A Proposta
12 Dor
– Bill! Bill, espera! – Gustav gritava já no meio do saguão do hotel, correndo atrás do vocalista.
– Me deixa em paz. – O rapaz sibilou quando o outro finalmente o alcançou.
– Não. – O baterista falou sério, segurando o ombro do amigo com força. – A gente precisa conversa. Depois, se você quiser, eu não toco mais no assunto. Mas, agora, você vai falar comigo.
Bill engoliu a saliva e suspirou. Não havia como se zangar com Gustav.
– Vem, vamos sentar ali. – O loiro indicou o bar do hotel com a cabeça e o mais novo apenas deu os ombros, seguindo-o.
Ficaram em um silêncio constrangedor por alguns minutos, enquanto Gustav tentava procurar as palavras certas para dar início a aquela conversa.
– Há quanto tempo estão escondendo isso da gente? – Perguntou hesitante.
Bill balançou a cabeça.
– Ontem foi... – A voz saiu falha, a vontade de chorar ainda se fazia presente em cada respirar controlado. – Foi a primeira vez.
– Então... – Ele não sabia o que dizer. Estranhamente, aquela informação apenas tornava as coisas mais difíceis. – Bill... Você sabe que o Tom disse aquilo da boca pra fora, não é?
O vocalista lhe lançou um olhar de total descrença. Depois do que o gêmeo dissera, Gustav ainda queria defendê-lo?
O baterista suspirou. Não sabia o que estava acontecendo entre os Kaulitz e, assim como Georg, também não tinha aceitado muito bem o que vira na noite anterior. Era óbvio que o guitarrista só dissera aquilo porque fora pressionado.
Sem contar o quanto se sentia culpado. Fora idéia de ele ir até o quarto dos irmãos ver como estavam, depois de terem ido embora de forma tão repentina. NUNCA iria imaginar encontrar uma cena daquelas. Foi um sufoco arrastar Georg de volta para o quarto. Discutiram quase a noite toda e somente depois de boas horas foi que o baterista conseguiu convencer o mais velho de que conversariam com Tom, mais tarde.
Ele até entendia o baixista, descobrir que seu melhor amigo era gay e, pior que isso, tinha o próprio irmão como parceiro era completamente surreal. Mas, sinceramente, não pensou que fosse explodir daquela forma. Muito menos que Bill estaria ali para ouvir.
– Eu acho difícil compreender o que leva dois irmãos se quererem dessa forma. – Gustav confessou, tomando fôlego. – Mas acho que de ver ser ainda mais confuso para vocês. Por isso, eu não me sinto no direito de julgar e até mesmo entendo a reação do Tom, quando Georg começou a jogar tudo na cara dele.
Bill abriu a boca para fazer algum tipo de protesto, mas Gustav continuou:
– O que você sente por ele, Bill? É atração... Ou você realmente gosta do Tom?
Bill sentiu o rosto esquentar. Pensou nas noites insones, no medo, na vergonha, na alegria de ser correspondido. Voltou a chorar.
– Eu realmente gosto dele. – Escondeu o rosto nas mãos, soluçando.
– Será que então você não pode se esforçar para entendê-lo...?
A linha entre o amor e o ódio talvez não fosse tão tênue se ambos não fossem o mesmo sentimento. Se o ódio não fosse, simplesmente, o amor deturpado. Mascarado pelo orgulho, encoberto de dor.
“Podia ter sido qualquer um! QUALQUER UM.”
– Não. – Bill levantou o rosto e secou os olhos. – Eu acho que não.
***
– Tom... eu... – Georg estava arrependido. Era realmente contra aquele absurdo, achava sinceramente doentio, mas não queria gritar daquela forma. Não queria ter feito Tom dizer aquilo.
– Por que você não fica quieto? – A voz do guitarrista soou sem vida. Tirou o boné e passou a mão pela testa. O mais velho tinha razão, Bill era seu irmão, ele não podia desejá-lo, muito menos tocá-lo.
– Não... – O baixista balbuciou meio desesperado, tocando o braço do melhor amigo. Antes não o tivesse feito.
Tom ergueu os olhos, encarando-o. Os castanhos sempre brilhantes estavam opacos, incapazes de transmitir qualquer tipo de sentimento. A expressão era torturada e os lábios tremiam levemente.
– Você não acha que já falou demais por hoje? – Levantou o braço, fazendo com que o outro o soltasse e se arrastou para fora do quarto.
“O BILL É SEU IRMÃO, CARALHO”. Sim, Bill era seu irmão, seu sangue, seu gêmeo. E ele o quisera, e ele o tocara. Era um monstro.
