A Princesa Verde : Sementes

6 Capítulo 4.1 — Maugrin, o Vilão do Esquecimento


Notas iniciais
Maugrin...

Nas profundezas onde o tempo não tem nome e onde os ecos do mundo cessam antes mesmo de nascer, uma névoa antiga começava a se mover. Era cinza, não como as brumas do amanhecer, mas como memória apagada, vento sem história, voz sem origem.


Ali, num vazio que não constava nos mapas, formava-se uma figura.


Não nasceu da carne, nem da magia comum. Surgiu daquilo que o mundo escolheu esquecer. Fragmentos de guerras não contadas, promessas quebradas, nomes riscados das árvores do tempo, lágrimas que não chegaram a cair.


E era assim que Maugrin crescia: feito de tudo que não se lembrava mais.


A origem oculta


Ninguém viu. Ninguém sonhou com ele. Nem mesmo os grandes videntes das Torres do Trovão. Nem os unicórnios do Vale. Nem os mortos do Subfratur.


Porque não havia lembrança a ser captada.


Mas em um espaço onde outrora existira um altar sagrado — cujo nome até os próprios deuses haviam esquecido — o ar começou a tremer. A névoa agitou-se, e o som que dela se erguia era silencioso demais para os vivos.


No centro da névoa, duas órbitas de ausência se formaram. Não eram olhos, mas buracos de tempo. Dali, o mundo fugia, e a realidade em volta cedia, como se quisesse esquecê-lo também.


A cada batida do coração oculto de Maugrin, uma lembrança em algum lugar do mundo se perdia. Um nome sumia de uma pedra, um rosto era apagado de um sonho, uma história se rompia em silêncio.


As sombras do esquecimento


A névoa começou a espalhar-se pelos limites do mundo, sutil como poeira noturna. Atravessava vales, cavernas e desertos sem ser notada, mas deixando um rastro invisível. Por onde passava, as árvores esqueciam os nomes dos ventos, os rios esqueciam seus nascimentos, e os animais começavam a vagar sem direção.


Em um vilarejo perdido próximo aos Campos Límpidos, uma criança acordou sem lembrar do próprio nome. Em uma torre de estudos mágicos nos arredores da Torre do Trovão, um pergaminho se apagou por completo, como se nunca tivesse sido escrito.


Tudo aquilo era apenas o eco inicial de Maugrin, o Vilão do Esquecimento.


Mas ele ainda não se mexia. Ainda não agiu.


Apenas formava-se. Como se esperasse o momento certo. Como se ainda estivesse aprendendo a se lembrar de si mesmo.


Uma consciência que se ergue


A névoa dentro da fenda antiga começou a girar. Formou-se uma figura alta, vestida em nuvens partidas, com uma capa feita de silêncio, e mãos que tremiam como fumaça em água parada. Não tinha boca, mas dele saía um sussurro:


— “Por que me apagaram...?”


A primeira frase.


— “Eles se esqueceram de mim... Mas eu... não me esquecerei deles.”


E então, seus olhos se abriram — negros sem fim, sem cor, sem luz. Eram olhos que não viam o mundo, mas sim o vazio entre as coisas.


Maugrin ergueu um dos braços em direção ao norte, onde o arco-íris da Semente Verde ainda pairava.


Ele não se mexeu.


Apenas sussurrou de novo:


— “Ela vai lembrar. Então... eu também.”


E então, o ar ao redor congelou — não em gelo, mas em memória parada. Um lugar onde até o tempo se recusava a voltar.


Maugrin, o Vilão do Esquecimento, não era um ser de pressa.


Ele era o retorno do que foi banido do mundo.


E sua formação... estava quase completa.