A Profecia dos Amantes
25 Intensidade Baixa
Antes do nascer do sol, os jardins do Templo ainda pertenciam ao silêncio.
Não ao silêncio disciplinado das salas de meditação durante o dia, nem ao silêncio cerimonial dos corredores quando Mestres passavam em conversas baixas, mas a uma quietude mais antiga e mais rara, quase anterior ao próprio Templo. As fontes corriam em murmúrios finos entre pedras escuras de umidade, as folhas das árvores ainda guardavam gotículas frias da madrugada artificial de Coruscant, e, muito acima, além das arcadas abertas, a cidade permanecia acesa como um firmamento invertido, distante o bastante para parecer menos real que o vapor leve subindo da água. Rum’ea chegou com passos lentos, o cabelo negro solto em volta dos ombros, a trança de Padawan atrás da orelha direita ainda úmida de alguma lavagem apressada, as vestes claras de treino ajustadas por faixas azuis nos punhos e no cruzamento do peito. Vinha desperta demais para alguém acordada tão cedo, o que significava (Tarla já aprendera) que metade dela estava atenta e a outra metade estava insultando mentalmente a existência da manhã. E dele, provavelmente.
Ele já estava lá, sentado em um banco de pedra próximo à fonte menor, com o sabre de luz desmontado sobre um pano escuro diante dele. Havia pequenas ferramentas dispostas em ordem cuidadosa ao lado da empunhadura aberta, e Tarla trabalhava com a cabeça levemente inclinada, os cabelos castanho-grisalhos caindo sobre um ombro, os dedos longos movendo peças internas com uma precisão que fazia o gesto parecer menos manutenção e mais oração silenciosa. O ar ainda era azul antes do amanhecer, e a luz baixa tocava o metal do sabre em brilhos frios. Rum’ea parou a alguns passos, observando por um instante antes de falar.
— Por quê?
Tarla ergueu os olhos, sem qualquer surpresa.
— Bom dia.
— Ainda não.
— Ainda não. — Concordou ele.
Ela apontou para o sabre desmontado.
— Por quê?
Tarla olhou para a empunhadura aberta, depois para ela, como se a pergunta tivesse uma resposta simples demais para ser escondida.
— Gosto de fazer isso enquanto o mundo ainda dorme. Tem propriedades meditativas.
Rum’ea franziu a testa.
— Ajustar uma arma?
— Especialmente ajustar uma arma.
— Isso soa como o tipo de coisa que Jedi dizem para fazer manutenção parecer profunda.
— Talvez seja uma coisa profunda que outros fazem parecer manutenção.
Ela estreitou os olhos, mas havia no vínculo uma pequena ondulação de interesse, apesar da desconfiança. Tarla não se alongou na explicação. Apenas fechou a empunhadura com um clique suave, girou uma peça do emissor, verificou a estabilidade com o polegar e recolheu as ferramentas uma a uma. Não ativou a lâmina. Não demonstrou. Não explicou o ajuste. Quando terminou, prendeu o sabre de volta ao cinto como se aquilo encerrasse o assunto por completo, e então se levantou.
— Remova a adaga.
Rum’ea ficou imóvel. A mente dela, que até então vinha fazendo comentários sobre armas meditativas e amanhecer ofensivo, endureceu imediatamente.
— … O quê?
— A adaga. Remova.
A mão dela desceu por reflexo até o ponto exato onde a lâmina curta ficava escondida. Tarla permitia que ela a mantivesse perto quando estava sozinha à noite ou sozinha com ele, não porque o Templo aprovasse, mas porque arrancar dela toda sensação de defesa de uma vez teria sido mais vaidade pedagógica do que sabedoria. Ainda assim, nos treinos, ele vinha insistindo em retirá-la. Não sempre, não em todos, mas sempre quando queria que ela aprendesse a sustentar o corpo sem negociar com a fuga metálica que carregava na cintura.
— Você disse que eu podia manter perto quando estivesse sozinha com você.
