A Princesa Verde : Sementes
7 Capítulo 5 – O Nascimento de Elarin, a Princesa Verde
Naquela madrugada silenciosa, a floresta respirava como se o próprio mundo estivesse segurando o fôlego. Os ventos cessaram, os rios acalmaram seu curso, e até os vaga-lumes pairavam imóveis, suspensos no tempo. No centro dos Bosques Verdejantes, onde repousava a Planta Azul, algo há muito prometido se preparava para nascer.
Ali, onde o solo era mais antigo que qualquer árvore viva, onde os espíritos das raízes sussurravam canções esquecidas, a Semente Verde se partiu.
Do coração do broto emergente, uma luz suave e líquida se espalhou em círculos concêntricos. Folhas cristalinas brotaram em torno do caule que crescia rapidamente, e do seu centro, envolta em musgo brilhante e névoa dourada, surgiu Elarin — pequena, envolta em luz, com os cabelos moldados como trepadeiras, a pele de casca fina e olhos cerrados, como quem ouvia ainda os sonhos da terra.
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A observadora silenciosa
Tilla, a velha coruja cinzenta de olhos dourados, pousava em seu galho mais alto. Guardiã do tempo e voz dos segredos, ela fora a primeira a sentir a vibração da semente ao ser plantada.
— “Ela veio...,” sussurrou. “Filha do verde antigo, flor da esperança.”
Sem necessidade de palavras, todos os seres do bosque começaram a se aproximar. Vieram os entlings, pequenos filhos das árvores, caminhando como raízes ambulantes; os felvans, gatos luminescentes com olhos de cristal; as serpes aladas, serpentes com penas de jade; os vulpídeos cantantes, raposas que emitiam melodias ao andar; e até os antícoros de pedra, animais pesados e lentos, mas repletos de sabedoria ancestral.
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Uma nova dança da vida
Todos fizeram um círculo em torno da recém-nascida. Elarin flutuava a alguns centímetros do solo, envolta em folhas douradas que se abriam como asas.
As árvores entoaram seu idioma. O choro de Elarin, suave como o som da seiva escorrendo por um tronco, ressoou por toda a floresta. Onde seu som alcançava, pequenas flores brotavam — vermelhas, azuis, douradas, algumas até com pétalas que tremeluziram como estrelas.
Então, o céu se abriu.
Mas não como numa tempestade. Uma aurora verdejante varreu o horizonte, e um grande arco-íris sem origem nem fim pairou acima dos Bosques Verdejantes. Ele pulsava com energia viva, e sua luz viajou através das correntes de magia que conectavam todos os territórios do mundo.
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Os reinos que ouviram
No Vale dos Unicórnios, os chifres dos guardiões brilharam com uma força jamais vista. As águas das nascentes se elevaram como dançarinas, e as árvores do vale inclinaram-se numa reverência silenciosa.
Na Torre do Trovão, os pega-sóis — grandes aves aladas feitas de nuvem e eletricidade — soltaram um único canto, ecoando entre as pedras flutuantes da torre. E mesmo os dragões do trovão, seres isolados e orgulhosos, ergueram suas cabeças em direção ao arco-íris distante.
Nas Montanhas Geladas, os ursos de neblina saíram de suas tocas para farejar o ar. Os espíritos do gelo sussurraram em línguas esquecidas, e as neves antigas vibraram como se guardassem memória da recém-nascida.
No Mar Grande, as baleias verdes, seres mitológicos que nadam entre as correntes mágicas, saltaram pela primeira vez em séculos.
E no fundo do Reino de Subfratur, escondido nas rochas tortuosas e cavernas soturnas, o Rei Lich, ainda desperto, sentiu a brisa do nascimento e... não sorriu, nem falou. Apenas ergueu sua caveira coroada em direção à luz, e piscou um de seus olhos de âmbar flamejante.
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O anúncio de Tilla
Tilla desceu. Abriu as asas e pousou perto da pequena Elarin. Ao seu redor, todos os seres se calaram.
— “Este é o início. Aquela que nasce da Terra e do Silêncio. Aquela que trará equilíbrio à dança dos ventos e cura aos corações partidos. Guardem este dia, pois ele viverá para sempre nas folhas e nos cantos.”
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Celebração
O bosque explodiu em vida. Os lírios saltadores dançaram sobre a relva. Os corais terrestres brilharam como vaga-lumes em arco. E até os grilos de pedra cantaram suas canções metálicas. O Bosque Verdejante tornou-se uma tapeçaria viva de alegria.
Elarin, de olhos ainda fechados, sorriu. E uma pequena gota de orvalho surgiu em sua testa, brilhando como estrela.
Era o sinal. O mundo mudaria. E aquele era apenas o primeiro batimento do coração verde.
