A Proposta
14 Missão
O relógio soava em seu ritmo monótono e constante. Um casal feliz de pequenos pássaros podia ser ouvido da janela semi-aberta. Mas dentro daquele quarto nem uma palavra era pronunciada.
– Então...? – Viktor desistiu de esperar que a garota se manifestasse de livre e espontânea vontade.
– Eu... Não tenho certeza se devo compartilhar isso com alguém, é algo muito pessoal dos meninos e...
– Olha, Thalita, faz um semana que você está nessa dúvida e nada entre os gêmeos melhorou até agora, aliás, eu só vejo piorar. Quero muito mesmo ajudá-los, mas muito mais do que isso, quero fazer meu trabalho e eu preciso da porcaria da última letra que o Bill não escreveu até agora. Então, não se preocupe, não tenho a menor intenção de piorar as coisas. – Ele falou de forma séria, mas com o sorriso de sempre despontando nos lábios.
A loira suspirou, era simplesmente impossível discutir com Viktor. Ainda mais naquelas circunstâncias.
– Okay, okay. Mas, pelo amor de Deus, se você disser isso para alguém, negarei até a morte.
Ele apenas revirou os olhos.
– O Bill gosta do Tom, mas não do jeito que se espera, sabe...? E, aparentemente, eles ficaram juntos, mas alguma coisa deu errada e eles brigaram. O Tom falou o que não devia, algo assim. Eu não sei direito os detalhes, não me senti a vontade de perguntar, mas Gustav deu uma passada por cima.
– O afeminado tem tesão no rapper e o apático sabe?
Essa foi a vez de Thalita revirar os olhos.
– Pelo que entendi, o Gustav e o Georg viram, sem querer, quando o Bill e o Tom se beijaram... Mas, espera, você não está assustado? – Ela ergueu uma sobrancelha ao se dar conta.
– Eu estou é indignado. O do baixo tá sabendo, também? Eles são realmente muito discretos, hein? – Riu, mas parou imediatamente ao notar o olhar bravo da marqueteira. – Bem, o problema deve ser então exatamente o fato dos outros dois terem visto, não?
– É, parece que o Georg não aceitou muito bem, ele e o Tom discutiram e o Bill acabou ouvindo.
– Ah, sim, o problema é vergonha e o orgulho.
– Como? – Thalita não estava nem tentando mais acompanhar o raciocínio do mixer.
– Eu li alguma coisa sobre eles antes de aceitar o trabalho. O metrossexual é melhor amigo do de dreads, não é? Enquanto ele não aceitar, o guitarra não vai ter coragem de voltar com o irmão. E se o rapper falou merda e o do moicano ouviu, ele não vai dar o braço a torcer e ir falar com o outro enquanto não ouvir um pedido de desculpas. É isso.
– Faz sentido... Faz muito sentido! – O semblante de Thalita se abriu após conseguir traduzir tudo o que o rapaz havia falado.
– É claro que faz, eu sou um gênio. – Alargou o sorriso e se colocou de pé. – Bem, se queremos que eles voltem a se falar, nossa missão é fazer o Tom pedir desculpas ao Bill...
– Ó! Você sabe o nome deles! – Ela fingiu surpresa, rindo.
– É, é. – Revirou os olhos de forma cômica. – Agora, se quer ver os dois juntos, a sua missão é fazer o Georg entender a coisa toda.
– E nisso você não vai me ajudar?
– Eu trabalho com vantagens, gatinha. – Ele sorriu e se aproximou do ouvido dela, sussurrando. – Se eu ganhar algo em troca, quem sabe...?
Se afastou novamente, rindo da expressão assustada dela.
– Bem, vou indo, tenho que resolver algumas coisas. – Viktor foi em direção a porta.
– Viktor... Só uma coisa... Você realmente não achou nem um pouco estranho que sejam dois irmãos que se queiram? – Ela mordeu o lábio, esperando a resposta.
– Ah, se eu fosse irmão de um daqueles dois, também ficaria muito tentado. – Riu para ela e se retirou do quarto.
Definitivamente, Viktor era um cara estranho.
***
– Será que dá pra você me deixar em paz? – Bill praticamente gritou e enfiou a cabeça nas mãos.
– Bill, eu não quero discutir com você, mas o show é em três dias e então vamos embora da cidade. Só que temos que gravar a última música que você nem começou a escrever.
O Kaulitz e David estavam no bar do hotel, no saguão. O manager passara a última semana aguardando pacientemente a letra que faltava, mas Bill não parecia disposto a cumprir os prazos.
O vocalista não respondeu nem ergueu a cabeça, Jost suspirou.