Cambaleou pelo corredor, sentiu a cabeça latejar como nunca antes. Apoiou uma mão na parede e sentiu a traqueia travar. Puxou o ar com força, não entrava. “Bill... Eu quero te possuir”. Arregalou os olhos com a lembrança. Deus, até onde ele teria ido se o irmão não tivesse interrompido? Voltou a puxar o ar pela boca, as pernas estavam tremendo.
– Tom...? Tom, você está bem?! – A voz era distante demais para que ele identificasse seu dono.
Caiu de joelhos, sufocado. Bill jamais o perdoaria.
– TOM!
A última coisa que enxergou antes de fechar os olhos foram as madeixas longas e loiras de Thalita. Ela tocou seu ombro, sacudiu. Parecia gritar por ajuda, mas ele não ouvia. Não ouvia nada.
Tinha perdido a amizade do irmão. Pra sempre.
***
O ar invadiu seus pulmões com força, de uma vez. Arfou forte e se sentou num solavanco, agarrando a primeira coisa que suas mãos alcançaram. Sentiu tanta tontura que quase caiu novamente.
Ainda estava no meio do corredor, praticamente no colo da loira, que agora tinha seus braços firmemente segurados por ele. Soltou-a devagar.
– Você está bem? – Ela parecia aflita, retirou apressadamente o boné e a faixa de sua cabeça. – Meu Deus, Tom, o que aconteceu?
– O que...? Quanto tempo eu... – Algo desesperador passou por sua mente.
– Você acabou de cair, na verdade. – A marqueteira usou a faixa para secar o suor de sua testa. – Os seguranças devem estar vindo.
– Não! – Ele tentou se colocar de pé, era exatamente isso que temia. – Eu estou bem! Por favor, me promete que ninguém vai ficar sabendo o que aconteceu aqui! NINGUÉM!
– O quê? Mas é claro que não! Eu vou falar com O David e você precisa fazer um exame. Você acabou de desmaiar, tem noção disso?
– É, tenho sim. – Respondeu ríspido e arrancou os acessórios da mão da mulher. – Por favor, me promete que não vai falar com ninguém.
– Você está louco? – Ela ficou carrancuda para os modos dele. – E o Bill? Ele precisa saber qu...
– NÃO! – Ele sentiu o corpo inteiro doer à menção do nome do outro. Os olhos arderam, mas ele conseguiu impedir que as lágrimas caíssem. – Por favor, eu te imploro. Não fala nada com o Bill!
Thalita não precisou encará-lo por muito tempo para que as peças se encaixassem. Ela segurou os braços dele com força.
– O que aconteceu entre vocês?
Tom quase perguntou do que ela estava falando. Mas aquela intensidade na voz, os olhos preocupados, a entonação. De alguma forma, ela sabia...
– Como você...? – Sua expressão voltou a se transfigurar em uma careta e, por um segundo, achou que o ar fosse faltar novamente. Foi então que se iluminou. Lembrou de como ela e o vocalista estavam próximos nos últimos tempos, lembrou da festa, da forma como dançavam. –Ele te contou...
Thalita o encarou impaciente, precisava saber o que aconteceu.
– Você sabia o tempo todo! A culpa é sua que isso tenha acontecido! – Desespero. Apenas dor, sem sombra de razão. – Por que você não impediu? A CULPA É SUA.
A mulher arregalou os olhos, sem o menor rancor. Aquela era uma situação que nunca imaginou que presenciaria. Tom desabou em lágrimas – e sabe-se lá há quanto tempo ele não as estava segurando – seu rosto estava vermelho e ele parecia completamente descontrolado.
Ela o abraçou, sentindo um vazio tomar conta de si. Não tinha acabado bem. Não tinha acabado nada bem.
***
O nervosismo no camarim podia ser sentido a quilômetros. Era como se uma aura escura tivesse possuído aquele ambiente. Thalita estava silenciosa, do lado de fora, ouvindo a multidão que gritava “Tokio Hotel” de forma coordenada.
– Thata, o que está acontecendo? – David se aproximou da garota. – Os garotos estão estranhos, nenhum deles está falando direito. Não vi o Tom e o Bill perto um do outro nenhuma vez. Georg também parece excluído.
A garota olhou de forma meio cansada. O que poderia dizer? Tinha prometido, há algumas horas, a um Tom choroso, não dizer uma palavra sobre a briga dos dois – que ele também não a contou como aconteceu e ela não teve coragem de perguntar para o mais novo.
– Eu não sei... Deve ser o estresse da Tour...
– Pensei que isso ia melhorar depois da balada de ontem à noite, você fez tanta questão que eu organizasse aquilo. Por visto, foi em vão.