O nascer do sol no dia seguinte ao nascimento de Elarin foi diferente. Era como se o próprio astro tivesse se aproximado um pouco mais da terra, espargindo luz dourada por entre as folhas do Planta Azul, a clareira sagrada no coração dos Bosques Verdejantes.
Ao redor da jovem princesa, os Ents mais antigos já se reuniam. Seres de casca viva e olhos como galhos cerrados, com barbas feitas de musgo e longas raízes por pés, velavam sua presença com silêncio solene.
Elarin, envolta em um casulo de folhas frescas e flores nascidas naquela mesma manhã, dormia profundamente. Sua respiração fazia brotar pequenas ervas aromáticas ao redor do solo. Os sementais etéreos, pequenos espíritos de grãos flutuantes, giravam ao redor dela, cantando em sons que só as árvores compreendiam.
O Batismo da Floresta
O mais velho dos Ents, chamado Aramun Raiz-Viva, se aproximou. Sua voz não era falada — ela surgia no fundo da mente, como um trovão distante que fala com as pedras:
— "Ela não apenas nasceu da semente. Ela é a semente em carne. É o broto que caminha. A primeira em eras a nascer da esperança pura, não da dor."
Ao redor dele, os demais Ents curvaram suas copas, em um gesto que significava respeito e promessa.
Os felvans, os cervos dourados, os pássaros de penas verdes de jade, todos assistiam. Os fungos cantores, brotados no tronco mais antigo, soltaram um som grave e contínuo, semelhante a um coral ancestral. Era o Batismo da Floresta.
No momento em que o sol tocou o centro da clareira, Elarin abriu os olhos pela primeira vez.
Seus olhos não tinham cor — ou talvez tivessem todas. Um verde em constante mutação, como se mostrassem todas as folhas que existiram e que viriam a existir. Ao respirar fundo, uma onda sutil de magia percorreu todo o bosque.
Árvores murmuraram. Pássaros silenciaram. Raízes se mexeram no subsolo, numa dança subterrânea antiga.
A Ligação com a Floresta
Tilla, sempre presente, pousou sobre um galho curvo, observando em silêncio.
Elarin caminhou — ainda instável, com passos lentos — até uma árvore. Encostou as mãos na casca, e imediatamente a árvore floriu.
— “Ela já nos escuta,” disse Tilla, com voz baixa. “E nós escutamos ela.”
Com o passar dos dias, Elarin cresceu rápido, mas não em tamanho — em essência. Cada criatura que se aproximava dela sentia-se renovada. Os mais velhos recuperavam forças. Os mais feridos se curavam. E os pequenos nasciam com olhos mais vivos.
A floresta inteira começava a se adaptar à sua presença. Flores novas, de cores jamais vistas, surgiam entre as trilhas. Os insetos de luz tornavam-se mais numerosos. Até os ventos pareciam girar ao redor dela.
Mas... o mundo a sentia também.
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Sussurros Distantes
No Vale dos Unicórnios, os velhos unicórnios começaram a sonhar com uma jovem feita de folhas e rios. Um deles, Lorandir, o mais velho, acordou com uma única lágrima brilhante escorrendo pelo chifre:
— “A guardiã da pureza nasceu,” sussurrou. “Mas também nasceu o que a observa.”
Na Floresta Escura, as sombras começaram a mover-se sem que nada as tocasse. Criaturas de olhos vermelhos ficaram inquietas. Uma delas, o Vampiro Kurnass, caminhou até o topo de uma colina sombria e olhou para o céu.
— “Há um novo pulso no mundo,” disse. “Uma batida que não pertence às trevas.”
Nas Montanhas Geladas, os ventos gélidos sussurravam o nome de Elarin em línguas perdidas. O Urso Nebuloso, um espírito protetor da neve, ergueu o focinho e farejou o ar:
— “Verde. Vida. Renascer.”
No Reino Dourado, agora oculto sob o manto do Rei Lich, Nessura, a espiã em forma de espelho, refletia o arco-íris ainda persistente nos céus do sul.
No trono de obsidiana em Subfratur, o Rei Lich apenas fechou os olhos:
— “A esperança caminha,” disse. “Mas ainda é pequena demais para saber que está sendo observada.”
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Conclusão
Elarin não sabia ainda que era vigiada. Não sabia ainda que o mundo se movia por sua causa. Que as forças antigas, boas e ruins, despertavam lentamente.
Na floresta, ela sorriu ao fazer uma borboleta de pétalas ganhar vida. Um pequeno ser feito de luz e pólen.
Sorriu... sem saber que ao longe, nos confins das sombras, um outro sorriso surgia, frio e antigo.
A história havia começado de verdade.
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