisabeta, impossível não conhecê-la.
Camilo acaba de esclarecer as duvidas da mãe com um belo sorriso no rosto, ele estava animado com o casamento. Mal se importou com o fato da mãe ter escondido a suposta relação com Aurélio.
Já Julieta se encontrava em choque, não sabia qual informação a deixou mais abalada. Não tinha conhecimento da relação existente entre seu filho, Aurélio e Ema. E mal sabia que Aurélio era formado em administração e largara tudo para ser escritor.
Era nítido que seu filho conhecia mais o seu futuro marido do que ela. Com esse pensamento em mente, Julieta suspirou pesadamente. Queria chorar, tentou buscar em suas lembranças algum pecado que fizera para ter que lidar com toda essa situação no momento. Se arrependia amargamente de não ter sido mais responsável em relação a burocracia que envolvia o seu visto americano.
— Mãe, está tudo bem? – Camilo pergunta ao reparar o gesto da mulher – Não está feliz por eu ser próximo de Aurélio?
— Claro que estou feliz meu amor! – Julieta finge falso entusiasmo – Só estou um pouco cansada do trabalho. E a preguiça domina meu corpo só de pensar que tenho que arrumar as malas.
— Malas? Vai viajar?
— Sim, parto amanhã bem cedo para o Alasca. A família de Aurélio é de lá e como o pai dele vai fazer aniversário, decidimos que era um bom momento para eu conhecer os membros da minha futura família. E conto com sua presença, você pode ir com Susana e Olegário no sábado à noite.
— De jeito nenhum, parto com você amanhã de manhã! Já perdi Julieta Sampaio namorando, não posso perdê-la conhecendo a família do futuro marido. Além do mais, quero estar ao seu lado para lhe dar apoio, assim como você sempre me deu. – O jovem diz carinhosamente, apertando levemente a mão da mãe, demostrando assim o suporte que ele estava oferecendo à empresária.
Com tal demonstração de afeto, Julieta decide não discutir com Camilo e o puxa pela mão, trazendo o corpo de seu filho para dentro de seus braços. Tudo que ela precisava naquele momento era do abraço do filho. E saber que ele estaria com ela nessa viagem lhe trazia uma paz inexplicável.
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Ema estava desorientada e não era para menos, havia chegado em casa satisfeita da faculdade de moda. A futura estilista se encontrava radiante por ter conseguido desenvolver um croqui moderno para apresentar no trabalho final da disciplina de modelagem masculina e queria dividir tal novidade com Aurélio. No entanto, ao ver o pai jogado no sofá da sala com um copo de whisky na mão, soube, imediatamente, que algo estava errado.
A jovem de 21 anos se preparou para receber uma péssima notícia, mas ao escutar que seu pai se casaria com Julieta Sampaio ficou completamente sem chão.
— Você vai se casar com Julieta? – Ema pergunta ao se sentar do lado do pai.
— Sim, minha filha. Irei me casar com ela. – Aurélio responde.
— Mas papai, como isso aconteceu? Por quê não me contou que estava tendo um caso com ela? – Ema questiona o pai mais uma vez, que suspira ao ver a expressão confusa que se formou no rosto da filha.
— Aconteceu de forma inesperada, quando vi, já estava envolvido com Julieta. – Aurélio diz a filha, havia decido que iria omitir toda a verdade dela. Não contar sobre o falso casamento a Ema poderia livrar a filha de confusão no futuro caso algo desse errado. Assim, aproveitou o tempo sozinho em casa para pensar no que falar, mesmo tendo o corpo dominado pelo remorso em razão das mentiras – Sabe que sempre admirei Julieta. Essa admiração se tornou algo maior e descobri que ela também tinha sentimentos por mim. O amor aconteceu, querida.
— E por que não me contou nada?
— Juro que queria lhe contar, mas Julieta pediu segredo sobre o nosso relacionamento. Nem mesmo Camilo sabe. – Aurélio pega a mão da filha, roçando seu dedo levemente, fazendo um pequeno carinho – Por favor, não fique brava comigo. – Ele implora.
— Não estou brava, papai. – Ema afirma apertando suavemente a mão do homem que arqueia a sobrancelha ao ouvi-la – Tudo bem, posso estar um pouco zangada com esse seu relacionamento secreto, mas se você está feliz com Julieta, sou capaz de tentar esquecer tal fato. – A jovem sorri.
Aurélio solta uma pequena risada antes de levar a mão de Ema em direção aos seus lábios, depositando um pequeno beijo. Era sortudo por tê-la como filha.
— Obrigado.
— Não precisa me agradecer. Apenas quero saber quando vou poder conhece-la melhor.
— Bem, nesse final de semana – O homem diz e recebe um olhar intrigado da filha – Julieta vai conosco para o Alasca.
— Não creio! Papai, que ótima notícia! – Ema fala entusiasmada – Tia Tenória e tia Ofélia irão adorar a novidade! Não posso dizer o mesmo sobre o vovô, mas isso não será um problema. Já ligou para eles para contar a novidade?
— Não, querida. Preferi falar para você primeiro, antes de contar à família.
— Então vamos ligar agora! – A jovem diz já se levantando e indo em direção à bolsa que estava sobre a poltrona perto do sofá. Aurélio sorriu levemente para filha e aproveitou que ela estava distraída procurando o celular dentro da enorme bolsa para tomar a última golada de seu whiskey. Precisava de coragem para contar à família que iria se casar.
Agora não havia mais volta. Ele havia entrado de cabeça nesse casamento com Julieta e precisava se tornar um belo ator para conseguir driblar a imigração americana e não ser preso. E rezava, profundamente, para ter paciência com o gênio forte da chefe e não matá-la antes do casamento.
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