A Profecia dos Amantes
22 A Emergência
O incidente aconteceu antes do amanhecer.
Tarla acordou com dor.
Não com a consciência gradual de um corpo velho demais para certas posturas de meditação (porque, para um Keshtari, ele sequer era considerado velho), nem com o desconforto opaco de uma noite mal dormida, nem com a memória de alguma ferida antiga que às vezes voltava quando Coruscant esfriava o bastante. A dor veio limpa, inteira, quente, profunda, atravessando a parte baixa do abdômen como uma contração contínua que não pertencia a ele e, ainda assim, por um segundo terrível, pareceu estar dentro dele, torcendo as entranhas como uma lâmina em brasa enfiada diretamente nos órgãos sob a pele. Ele abriu os olhos no escuro dos próprios aposentos com a respiração presa, uma das mãos pousando por reflexo sobre o ventre e as pernas puxadas contra o peito antes que a mente terminasse de compreender.
Rum'ea.
O vínculo estava aberto demais.
Não aberto como nas horas tranquilas de estudo, quando pensamentos passavam de um para o outro como folhas sobre um lago. Não aberto como nos treinos, quando ela o tocava por orientação ou quando a presença dele a ajudava a aquietar a estática. Estava aberto como uma porta arrancada da parede por pânico.
Primeiro veio a visão.
Lençóis claros. Sangue. A mão dela puxando o tecido com violência, como se o corpo inteiro tivesse se recusado a acreditar no que os olhos viam. Depois a sensação dela acordando de uma vez, não por dor, mas por terror puro. O pensamento que atravessou Tarla não teve forma racional no início. Não foi ciclo. Não foi corpo. Não foi doença. Foi uma palavra sem palavra, uma certeza horrível, antiga, deformada por anos de medo.
Não, não, não, eu evitei, eu consegui evitar, era para ser por amor, não assim, não roubado, não enquanto eu dormia, não, não, não—
Tarla sentou-se imediatamente.
A dor dela continuou atravessando-o, forte o bastante para fazê-lo fechar os olhos por um instante. Não era uma pontada leve. Era uma pressão quente, contínua, insistente, profunda demais para o que ele imaginaria ser normal em um ciclo comum. A biologia dela ainda se ajustava ao Templo, lembrou, a uma alimentação constante, descanso menos fragmentado, ar limpo, ausência da atmosfera brutal de Kyrmora que mascarara e deformara tantas funções do corpo dela por anos. Tarla sequer pensara nisso anteriormente, mas fazia sentido que o ciclo de Rum'ea fosse irregular, às vezes ausente, às vezes imprevisível; talvez agora, pela primeira vez em muito tempo, começasse a encontrar uma ordem própria. Mas ela não estava sentindo aquilo como ordem.
Estava sentindo como ameaça.
Ele vestiu o manto sem perder tempo, recolheu um kit médico dos suprimentos que mantinha nos aposentos e acrescentou, depois de um momento de hesitação e uma breve visita a ala de cura, itens que não costumavam estar ali: compressas térmicas, absorventes de uso interno e externo para pelo menos 7 espécies diferentes, analgésicos leves e fortes, cápsulas de hidratação, sais minerais, uma pequena bolsa aquecedora, lençol limpo dobrado, toalhas, um frasco de solução de limpeza, instruções projetáveis de uso e um comunicador direto para a ala médica, já configurado para solicitar uma curandeira mulher caso Rum'ea preferisse.
Enquanto caminhava pelos corredores ainda escuros, enviou duas mensagens rápidas. A primeira cancelava os treinos dela por três dias. A segunda informava aos instrutores auxiliares que a Padawan Olphen estaria dispensada de atividades físicas e aulas presenciais, sem necessidade de justificativa adicional. Assinou ambas com seu selo de Mestre.
O vínculo continuava tremendo.
Rum'ea, chamou ele, com o máximo de cuidado que conseguiu colocar em um único pensamento.
Do outro lado, a resposta veio como uma parede batendo.
Não.
Tarla parou por meio segundo no corredor.
Não vou entrar.
A resposta não veio em palavra. Veio em imagem: a porta do quarto dela, fechada, trancada, e a mente dela empurrando contra ele como um animal ferido contra uma passagem estreita.
Não vou entrar, repetiu. Estou trazendo algo que talvez ajude. Vou deixar na porta.
A estática estalou, desorganizada.
Ele chegou aos aposentos dela poucos minutos depois. Não bateu forte. Apenas tocou uma vez no painel lateral para anunciar presença e deixou o kit no chão, afastando-se dois passos em seguida.
