A Profecia dos Amantes
24 Sobe ou Desce?
Tarla saiu da sessão de avaliação muito depois da hora em que qualquer reunião sensata deveria ter terminado – o que, infelizmente, tornara-se o padrão quando ele ainda era Cavaleiro e demonstrou resistência superior ao tédio burocrático.
A sala do Conselho auxiliar ainda parecia presa aos ombros dele, como se o ar seco dos pareceres, das observações formais e das conclusões já conhecidas houvesse se agarrado ao tecido de suas vestes. Yoda dissera logo no início, com aquela franqueza que “elevado, nenhum deles será”. Ainda assim, queria o parecer de Tarla. Queria sua leitura sobre disciplina, estabilidade, escuta, firmeza e aquela qualidade menos nomeável que fazia um Cavaleiro deixar de ser apenas competente para se tornar refúgio, referência, eixo. Tarla já sabia que o pequeno Mestre tinha razão — nenhum dos avaliados estava pronto. Havia talento. Havia estudo. Havia boa vontade, bravura, até brilho em um ou outro. Mas não havia maturidade suficiente, nem peso interno, nem aquela estranha simplicidade que só aparecia quando alguém deixava de tentar parecer pronto.
Ao sair, tudo o que Tarla desejava era o próprio quarto, silêncio e a ausência de qualquer exigência que envolvesse julgar a prontidão de outros seres sencientes ou não. Coruscant já dormia sob o Templo: os corredores estavam mais vazios, as luzes mais baixas, e a noite dava às galerias uma quietude particular, quase líquida.
Foi então que ele ouviu a voz.
Tarla parou no meio do corredor com tanta brusquidão que o manto ainda se moveu um instante a mais do que o corpo.
A primeira razão foi simples: a voz era belíssima.
Ele tinha cento e cinquenta anos. Já ouvira beleza demais para ser impressionado com facilidade. Já escutara corais em planetas de água e de gelo, cânticos funerários tão antigos que ninguém mais sabia traduzi-los, vozes treinadas em cortes aristocráticas, vozes brutas de peregrinos, vozes finas de crianças, vozes gastas pela idade, vozes perfeitas demais para serem humanas e vozes quebradas que, por isso mesmo, se tornavam ainda mais belas. Ainda assim, aquela voz o fez parar.
A segunda razão foi ainda mais profunda.
Ela cantava em keshtari.
Não era apenas uma melodia aproximada, nem o tropeço respeitoso de alguém lendo fonemas sem corpo. Era keshtari verdadeiro, com o ritmo respirado da língua, com o peso certo nas sílabas líquidas, com as vogais longas abertas como neve refletindo o céu. Havia pequenos desajustes, sim, sutis o bastante para que um nativo os notasse, mas não eram erros de ignorância; eram um arredondamento doce, uma musicalidade estrangeira se infiltrando na estrutura da língua e tornando-a mais suave sem feri-la.
Tarla ficou imóvel, ouvindo. A voz vinha de algum lugar adiante, multiplicada pelos corredores de pedra até parecer existir em mais de um lugar ao mesmo tempo. Ele seguiu os ecos com passos lentos, quase involuntários, atravessando uma galeria lateral, depois outra, até que a acústica se abriu em um dos jardins internos do Templo. Ali havia um gazebo de pedra clara e colunas finas, parcialmente coberto por trepadeiras noturnas, e foi lá que ele a encontrou.
Rum’ea estava sentada dentro do gazebo, de lado para a entrada, um holopad aberto sobre o colo.
Isso o surpreendeu e, ao mesmo tempo, não o surpreendeu nem um pouco.
Tarla não imaginara que ela cantasse tão bem. Não imaginara, nem de longe, que pudesse ouvi-la sem reconhecê-la até vê-la. A voz parecia maior que o corpo dela, mais antiga, mais luminosa. Mas, ao mesmo tempo, se havia alguém naquele Templo capaz de decidir, em uma noite qualquer, aprender uma canção em keshtari, as chances de ser Rum’ea eram realmente altas.
Ela não o viu.
Talvez porque estivesse inclinada sobre o holopad, acompanhando a letra entre uma estrofe e outra. Talvez porque a estrutura do gazebo amplificasse a própria voz e a envolvesse num eco quente sem que ela se desse conta. Talvez porque, quando Rum’ea mergulhava em alguma coisa, o resto do mundo precisava praticamente se apresentar por escrito para ser notado – ou colidir com ela no corredor.
