A Princesa Verde : Sementes
4 Capítulo 3 - O Trono que Nunca Morreu
Notas iniciais
No extremo norte do mundo conhecido, onde os ventos são tão antigos que esqueceram seus nomes, ergue-se Subfratur — o reino do frio eterno, das sombras imóveis e dos suspiros contidos. Ali, em meio a picos cobertos de neve negra e vales sem luz, repousa uma presença que não dorme, não sonha, não respira — o Rei Lich, monarca da morte e do silêncio.
Subfratur não é um reino morto. É um reino adormecido.
As muralhas do frio
O castelo principal, esculpido dentro de uma montanha, é chamado de Coração de Ossos. Seus corredores são altos como árvores mortas e tão silenciosos que até o eco se recusa a se repetir. Nos salões congelados, tapeçarias há muito petrificadas ao gelo contam histórias de guerras esquecidas e pactos proibidos com as trevas mais profundas do mundo.
Em um trono feito de vértebras de dragões caídos, coberto por uma névoa roxa que pulsa lentamente, está o Rei Lich — envolto em mantos feitos de sombras costuradas, seu rosto oculto sob uma coroa retorcida como raízes mortas. Ele não fala, mas escuta tudo. Ele não respira, mas sente o mundo.
E agora… ele sentiu algo novo.
Um sussurro na magia
Enquanto a noite eterna dominava Subfratur, um raio verde de luz atravessou o céu por uma única noite — como um corte silencioso no véu do mundo. O Lich não se moveu. Mas seu trono estremeceu. Um espelho antigo, enterrado sob sete selos de gelo e sangue, se quebrou sozinho com um grito agudo.
Uma muda de planta, pequenina, brotava do chão de pedra negra — e isso jamais deveria acontecer ali.
Os necromantes adormecidos em câmaras de cristal acordaram aos poucos, como se algo nos ossos do mundo tivesse mudado. Corvos de olhos brancos caíram do céu congelado em direção às torres. As runas de contenção acesas no chão se apagaram uma a uma.
O Rei Lich levantou os olhos pela primeira vez em séculos.
A voz das cinzas
Ele não compreendia a origem daquilo — a vida florescendo onde só havia morte. Isso o inquietava mais do que qualquer exército. Subfratur não conhecia a esperança. A Semente Verde era uma linguagem proibida naquele lugar.
Através de seus Espelhos da Alma Presa, o Lich viu distúrbios no sul. Unicórnios em movimento, florestas sussurrando, aves carregando notícias misteriosas. E no centro do mundo, onde uma clareira começava a brilhar... algo novo nascia. Mas ele não via rostos. Não ainda.
— “Algo antigo retorna… ou talvez algo novo demais para ser nomeado,” sussurrou ele, sua voz ressoando pelos ossos dos mortos.
A escolha do silêncio
Ao invés de agir, o Lich esperou. Ele sempre esperava.
Mas enviou seus Arautos da Névoa, espectros envoltos em casacos de ossos e penas escuras, para investigar o sul. Enviou também Nessura, sua filha feita de espelhos e luto, para caminhar entre as sombras do mundo dos vivos, onde a vida insistia em florescer.
Ele sabia que aquilo era uma ameaça. Ou uma promessa.
E embora os outros reinos se maravilhassem com o surgimento do arco-íris esmeralda, o Lich viu nele apenas um presságio: a quebra de uma maldição — ou o início de uma que não era dele.
E no alto da torre mais fria, uma flor de gelo se abriu pela primeira vez... e chorou uma gota verde.
Nas profundezas da montanha oca de Subfratur, onde o gelo não derrete nem com fogo e o tempo não ousa caminhar, algo antigo começou a se remexer.
Não eram os necromantes, nem os espectros. Era algo mais profundo. Mais escuro.
Era o Dragão de Fumaça.
As correntes da eternidade
Em um salão circular escondido sob o trono do Rei Lich, envolto por camadas de gelo e feitiços que até os deuses esqueceram, jazia o último dos Dragões Sombrios. Seu nome fora esquecido, pois nomes dão poder, e até o Lich temia o nome daquela criatura.
Seus olhos eram duas brasas imóveis, e seu corpo era feito da própria fumaça da morte — um vulto escamoso, sem carne, sem ossos, mas que arrastava consigo a ruína de tudo que respira.
Por séculos, o dragão dormiu sob sete selos de contenção.
Mas agora, uma única flor de gelo chorara uma gota verde.
O selo sétimo queimou em silêncio.
E o dragão acordou.
Não abriu os olhos. Não rugiu. Apenas exalou um sopro, e as paredes do salão se cobriram de fuligem.
O trono e a escolha
No alto do Coração de Ossos, o Rei Lich aguardava. Sentado no trono entalhado com vértebras de dragões antigos, ele não se moveu. Apenas sentiu.
Sentiu o dragão acordar. Sentiu os olhos do mundo se voltando para os acontecimentos no sul — para o estranho arco-íris que surgira, para os reinos que sussurravam em esperança.
E então, ele fez algo que não fazia há eras:
Lançou um feitiço de escurecimento sobre o Reino Dourado.
Do ponto mais alto de Subfratur, ele ergueu as mãos longas e descarnadas. Das nuvens eternas surgiu uma fumaça púrpura e prateada, que serpenteou os céus como uma tempestade viva.
Ao alcançar o Reino Dourado, a fumaça não caiu — se desfez em véus translúcidos, cobrindo o reino em uma ilusão de eternidade. De fora, quem olhasse veria apenas campos vazios. Torres seriam confundidas com montanhas. Cidades inteiras pareceriam ruínas esquecidas. O Reino Dourado deixara de existir… aos olhos do mundo.
Mas dentro dele, tudo continuava — apenas escondido, apenas silenciado.
Era o primeiro movimento do Lich.
A missão de Nessura
A seus pés, surgiu Nessura, sua filha moldada de sombras e reflexos partidos. Ela possuía mil olhos, mas nenhum rosto. Sua pele era vidro prateado, sua voz, o som de vozes refletidas.
— “Pai dos Lamentos,” ela disse, ajoelhando-se, “a flor que chora verde acordou mais que fumaça. A floresta canta. As fadas se movem. Até os lobos sonham.”
O Lich respondeu apenas com um gesto.
Com um estalo de seus dedos de osso, Nessura se quebrou em mil fragmentos de espelho, que se dispersaram pelo mundo, tornando-se invisíveis a todos, inclusive à luz. Nessura estaria presente em todas as superfícies refletidas — poças, olhos, metais polidos — observando tudo, sem ser percebida.
— “Veja por mim. Veja para mim,” disse o Lich. “Mas não toque. Ainda não.”
E assim, o mundo foi preenchido com olhos silenciosos e invisíveis.
O trono da paciência
Após isso, o Lich desceu até a câmara do dragão. Parou diante dele, e sem dizer uma palavra, tocou a fumaça viva com a ponta do dedo. O dragão, sem abrir os olhos, entendeu. Ainda não era hora de voar.
O Lich retornou ao seu trono. Sentou-se.
E ficou apenas observando.
Não atacou. Não marchou. Não invocou exércitos. Mas em todos os lugares onde a vida começava a florescer com a chegada da Semente Verde, os animais sentiam um calafrio inexplicável. Os pássaros se calavam. As fadas hesitavam. Até os ventos pareciam mudar de rumo, como se temessem aquilo que não podiam ver.
O Lich havia escolhido não interromper a vida — ainda.
Mas o mundo inteiro, mesmo sem saber, passara a viver sob os olhos do silêncio que vigia.
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