A Princesa Verde : Sementes
9 Capítulo 6.1 - Ancião dos Troncos.
O sol dourado escorria entre as copas altas dos Bosques Verdejantes, filtrando-se em feixes cálidos que dançavam sobre a relva úmida, tingindo os cogumelos de prata e as folhas de azul. As árvores pareciam sorrir, e o bosque cantava. Desde o nascimento de Elarin, um broto diferente crescia no coração do bosque — não apenas a semente que germinara, mas a esperança dos reinos encantados.
O centro da floresta, agora chamado de Clareira da Aurora Verde, era lar de Elarin, envolta em folhas que balançavam em saudação a cada brisa. Ao redor, casas vivas brotavam dos troncos das árvores, como se a própria floresta tivesse decidido abrigar seus filhos em seus braços de madeira.
As casas dos animais se penduravam em galhos espessos e florescentes. Os coelhos viviam em tocas suspensas feitas de cipós e musgos trançados. Os veados dormiam em varandas de trepadeiras que balançavam levemente com o vento. Os esquilos construíam casulos circulares com folhas douradas de outono eterno.
No alto da árvore mais velha, uma árvore de casca azulada chamada Yorandel, morava Tilla, a coruja sábia. Sua casa era um verdadeiro ninho de sabedoria. As paredes internas eram feitas de penas caídas, cuidadosamente organizadas com musgos e fios de luar. O teto de flores noturnas exalava um perfume doce que só era sentido durante os sonhos. No centro, um globo de cristal sustentado por raízes flutuantes brilhava suavemente — o Olho do Vento, presente da antiga Rainha Ent.
Tilla observava o bosque pela sua grande varanda circular. Naquela manhã, algo se movia entre os troncos.
— "Estão vindo," sussurrou a coruja. "Os pés que fazem a floresta vibrar. Os passos do velho que fala com as folhas..."
Era ele.
Thurandir, o mais antigo dos Ents vivos, conhecido como o Ancião dos Troncos, caminhava. Cada passo seu fazia o solo vibrar como se a floresta se curvasse. Era alto como uma torre, com raízes saindo-lhe dos ombros como barbas e cabelos. Musgos cresciam em sua testa, e pequenos vaga-lumes faziam morada em sua casca.
As criaturas silenciaram sua alegria em reverência. Thurandir não falava com pressa. Aliás, raramente falava. Mas naquela manhã, ele ergueu sua voz como o rugir de trovões doces e antigos.
— "A semente brotou, e dela nasceu uma folha que anda..."
Todos sabiam que ele se referia a Elarin, agora com poucos dias de vida, envolta em folhas vivas e luzes verdes, protegida por todos.
Tilla desceu em voo leve e pousou em um galho curvado.
— “Ela é mais que uma filha do bosque, Thurandir. Ela escutou o canto do rio ainda no casulo. Sonhou com unicórnios antes de abrir os olhos. Algo dentro dela... é velho, como você.”
Thurandir abaixou-se até a clareira e estendeu um dedo imenso de casca. A pequena Elarin, mesmo recém-nascida, sorriu ao tocá-lo.
— "Haverá sombras. Mas também haverá luz. Eu ouvirei suas raízes crescerem..."
E, então, virou-se lentamente e caminhou de volta ao coração mais profundo da floresta.
Nos dias seguintes, os Bosques Verdejantes estavam em festa. Criaturas se reuniam à noite para contar histórias e trazer presentes à Princesa Verde: sementes raras dos Campos Limpos, orvalho cristalino do Vale dos Unicórnios, penas da última Garça Cintilante, e perfumes das flores esquecidas nas Terras Antigas.
Elarin, em seu bercinho de folhas e aurora, dormia e sonhava.
No topo de Yorandel, Tilla observava os céus.
— “O mundo começa a se lembrar, pequena princesa. E você será o sonho que não se esquece.”
O céu ainda reluzia com o brilho gentil da aurora verde, reflexo tênue da presença de Elarin nos Bosques Verdejantes. O vento dançava entre as folhas, sussurrando mensagens antigas. No alto da árvore milenar Yorandel, os olhos atentos de Tilla, a coruja anciã, observavam o horizonte.
Sua casa, construída com ramos entrelaçados, musgos macios e pétalas secas de flores encantadas, era um verdadeiro refúgio suspenso. Uma varanda em forma de ninho se abria para o céu, onde cristais captavam o orvalho e o transformavam em luz cintilante durante o dia. Dentro, almofadas de penas e livros escritos com tinta de seiva decoravam o espaço. Pequenas luminárias de larvas-luz piscavam suavemente nas prateleiras vivas.