— Disse.
— Estamos sozinhos.
— E vamos treinar escudos. Hoje a adaga seria uma resposta que eu não quero que seu corpo escolha antes da Força.
Rum’ea olhou para ele com uma irritação fina, mas puxou a adaga da faixa. Não a entregou diretamente em sua mão — colocou-a sobre o banco de pedra, perto o suficiente para vê-la, mas longe o bastante para que não pudesse alcançá-la por reflexo sem decidir. Tarla aceitou a solução sem comentário.
— Primeiro escudo. — Disse ele.
Ela soltou ar pelo nariz, deu três passos para o centro do jardim e ergueu a mão.
Já estavam treinando havia semanas. O primeiro dia, quando o escudo se erguia meio torto e o punho de Tarla a empurrava para trás como um golpe de tempestade, parecia próximo e distante ao mesmo tempo. Desde então, a barreira dela deixara de ser uma coisa fina e irregular para se tornar uma concha mais viva, uma resistência moldada ao redor do espaço diante do corpo. Ainda não era perfeita, nem perto disso. Tremia quando ela se cansava. Endurecia demais quando o medo subia. Curvava pouco nas bordas quando ela pensava na frente e esquecia os lados. Mas vinha mais depressa agora, quase antes de ela terminar a intenção.
A Força respondeu, e uma pressão invisível se formou entre eles.
Tarla se aproximou sem pressa e tocou o escudo com os dedos. Leve primeiro — quase nada. Apenas a ponta dos dedos batendo contra a superfície como chuva em vidro. Rum’ea sustentou. Ele tocou em outro ponto, depois outro, andando devagar ao redor da meia-lua de proteção. Ela acompanhou com respiração baixa, os pés firmes na pedra úmida, a mente aberta o bastante para receber correções sem precisar ouvi-las diante do jardim inteiro.
Bordas, disse ele pelo vínculo.
Rum’ea ajustou.
Menos rígido no centro.
Ela soltou o ar.
Não prenda no ombro. Prenda no chão.
Eu não sou uma árvore, resmungou ela mentalmente.
Hoje, finja melhor.
A resposta dela veio como uma imagem mental de si mesma com raízes ofensivamente azuis e folhas negras, rosnando contra botânicos Jedi. Tarla deixou o divertimento passar apenas como uma onda baixa e continuou.
Depois dos dedos veio a palma. A primeira batida foi leve. A segunda, mais sólida. A terceira fez a barreira afundar e retornar, mas não quebrou. Rum’ea já sabia deixar parte da força morrer nos pés, já sabia que tentar bloquear tudo como parede sólida apenas fazia o escudo rachar. O segredo estava em aceitar impacto sem permitir entrada, como uma porta que conhecia o próprio batente, como água que não se deixava atravessar porque era mais densa do que parecia.
Durante mais de uma hora, Tarla a fez repetir.
Dedos. Palma. Palma em diagonal. Palma com passo. Punho contido. Punho lateral. Recuo. Reerguer escudo. Respirar. Ajustar bordas. Não piscar antes do impacto. Não confundir medo com falha. Não confundir recuo com derrota. A luz do céu começou a mudar lentamente, o cinza pálido da madrugada diluindo-se em azul. Rum’ea suava, estava com a respiração mais pesada, com os cabelos grudando em alguns pontos junto ao rosto, mas o escudo estava firme. Mais firme do que na semana anterior. Mais rápido. Mais dela.
Tarla recuou três passos e Rum’ea sentiu, pelo vínculo, a concentração dele mudar.
— Último. — Disse ele.
Ela firmou os pés.
Dessa vez, ele não avisou se seria palma ou punho, porque não precisava. O corpo dela viu antes. O ombro dele encaixou, a cintura girou, o peso desceu. Punho. Pleno.
Rum’ea ergueu o escudo, e o golpe veio como uma queda de pedra.
