A Princesa Verde : Sementes
3 Capítulo 2 – Os Ecos da Semente
Notas iniciais
Por todo o mundo conhecido, o céu havia se tornado um palco de um espetáculo inquietante: no lugar onde antes se via Neredithia, erguia-se agora um gigantesco arco-íris de sete cores vivas e translúcidas, que tocava as nuvens e refletia no espelho do Mar Grande. Ele não se movia com o vento, não tremia, não se desfazia com a chuva ou o calor. Era fixo, eterno... e não natural.
O silêncio que veio com o desaparecimento de Neredithia parecia ecoar pelos reinos.
Nos Bosques Verdejantes
As criaturas dos Bosques Verdejantes — cervos alados, texugos falantes, grifos gentis — começaram a agir de forma estranha. Muitos olhavam para o horizonte na direção do arco-íris e silenciavam seus cantos naturais. As árvores mais antigas começaram a derramar gotas de seiva dourada por suas cascas, como se estivessem chorando. Em meio à relva densa, os musgos começaram a brilhar durante a noite com uma luz esverdeada fraca.
No coração dos bosques, os Ents — antigos pastores de árvores dos Campos Límpidos — sentiram pela primeira vez em eras uma inquietação que vinha do solo. Seus troncos rangiam mesmo sem vento, e palavras esquecidas em línguas antigas ecoavam entre seus galhos como se a floresta murmurasse segredos ao mundo.
No Vale dos Unicórnios
O vale outrora isolado foi o primeiro a perceber algo anormal. Os unicórnios, que há séculos não se aproximavam das bordas do vale, galoparam em círculos ao redor de um lago prateado, emitindo sons agudos e etéreos. No centro do lago, uma flor verde cristalina havia nascido — sem ninguém a ter plantado. Ao seu redor, a água tremeluzia como se visse algo invisível submergir e emergir.
Os unicórnios se ajoelharam diante da flor, em silêncio. Alguns choraram.
Na Torre do Trovão
As nuvens acima das Torres do Trovão começaram a assumir tons verdes durante os relâmpagos. Os Pégasos, que ali habitavam, evitavam voar na direção do arco-íris. Um dragão prateado antigo chamado Xelmarum, que dormia sob as pedras desde a Era do Gelo, despertou com olhos em chamas e disse apenas:
— "A semente abriu o céu. A terra mudará de novo."
Ninguém entendeu, mas as montanhas tremeram com sua voz.
Na Floresta Escura
Lá, onde a luz quase não alcançava, as coisas eram diferentes. A sombra crescia. Algumas criaturas recuavam mais para dentro do breu, como se temessem ser vistas. Outras... despertavam.
Vampiros antigos se reuniram em silêncio num salão sob as raízes de uma árvore morta. "A cor verde nos toca mesmo aqui", disse um deles. "A luz está vindo onde não deveria vir." E de fato, nas profundezas do subsolo, brotavam minúsculos fungos bioluminescentes esverdeados — algo impossível naquele lugar.
Um corvo de três olhos apareceu e deixou cair uma pena que se transformou em flor. A floresta tremeu.
No Reino Dourado
Os estudiosos do Reino Dourado levantaram telescópios, artefatos de magia e medidores de energia para tentar compreender o fenômeno. Nada explicava o sumiço de Neredithia. O céu acima do reino começava a brilhar à noite com traços verdes ondulantes, como se as auroras tivessem migrado para ali.
As águas dos poços começaram a emitir sussurros. "A Mãe caiu", diziam. "A filha brotará." Mas quem falava? Ninguém sabia.
Nas Cavernas Escuras
Até mesmo nas profundezas, algo mudava. O eco das cavernas começou a repetir palavras que ninguém havia dito. Estalactites pingavam uma seiva verde. Criaturas que viviam no breu se tornaram inquietas. Um Fargulin cego sussurrou para o vazio:
— "Ela está vindo... aquela que vê com os olhos da terra."
As runas antigas entalhadas nos salões de pedra brilharam em verde por um segundo. Depois, silenciaram.
Nas Terras Magma
Os rios de fogo que cruzavam as Terras Magma diminuíram o calor por uma noite inteira. O coração do vulcão adormeceu e uma nova planta — com pétalas flamejantes e um caule verde vivo — surgiu na beira da cratera. Os salamandros, seres de fogo que jamais se curvavam, olharam para ela em reverência.
Alguns dragões do magma começaram a escalar os céus. Havia uma urgência no ar que nem o calor era capaz de conter.
No Deserto Amarelo
As dunas estremeceram. Um som — como um tambor distante — ecoou sob a areia durante três dias. No quarto, uma flor verde rompeu a aridez, solitária, mas viva. Os escorpiões começaram a andar em círculos ao redor dela, os ventos mudaram de direção e os nômades do deserto, assustados, viram constelações brilharem de forma errada.
— "Os céus estão desfeitos", disseram os mais velhos. "Algo enterrado está acordando."
No Mar Grande
Mesmo as águas reagiram. Peixes prateados começaram a cantar à noite. Ilhas antes ocultas surgiram por instantes ao longe, como se estivessem apenas espiando o mundo antes de recuar às brumas. Sereias sussurraram entre si em línguas que não usavam há milênios.
E no fundo mais escuro, uma esfera de raízes verdes crescia dentro de uma rocha submersa, pulsando com uma luz calma. Um polvo milenar nadou em torno dela e simplesmente parou, imóvel, como em oração.
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