O Cavaleiro Jinn a encontrou no meio do corredor como se tivesse sido colocado ali pela própria Força com precisão irritantemente cuidadosa.

Rum'ea saía dos arquivos com dois datapads apoiados contra o peito e a mente ainda presa a uma tabela de correspondências fonéticas durese que se recusava a fazer sentido quando o viu adiante, vindo na direção oposta com aquele passo tranquilo e alongado que parecia sempre um pouco mais lento do que realmente era. Havia gente passando pelos corredores naquela hora — um grupo de Padawans menores descendo com uma instrutora, dois Cavaleiros conversando em voz baixa, um dróide de manutenção deslizando junto à parede – e, ainda assim Qui-Gon tinha o talento peculiar de parecer ao mesmo tempo parte do fluxo e ligeiramente deslocado dele, como uma árvore que alguém, por engano ou intenção mística, decidira plantar dentro do Templo.

Ele trazia algo nas mãos.

Rum'ea viu primeiro o brilho.

Era um recipiente transparente, cilíndrico, elegante sem ser excessivo, grande o bastante para guardar com conforto o pequeno galho florido. Dentro dele havia um cacho de flores que não pareciam exatamente flores. À primeira vista, lembravam cristais roxos, translúcidos, pendendo em cascata delicada como pequenas joias naturais que cintilavam como cristais de verdade. A madeira de onde saíam era branca, quase prateada à luz do corredor, com veios azulados correndo pelo galho como se alguma seiva luminosa tivesse sido capturada sob a casca. O conjunto inteiro parecia ter sido retirado de uma paisagem que não pertencia ao mesmo universo que os corredores de pedra e metal do Templo.

Rum'ea parou.

Qui-Gon também parou diante dela, e o sorriso que lhe surgiu nos lábios foi pequeno, satisfeito, daquele tipo que aparecia nele quando parecia muito contente por alguma descoberta botânica, zoológica ou simplesmente estranha.

— Padawan Olphen. — Cumprimentou ele.

Rum'ea apertou um pouco mais os datapads contra o peito.

— Cavaleiro Jinn.

Qui-Gon ergueu levemente o recipiente transparente entre os dois.

— Trouxe isto para você.

Ela olhou para a planta.

Depois para ele.

Depois de volta para a planta.

O vínculo com Tarla estalou antes mesmo de ela pensar direito.

Tarla.

A resposta veio quase imediata, calma, distante, provavelmente de alguma sala vazia ou de um corredor qualquer do Templo.

Sim?

Qui-Gon está me entregando flores.

Houve um breve silêncio do outro lado.

Não um silêncio vazio. Um silêncio muito parecido com Tarla erguendo os olhos de algum relatório e decidindo o que, exatamente, a vida dele tinha feito para merecer mais aquela frase. Enquanto isso, Qui-Gon, alheio ao conteúdo do vínculo, continuou com toda a serenidade do mundo:

— É de Keshtara. De uma árvore chamada Sinisära. Mestre Kesyk provavelmente sabe mais do que eu neste quesito.

Rum'ea voltou a encará-lo, agora ainda mais parada.

Keshtara. Claro. Porque a situação ainda não era suficientemente desconcertante sem envolver o planeta de Tarla.

Qui-Gon inclinou um pouco o recipiente para que ela visse melhor o galho dentro. As flores-cristal roxas cintilaram à luz do corredor, lançando pequenos reflexos violetas e azulados sobre a proteção translúcida. O galho branco parecia quase polido pela neve, e os veios azuis tinham a beleza silenciosa de gelo antigo atravessado por água viva.

— Recebi alguns espécimes durante uma troca recente. — Explicou ele. — Quando a coloquei no recipiente, pensei em você. Então assumi que a Força preferia que a planta ficasse com você.

Rum'ea continuou imóvel por um segundo inteiro.

A estática de Kyrmora estalou pelo vínculo como fios desencapados.

Tarla… Isto é alguma espécie de rito de cortejo ou só Qui-Gon sendo estranho?

Dessa vez, Tarla demorou o bastante para deixá-la sofrer.

Não saberia dizer com precisão, respondeu enfim, com um fio de diversão tão discreto que apenas alguém tão acostumada ao vínculo dele quanto Rum'ea o perceberia e se irritaria com. Dar flores a alguém é, de fato, considerado rito inicial de cortejo em muitas culturas...

Rum'ea endureceu inteira.

Tarla…

...Mas ainda é o Cavaleiro Jinn.

Isso não ajudava.

Na verdade, piorava.