Tarla atingiu a barreira com força suficiente para fazer o som do impacto atravessar o jardim em um estalo surdo. O escudo aguentou, mas a energia empurrou Rum’ea vários metros para trás. As botas rasparam a pedra, o impacto subiu pelas pernas, atravessou o quadril, o peito, os dentes, e por um instante ela sentiu o corpo inteiro vibrar como uma lâmina fina e mal presa. O escudo tremulou, esticou, quase cedeu, mas não quebrou. Ela parou ainda de pé, curvada um pouco para frente, um braço estendido, a outra mão aberta ao lado do corpo para equilibrar.
Tarla baixou o punho, parecendo satisfeito.
Rum’ea reconheceu a satisfação antes de vê-la. Não era orgulho explosivo — era aquela aprovação funda, contida, que nele vinha como luz sob gelo.
— Melhor. — Disse ele.
Ela soltou uma risada curta e sem fôlego.
— “Melhor”? Tarla, você quase me lançou na fonte.
— Quase não é uma métrica relevante.
— Para quem não quase caiu, realmente não deve ser.
Tarla não respondeu. Em vez disso, levou a mão ao cinto…
E pegou o sabre.
A mudança no corpo de Rum’ea foi instantânea. A exaustão desapareceu sob adrenalina. O escudo se desfez de susto. Os olhos dela desceram para a empunhadura, depois subiram para o rosto de Tarla, procurando a explicação que ele não dava.
— Tarla… O que você está fazendo?
Tarla segurou o sabre com naturalidade, ainda apagado.
— Defenda.
A mente dela estalou.
— O quê?
— Defenda.
Ela deu meio passo para trás.
— … Do sabre?
— Não.
Tarla ativou a lâmina verde.
O som familiar cortou o ar da manhã.
— De mim.
E atacou sem aviso.
Não houve tempo para indignação, só movimento. A lâmina verde veio em diagonal, rápida demais para ser uma demonstração. Rum’ea ergueu um escudo por reflexo, mas a barreira nasceu fina, apavorada e incompleta. O golpe a atravessou, quebrando a estrutura da Força em estilhaços invisíveis, e ela se jogou para o lado antes que a lâmina alcançasse o espaço onde estivera. O sabre cortou o ar a um palmo dela, quente e vivo, e o corpo de Rum’ea entendeu perigo antes que a mente pudesse lembrar qualquer confiança.
Tarla!
Ele não respondeu com palavra.
Veio outro golpe.
Rum’ea recuou, ergueu novo escudo, mais curvo. A lâmina bateu e a barreira explodiu em pressão, desaparecendo tão rápido que ela quase caiu de costas. Tarla avançou. Não correndo ou com brutalidade caótica — com precisão. Cada passo dele tomava espaço. Cada corte fechava uma rota óbvia e deixava outra estreita, como se ele a estivesse conduzindo sem parecer conduzir.
Rum’ea fugiu pela esquerda.
A lâmina verde veio baixa, obrigando-a a saltar sobre uma raiz exposta. Ela pousou mal, deslizou na pedra úmida e se agarrou ao tronco de uma árvore para girar o corpo para trás dela. O golpe seguinte de Tarla parou no outro lado do tronco, não o atingindo, mas obrigando-a a compreender que a árvore comprara apenas meio segundo, não salvação.
Escudo, veio dele pelo vínculo, seco.
Você está me atacando com um sabre!
Escudo.
ISSO É TUDO QUE VOCÊ SABE DIZER?! SEU PALITO DE PEDRA CRESCIDO DEMAIS, DESPERDÍCIO DE TECIDO, TORRE COM PERNAS, RANCOR DEPILADO, DEMÔNIO DE CORREDOR, EU ESPERO QUE TODAS AS SUAS MEIAS FIQUEM MOLHADAS POR DENTRO PARA SEMPRE!
Me preocuparei com sua linguagem depois. Agora: escudo.