— Rum'ea… — Disse em voz baixa, porque ela talvez precisasse ouvir a distância da voz dele do lado de fora. — Está na porta. Não vou abrir.
O silêncio do outro lado era denso.
Então a porta abriu uma fresta mínima.
Não o bastante para mostrar o rosto dela. Apenas uma abertura estreita, baixa, pela qual uma mão pálida, tensa, surgiu de repente, agarrou a alça do kit médico e o puxou para dentro como se resgatasse suprimentos sob ataque. A porta se fechou imediatamente.
Tarla ficou parado no corredor, o coração pesado.
Do outro lado, ele sentiu Rum'ea abrir o kit com mãos rápidas demais. A mente dela tocava cada item como se fosse uma armadilha: compressas, tecidos absorventes, frascos, instruções, analgésicos, toalhas. A vergonha vinha junto, tão forte que parecia uma segunda dor. Não vergonha simples, não o embaraço comum que muitos seres sentiriam diante do próprio corpo. Era vergonha treinada, endurecida, enfiada nela como um instinto de sobrevivência: esconder, limpar, não deixar ninguém saber, não deixar homem nenhum saber, não deixar que o sangue se torne prova de alguma disponibilidade que ela nunca ofereceu.
Tarla fechou os olhos e sentou-se no chão diante da porta dela. Não encostado nela ainda — apenas perto.
Demorou algum tempo até sentir, do outro lado, o peso de Rum'ea deslizando para baixo. Ela se sentou também, encostada à porta por dentro. A presença dela ficou mais próxima, separada apenas pelo metal e pela decisão frágil de não abrir mais do que podia suportar.
A dor veio outra vez pelo vínculo.
Tarla respirou devagar para não reagir de forma que ela pudesse interpretar como repulsa ou impaciência.
Não sente diretamente no chão, disse ele, pelo vínculo. Pegue uma manta ou dobre o lençol. O frio pode piorar a contração.
Houve uma pausa real, não defensiva. Genuinamente confusa.
Por quê?
A pergunta atravessou Tarla como algo pequeno e cruel. Não havia desafio nela. Rum'ea realmente não sabia por que alguém se importaria com o chão frio quando havia trabalho, dor, sangue e vergonha a esconder.
Porque você está com dor, respondeu ele. E há coisas simples que podem fazer doer menos.
O vínculo se retraiu um pouco, não por recusa, mas por dificuldade de aceitar a premissa.
Dói sempre.
A frase veio acompanhada de memórias quebradas.
Rum'ea mais nova, talvez mal saída da infância, descobrindo o primeiro ciclo em algum canto de abrigo de Kyrmora e entendendo, não por explicação terna, mas por medo no rosto de outras mulheres, que aquilo precisava ser escondido. Mãos apressadas lavando tecido sujo com água fria demais. Panos improvisados, grossos, mal limpos, irritando a pele. O corpo dobrando de dor enquanto alguém dizia para não fazer cara, para não andar diferente, para não deixar ninguém notar. Uma jornada inteira de trabalho em carcaças de nave, o ventre em contração, a cabeça leve de fome, as mãos cortadas em durasteel, e ela continuando porque ninguém podia saber. Nenhum homem podia saber. Porque saber significava olhar diferente. Saber significava que ela estava “pronta”, palavra que na memória dela vinha como sentença, não como maturação. Pronta para ser usada. Pronta para ser tomada. Pronta para ser contada entre coisas disponíveis.
Tarla sentiu náusea.
Não sua. Talvez dela. Ou talvez fosse dele também.
A dor física seguia por baixo de tudo, contínua, quente, forte demais. Ele já vira Padawans com ciclos dolorosos, Cavaleiras que precisavam de descanso, espécies com variações hormonais duras, a própria mãe repousando mais naqueles dias. Aquilo, porém, vinha intensificado por anos de fome, cansaço, privação, tensão e um corpo que aprendera a funcionar sempre no limite. A cada contração, Rum'ea tentava prendê-la como prendia choro, raiva e pânico. O resultado era pior.
Você pode tomar o analgésico do frasco branco, disse ele. O azul é mais forte. Use apenas se o branco não aliviar em meia hora. A compressa térmica ativa ao dobrar a borda duas vezes.
Eu sei ler.
Eu sei.
Então por que está explicando?
Porque às vezes, quando há dor e medo, ler não basta.
O silêncio do outro lado endureceu.
Depois veio, muito baixo:
Você não devia saber.
Tarla apoiou a nuca na porta, devagar o suficiente para não assustá-la com o som.
Eu sei.
Não era para você ver.
Eu sei.
Não era para ninguém ver.