Tarla ficou à entrada, ouvindo.
A voz dela preenchia o espaço com uma doçura inesperada. O keshtari saía arredondado nos cantos, as consoantes menos cortantes do que em bocas nativas, as vogais mais cantadas, o que fazia a melodia soar ainda mais terna. Era uma canção antiga — antiga o bastante para que a estrutura verbal denunciasse um período anterior à padronização interplanetária de vários termos afetivos. Ele conhecia cada verso, embora não a ouvisse há mais de um século.
Rum’ea chegou à última linha, parou, franziu a testa para o holopad e, sem levantar os olhos, murmurou em voz alta para si mesma:
— “Rakkailunëra” sobe ou desce na pronúncia…?
Tarla respondeu antes de se dar conta de que o estava fazendo.
— Depende.
O efeito foi imediato.
Rum’ea deu um pulo inteiro, não apenas um sobressalto. O holopad escorregou do colo, bateu no chão de pedra com um ruído seco, e, no mesmo movimento em que se virava, a mão dela já mergulhava para dentro da faixa da cintura. Quando Tarla piscou, ela já estava de pé com uma adaga curta em punho, o peito subindo rápido, os olhos arregalados pela descarga de adrenalina.
— Tarla! -O nome saiu entre alívio e indignação. — Você poderia ter se machucado! — Acrescentou, ainda segurando a lâmina. — Aparecendo desse jeito-
Tarla ergueu levemente as mãos, aceitando a repreensão merecida.
— Poderia. — Concordou com calma. — Foi um erro meu. Desculpe.
Rum’ea ficou parada ainda por um instante, respirando com força, a adaga firme na mão. Depois soltou o ar pelo nariz, embainhou a lâmina outra vez com um gesto brusco e abaixou-se para pegar o holopad do chão.
— Eu podia ter acertado você.
— Sim.
— No pescoço.
— Também sim.
— Ou no rosto.
— A precisão do cenário está ficando perigosamente detalhada.
Ela ergueu os olhos para ele, ofendida o bastante para quase esquecer que estivera cantando uma canção de amor keshtari em um gazebo no meio da noite.
— Não zombe. Você apareceu do nada. E com o vínculo mais fechado, eu não fazia ideia de que você estava aí.
Tarla inclinou a cabeça em concordância.
— Tem razão. Não deveria ter me aproximado em silêncio.
Rum’ea apertou os lábios, ainda contrariada, mas a irritação começou a ceder espaço a outra coisa. Embaraço, talvez. Ou a percepção retardada de que ele a ouvira cantar.
— Então? — Perguntou ela, retomando o assunto original num desvio óbvio. — “Rakkailunëra”.
Tarla entrou no gazebo. A noite estava fria o bastante para lembrar-lhe vagamente Keshtara, embora o Templo jamais pudesse reproduzir a limpidez cortante do ar do seu planeta. Ele parou a uma distância que não a acuasse e respondeu:
— Sobe ou desce dependendo da resposta recebida. Desce se a resposta for negativa. Sobe se for positiva.
Rum’ea piscou, absorvendo aquilo como quem recolhe uma peça importante.
— Ah.
Ela olhou para o holopad. Depois para ele.
— Isso é cruelmente específico.
— É uma palavra cruelmente específica.
O vento moveu de leve as folhas das trepadeiras externas. O jardim ao redor parecia suspenso em penumbra e prata. Tarla então perguntou, com interesse genuíno:
— Onde encontrou essa música?
Rum’ea olhou para a tela antes de responder.
— Nos arquivos. Havia registros incompletos. A melodia estava em um dos bancos sonoros, e a tradução em Basic parecia... — Ela fez uma expressão de quase ofensa. — Pobre.
Tarla quase sorriu.
— Pobre?
— Muito. Achata tudo. Fica correta por cima e morta por dentro. Então eu tentei fazer uma tradução melhor.
Ela virou o holopad na direção dele.
Tarla se aproximou um pouco mais e leu. A tela trazia a letra em keshtari, linha por linha, e abaixo a versão em Basic que Rum’ea vinha refinando.
“Sai nil kaela, tiyë virein;
Sai varun sörikaera, tuë odalein;
Sai hyren kaëla, tremain;
Sai valora kaëla, tuë karein.
Sai soriel tava saara, kuuilëin;
Sai melora sentein, tiyë tainsëin;
Sai silvën tava luvieira, ardain;
Sai siivët krëain, tuë volarëin.