Ela rosnou, ergueu a mão e formou a barreira no instante em que ele contornava a árvore. O golpe veio de cima. A barreira segurou uma fração de segundo e depois quebrou, mas essa fração bastou para que ela mergulhasse sob o arco da lâmina e rolasse por cima de uma faixa de grama fria. As vestes sujaram, o cabelo caiu no rosto, e a indignação dela se misturou ao medo em uma coisa feroz demais para ser pensamento.
O jardim tornou-se terreno.
Pedras baixas viraram obstáculos. Árvores, cobertura. A fonte, possibilidade. Rum’ea saltou sobre uma mureta de pedra, escorregou para trás de uma coluna ornamental, ergueu escudos pequenos demais e rápidos demais, quase todos se partindo sob os golpes de Tarla. Cada quebra mandava um choque pela presença dela. Cada novo escudo vinha menos por instrução e mais por necessidade. Tarla não dava espaço para raciocínio longo. Ele simplesmente a forçava a escolher: bloqueia, desvia, usa o chão, usa o tronco, respira, levanta, não congela.
Ela chutou uma pedra solta na direção dele por puro reflexo.
Tarla desviou sem esforço.
— Ineficiente. – Disse, acompanhando a trajetória da pedra com uma expressão de desaprovação.
— SEU… SEU TRONCO KESHTARI MAL POLIDO! — Respondeu ela, quase sem fôlego. — SEU BLOCO DE GELO COM CREDENCIAIS JEDI!
— Ofensivo, mas deveras criativo.
A lâmina veio outra vez.
Rum’ea ergueu escudo. Quebrou. Outro. Quebrou. O terceiro segurou o suficiente para empurrá-la para trás e lhe dar um segundo de espaço. Viu a fonte atrás de si — a água correndo em níveis circulares, a borda baixa, o topo central elevado como uma pequena plataforma lisa e estreita. Sem pensar, correu para ela.
Tarla avançou.
Rum’ea saltou.
Não foi um salto comum, mas ela só percebeu que algo diferente havia acontecido quando o mundo pareceu ceder sob seus pés e o ar a levou mais limpo, mais alto, mais longe do que o corpo cansado deveria permitir. Pousou empoleirada no topo da fonte, em cima da pedra central molhada, os braços abertos para equilibrar, joelhos dobrados, a água respingando nas botas e na barra das vestes. Por um segundo, conseguiu respirar.
Tarla parou abaixo e ergueu o rosto, olhando para ela.
Não atacou imediatamente.
No vínculo, passou um traço de aprovação silenciosa.
Rum’ea piscou, ainda ofegante.
O quê?
Você usou a Força no salto.
Ela olhou para baixo, para a distância que havia coberto, depois para ele.
Eu usei?
Sim.
Não usei.
Usou.
Eu estava fugindo.
E a Força ajudou.
O absurdo da frase quase a fez rir, mas Tarla já se movia. O sabre subiu em um arco controlado, e Rum’ea ergueu o escudo de cima para baixo, como cobertura entre a lâmina e o próprio corpo. O impacto a desestabilizou. Ela escorregou, saltou da fonte para não cair dentro de costas, e pousou na parte rasa espalhando água para todos os lados, molhando as vestes até os joelhos.
— Eu odeio seus métodos!
— Já percebi.
— Você é a razão pela qual deveriam existir formulários antes de Mestres terem ideias mirabolantes!
Ele atacou de novo.
Rum’ea já não sabia há quanto tempo estavam nisso, mas o sol já começava a tocar as partes altas do jardim. Sua respiração queimava. Os braços tremiam. A mente já não conseguia formular planos longos, apenas imagens de rota, impacto, escudo, quebra, escape. Tarla parecia incansável, mas não impiedoso. Era o pior tipo de difícil: controlado. Nunca golpeava onde ela não tivesse alguma chance. Nunca fechava todas as saídas… Mas também não facilitava a ponto de deixá-la confortável. Cada vez que ela achava um caminho, ele retirava o seguinte.
O último recuo a levou de volta ao centro do jardim.