– Você tem até o dia do show. Se não terminar, vou contratar alguém para escrevê-la. – E se retirou cansado.
Bill expirou o ar de forma aliviada. Finalmente: paz.
– Já está indo embora, Viktor? – Ouviu a voz do manager não tão distante quanto gostaria.
O que diabos o mixer estava fazendo no hotel?
– Já, sim, só vim trocar uma idéia com a loira gost... A Thalita. – O ouviu responder. – Ah, aquele é o Bill? E aí, boneca?
O gêmeo mais novo não respondeu e em poucos segundos recebeu alguns tapas nas costas.
– Não ouviu? – Viktor riu em puro cinismo. – Suspeito que você não goste muito de mim.
Bill apenas revirou os olhos e, para seu desespero, o rapaz sentou na cadeira a sua frente.
– Viu o Tom por aí? Queria dar um olá para ele antes de ir embora.
– Não, não vi. – Respondeu seco.
– Ah, é mesmo, vocês não se falam. – O de fios azuis fez uma expressão falsa de surpresa. – Isso é tão estranho, sempre achei que vocês se davam tão bem... Até pareciam um casal.
Bill cerrou os dentes.
– Engraçado, né? Eu nem me surpreenderia se fossem mesmo. – Sorriu de forma maliciosa.
– O que é que você quer? – Perdeu a paciência. – Você passou a semana me enchendo o saco, fica de conversinha sem sentido, agora vem com essa merda?
– Sobre encher o saco, boneca, é porque preciso da minha música. – Sorriu e apertou a bochecha do outro, retirando a mão rapidamente antes que fosse estapeado. – Mas “essa merda”? Por que não? Eu acho o Tom tão sexy...
– O QUÊ? – Bill arregalou os olhos, quase engasgando. A conversa tinha totalmente tomado um rumo estranho.
– Ambos são bonitos, admito. – Falou com naturalidade e um tom de desdém. – Mas a algo de realmente atraente no Tom...
– Você... Você está falando sério...? – O vocalista ainda estava chocado demais pra esboçar qualquer tipo de reação mais concreta. – Você é...?
– Pode me chamar do que quiser, mas prefiro “um cara bem abastecido de balinhas que vão fazer seu irmão se derreter todinho por mim e nem lembrar depois”. – Gargalhou e lançou o olhar mais malicioso que pode para o de moicano.
Bill levantou da cadeira em um salto e agarrou o colarinho do mais velho.
– SE VOCÊ ENCONSTAR UM DEDO NO TOM EU JURO QUE...
– VOCÊ VAI FAZER O QUÊ? – Viktor gritou apenas para que o outro se calasse e então voltou a abaixar a voz e exibir o sorriso de sempre. – Vocês nem se falam, que direito acha que tem de me impedir?
O vocalista pareceu transtornado, soltou a roupa do mixer devagar. Abriu a boca duas ou três vezes para responder mais não encontrou as palavras que gostaria.
– Eei, Tom! Estava te procurando! – Viktor gritou para o além e se retirou.
Bill olhou para a direção que o homem foi e o viu envolver o braço no ombro de seu irmão. Voltou a sentar na cadeira completamente sem reação.
Completamente desolado.
***
Como assim “O Bill é realmente uma gracinha, não acha? As vezes tenho vontade de devorá-lo todinho.”?
É, essas foram as palavras que um certo cara sem noção de cabelos azuis havia dito a Tom, três dias antes, quando o encontrou no saguão do hotel.
“Do que está falando, não acha mesmo que o Bill faria algo com você, não é?” Foi o que respondeu, na hora, com um riso nervoso. Mas preferia ter ficado quieto, se soubesse a resposta que receberia. “Ah, não? Ele me parece tão carente ultimamente... Acho que está realmente precisando de um ombro amigo... Se é que me entende.” E dito isso o mixer foi embora, deixando afogado em pensamentos que definitivamente não gostaria de ter.
Olhou para o relógio pela milésima vez naquela tarde. Em menos de 5 horas fariam um show e, na noite seguinte, iriam para a próxima cidade. Devido a isso, Bill passara os últimos três dias trancado em seu próprio quarto, tentando compor a música que faltava.
Coçou os dreads e enfiou a cabeça na mesa, batendo-a repetidas vezes até ser interrompido pela voz de Gustav.
– Não acha que já está na hora de acabar com essa babaquice toda?
Tom ergueu a cabeça para o baterista, que agora estava sentado na cadeira ao seu lado. Não tinha como responder àquela provocação, estava realmente sendo um babaca.
– O que é que você quer que eu faça, Gustav? – Revirou os olhos, recobrando a postura. – Você acha que tem como eu e o Bill continuarmos com aquilo? Acha normal dois irmãos...
