A Proposta
1 Capítulo 1 - Casamento?
Notas iniciais
O som do salto alto de Julieta ecoava por todo o ambiente. A mulher andava de um lado para outro, nervosa consigo mesma. Não podia acreditar naquilo que acabará de ouvir de Susana.
Na verdade, ninguém que se encontrava naquela sala poderia imaginar o que estava acontecendo ali dentro. Darcy precisou sentar-se na cadeira de couro que se localizava atrás de sua mesa quando leu a carta que o governo americano havia enviado para o seu escritório. Estava perplexo com tal situação.
Atrás dele, apoiada em um móvel, estava Susana. A advogada estava irritada. Há meses havia avisado a amiga que isso poderia acontecer caso ela não seguisse toda a burocracia do governo estadunidense. Agora, ela tentava pensar em alguma solução.
E na frente dos dois, encontrava-se Julieta. A conhecida empresária canadense que expandiu seu império para os Estados Unidos estava irada. Ela, a rainha dos livros, sócia e diretora chefe da maior editora do país, sendo obrigada a deixar o solo americano.
— Não é possível que isso esteja acontecendo! – Exclama a empresária incrédula – Deve haver algum erro.
— Não há erro, minha amiga. Lembra de quando concordamos que você não iria na feira de livros em Frankfurt? -Susana questiona Julieta, que acena positivamente com a cabeça – Bom, decidimos isso porque você não tinha permissão para sair do país enquanto seu processo de visto estava em análise. E o que você fez? Foi na maldita feira!
A advogada dispara ao lançar um olhar de reprovação à amiga, que para de se movimentar igual barata tonta e defende-se:
— Sim, eu fui. Íamos perder o livro DeLillo para a concorrência – Julieta se justifica, apoiando uma mão na cadeira a sua frente enquanto descansa a outra em sua cintura – Darcy sabe o quão importante foi ter esse título publicado pela nossa editora.
— Eu entendo a importância desse livro e os lucros que ele trouxe, – Darcy, seu sócio, se pronuncia pela primeira vez desde que ela entrou naquela sala – mas parece que o governo americano não se importa com quem publicou DeLillo. E agora, você está sendo deportada do país. Susana, não há nada que podemos fazer em relação ao visto negado? – O homem pergunta ao virar a cadeira em direção a advogada.
— Podemos fazer um requerimento, mas Julieta ainda terá que deixar o país por pelo menos um ano — A morena explica aos dois — E você não vai poder continuar sendo a diretora chefe da editora se for deportada. Não poderá trabalhar para uma empresa americana.
— Merda! — Julieta xinga ao ouvir a amiga e se condena por ter sido tão negligente em relação a um assunto delicado. Ela vira de costas para os amigos, envergonhada por tamanha irresponsabilidade.
— E o visto de Camilo? Ele é filho de Julieta, isso não ajuda em nada? – Darcy questiona outra vez na tentativa de achar alguma solução para o problema.
— O visto de Camilo não dá o direito a Julieta, somente a ele.
Após a explicação de Susana, um silêncio apreensivo reina na sala. Os três amigos buscam alguma alternativa em seus pensamentos e quando nada aparece em suas mentes, Darcy decide falar.
— Sei que você não vai gostar dessa ideia Julieta, mas diante desta situação não vejo outra solução. Xavier pode te substituir nesse um ano e você...
— Xavier!? – Julieta se exalta ao interromper Darcy, virando e olhando para o amigo – O homem que sempre quis meu cargo, meu poder e faz de tudo para me destruir? Você só pode estar louco, francamente!
— Estou ciente do ódio que nutri por ele, mas não podemos esquecer que ele é o único que apresenta experiência necessária para assumir seu cargo.
Julieta estava preste a responder quando ouve a porta se abrir e escuta a voz de seu secretário.
— Julieta?
— Com licença Aurélio, mas estamos em reunião. – Susana diz ao homem na porta.
— Sei disso e peço perdão por interromper.