Eu sei.
A repetição não era vazia. Era tudo que ele podia dar sem roubar dela mais nada naquele momento. Ele sabia que vira demais. Não por escolha ou por invasão deliberada, mas o vínculo não distinguira pânico de permissão, e agora ambos estavam sentados de lados opostos de uma porta, com a consequência entre eles.
Rum'ea demorou para responder.
Quando respondeu, a voz veio pelo vínculo como se tivesse sido arrastada sobre pedra.
Agora você sabe que eu sou...
Ela não terminou.
Tarla sentiu a palavra que ela não quis formar. Suja. Errada. Pronta. Corpo. Sangue. Mulher. Alvo. Todas misturadas, todas falsas, todas enfiadas nela por pessoas que haviam transformado biologia em ameaça.
Eu sei que seu corpo está fazendo algo que corpos vivos fazem, disse ele. Sei que está doendo mais do que deveria. Sei que você se assustou. Sei que não quer que eu saiba. E sei que nada disso muda quem você é, nem seu lugar aqui, nem meu respeito por você.
A estática dela estalou tão forte que por um instante ele pensou que ela fosse mandá-lo embora.
Você é homem.
A frase veio simples, crua, irracional e totalmente verdadeira dentro dela.
Tarla deixou que ela existisse.
Sim.
Isso torna pior.
Eu sei.
Você não sabe.
Ele respirou devagar.
Não da forma como você sabe. Mas acredito em você.
Do outro lado da porta, Rum'ea se moveu. Ele a sentiu puxar algo do kit, talvez a compressa térmica, talvez a manta. Houve alguns segundos de ruído físico, tecido, respiração presa, um pequeno som de dor que ela tentou esmagar antes que atravessasse a porta.
Tarla fechou uma das mãos sobre o próprio joelho para não reagir quando a dor chegou até ele.
Você cancelou meus treinos, ela disse depois de algum tempo.
Sim.
Três dias.
Sim.
Eu posso treinar.
Não.
A resposta saiu mais firme do que quase todas as anteriores.
Rum'ea estalou no vínculo.
Eu posso.
Acredito em você. Essa não é a questão.
Então qual é?
Não vou ensinar seu corpo que descanso precisa ser conquistado depois da exaustão total. Você está dispensada por três dias. Se se sentir bem antes, ainda assim ficará dispensada. Pode estudar, se quiser. Pode dormir. Pode odiar o chá de Keshtara à distância. Mas não treinará.
A irritação dela veio com força, e Tarla a recebeu quase com alívio. Raiva era menos solitária que vergonha.
Você está me tratando como quebrada.
Estou tratando você como alguém com dor intensa.
Eu já trabalhei com dor pior.
Esse argumento não tem o valor que você acha que tem.
A resposta bateu nela de modo visível pelo vínculo. Não como repreensão humilhante, mas sim como porta que se fechava diante de uma lógica antiga. Rum'ea ficou quieta, e, por baixo da quietude, ele sentiu o esforço dela para entender uma regra nova: ter suportado coisas piores não provava que as menores eram aceitáveis.
Minutos passaram.
Tarla permaneceu sentado.
Do outro lado da porta, Rum'ea também.
A compressa começou a aliviar um pouco. O analgésico, quando ela finalmente tomou, ainda não fizera efeito completo, mas a contração na mente dela perdeu as bordas mais afiadas. A vergonha, porém, seguia ali. E o medo dele — não de Tarla exatamente, mas dele como categoria impossível de separar totalmente do que outros homens haviam representado — continuava vibrando baixo, irracional, doloroso. Ela confiava nele. E tinha medo. As duas coisas coexistiam nela sem se anularem.
Tarla suspirou, percebendo que aquela era a resposta ao incidente. Não apenas levar um kit. Não apenas cancelar treinos. Não apenas sentar diante da porta.
Eles precisavam aprender a fechar o vínculo.
Não por rejeição. Não por distância emocional. Mas porque Rum'ea merecia privacidade dentro do próprio corpo. Porque ele não deveria acordar com a dor dela como se fosse sua. Porque nenhum pânico deveria arrancar imagens íntimas dela e jogá-las na mente dele antes que ela pudesse escolher. Porque a Força havia criado entre eles uma ponte protegida de todos os outros, mas nem toda ponte podia permanecer sem porta.
Rum'ea, chamou ele.
O quê?
Quando a dor diminuir um pouco, vamos começar outro treino.
A irritação dela veio imediata.
Você acabou de cancelar os treinos.
Um treino diferente. Pequeno. Sentada. Sem pedra.
Se envolver pedra, eu faço você engolir ela.
