A Proposta
13 O Cara de Cabelo Azul
O show daquela noite foi um dos mais comentados, a energia que Bill emanou do palco tinha sido única. E só ele mesmo poderia ter transformado aquela dor tão sufocante em brilho, em força. Em música.
Dois dias depois sua longa cabeleira se tornara um moicano.
“As vezes é preciso mudar.” Foi o que disse a um David em pânico, após voltar ao hotel de cabelos cortados sem ter consultado ninguém.
– Eu sou publicitárias, não estilista. – Thalita deu os ombros quando foi questionada pelo manager. – Mas um visual novo pode fazer bem a quem quer recomeçar.
– Recomeçar o quê? – David passou a mãos pelos cabelos. Já tinha perdido o controle sobre a própria equipe e ainda parecia que estavam lhe escondendo algo.
– O CD novo está previsto para o mês que vem, não é? CD novo, fase nova, cabelo novo. É uma boa campanha. – Ela respondeu simples.
E com os próximos quatorze dias – sete shows e três entrevistas nesse meio tempo – eram dezesseis. Dezesseis dias que não se falavam, dezesseis dias que não trocavam um olhar. Dezesseis dias que não sorriam.
Bill definhava um pouco a mais a cada dia. Como se não bastasse o problema com o irmão, ainda faltavam gravar duas músicas para o CD novo, sem contar que uma delas não tinha nem letra ainda!
Maneou passar a mão pelo cabelo, mas lembrou que não possuía mais os longos fios rebeldes. Suspirou e apoiou a cabeça no encosto do sofá, enquanto esperava David chegar com o responsável pela produção do CD.
Estavam em um estúdio de gravação aconchegante, mas pequeno e muito mal localizado, no meio de um beco. Mas era o estúdio do responsável pelo CD e David dizia que ele era um dos melhores do ramo e já que estavam na cidade, por que não fazer as duas últimas gravações lá, não é mesmo?
Gustav estava sentado ao seu lado, solfejando passagens aleatórias de bateria. Georg estava na poltrona à frente, dedilhando levemente seu baixo, sem uma seqüência específica. Tom não estava ali.
Aliás, o guitarrista geralmente não estava por perto. Passava a maior parte do tempo andando sozinho pelos corredores dos estúdios ou trancado em seu quarto de hotel. E não era como se tivesse muita opção, já que Georg ainda não conseguia disfarçar o olhar receoso e carregado de desprezo quando conversavam. O Kaulitz mais velho era uma espécie de “pequeno vilão” daquilo tudo. Thalita e Gustav rodeavam Bill o tempo todo, como se o vocalista fosse o único sofrendo com aquela situação. Como se Tom não sentisse falta do irmão.
O Kaulitz mais velho pensou em pedir perdão, não suportava ficar longe de Bill, não suportava saber que era sua culpa os sorrisos do gêmeo terem desaparecido. Mas então se lembrava nas palavras de Georg, do olhar enojado do amigo. Não agüentaria viver assim, sendo julgado. E, afinal, fora Bill quem disse que não queria mais que eles se falassem, fora Bill quem o beijara primeiro. Ele não tinha a menor obrigação de fazer alguma coisa.
A porta de entrada do estúdio se abriu e David entrou, acompanhado de um rapaz de cabelos repicados negros com luzes azuis, devia ter seus vinte e poucos anos.
– Tom, é você aí? – O manager perguntou para o vulto no corredor. – Vamos nos juntar aos outros, temos que conversar.
Tom maneou a cabeça num aceno positivo e juntos foram para a salinha de espera onde todos estavam. Essas reuniões, ultimamente, eram os únicos momentos em que a banda se reunia fora do palco.
– Bem, esse aqui e o Viktor. – David apresentou e o rapaz deu um pequeno aceno, voltando a guardar as mãos nos bolsos. – Ele é o produtor do CD, equalizador e dono do estúdio.
– Isso mesmo. E vocês estão atrasando a minha vida deixando tudo pra última hora. – O falou, tirando as mãos do bolso e dando um sorriso assustadoramente meigo.