A empresária se vira em direção ao secretário com um olhar de pura irritação, estava nervosa e queria matar qualquer um em sua frente.
— O que aconteceu, Aurélio? – Pergunta, secamente.
— Ligação do escritório da senhora Agatha.
— Eu sei!
— Ela está na linha, eu informei que você estava ocupada, mas ela insiste em falar com você. O que eu falo para ela?
Julieta suspira e tenta se acalmar, respirando fundo. Ela roga silenciosamente por um milagre.
Olha para Susana, esperando que ela faça o intermédio com o próprio Criador e sugira uma de suas ideias incríveis, como de costume. Mas Susana mantem-se calada, retribuindo o olhar preocupado.
Se ao menos tivesse tido a sorte da amiga, que se apaixonou por um ex-policial nova-iorquino. Olegário, marido de Susana, era a razão do porque agora a advogada possuía a cidadania americana.
— Julieta...? – Aurélio sussurra, quase numa súplica, preocupado com a ligação pendente.
E como dádiva do destino, Julieta percebe que seu milagre a esperava ali mesmo, encostado na porta e com uma notável ansiedade.
Essa era a sua solução, o seu milagre!
Julieta precisava se casar! Arranjar um casamento por conveniência apenas para enganar o governo estadunidense por um tempo.
A Rainha sorri, satisfeita com sua astúcia por conseguir pensar numa solução. Finalmente, seu olhar cai em Aurélio.
— Entra – Ela sussurra, mas o loiro não compreende e continua parado à porta – Entra a g o r a! – Ela exige e o homem finalmente entra na sala, ficando um pouco atrás de sua chefe.
Julieta aproveita o movimento do homem para observa-lo por alguns segundo. Seu secretário era atraente. Ela não podia negar que o homem de olhos azuis apresentava uma bela aparência.
A empresária dá alguns passos para trás, ficando ao lado dele.
— Darcy, sei que a situação é complicadíssima e que esse não é o melhor momento para tal assunto, mas não posso me conter... – Julieta diz, enquanto passa seu braço pelo tronco de Aurélio, o abraçando de lado. Ela sente o homem ficar rígido com tal aproximação, mas ignora a ação e resolve continuar – A verdade é que Aurélio e eu vamos nos casar!
Após ouvir tais palavras, os olhos de Darcy se arregalam com a notícia inesperada. Susana arqueia a sobrancelha, perplexa com a cena que desenrolava em sua frente.
— Casar? Quem vai se casar? – Aurélio sussurra, olhando atordoado para a mulher ao seu lado.
— Você! E vai se casar comigo! – Julieta levanta a voz para destacar a última parte – Nós vamos nos casar! – Ela sorri e volta seu olhar para os amigos.
Aurélio tenta falar algo, mas estava tão confuso com as palavras da chefe que não consegue pensar em nada. Susana, ao notar o quão desorientado estava o homem ao lado de sua amiga, decide intervir:
— Ele não é seu secretário?
— Sou assistente – O loiro consegue corrigir a advogada apesar do choque que dominava seu corpo.
— Secretário, assistente, amante ... o que são os títulos quando se trata do amor? – Julieta solta uma risada nervosa ao perceber que a amiga estava extremamente desconfiada. Assim, ela se dirige a Darcy — Não serei a primeira pessoa que se apaixona por um funcionário. Não é mesmo, meu amigo? Olhe para você e Elisabeta! Uma linda história de amor! Entende meu lado. Certo?
— Claro, minha amiga. Compreendo seu lado. – Darcy responde, antes de trocar um olhar com Susana. Ambos estavam confusos.
— Então, Aurélio e eu somos aquelas pessoas que não deveriam se apaixonar, mas nós nos apaixonamos. Todas aquelas noites até tarde no escritório, as feiras dos livros. Alguma coisa aconteceu... – Julieta fita os olhos azuis de Aurélio e percebe que ele está completamente confuso. Ela dá um leve tapinha nas costas do homem, que a olha e concorda com a fala da chefe.