Sai ma kareira, venëin;
Sai havarëin, aki ja sara;
Sai tiya lorein, miën kadarein;
Sai tiya veinëin, rakkailunëra.”
“Quando nada eu tinha, você eu quis;
Quando tudo era ausência, por ti esperei;
Quando tive frio, tremi;
Quando tive coragem, por ti chamei.
Quando chegou o teu chamado, ouvi;
Quando senti a música, contigo dancei;
Quando teus olhos brilharam, ardi;
Quando criei asas, para ti voei.
Quando me chamou, eu vim;
Quando percebi, já estava aqui;
Quando lhe achei, a mim mesmo perdi;
Quando vi você, me apaixonei.”
Tarla leu tudo em silêncio.
Rum’ea o observava com uma atenção estranhamente tensa, como se esperasse correção imediata, talvez até a desmontagem inteira daquilo. Mas Tarla não corrigiu.
— Não está errada. — Disse, por fim.
Rum’ea pareceu verdadeiramente surpresa.
— Não?
— Não. Está melhor do que a versão dos arquivos. Eu já havia lido décadas atrás, mas nunca parei para realizar uma correção.
Ela relaxou um pouco, embora tentasse disfarçar. Tarla apoiou dois dedos na borda do holopad, pensando em como explicar.
— Apenas... Há coisas que o Basic não consegue carregar sem comentário. Por exemplo, “Sai varun sörikaera, tuë odalein”. “Ausência” funciona, mas “sörikaera” não é só ausência comum. Traz embutida uma ausência que já conhece a forma do eco que espera e não encontra.
Rum’ea baixou os olhos para a linha.
— Como se a ausência já fosse pessoal.
— Sim.
Ela assentiu devagar.
— E “sai tiya lorein, miën kadarein”? — perguntou. — “Quando lhe achei, a mim mesmo perdi” é ruim?
— Não ruim. Só... Menos perigosa do que a frase originalmente é.
Rum’ea ergueu o rosto.
— Perigosa?
Tarla olhou para a noite além do gazebo antes de responder.
— Em keshtari, o verso não fala apenas de se perder romanticamente. Fala do risco real de deslocamento do eu quando alguém encontra sua Metade. Há beleza nisso. E medo também.
Rum’ea ficou muito quieta. Pelo vínculo, algo nela tocou uma região de curiosidade mais funda. Não era apenas sobre a música — era sobre ele. Sobre Keshtara. Sobre essa biologia que, até então, ela ouvira mencionada sobretudo como garantia de segurança.
E então, antes que pudesse se impedir, a pergunta escapou pelo vínculo, mais rápida que o cuidado:
Você tem Metade?
Rum’ea se encolheu de imediato por dentro, arrependida.
Desculpe. Não é da minha conta.
Tarla sentiu o recuo dela, quase físico dentro do vínculo, e respondeu antes que ela se fechasse demais.
Não, disse, com honestidade limpa. Não sou nada.
Ela franziu a testa.
Nada?
Não tenho Ailunë. Então, não sou nada. Nenhum nome. Apenas Keshtari.
A resposta repousou entre eles com uma serenidade que parecia ensaiada há muito tempo. Mas por baixo dela havia mais.
Rum’ea hesitou só um instante antes de perguntar outra vez, agora com muito mais cuidado:
Você gostaria de ter?
Tarla não respondeu de imediato. A noite pareceu expandir-se por um momento, deixando o gazebo suspenso entre o jardim do Templo e alguma margem interior muito distante. Quando a resposta veio, não trouxe evasiva.
Não sei.
Rum’ea ergueu os olhos para ele.
Tenho medo de me perder se tiver, continuou ele. E medo de nunca encontrar.
A frase era simples, mas o vínculo carregou mais do que as palavras.
Levou até ela a sensação de uma cultura inteira construída em torno de uma possibilidade rara e absoluta. Não um flerte. Não uma paixão gradual. Não um desejo espalhado em muitas direções. Um eixo único, capaz de reorganizar a própria identidade. Para um Keshtari, amar não era uma paisagem aberta de tentativas — era um acontecimento sísmico... Ou não era nada.
Tarla prosseguiu, mais baixo:
Mas, como todo Keshtari, eu também guardo meu cristal… Caso algum dia precise.
E então, sem querer, a imagem escapou.