Qui-Gon permanecia diante dela com a expressão serena de quem realmente acreditava que entregar uma pequena porção cristalina de Keshtara no meio do corredor era um gesto perfeitamente coerente com o funcionamento da galáxia. Não havia embaraço nele. Nem hesitação. Nem expectativa agressiva. Apenas aquela satisfação tranquila, como se estivesse resolvendo um pequeno problema natural: esta planta pertence a alguém; pensei em Rum'ea; agora Rum'ea deve tê-la.

Rum'ea olhou para o recipiente mais de perto. Era bonito, e esse foi o primeiro problema real.

Era bonito de um jeito que ultrapassava o ornamento comum. As flores lembravam sinos de cristal ou fragmentos de drusa viva, pendendo em cachos delicados e translúcidos. A madeira branca com veios azuis fazia o galho parecer parte de um inverno encantado, alguma árvore crescendo à beira de um lago gelado sob luzes impossíveis. Havia algo silencioso e puro nele, como se o frio de Keshtara soubesse produzir beleza sem torná-la frágil.

Rum'ea pensou, com um súbito incômodo, que Tarla provavelmente reconheceria a espécie de longe… O que também não ajudava.

— É... Muito bonita. — Disse ela enfim, e a própria honestidade na frase a fez ficar imediatamente desconfiada de si mesma.

Qui-Gon pareceu satisfeito, mas não de um jeito vaidoso. Satisfeito como um homem que mostrara a criatura certa para a pessoa certa.

— Fico contente que pense assim.

Rum'ea segurou os datapads com uma mão só, o que já era por si só um ato de coragem logística, e recebeu o recipiente com a outra. Qui-Gon cuidou para que o peso passasse para ela sem esbarrar desnecessariamente em seus dedos. O recipiente era leve, fresco contra a palma, e o galho dentro exalava um perfume muito sutil, limpo, quase gelado, como se carregasse ar de montanha e neve iluminada.

Ela o segurou diante do peito.

Pelo vínculo, a estática ainda estalava.

Tarla, ele realmente me deu a coisa. Eu não sei o que fazer com isso.

Você pode começar aceitando a planta, respondeu Tarla.

Eu já aceitei a planta.

Então está progredindo com eficiência.

Não seja útil desse jeito.

Tentarei ser menos razoável na próxima vez.

Rum'ea ignorou-o com severidade.

Voltou-se para Qui-Gon.

— Bem… Obrigada.

Qui-Gon inclinou a cabeça com um movimento leve, quase satisfeito demais para alguém que acabara de entregar flores potencialmente ambíguas de um mundo gelado.

— Achei que gostaria dela.

Rum'ea apertou o recipiente um pouco mais perto do corpo.

— Eu… Gostei.

O sorriso dele se aprofundou só um pouco, daquele jeito tranquilo que parecia nunca pedir nada a mais da resposta que recebia.

“Missão cumprida”, pensou ela com uma ponta de irritação. Ele está com cara de alguém que alimentou uma ave rara e agora vai embora totalmente satisfeito consigo mesmo, com a Galáxia e com a Força.

E foi exatamente o que aconteceu.

— Então deixo-a com você. — Disse Qui-Gon. — Imagino que ela ficará melhor perto de uma janela. Gosta de luz indireta e frio moderado, embora o interior da proteção já seja refrigerada na temperatura adequada. Não recomendo removê-la se não estiver em uma sala refrigerada. Aparentemente, espécies nativas de Keshtara começam a reclamar veementemente quando a temperatura fica maior do que -10ºC. Se começar a escurecer nas pontas das folhas, borrife água apenas na base, não nas flores. Ou me pergunte. Ou pergunte ao Mestre Kesyk.

Rum'ea piscou.

— Claro que você sabe exatamente disso.

— Passei algum tempo estudando as necessidades dela antes de decidir que a Força preferia entregá-la a alguém menos botânico do que eu.

— Isso parece um insulto com boa educação.

— Foi uma observação esperançosa.

Ela fez uma careta mínima, mas o canto da boca quase se mexeu.

Qui-Gon pareceu considerar dizer mais alguma coisa. Não disse. Apenas lhe ofereceu aquele olhar claro e tranquilo, satisfeito com o pequeno destino vegetal cumprido, e então se afastou corredor adiante, o manto se movendo devagar atrás dele.

Rum'ea ficou parada no meio da passagem com os datapads debaixo de um braço e o recipiente transparente nas mãos.

Dois younglings passaram perto demais e um deles olhou para a planta com espanto aberto.

— Uau. — Sussurrou.

Rum'ea estreitou os olhos numa ameaça automática de não toque, não pergunte, não respire perto demais, e os dois seguiram adiante em velocidade exemplar.

Só quando ficou mais sozinha no corredor ela tornou a chamar Tarla pelo vínculo, enviando a imagem mental mais fiel possível da planta.