— Yorandel está inquieta esta manhã — murmurou Tilla, pousando sobre um pedestal de madeira moldado por raízes vivas. A árvore, que abrigava sua casa, era antiga, tão antiga que se dizia que havia testemunhado o nascimento da própria floresta.
Logo, o som de asas cortando o ar chegou até seus ouvidos aguçados. Uma figura translúcida e etérea pousou delicadamente no parapeito da varanda. Era Ylina, um pássaro feminino de penas que pareciam feitas de luz líquida e cristal. Seu corpo cintilava em tons de azul e prata, e seus olhos carregavam a sabedoria dos ventos.
— A semente canta hoje, Tilla. Você sentiu? — disse Ylina, em tom suave, como uma canção distante.
— Senti, sim — respondeu a coruja, ajeitando suas penas. — Ela pulsa mais forte. Logo dará o primeiro sinal de movimento.
Antes que pudessem continuar, um som de passos firmes sobre os galhos se aproximou. De entre as folhagens emergiu Kael, um lobo de porte imponente, branco como a neve das montanhas, com um par de asas de pássaro dobradas elegantemente sobre as costas. Seus olhos dourados refletiam determinação, e sua presença impunha respeito, mas seu olhar ao encontrar Tilla foi afetuoso.
— Recebi visões no rio-memória — disse ele. — A floresta começou a mudar. As raízes da Grande Árvore se comunicam com as cavernas. Há algo se movendo abaixo da terra.
Tilla franziu o semblante, suas asas se ergueram ligeiramente.
— Algo ou... alguém?
Kael não respondeu de imediato. Apenas olhou para o sul, para além dos Bosques, onde a névoa do esquecimento começava a se espreguiçar sutilmente entre os campos.
— Não sei. Mas sinto que devemos nos preparar — respondeu.
A conversa foi interrompida por um eco distante: sinos de musgo tocaram sozinhos ao longo de um caminho suspenso. Tilla voou até a borda da varanda e olhou para baixo. Thurandir, o velho Ent ancião, se aproximava lentamente pela trilha viva formada por galhos emaranhados. Suas raízes, como pernas grossas, avançavam com lentidão, e cada passo fazia as folhas ao redor se curvarem em saudação. Seu corpo era coberto por líquens e pequenas flores, e de seus braços cresciam cogumelos cantantes.
— Minha jovem Tilla... — saudou ele, com voz grave e cheia de ressonância, como se falasse do fundo da terra. — O Conselho dos Ramos deseja vê-la. Há movimento na Fronteira Oeste.
Tilla acenou com a cabeça, convidando-o a subir. Thurandir ergueu um braço e, como em um gesto natural, a árvore fez brotar uma escada de galhos que o trouxe até a varanda.
Dentro da casa, os quatro se reuniram em torno de um círculo mágico de folhas dispostas em símbolos antigos. Acima, o teto era aberto ao céu. Os ventos começaram a girar, carregando murmúrios de outros lugares do mundo.
— Desde que a semente foi plantada, os sussurros aumentaram — disse Ylina. — Há rumores de que Neredithia está viva… mas fundida com a terra.
— E mais… — interrompeu Kael. — Algo se move na Torre do Trovão. Um brilho antigo voltou a iluminar o céu daquela região.
Tilla olhou para cada um com gravidade.
— A Semente nasceu de um sacrifício. Algo tão puro quanto perigoso. Elarin ainda é jovem, e o mundo já se contorce com sua presença.
Thurandir pousou suas longas mãos na madeira do chão.
— Então é hora de prepararmos o Conselho das Folhas. Cada reino será tocado por essa mudança. E nós seremos os guardiões da passagem até que ela possa caminhar.
Kael então se ergueu, estendendo suas asas.
— Partirei para o Vale dos Unicórnios. Se eles despertaram… então algo grande está para acontecer.
Ylina se aproximou de Tilla, tocando levemente seu rosto com as penas.
— E eu irei até as Nuvens Luminosas, consultar os Ventos-Velhos. As vozes de cima ainda se calam… e isso me preocupa.
A velha coruja assentiu. Pela primeira vez em muito tempo, seus olhos pareciam sombrios.
— E eu… irei até o Tronco da Aurora. Lá onde tudo começou.
Lá fora, o som das folhas começou a girar com mais intensidade. O céu clareava, mas o vento trazia o cheiro da mudança.
Fale com o autor