Rum’ea viu pelo vínculo uma caixa escura, de madeira polida, forrada por dentro com tecido profundo. E dentro dela, um cristal do tamanho de um punho — prata à primeira vista, mas atravessado por reflexos verde, dourado e rosa, como se as próprias Luzes Dançantes tivessem sido deixadas presas em sua estrutura. Um Coração de Cristal. Guardado. Esperando. Vasto em significado e absolutamente intocado.
Junto com a imagem veio outra compreensão: Tarla não voltava a Keshtara desde que fora levado ao Templo.
Rum’ea baixou os olhos depressa, tomada por um constrangimento suave.
Desculpe. Pela pergunta. Sobre sua biologia.
Tarla a observou por um instante. Havia nela vergonha, curiosidade, cuidado em não invadir — e também, embora ela não soubesse formular assim, uma necessidade muito concreta de entender com quem estava.
— É bom que saiba. — Disse ele em voz alta, e a gravidade gentil da frase fez Rum’ea tornar a encará-lo.
Ela piscou.
Tarla apoiou uma das mãos no encosto de pedra do gazebo, o perfil parcialmente recortado pela luz baixa do jardim.
— Expliquei no Conselho, no seu primeiro dia, que Keshtaret não sentem amor romântico ou desejo que não seja pela própria Metade. — Disse. – Agora você sabe que há mais do que palavras bonitas ou mentiras convenientes.
As palavras ficaram entre eles com uma nitidez quase física.
Rum’ea sentiu o impacto delas primeiro no corpo, depois no pensamento. Havia alívio ali, sim — um alívio tão imediato que quase envergonhava, porque tocava diretamente em um dos medos mais antigos dela. O medo de homens. O medo do que a suavidade podia esconder. O medo do desejo como força predatória inevitável. Saber que, no caso de Tarla, esse campo simplesmente não existia da forma como existira em todos os cenários que a assustavam era... Enorme. Talvez grande demais para nomear de uma vez.
Mas havia também outra coisa. Uma tristeza fina. Não por pena. Rum’ea não sentia pena dele. Sentia, talvez, o peso solitário do que aquilo significava. A possibilidade de uma vida inteira sem nada. Ou com uma única coisa total, caso viesse. E o risco absoluto em ambas as direções.
— Isso... — Ela começou em voz alta, depois parou.
Pelo vínculo, reformulou com mais precisão:
Isso de fato me deixa mais segura perto de você.
Tarla assentiu uma vez.
É por isso que estou dizendo.
Rum’ea olhou novamente para a letra no holopad.
— Então… — Murmurou. — “Rakkailunëra” não é só “me apaixonei”.
— Não.
— É pior.
Tarla quase sorriu.
— Muito pior.
— Mais bonito, mas pior.
— Também.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, relendo os versos como se agora contivessem um peso novo. A música que antes parecia apenas bela ganhava profundidade com tudo o que ele dissera. Não era uma canção leve. Era uma canção perigosamente honesta para uma cultura em que o amor não era experimento, mas destino potencial.
Rum’ea ergueu o holopad outra vez.
— Então me explica o último bloco. — Disse. — Quero entender direito.
Tarla se aproximou mais, inclinando-se ao lado dela o suficiente para ver a tela com clareza. Rum’ea não se afastou. O gazebo os acolhia em uma intimidade quieta, feita mais de linguagem do que de corpo.
Ele apontou a nona linha.
— “Sai ma kareira, venëin”. Você traduziu como “Quando me chamou, eu vim”. Funciona. Mas em keshtari o verbo de vir aqui não é simplesmente locomoção. Traz consigo uma aceitação já consumada. Não “eu decidi vir”, mas “a chamada encontrou em mim algo que já caminhava antes”.
Rum’ea soltou uma pequena expressão de exasperação.
— Vocês fazem tudo ficar mais complicado.
— Nós fazemos tudo ficar mais específico.
— Isso é uma defesa elegante demais para um povo que parece falar tudo em forma de poesia.
— É a defesa correta.
Ela fez um som pelo nariz, quase riso, e passou para a linha seguinte.
— “Sai havarëin, aki ja sara”.
Tarla leu.
— “Quando percebi, já estava aqui” está bom. Mas “aki ja sara” tem também a ideia de irreversibilidade. Como se a chegada só fosse percebida depois de consumada.
Rum’ea arregalou levemente os olhos.
— Então essa música é basicamente um conjunto de avisos.
— Em certa medida.
— Sobre se apaixonar.
— Sobre o que acontece quando um Keshtari se reconhece na presença da própria Metade.
Ela ficou olhando para a tela.
