A Princesa Verde : Sementes
8 Capítulo 6 – Raízes que Acordam, Sussurros que Caminham
O silêncio da manhã seguinte era diferente. Não era vazio, mas repleto. Repleto de um sussurro quase imperceptível que corria por entre os troncos das árvores do Bosque Verdejante, como se as raízes sussurrassem umas às outras em segredo.
No centro do bosque, onde o solo antes era seco e pálido, agora crescia uma vegetação que jamais existira naquele lugar. A seiva mágica de Elarin, a Princesa Verde, brotava viva e pulsante. Ainda em forma de broto, com pequenas folhas em espiral e um brilho verde-claro nas nervuras, ela dormia. Mas mesmo adormecida, sua presença mudava o mundo.
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— Ela ainda sonha — murmurou Tilla, pousada em um galho curvado, observando o broto com olhos grandes e profundos. — Mas suas raízes... elas já caminham.
Ao redor do broto, dezenas de animais estavam reunidos. Havia raposas, lebres, pequenos cervos, ouriços, pássaros de cauda comprida e até mesmo alguns animais raros, como o Tamuril, uma criatura parecida com uma lontra de pelo cintilante.
Todos observavam em silêncio. O broto pulsava. A terra respirava. E então, algo ocorreu.
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Do alto das copas, uma brisa fria e suave desceu sobre a clareira. Mas não era apenas vento. Era ele.
Sonniril, o espírito errante dos ventos do norte. Sua forma era tênue, como se fosse feito de névoa cintilante e fios de luz. Ao descer sobre a clareira, as folhas giraram e os pelos dos animais se arrepiaram.
Tilla levantou voo num bater de asas amplo e respeitoso, parando diante da presença do vento.
— Sonniril, viajante das alturas... por que visitas nosso bosque?
A voz do vento chegou como eco entre galhos: — Porque ouvi o sussurro do broto... e ele falou meu nome.
Os animais se entreolharam. Um murmúrio percorreu o bosque como se a vegetação entendesse. Tilla pousou sobre uma raiz que emergia do chão.
— E o que o sussurro disse?
— Que ela trará equilíbrio... mas o equilíbrio sempre convoca o desequilíbrio. A sombra já começa a moldar seu nome...
— E haverá um eclipse.
— Eclipse? — repetiu Tilla, com olhos arregalados. — Quando?
— Logo. Antes que as raízes toquem o mar.
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Enquanto isso, muito longe dali, sob as rochas profundas do Vale dos Unicórnios, uma criatura cristalina despertava pela primeira vez em séculos.
Yllorah, a guardiã do subsolo. Feita de pedra viva e luz esbranquiçada, com olhos como pérolas partidas e uma voz que tremia o chão.
— A Semente foi plantada. — murmurou.
De seus olhos escorreram linhas prateadas, e ao estalar um dos dedos rochosos, um unicórnio mensageiro foi convocado.
Branco como o luar, com olhos de ametista e patas finas como cristal, o unicórnio galopou para a superfície, seu rastro deixando musgo e flores por onde passava.
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Em outra parte do mundo, no coração das Florestas Escuras, as árvores pareciam definhar. O ar era espesso, e as folhas tinham tons de ferrugem.
Ali, entre os troncos ocos e raízes podres, a névoa ganhava forma.
Maugrin.
Ele ainda não tinha corpo, mas agora possuía intenção.
A névoa escura se agrupava como braços, olhos, espinhos. Dentro de um carvalho morto, um brilho pálido pulsava como um coração.
— Ela nasceu... — disse a voz da névoa. — Então eu também.
Ramos se retorceram. Um corvo de penas cinzentas caiu do céu e foi engolido pela névoa. Quando saiu do outro lado, seus olhos brilhavam de vermelho.
— Primeiro os olhos. Depois as garras. — sussurrou Maugrin. — Eu observo.
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Nos Campos Límpidos, onde os Ents despertavam a cada nova estação, Agarandil, um dos mais antigos, sentiu o estremecer da raiz-mãe sob seus pés.
Ele olhou o céu. Um arco-íris se formava distante.
— Ela chegou... mas por quanto tempo ficaremos inteiros?
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No Deserto Amarelo, uma criatura de areia devorava um pássaro azul mensageiro de Tilla. No Mar Grande, uma serpente marinha ergueu os olhos do fundo e sentiu uma fragrância de folhas frescas pela primeira vez em séculos.
Nas Montanhas Geladas, um alce de pelagem branca como neve abaixou os chifres para receber outro pássaro. Um brilho acendeu em seus olhos, e ele começou a caminhar.
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No Reino Dourado, escondido por magia, Nessura, a espiã de fumaça enviada pelo Rei Lich, observava o mundo sem ser vista.
Disfarçada de espelho nas águas de um pequeno lago, ela viu o broto. E sussurrou:
— Ela nasceu... ele saberá.
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E em meio a tudo isso, de volta ao bosque, Tilla olhava para Elarin com um misto de esperança e temor.
— Você ainda é semente. Ainda é broto.
Mas o mundo já te viu, minha menina.
Agora... o mundo começa a escolher seus lados.
E naquele instante, com um estalo quase imperceptível, a primeira flor nasceu sobre o ombro da pequena Elarin.
Era uma flor verde, como nunca se vira antes. E em sua presença, o silêncio tornou-se música.
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