“Se você quer ser uma bicha, eu não tenho nada a ver com isso, MAS O BILL É SEU IRMÃO, CARALHO.” As palavras de Georg voltaram a sua mente como um soco na boca do estômago. Não conseguiu terminar de falar.
– E quem está falando disso? – O loiro ergueu uma sobrancelha.
– Como assim? Você mesmo acabou de...
– Antes de tudo, Tom, você e o Bill eram amigos. Se você não é capaz de levar as coisas adiante, será que vocês não podem, pelo menos, ser isso?
Amigos.
Irmãos.
Como puderam deixar tudo ruir dessa forma?
– O que eu faço, Gustie? – A expressão do guitarrista se transfigurou em algo verdadeiramente desesperador.
– Fala com ele, pede desculpas. – O baterista falou firme, olhando nos olhos do amigo. – Vai, Tom. Vocês não têm tempo a perder.
O de dreads ainda encarou o outro por mais alguns segundos e então s e levantou e atravessou correndo o portal para fora do bar, sem nem notar a presença de Thalita e Viktor a duas mesas de distância da mesa que antes estava sentado.
– E então? – A loira perguntou, aproximando-se do baterista.
– Ele vai conversar com ele. – Gustav suspirou em alívio.
– Há! Eu sabia que daria certo. – Viktor gargalhou, batendo nas mãos da gerente de marketing.
– Mas o Tom já parecia meio confuso antes... Acho que alguém já devia ter falado algo com ele... – O mais novo dali comentou, lançando um olhar de lado ao mixer.
– Hmm... Digamos que eu dei um empurrãozinho... – Viktor sorriu. – Próximo passo... Falar com o Geraldo!
– Georg. – Thalita corrigiu, rindo.
– Que seja. – O rapaz revirou os olhos.
Saíram do saguão em direção ao quarto do baixista. Precisavam ser rápidos.
***
Bill analisava a rua através janela quando ouviu alguém bater na porta.
– Entra, tá destrancada. – Respondeu sem ânimo, olhando para o portal.
O mais velho entrou com hesitação no quarto. O de moicano ergueu uma sobrancelha à presença de outro e voltou a observar a rua.
Silêncio. Sem pequenos pássaros ou relógio, dessa vez.
– Está escrevendo a música nova? – Tom perguntou, observando os papeis jogados sobre o móvel ao lado da cama.
– Uhum. – Bill respondeu sem desviar a atenção da janela.
O gêmeo não sabia o que fazer para quebrar o gelo. Já haviam brigado várias vezes, não era tão difícil fazer as pazes. Mas aquela situação apenas dificultava tudo. Sequer tinha coragem de olhar para o irmão.
– Canta pra mim...?
Bill olhou para ele por um breve segundo.
– Ainda não tenho uma melodia.
– Improvise. – Falou enquanto sentava na cama. Tentou dar um ar engraçado ao pedido, mas soou quase como uma súplica.
Bill suspirou longamente e, por um momento, Tom achou que o irmão realmente o ignoraria, mas, então, a voz doce preencheu o quarto.
– This used to be our secret, now I'm hiding here alone.
O garoto de dreads sobressaltou-se, a voz do irmão estava carregada de sentimentos. Carregada de dor.
– Can't help but read our names on the wall and wash them off the stone – De repente, a voz do rapaz tornou-se um sussurro. – I trusted you in every way.
E então ele finalmente parou de observar a janela e encarou o irmão.
– But not enough to make you stay.
O olhar de Bill o intimidava. Turn around. E as palavras o atingiam como lâminas. I've lost my ground. Mas foi no refrão, quando Bill deixou uma lágrima escorrer por seu rosto, que ele sentiu algo ruim dentro de seu peito.
Come and rescue me.
I'm burning, can't you see?
Come and rescue me!
Only you can set me free.
Come and rescue me!
Rescue me,
Rescue me!
Tom maneou se levantar, mas novamente o irmão lhe deu as costas.
– You lied when we were dreaming. Our crying was just fake...
“I wish you could deny it” Ele podia ouvir a voz do irmão falhar a cada frase.“Here and today, my s.o.s. on radio.”
Bill, de repente, bateu o punho fechado no vidro e bradou.
– The only chance to let you know what I feel. Can you hear?
Não deixou que ele cantasse o refrão novamente. Abraçou o irmão e foi prontamente correspondido. Deixou que as lágrimas caíssem e não teve vergonha de soluçar. Como tivera coragem de abrir mão daquilo que mais amava no mundo?
You are not here. Are you here?
Come and rescue me... Rescue me.
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