Não envolverá pedra.
Nem água.
Água?
Sim. Água.
Escolha peculiar de elemento. Mas não, não envolve água.
Ela demorou.
O que então?
Tarla olhou para o corredor vazio diante de si. A luz ainda era baixa, azulada, anterior ao amanhecer. Ninguém passava por enquanto. O Templo dormia em uma quietude profunda o suficiente para que a conversa mental entre eles parecesse existir fora do tempo comum.
Fechamento de vínculo.
O silêncio dela foi tão total que até a dor pareceu prender a respiração.
Você quer fechar?
A pergunta veio pequena demais. Rápida demais. E, apesar de tudo, ferida.
Tarla sentiu a armadilha da palavra. Fechar, para Rum'ea, podia soar como expulsar. Rejeitar. Cansar-se dela. Retirar o lugar que ela ainda mal acreditava ocupar.
Não quero sair, respondeu, escolhendo cada pensamento com cuidado. Quero que você tenha uma porta.
Ela não respondeu.
Hoje você se assustou, e o vínculo trouxe para mim coisas que eram suas antes de você decidir se queria que eu soubesse. Isso não é justo com você.
Eu não consegui segurar.
Por isso vamos treinar. Não para me afastar. Mas para que, quando algo for só seu, você possa manter só seu. E, se quiser abrir depois, abra por escolha.
Do outro lado da porta, Rum'ea ficou imóvel.
E se eu fechar e você não estiver mais lá?
Tarla sentiu a pergunta atravessar o metal como mão pequena procurando parede no escuro.
Então você abre e me chama.
E se não abrir?
Eu espero.
E se eu fechar errado?
Então treinamos de novo.
E se você fechar?
A pergunta era diferente. Mais baixa.
Tarla respondeu com a verdade.
Também preciso aprender. Hoje acordei com sua dor porque eu estava aberto demais. Isso não ajuda você… Nem a mim. Eu preciso saber estar perto sem tomar o que não me pertence, nem mesmo por acidente.
A estática dela recuou um pouco por reconhecimento – não por confiança plena.
Rum'ea entendia bem demais a diferença entre estar perto e tomar.
Como faz? perguntou, enfim.
Tarla fechou os olhos.
Imagine o vínculo como a porta do seu quarto.
Ela não gostou disso; ele sentiu imediatamente.
Não.
Então escolha outra coisa.
A mente dela se moveu entre imagens: carcaças de nave, dutos, caixas, fechaduras, cavernas, a janela onde a Sinisära de Qui-Gon cintilava. Por fim, encontrou algo inesperado: o recipiente transparente da planta de Keshtara. Não uma prisão. Uma proteção. Algo que permitia luz, mas impedia mãos descuidadas.
Tarla aceitou a imagem.
Então pense no recipiente da Sinisära. Transparente, mas fechado o suficiente para proteger as flores.
Você está me comparando com uma planta?
Estou usando sua imagem.
Qui-Gon ficaria insuportável se soubesse.
Concordo. Não diremos a ele.
A menor sombra de humor atravessou a dor dela, fraca, mas presente.
Agora, continuou Tarla, não tente cortar o vínculo. Apenas coloque uma parede transparente entre o que você sente no corpo e o que chega a mim. Eu ainda estou do outro lado. Você ainda pode me ver. Mas a dor não precisa passar inteira.
Rum'ea tentou.
No primeiro instante, nada aconteceu. A dor continuou a atravessá-lo. Depois veio uma pressão estranha, a sensação mental de mãos dela tentando erguer uma parede pesada demais e quase derrubá-la sobre si mesma.
Menos força, orientou ele. Não é barricada.
Tudo que fecha precisa segurar.
Nem tudo. Algumas coisas apenas delimitam.
Palavra de pessoa que nunca dormiu com uma porta quebrada.
Tarla ficou em silêncio por um instante.
Tem razão. Então escolha uma porta que tranca por dentro.
A imagem mudou.
Não o recipiente. Uma porta. Desta vez, não a porta do quarto dela no Templo. Outra, inventada, feita de madeira branca com veios azulados como a Sinisära, com uma tranca simples do lado de dentro. Tarla a viu surgir no vínculo entre eles, instável, translúcida.
O problema foi que Rum’ea não a fechou – ela bateu a porta com violência suficiente para causar dor física em ambos.
Rum’ea…
Desculpa!
Devagar.
Eu sei. Eu sei. Desculpa.
Está tudo bem. Só… Não tente selar a porta por impacto.
Doeu?
Um pouco.
Aqui também.
Então faça mais devagar.