Os olhares de todos se voltaram para ele, surpresos com aquele gesto de “insolência”.
– É o que vocês ouviram. É você o responsável pelas letras? – Viktor perguntou, arrastando uma cadeira para frente de Bill e sentando nela com as pernas para o lado do encosto. – Eu preciso que todas as músicas estejam gravadas em, no máximo, uma semana pra conseguir equalizá-las e deixar tudo em ordem para o lançamento, mês que vem. Mas ainda falta uma letra, não é mesmo?
Bill se encolheu sob o olhar sério do rapaz, mas sentiu uma raiva sincera crescer dentro de si. Quem aquele cara pensava que era pra aparecer do nada e sair exigindo alguma coisa dele?
E Thalita, muito provavelmente, percebeu a irritação do vocalista, pois respondeu na mesma hora.
– Escuta... Viktor. – Falou com um pouco de desdém. – A banda está passando por um momento ruim agora, não é a melhor hora pra você ficar pressionando o Bill.
– Fase ruim, é? – O de cabelos azuis voltou o olhar pra ela e mordeu de leve o lábio, sem desmanchar o sorriso. – Nesse caso, podemos contratar alguém para escrever.
– Não! – Bill falou imediatamente, ficando de pé. – Não vou cantar a música de outra pessoa!
– Então, boneca, é melhor começar a escrever. – Revirou os olhos para o vocalista.
O mais novo abriu a boca para reclamar, quando Tom se levantou.
– Olha o jeito como você fala com meu irmão!
– Eu não preciso que você me defenda. – A resposta de Bill saiu automática, cheia de desprezo. – Ah! Eu vou tomar um ar.
O de moicano deu a volta e saiu, sem olhar para os outros e Gustav imediatamente se levantou para segui-lo. O guitarrista deu um murro na parede, com raiva e foi para o lado oposto. Georg lançou um olhar desconcertado para David que apenas suspirou e deu os ombros, então o baixista se levantou e foi em direção a sacada, de frente para a sala.
– “Momento ruim”? Não achei que estivesse tão péssimo assim. – Viktor gargalhou, saindo da cadeira para se sentar em um dos sofás.
– Como você pode rir? Não percebeu que isso tudo foi culpa sua? – A loira perguntou com raiva, estava chocada com as atitudes daquele praticamente-desconhecido.
– Ah, é? Não percebi, não. – Seus olhos estavam sérios, apesar do sorriso de lado. – Pra mim, isso aí tá rolando já faz um tempo.
David achou que já era hora de todos acalmarem os ânimos, mas Viktor continuou falando, impedindo-o de se colocar.
– Afinal, um irmão não responde ao outro daquela forma sem motivo nenhum. E não foi uma frase minha que colocou um contra o outro, certo? – Ele alargou o sorriso, fazendo com que os olhos se fechassem de leve. – David, será que eu poderia conversar um pouco com a loira gostosa a sós?
– Eer... Viktor... Acho que... – O homem parecia tão sem palavras para a frase de Viktor quanto Thalita, que agora tinha os lábios levemente abertos, em choque.
– Relaxa, Dey, é sobre esse lance aí dos garotos.
O manager olhou desconfiado para o produtor, mas acabou se retirando da sala, indo para a sacada onde Georg estava apoiado nas grades.
– E o que você quer? – Thalita ergueu uma sobrancelha.
O rapaz se inclinou no sofá, apoiando os cotovelos nos joelhos.
– Você sabe o que tá pegando, não é?
– Como? – Sobressaltou-se.
– Ora, vamos nessa, não temos muito tempo pra isso. Você sabe o que está acontecendo com os moleques da banda. Não acha que não da mais pra deixar que eles se resolvam sozinhos?
– Os problemas deles só dizem respeito a eles. – Ela bufou.
– E a carreira deles diz respeito a todos nós. – Ele abriu um sorriso um tanto macabro. – Admiro sua integridade, mas que tal ser um pouco mais profissional?
– Do que está falando? – O jeito dele de falar dava-lhe nos nervos. – E se eu souber qual é o problema com eles, o que muda?