As costas dela tocaram uma pedra alta.
Tarla veio pela frente. Rum’ea tentou erguer o escudo, mas a primeira camada se desfez antes de estar pronta. Ele já estava perto demais. A lâmina verde desceu na vertical, e ela caiu de joelhos, as duas mãos erguidas, puxando a Força com tudo que ainda restava. O escudo nasceu entre a lâmina e o rosto dela no último instante.
O golpe bateu. A barreira afundou. Rum’ea gritou, não de dor, mas de esforço.
O sabre ficou preso contra o escudo, a poucos centímetros dela, a luz verde tremendo sobre seu rosto, refletindo nos olhos grandes e no suor da pele pálida. Os braços de Rum’ea tremiam como se carregassem pedra. O escudo estalava na Força, rachando nas bordas, recompondo no centro, rachando de novo. Tarla tinha as duas mãos na empunhadura, mantendo pressão o bastante para que ela precisasse sustentar.
Um segundo.
Dois.
Três.
Rum’ea sentiu os joelhos contra a pedra, a água escorrendo das vestes molhadas, o coração batendo no pescoço, o medo gritando para soltar e correr. Ela não soltou.
Quatro.
Tarla olhava para ela por cima da lâmina, os olhos verdes calmos, implacáveis e atentos. Não havia raiva. Não havia prazer. Havia apenas presença.
Cinco.
Ele desligou o sabre, e a pressão subitamente desapareceu.
O escudo de Rum’ea se desfez no mesmo instante, e ela quase caiu para frente, apoiando uma das mãos no chão para não tombar. Ficou de joelhos, respirando com dificuldade, o cabelo negro bagunçado ao redor do rosto, as roupas encharcadas até as coxas, uma folha presa na manga e a expressão de alguém que ainda não decidira se estava viva o suficiente para cometer homicídio.
Tarla prendeu o sabre no cinto.
— Muito bom.
Rum’ea ergueu a cabeça devagar.
— SEU FILHO DE UMA TEMPESTADE COM UMA PORTA ENFIADA NO CÉREBRO, PILASTRA TRAIÇOEIRA, WAMPA DE TÚNICA, CADÁVER DE ÁRVORE COM BARBA, VERME DE GELO COM ARTICULAÇÕES, MONUMENTO DE PEDRA MAL LAVADA, EU VOU E TRANSFORMAR SEU CABELO NUMA CORDA PARA PENDURAR SEU CORPO GIGANTE NA TORRE MAIS ALTA DE CORUSCANT! VOCÊ SIMPLESMENTE ENLOUQUECEU?!
Tarla não respondeu.
Ela apontou para ele, ainda ajoelhada.
— VOCÊ ME ATACOU COM UM SABRE DE LUZ!
Ele pegou o sabre de novo.
Rum’ea arregalou os olhos.
— Não liga isso outra vez!
Tarla ligou.
A lâmina verde surgiu, estável, baixa.
Antes que ela pudesse recuar, ele arregaçou a manga esquerda, expondo o pulso, e encostou a lâmina contra a própria pele.
Rum’ea prendeu a respiração.
O sabre queimou, mas produziu apenas um traço superficial, uma marca vermelha e escurecida na pele, dolorida o bastante para que o cheiro fraco de pele chamuscada chegasse ao ar, mas rasa. Controlada. Longe de qualquer ferimento real.
Tarla desligou a lâmina.
— Modo de treino de baixa intensidade. – Disse, como se fosse a conclusão mais lógica e básica da galáxia. — Não machucaria de verdade.
Rum’ea olhou da queimadura para ele, depois para o sabre, depois de volta para o rosto dele.
— Você podia ter dito isso antes.
— Podia.
— Tarla!
— Mas para que seus escudos funcionassem hoje, você precisava acreditar.