Rum’ea o fez, e a dor diminuiu na mente de Tarla. Não desapareceu, longe disso, mas deixou de chegar inteira.
Rum'ea percebeu também.
Funcionou?
Um pouco.
Ela se agarrou a isso com cuidado, como quem segura um cristal Gallinore sem trincá-lo.
Eu ainda sinto você.
Eu também sinto você.
Mas menos.
Sim.
Houve uma pausa.
Isso é ruim?
Não. É privacidade.
A palavra repousou entre eles com um peso estranho. Privacidade, para Rum'ea, ainda era quase luxo, algo que se tinha quando ninguém queria entrar, quando ninguém precisava medir seu valor, quando ninguém esperava descobrir fraqueza para usá-la. Ela ficou quieta por tanto tempo que Tarla quase pensou que havia adormecido.
Então veio, muito baixo:
Não vai embora.
Não era pergunta. Não era ordem. Era uma tentativa de acreditar em algo sem precisar pedir de joelhos.
Tarla apoiou a mão no chão frio do corredor.
Não vou.
Mesmo se eu fechar?
Mesmo se fechar.
Mesmo se eu bater?
Com dificuldade mais considerável, mas mesmo assim.
Mesmo se eu não abrir?
Ficarei por perto até você querer que eu vá. Precisará, porém, me avisar que não quer minha presença.
Você perceberia depois de algum tempo.
Está subestimando tanto minha biologia quanto minha paciência. Uma vez, Mestre Rancisis me instruiu a meditar até que ele voltasse.
E ele voltou?
Voltou.
Então qual o problema?
O problema é que ele foi convocado para uma reunião do Conselho enquanto isso.
… Quanto tempo isso demorou?
Aproximadamente cinco horas e meia.
Você ficou meditando por cinco horas e meia?
Aproximadamente.
Sem se mexer?
É assim que normalmente se medita.
Isso é absurdo.
Concordo. Mas agora talvez você entenda melhor que posso ser mais paciente do que aparento.
Ela respirou do outro lado da porta. Ele ouviu fisicamente dessa vez, um som pequeno e trêmulo atravessando a fresta inferior.
O chão está frio, pensou ela de repente, como se tivesse acabado de notar.
Tarla fechou os olhos, e o alívio que sentiu foi tão grande que quase doeu.
Sim.
Isso piora?
Pode piorar. Depende da espécie. Não conheço o suficiente sobre Kyrrals para afirmar com certeza.
Houve um movimento do outro lado. Rum'ea se levantou com dificuldade, pegou alguma coisa — talvez a manta, talvez o lençol dobrado — e se sentou de novo. Desta vez, o peso do corpo dela contra a porta veio mais abafado, menos direto. A dor no vínculo diminuiu outro pouco, talvez pelo calor, pelo remédio começando a agir, pela porta mental ou por todos esses pequenos cuidados somados.
Tarla apenas ficou ali.
O corredor começou a clarear lentamente com a aproximação da manhã. Em algum lugar distante, os primeiros sons do Templo acordando surgiram: passos suaves, sistemas de iluminação se ajustando, um dróide de manutenção passando em outra ala. Ninguém entrou naquele corredor. Ou, se alguém passou pela extremidade, viu apenas Mestre Tarla Kesyk sentado no chão diante da porta de sua Padawan, imóvel como se aquela fosse o lugar mais natural do mundo para sentar.
Depois de algum tempo, Rum'ea tocou o vínculo pela fresta da porta mental que haviam construído.
Tarla.
Sim?
Eu odeio isso.
Eu sei.
Não a parte da porta. A outra.
Eu sei.
E odeio que você saiba.
Também sei.
Mas...
Ela demorou.
A dor ainda estava ali, mas agora vinha filtrada. A vergonha também. O medo também. Nada havia sido curado por um kit, uma porta mental ou um Mestre sentado no corredor. Mas algo havia mudado de lugar: pela primeira vez, talvez, aquilo não precisava ser escondido ao custo de destruí-la por dentro.
Obrigada, disse ela por fim, como se as palavras tivessem espinhos. Pelo kit. Por trazer. E por não abrir a porta.
Tarla baixou a cabeça, embora soubesse que Rum'ea não podia vê-lo.
Sempre.
A resposta passou pela porta mental com cuidado, pequena o bastante para não invadir. Do outro lado, Rum'ea não disse mais nada, mas a presença dela encostou na dele por um instante, através do vínculo filtrado, como a ponta dos dedos tocando vidro.
E Tarla entendeu: não era abertura total. Não era confiança fácil. Não era paz.
Era escolha.
Por aquela manhã, bastava.
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