— É quase terrível.
— Sim.
— E mesmo assim vocês cantam isso.
— Cantamos.
Rum’ea ergueu o rosto para ele de novo, o cabelo negro caindo como sombra viva ao redor da face.
— Você gosta da música?
Tarla demorou um pouco antes de responder.
— Gosto do que ela é.
— Isso não responde.
— Responde o suficiente.
Ela semicerrou os olhos, mas não insistiu. Em vez disso, voltou ao holopad e, depois de um momento, perguntou:
— E minha pronúncia?
Tarla piscou.
— Sua pronúncia?
— Sim. Já que aparentemente fiquei cantando alto o bastante para o Templo inteiro me ouvir.
— Não diria o Templo inteiro. Apenas a parte do Templo que teve sorte.
Rum’ea parou completamente e, por um segundo, apenas o encarou. Tarla percebeu um instante tarde demais que soara mais elogioso do que costumava soar.
Ela piscou uma vez.
— Isso foi quase gentil.
— Foi gentil.
— Estranho.
— Você cantou uma canção Keshtari em um gazebo no meio da noite. Creio que já ultrapassamos o território do comum há algum tempo.
Rum’ea desviou o olhar para esconder qualquer reação que tivesse tido à frase, mas pelo vínculo ele sentiu o calor breve do contentamento dela. Pequeno. Rápido. Real.
— Então? — Insistiu, voltando à pergunta. — Minha pronúncia.
Tarla a observou com atenção tranquila.
— Você arredonda mais as palavras do que um nativo faria. E adoça consoantes que, em Keshtara, costumam sair mais nítidas. Tecnicamente, isso a afasta da forma mais tradicional.
Ela fez uma careta.
— O que significa que está tudo errado.
— Não.
Rum’ea voltou os olhos para ele.
— Não está?
— Não. Só não soa nativa. Soa... Sua.
Ela não pareceu saber o que fazer com isso.
Tarla completou, antes que ela pudesse se defender de um elogio que ainda não entendera se queria receber:
— E isso deixa a música ainda mais bonita.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi denso, macio, quase luminoso na quietude do jardim. Rum’ea baixou os olhos para o holopad, os dedos repousando sobre a borda da tela como se precisassem de ocupação.
— Eu achei o som bonito. — Disse enfim, em voz baixa. — Foi por isso que fui atrás de uma tradução decente. Não sabia que...
Ela parou.
— Que…? — Perguntou Tarla.
Rum’ea hesitou. Depois respondeu pelo vínculo, mais fácil assim:
Não sabia que uma canção podia carregar tanta biologia, tanta cultura, tanto medo e tanta beleza tudo junto.
Tarla sentiu a frase se acomodar nele com algo próximo de ternura.
Pode, respondeu. A maioria das coisas realmente vivas carrega.
Ela assentiu devagar.
A noite avançava. O cansaço da sessão de avaliação ainda existia em Tarla, mas estava muito mais distante agora, dissolvido pela surpresa de uma voz belíssima cantando a língua de sua infância em um jardim do Templo. Rum’ea ainda segurava o holopad no colo, e a canção, de algum modo, parecia pairar entre os dois mesmo em silêncio.
Depois de um tempo, Rum’ea perguntou, em voz alta desta vez:
— Se eu cantar de novo... Você vai aparecer silenciosamente nas sombras como um espírito de Keshtara?
Tarla quase sorriu.
— Não, se isso significar risco real de você me apunhalar.
— Isso é razoável.
— Fico satisfeito que pense assim.
Ela o olhou de lado.
— Mas talvez eu cante de novo.
— Talvez eu bata na coluna do gazebo antes de entrar.
— Melhor. – Houve uma pausa longa. — Tarla?
— Sim?
— “Rakkailunëra” sobe, então, se for correspondido?
— Sobe. — Confirmou ele.
Rum’ea olhou para a última linha no holopad como se ela agora lhe parecesse ainda mais viva, mais perigosa e mais bela.
Então, muito baixinho, quase apenas para a noite, ela repetiu a palavra com a curva descendente correta.
Tarla ouviu.
E desta vez, quando o eco morreu entre as colunas do gazebo, ele não disse nada. Apenas ficou ali, ao lado dela, enquanto a língua de Keshtara se refazia no ar pela voz improvável de uma jovem de Kyrmora que aprendera a cantar amor em uma língua que não era sua — e, ao fazê-lo, tornara-a ainda mais bonita.
Fale com o autor