– Acho que, primeiro, você deve parar de se culpar por isso. – O rapaz viu a expressão dele se transformar em uma surpresa e riu. – Ah, está escrito na sua testa. Segundo, poderia me contar e eu tentaria te ajudar, que tal?
– Não vai acontecer. Não é como se você pudesse entender o que está acontecendo, muito menos ajudar em alguma coisa.
– Você quem sabe. – Viktor se levantou, sorrindo. – Mas, sabe, apesar de não parecer, eu sou um cara legal. Os garotos precisam de ajuda, eu to disposto a fazer isso.
O rapaz foi para a sacada, rindo, debruçou-se sobre os ombros de David, assustando-o, e começou, do nada, a falar com Georg sobre baixos e acordes.
Thalita suspirou. Era difícil dar o braço a torcer, mas talvez precisassem de alguém com aquele astral para ajudá-los a sair daquele poço que fizeram questão de se afundar.
***
À noite, quando todos os ânimos já estavam calmos, começaram a gravação de uma das músicas que faltava.
Gustav foi o primeiro, executando com perfeição sua parte. Georg, que foi em seguida, no entanto, precisou refazer sua parte três vezes, até atingir o nível de qualidade esperado por Viktor. Tom, o terceiro, também se saiu bem, mas tocou duas vezes, por garantia.
Após este, era a vez de Bill, e foi inevitável que por um segundo, seus olhares se cruzassem, mas, imediatamente, viraram o rosto para lados opostos.
O vocalista precisou cantar pelo menos uma dezena de vezes, ficando preocupado consigo mesmo, mal conseguia lembrar a letra da música! Pediu um tempo para beber um copo de água e voltou ao seu posto, finalmente conseguindo se concentrar.
– Pronto, conseguimos! – Viktor fez um sinal positivo com a mão para David, que abriu um largo sorriso e entrou na sala de gravação.
– Ficou tudo certo, Bill! Já podemos voltar para o hotel. – Jost avisou.
Bill deixou um suspiro pesado escapar por seus lábios.
– Eu já vou, Dey. Mas será que eu podia dar um tempo aqui, antes?
O homem não respondeu, apenas olhou para o rosto abatido do garoto a sua frente e acabou por também suspirar.
– Faça como quiser, vou chamar os outros para irem para o ônibus.
Assim, que o manager deu as costas, Bill deixou que sua máscara de insensibilidade caísse contra o chão. Encostou-se à parede e se deixou escorregar até que sentasse. Abraçou as pernas e enterrou a cabeça entre os braços.
Do lado de fora da sala, os olhos de David se encontraram com os preocupados de Thalita e Gustav, mas ele continuou andando em frente até alcançar Georg, sentado em uma poltrona de frente para uma grande porta de vidro. E lá, na sacada, debruçado sobre as grades, estava Tom.
O mesmo olhar sem vida, sem expectativas e sem futuro. Tirou o cigarro da boca, e cruzou os braços, apoiando-os na grade. Começou a cantar baixinho, rouco:
– Os dias passaram sem estarmos lá, foi tudo tão bom. Tudo isso somos nós...
“Vai, vai...”
De dentro da sala de gravação, Bill soluçou, se abraçando com mais forças nas próprias pernas. Jogou a cabeça para trás, encostando-a na parede e deixou que seu coração trouxesse a tona seus sentimentos em palavras engasgadas, na forma daquela música tão antiga.
– Nós não fizemos nada de mal. Penso todo o tempo nisso... Então, você pode continuar seguindo com tudo aquilo que deveríamos compreender.
“Vai, vai...”
Thalita forçou a vista pela janela escura da sala de gravação e pode ver o garoto encolhido no chão. Sentiu o peito se apertar com força. Gustav apenas desviou o olhar para o chão.
– Eu realmente acho que já passou da hora de resolver esse problema. – Viktor falou, apoiando-se na parede.
Vai! Deixe-nos pra trás, você e eu.
Não tente entender por que não seremos mais.
Vai! Ambos tentamos nos perder.
Nós só poderemos continuar se nunca mais nos vermos.
Vai! Vai!
– Acho que você tem razão. – Ela suspirou.
Fale com o autor