A frase a atingiu mais devagar que os golpes. Ela ficou imóvel, ainda de joelhos na pedra úmida, respirando em fragmentos. A indignação não desapareceu, nem o medo residual, nem a vontade de xingar toda a linhagem Kesyk até o primeiro ancestral a colocar os pés na neve de Keshtara, mas outra coisa abriu espaço por baixo disso: compreensão. Se soubesse que o sabre era seguro, teria feito barreiras de exercício. Barreiras educadas. Barreiras de sala. Não aquelas — escudos puxados do lugar onde sobrevivência, limite e Força se encontravam sem pedir permissão à mente.
— Isso foi horrível. — Disse ela.
— Sim.
— Arcaico.
— Talvez.
— Insano.
— Discutível.
— Não é discutível.
Tarla inclinou levemente a cabeça.
— Então aceito “insano” como avaliação preliminar.
Ela o encarou com ódio suficiente para manter uma pequena fogueira viva por dias. Ele, porém, observava-a com uma atenção diferente agora. Não apenas satisfeito com os escudos ou avaliando a resistência. Havia outra leitura acontecendo nele, mais marcial, mais antiga.
— E você tem uma excelente tendência para Ataru.
Rum’ea piscou.
— O quê?
— Ataru. Forma IV. Saltos, deslocamento, uso do terreno, impulso pela Força, adaptação aérea. Você ainda é indisciplinada, reativa, sem base formal suficiente e excessivamente inclinada a insultar o instrutor…
— Porque o instrutor mereceu.
— … mas a tendência é clara.
Rum’ea ficou olhando para ele como se aquela informação tivesse surgido de um compartimento absurdo da manhã. Depois olhou para a fonte, para a árvore, para a pedra onde quase batera o ombro, para o próprio corpo molhado.
— Eu estava fugindo.
— Sim.
— Forma IV é fugir?
— Forma IV é movimento.
— Parece uma desculpa para fugir.
— Para você, talvez seja um ponto de entrada.
Ela apertou os olhos.
— Você transformou meu pânico em diagnóstico de forma de combate.
— Também, embora a intenção primária fosse um treinamento de escudo bem-sucedido.
— Eu vou jogar a adaga em você.
— Depois de se recuperar.
Tarla se aproximou, mas parou antes de oferecer a mão para ajudá-la a levantar. Rum’ea percebeu. Como sempre, ele não tomou o gesto por ela — apenas ficou ali, com a manga ainda erguida e a pequena queimadura no pulso, esperando que a escolha fosse dela.
Ela olhou para a mão dele. Depois para o rosto. Depois se levantou sozinha, com esforço e muita dignidade molhada.
— Seu pulso está queimado. — Disse, ríspida.
— Superficialmente.
— Ainda assim.
— Sim.
— Vou limpar.
Tarla ergueu uma sobrancelha.
— Vai?
— Vou. Porque se infeccionar, você vai usar isso como desculpa para dizer que foi uma lição sobre consequências.
— Eu não faria isso.
Ela o encarou.
— Faria.
Ele considerou.
— Talvez.
Rum’ea soltou um som indignado, foi até o banco, pegou a adaga e a recolocou na faixa da cintura com um gesto firme demais. Depois juntou o próprio manto encharcado, olhou para a fonte como se ela também fosse culpada, e começou a caminhar na direção da saída do jardim.
Tarla a acompanhou.
O sol, enfim, rompia o horizonte de Coruscant, tocando as folhas, a pedra molhada, o rastro de água deixado pelas botas dela e o pulso levemente queimado dele. Rum’ea ainda tremia um pouco de exaustão. O vínculo entre eles permanecia aberto, cheio de restos de medo, raiva, orgulho e uma satisfação que ela tentava soterrar sob insultos mentais sobre métodos keshtari, Mestres insuportáveis e sabres de treino que deveriam vir acompanhados de avisos por escrito.
Tarla não comentou a satisfação.
Ela não comentou que entendeu que, quando a lâmina desceu, ela não congelou.
E nenhum dos dois comentou ainda que, por cinco longos segundos, o escudo dela segurara um sabre de luz.
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