– É... – Sim, depois da conversa que tivera com o vocalista no dia anterior, pentelhou David até que conseguisse algo que desse a chance dos irmãos se falarem. Estava convicta de que daria certo. Agora, só restava o peso na consciência. Talvez Tom tivesse razão – mesmo que depois ele tenha pedido desculpas várias e várias vezes por aquelas palavras – e ela jamais deveria ter incentivado aquilo.
– Meu Deus! Está insuportável ficar lá dentro. Que clima horrível! – Uma mulher pequenina reclamou com uma bem mais alta, ao saírem do camarim. Eram as maquiadoras.
David lançou um olhar de lado para a gerente de marketing.
– Espero mesmo que seja só estresse. – E entrou na sala para avisar que deveriam subir ao palco.
Saíram, um a um, em silêncio. Cumprimentaram a platéia que explodiu em gritos. Cada um em suas posições, a guitarra começou a soar.
Bill se sentiu um pouco melhor com aquele carinho que emanava da multidão. Aquelas pessoas que não sabiam nada sobre ele, mas que estariam dispostas a ouvi-lo em qualquer situação. Era isso.
Bill perdeu a entrada e Tom lhe lançou um olhar que ele não viu. O guitarrista recomeçou a música, emendando, acompanhado com sucesso por Gustav e Georg. Mas, novamente, o vocalista não fez sua parte.
Então os instrumentos pararam de tocar e todos os olhares – principalmente os aflitos de David e Thalita – se voltaram para a criatura magra no meio do palco.
– Desculpa. – O rapaz abriu um sorriso verdadeiramente encantador, como se tivesse tido a idéia mais maravilhosa de toda a sua vida. – É que tem algo que está entalado na minha garganta e eu preciso muito colocar pra fora. Vocês se importam se eu mudar um pouquinho o repertório?
A pergunta era feita exclusivamente para a platéia, que respondeu com entusiasmo.
Bill alargou ainda mais seu sorriso e andou em direção ao baterista. Sussurrou rápido em seu ouvido e sem dar tempo para que ele respondesse, voltou correndo para o meio do palco.
Tom e Georg olharam para Gustav e esse apenas deu os ombros e começou a tocar. Rapidamente, os outros dois pegaram a deixa, mesmo sem entender, a princípio, as intenções do vocalista.
– I've got other plans today. – O mais novo bradou, sorrindo para a platéia e deu os ombros, complementando o sentido da segunda frase. – Don't need permission anyway.
– O que ele está fazendo? – O manager estava tão confuso quanto todos ali.
– I put all the blame on you bout me and all that I went through. – Bill caminhou em direção ao irmão, sem deixar de sorrir por um momento sequer. – You don't give me any choice.
Foi então que entenderam.
“I feel so claustrophobic here
Watch out, now you better disappear
You can't make me stay
I'll break away
Break Away”
Era seu desabafo, eram as palavras que estavam presas dentro de si. Era todo aquele sentimento corrompido. Toda a dor de sua ferida aberta.
– I'm warning you don't follow me, I won't miss you, can't you see?! – Ele cantou, olhando nos olhos do irmão. – What you wanted, it didn't work. Go on digging in the dirt.
Gritou.
– IN THE DIRT!
Tom sabia que aquilo iria desandar a qualquer momento. Aliás, todos que tinham alguma noção do peso daquelas palavras sabiam. Continuou tocando, sem desviar os olhos dos do mais novo nenhuma vez, estava preparado para ouvir tudo o que ele pretendia dizer – mesmo que soubesse a música de cor.
– I feel so claustrophobic here. Watch out, now you better disappear! – Foi caminhando lentamente em direção ao menor. – You can't make me stay, I'll break away. BREAK AWAY!
Bill praticamente colou os corpos dos dois, forçando o guitarrista a se inclinar para trás, e bradou acompanhado por todo o público.
– No more counting all your lies! No more waiting for your goodbyes! – Estavam próximos, exageradamente próximos. Ali Tom pode sentir todo o desespero, toda a mágoa e todo o rancor daquele sorriso cínico. – It's too late. Much too late!!
Por um segundo, sentiu as pernas cederem.
Bill correu de volta para a beira do palco e despencou no chão, de joelhos. Sussurrou:
– You are like a bitter pill that I had to take against my will... – Levantou-se em um salto e continuou somente para a platéia. Seu público, seus preciosos ouvintes.
O gêmeo mais velho continuou com a guitarra em punhos até o final, sentia os joelhos se flexionarem aos poucos. Sua força de vontade se extinguia a cada verso da última estrofe. Não conseguia mais olhar para o outro. Não conseguia mais sustentar o próprio peso.
– Breeeeaaak Awaaaaay.
Ele, definitivamente, o havia perdido.
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