Keshtara?

Sim.

Sinisara?

Sinisära.

Não corrija minha pronúncia mental.

Erros sem correção se tornam vícios. Inclusive os mentais.

Você é insuportável.

Sim.

Que seja. Sinisära. Você conhece?

É uma das 4 árvores principais de Keshtara. Para não conhecer, eu precisaria nunca ter saído de casa – e, mesmo assim, havia uma ou duas visíveis da janela da cozinha.

Houve uma pausa.

É muito estranho eu receber flores do seu planeta de um Cavaleiro que coleciona plantas assombradas?

Não diria “estranho”, mas é... Um tanto específico.

Você está se divertindo.

Um pouco.

Rum'ea soltou ar pelo nariz, ofendida.

Ótimo. Excelente apoio do Mestre.

Se serve de consolo, a planta realmente combina com você.

Ela baixou os olhos para o recipiente.

As flores-cristal cintilaram em roxo pálido, lilás e um azul quase escondido, como se alguém tivesse capturado gelo colorido e pendurado em madeira viva.

Por quê? perguntou, antes de conseguir impedir.

Tarla levou um momento para responder.

Porque parece delicada à primeira vista e não é. Porque vem do frio e ainda assim produz beleza. Porque o brilho dela não é suave por fragilidade, mas por estrutura.

Rum'ea ficou muito quieta.

A estática no vínculo baixou um pouco, não desaparecendo, mas recolhendo-se para algo mais parecido com neve seca sob as botas, embora Rum’ea nunca tenha visto neve sem ser pelas imagens do vínculo.

Hmmm, foi tudo o que conseguiu mandar de volta.

Tarla não a pressionou.

Rum'ea então seguiu até seus aposentos com o recipiente nas mãos e a sensação muito desconfortável de estar carregando alguma coisa entre presente, planta, símbolo de Keshtara, gesto de amizade ou rito de cortejo potencialmente desastrado demais para ser identificado com segurança realizado pelo Cavaleiro mais estranho da Ordem. Isso, por si só, parecia a definição exata de Qui-Gon Jinn.

Quando entrou no quarto, a primeira coisa que fez foi apoiar os datapads sobre a mesa. A segunda foi olhar ao redor como se os aposentos tivessem se tornado subitamente inadequados para receber um objeto tão estranho e bonito. Havia a cama, a escrivaninha, a estante com materiais empilhados em uma ordem que só ela compreendia, o manto de Tarla dobrado sobre uma cadeira esperando para ser devolvido, e a janela alta, com o beiral largo o bastante para acolher o recipiente.

Rum'ea levou a planta até lá, colocou-a no beiral com cuidado quase excessivo, e deu um passo para trás.

A luz do fim da tarde entrava oblíqua, mais fria do que dourada, e atingiu em cheio as flores da Sinisära. O efeito foi imediato. Os cachos roxos pareceram acender por dentro, como pequenos cristais de gelo com memória de crepúsculo. Os veios azulados da madeira branca capturaram a claridade e a devolveram em linhas finas, quase líquidas. Por um instante, Rum'ea teve a impressão de que se olhasse fixamente demais, ouviria neve caindo, vento correndo entre montanhas e algum lago imóvel de Keshtara respirando sob três luas distantes.

Ela apoiou a ponta dos dedos na borda da janela e ficou observando por bastante tempo.

Muito tempo.

Sem datapad, Sem relatório, Sem cláusula, sem ruído de corredor ou younglings demasiadamente interessados — apenas as flores de cristal cintilando no beiral.

Pelo vínculo, baixo e quase manso de tão discreto, Tarla tocou sua presença.

Você a colocou na janela.

Rum'ea não desviou os olhos da planta.

Sim.

Ficou bom?

Ela demorou um pouco para responder.

Ficou.

O vínculo recebeu junto algo que ela não disse em palavras: a sensação da beleza da planta ocupando um canto do quarto sem torná-lo menos seu; a estranheza quase terna de possuir algo que não era ferramenta, nem sucata, nem objeto de sobrevivência; o desconcerto profundo de ter sido lembrada quando alguém segurou um galho de flores vindas de um mundo frio; a impressão de que as pequenas joias roxas pendendo na luz pareciam impossíveis e, ainda assim, reais.

Tarla não comentou a parte mais complicada, simplesmente deixando no vínculo um calor silencioso de reconhecimento.

Rum'ea cruzou os braços, ainda olhando para a Sinisära.

— Qui-Gon Jinn é muito estranho. — Murmurou para o quarto vazio.

As flores de cristal continuaram cintilando.

E, pela primeira vez, o beiral da janela pareceu menos uma borda e mais um lugar onde alguma coisa bela podia simplesmente ficar.