— Sim, aconteceu alguma coisa... – Ele acena e os dois voltam a fitar Darcy e Susana.
— Tentamos lutar contra isso, mas não podemos lutar contra o amor. – A empresária embarga a fala com doçura e aproxima ainda mais os corpos, fazendo com que Aurélio passe seu braço pelos ombros da mulher, totalmente sem jeito. – Então, estão felizes com isso?
Há um momento de silêncio após a pergunta de Julieta.
Darcy ainda estava incrédulo e Susana não podia acreditar no que acabará de acontecer. Porém, os dois sabiam como Julieta era uma pessoa extremamente privada em relação a sua vida pessoal, assim, só restava acreditar nesse relacionamento.
— Julieta, é claro que estamos felizes! – Darcy exclama, sorrindo para o casal – Com certeza, Elisabeta e eu iremos apoiar este casamento.
— Darcy está certíssimo, minha amiga. Conte comigo e Olegário para o que precisar. – Susana complementa se desencostando do móvel e indo ao encontro de Julieta, pegando sua mão – E, por favor Aurélio, vamos providenciar o anel.
— Claro! O anel! Vamos providenciar isso agora mesmo, não é mesmo, meu querido? – Julieta aperta levemente a mão da amiga antes de soltá-la. Ela aproveita a situação e retira seu braço do tronco de Aurélio.
— Com certeza, vamos providenciar isso...
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Aurélio estava atordoado, não sabia ao certo o que aconteceu na sala de Darcy.
Para ser sincero, nem se lembra de como havia chegado ao escritório de Julieta. Sua mente fora toda direcionada para tentar processar toda a história sobre casamento.
Já Julieta, decidiu fingir que nada havia acontecido e voltou-se para toda a papelada que estava em sua mesa. E ela teria conseguido focar no trabalho e fugir de toda conversa constrangedora sobre o casamente se não fosse por Aurélio, parado feito estatua em sua sala.
— O que? – ela questionou, indiferente.
— Sinceramente, eu não estou entendendo o que está acontecendo. – Ele confessou, remexendo as mãos nervosamente dentro do bolso da calça.
— Fique tranquilo, isso vai ser bom para você também – A mulher fala, voltando sua atenção para o papel que estava em suas mãos.
— Bom para mim? – Ele repete, abismado.
Pela primeira vez, Julieta percebe que Aurélio demonstra irritação em seu tom. A empresária suspira ao ver que deve uma explicação a ele.
— Meu visto foi negado e eu vou ser deportada. Estaria tudo em perfeito estado se não fosse a brilhante ideia de Darcy de colocar Xavier como diretor chefe em meu lugar.
— É por causa de Xavier que eu me caso com você? – O loiro pergunta, incrédulo.
— E qual é o problema nisso? Sou uma das maiores empresárias desse país e a maior do Canadá. Sei que você é divorciado e tenho certeza que não está se guardando para alguém especial. – Julieta afirma ao erguer olhos para fitar o homem em sua frente.
— Posso não estar me guardando, mas isso é ilegal.
— Sou empresária, não terrorista.
— Julieta. – A voz de Aurélio é tão firme que a assusta – Você é uma mulher forte e determinada. Sei que se reergueu da falência e construiu um rico império, é uma empresária de fibra. Além de ser uma mulher belíssima, eu a admiro e, de certo modo, fico até feliz por ter me escolhido para ser seu marido. Mas eu não vou casar com você.
Julieta fica sem reação ao ouvir o discurso do homem. Pensava que era odiada por todos os funcionários por causa do seu jeito frio de tratar as pessoas com quem não tinha intimidade. Contudo, Aurélio acabará de admitir que a admirava como empresária e mulher. Aquele pedaço de informação a deixa levemente abalada.
Entretanto, ela necessitava dele naquele momento e sabia que não podia se deixar levar pelas as emoções.
— Case e fique comigo até o prazo exigido pela imigração. E como recompensa, eu público seu livro. Que tal?
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